1
- Mamãe a senhora não acha perigoso papai sair assim sem ninguém lhe fazendo companhia? Do jeito que as coisas estão com tanta violência!
D. Lourdes fita a filha na cadeira à frente e responde:
- Você está certa, Amélia, mas você sabe o quanto o seu pai é teimoso, metido a machão e agora, com a idade…
Silenciam. Pensativas. Embaixo – estão na varanda do segundo andar da residência – na rua transversal passam carros, motos e pedestres, enquanto à tarde indiferente a tudo, vai amadurecendo.
Mãe e filha se cadenciam nas cadeiras de balanço, e a moça torna a falar:
- Hoje em dia só é no que a televisão, o rádio e os jornais noticiam: assaltos, crimes…
- Amélia, por favor, criatura! O seu pai também não é mais menino não. Está bem calejadinho pela vida, envelheceu, sabe se defender.
- Espero mamãe, espero. Bem…
Ergue-se de repente:
- Vou indo. Lembrança ao pai. Qualquer coisa ligue pra mim.
- Certo filha. Pode ir sossegada.
Amélia retira-se da varanda. Esguia. Morena. Graciosa. E desce a escada que a conduz ao oitão da morada, onde está o automóvel cinza.
D. Lourdes segue-a com os olhos carinhosos de mãe. Amélia lembra tanto o Oscar… Por onde andará o seu velho a essa hora?
O automóvel parte devagar, macio, cruzando o portão e ganhando a rua com outros veículos e pedestres no ir e vir costumeiro da tarde.
D. Lourdes balança-se. Com jeito, buscará uma conversa com o marido, alertando-o do perigo ao qual se expõe fora de casa. Tentará convencê-lo a sair acompanhado, em defesa ao imprevisível…
O automóvel contorna a praça no lado oposto à rua e entrando na rua a direita, desaparece.
A mulher suspira baixinho, em desabafo e levanta-se. Cuidar do jantar. À noite não tarda em chegar.
Na praça, um menino no balanço impulsionando o corpo à frente, vai e vem. Sorrindo, contente com a brincadeira. Próxima, a mãe também sorri:
- Vá mais devagar Marquinho!
Por onde andará o Oscar? Velho mais teimoso, arriscando-se…
Seus passos conduzem-na à sala conjugada, a qual a cruzando se encontrará no corredor que a leva a outra sala, de jantar e à cozinha.
Sim, falará com o Oscar. Quem sabe se ele não a escutará?
- É, vamos ver.
2
É como se o tempo o aguardasse, conservando, mesmo com os naturais desgastes dos anos, o terraço, a porta de entrada, a janela vizinha, os galpões à esquerda… Reentregando-o aos dias nos quais chegava com o seu pai, Seu Mauro, para a limpeza dos galpões, e dar comida aos frangos, naquela obrigação cansativa e humilhante.
O pai baixo, forte, os braços curtos, as mãos largas, os dedos grossos, a fisionomia serena, fechada, tristonha, contrariada e, calados, cumpriam a obrigação de zelar pelos galpões e as aves famintas, em se alimentarem.
- Vai pra lá, frango cabuloso!
O desabafo do pai, repelindo o frango que não o deixava pôr a ração no coxo estreito e comprido.
Ele, presenciando a cena, sorria, e se apressava em também repelir outras aves nervosas.
- Parecem que estão com a fome canina!
Outra vez o pai falava.
Um dia, o pai lhe disse:
- Estou esperando sair a minha interinidade prometida pelo deputado João da Costa, na Assembléia Legislativa. Está praticamente certa, é sair e dou uma “banana” pra esse servicinho daqui!
Então o rosto moreno do pai se descontraiu com o sorriso alegre, da esperança.
- O senhor vai conseguir pai.
- Espero filho. Mas, me traga a água do balde ali.
Obedeceu de repente esperançoso de ver o pai trabalhando na Assembléia, sendo funcionário público. O pai em outra situação, outra vida.
Ah, tudo como num sonho… Como se não tivesse vivido aquela época, curtido horas de um aprendizado cruel em sua existência!
O terraço de paredes rachadas, sujas, a porta com o cadeado enferrujado, a janela fechada, com as tábuas cruzando-se em x. Tudo passado. E se indaga novamente: estará vivendo um sonho?
- Filho, consegui! Amanhã mesmo aviso ao Dr. Silveira que a gente não vem mais.
O sorriso aberto no rosto moreno, corado pela vitória. A felicidade se expondo.
- Agora vamos ter outra vida. Eu, você, sua irmã e sua mãe!
Os gestos nervosos e a voz mais grossa, elevada:
- Nada como um dia atrás do outro com uma noite no meio…
Sim, a vida da família então foi mudando aos poucos, para melhor e ele se entregou ao estudo, com outro ânimo, pensando num brilhante futuro.
- Estude filho, para ser alguém mais tarde.
O emprego no banco. O colégio à noite. O diploma de contador. O seu casamento com a colega morena, magrinha, simpática. Depois, a morte do pai, sendo vítima de um ataque do coração… O falecimento pouco depois de sua mãe, também vitima do mesmo mal.. O nascimento de sua filha, hoje casada, com dois filhinhos. Sua esposa gorda, naquela cadeira de balanço, na varanda… Tudo vai passando como num filme.
- Hoje me encontro aposentado, desocupado, velho!
Um velho… Cheio de recordações. E pensa em retroceder, tornar à casa. Reentregando-se à realidade que o espera na imagem de D. Lourdes, a esposa que ultimamente está mais silenciosa, entregue ao seu mundo íntimo, criação da velhice…
Volta-se então, dando as costas a casa e aos terraços e caminha, retrocedendo a guarita, onde o vigilante o segue com os olhos desconfiados, prevenidos contra uma cena que o tire da tranqüilidade do seu trabalho.
- Tou de volta, moreno. Dei uma olhada boa na casa e nos galpões. Tudo muito estragado!
- Concordo com o doutor. As pessoas que moraram aí se foram faz é tempo. O patrão me disse que vai demolir tudo e fazer um apartamento para lugar, eu acho que ele tá certo, porque tá tudo se acabando.
- Verdade, moreno. Com a força do tempo ninguém pode.
Põe a mão no bolso da calça e retirando-a, traz a carteira, que abre e busca uma cédula.
- Seguro moreno, pra você tomar um guaraná.
- Mas doutor…
A mão negra, grande, acolhe a cédula e o velho cabisbaixo passa. Devagar. Refletindo.
3
O portão é aberto através do controle remoto e o carro o transpõe.
Na varando, D. Lourdes suspira aliviada:
- Graças a Deus que chegou!
A noite então já domina a rua transversal e a praça vizinha, com outros veículos e pedestres cruzando-a.
A porta do carro se abre e Seu Oscar desce. Lento. Cabisbaixo, meio envergado, os olhos fitando o cimento do oitão.
A mulher sente-se mais leve, apaziguada, e fecha os olhos, esperando.
Os passos ferem os degraus, avizinhando-se.
- Lourdes?
Ela sorri e responde:
- Tou aqui, homem!
- E eu não sei?
Responde o marido, gracejando.
- Por onde andou Oscar?
- Por aí, matando o tempo. Ou melhor, revivendo o tempo.
- O quê?
- Besteiras minha, Lourdes. Sossega esse coração sempre aflito…
(*) Lu Dias BH disse:
Paulo Valença O escritor dos contos curtos.
Você é o escritor de seu tempo.
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