Nosso lindo mundo mágico – Haydée Colussi
Ontem, tarde da noite, sem sono, acendi as luzes do jardim, sentei-me na varanda do quarto.
Então as flores que ninguém plantou de repente puderam se mostrar em todo seu esplendor e luminosidade.
Tinha chovido um pouco e as gotas ainda estavam por lá pelos canteiros e nos caminhos que os cercam.
Como pode ser possível que o jardineiro como eu mesma não tenhamos nos dado conta da beleza destas leves margaridinhas de mato intrusas a sua moda entre as outras plantas mais requintadas a sua volta. Estas pequenas flores são praticamente extirpadas por nós sem qualquer respeito.
Independentes de cuidados especiais ali estão elas embelezando tudo a sua volta.
Fiquei pensando que devem ter sido plantadas por fadas, gnomos ou outros seres mágicos da linhagem dos elfos.
Não consegui atribuir a Deus este plantio já que ele está sendo tão displicente e incapaz de acabar com o extermínio que os ignorantes japoneses vândalos, sem qualquer reverência, vem fazendo com a fauna marítima do nosso lindo planeta cada vez mais triste.
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Se todos fossem iguais… – Paulo Afonso
Imagine um mundo sem fronteiras, onde todos vivam felizes, como irmãos. Com esse sonho viveu John Lennon e milhões de pessoas, anônimas na maioria.
Com esse mesmo sonho, outras tantas vivem em prisões, em pleno terceiro milênio, pagando pelo crime de pensar diferente e desejar um mundo melhor.
Há dez anos vivemos em um novo século, em um novo milênio, na tão esperada Era de Aquário. Mas as coisas não mudaram. Antes de melhorar o planeta é preciso acabar com o lixo, que está em toda parte. Esse lixo, que estava escondido, começa a aparecer, na medida em que a faxina começa. E os vermes, baratas e ratos enlouquecem, pois não gostam de ambientes limpos. Vivem na imundície, na podridão.
Nós, humanos, habitantes desse pequeno planeta perdido no Universo, temos uma casa perfeita, em ambiente de luxo, onde tudo foi preparado para nos fazer feliz. Mas vivemos em constante luta, como acontece no Big Brother, onde uma dúzia de escolhidos poderia viver, por três meses, num verdadeiro paraíso, mas não fazem nada além de se devorar pelo dinheiro. Tal lá, como cá.
No nosso planeta ainda há fronteiras. Algumas delas abrigam países governados com mão de ferro por ditadores, eternos no poder, onde as prisões acolhem aqueles que pensam diferente dos governantes e acreditam que o mundo pode, e deve, crescer e evoluir em liberdade. Seu povo, atrasado, tristonho e oprimido, não experimenta as facilidades do mundo moderno. Parou no tempo, na época em que a ditadura começou. Não há democracia e o poder é transferido aos parentes próximos. Os que governam são os donos do país, tendo o povo como escravos. E quem desobedece passa 30 anos na cadeia, se conseguir sobreviver.
Há muitas nações nessas condições, mas todos já sabem que falo de Cuba, o centro das atenções dos noticiários atuais. As prisões estão cheias de condenados, cujo crime foi discordar do governo e pensar. Pensar! Essa é a diferença. É proibido pensar em Cuba. Pensar? Só para concordar!
O Brasil, que tem procurado impor-se ao mundo, rompendo fronteiras e se fazendo presente em outros países, poderia ter aproveitado a oportunidade de mostrar seu apreço pela liberdade. Por uma feliz coincidência, estávamos em Cuba quando aconteceu a primeira morte de um preso, em greve de fome. O que fez o nosso presidente? Condenou o prisioneiro Zapata por haver praticado tamanha tolice. Não caberia ao Brasil se intrometer em problemas internos de Cuba, mas o mesmo não se aplicou a Honduras, onde até a casa da Embaixada foi cedida ao ex-presidente Zelaya, deposto ao tentar dar o golpe da perpetuação no poder.
Nossos atuais governantes sabem, ou deveriam saber, o que é ter idéias diferentes dos ditadores e lutar pela liberdade. Afinal, o sucesso de todos eles nasceu no combate ao regime militar. Essa luta rendeu dividendos políticos e, até mesmo, ou principalmente, indenizações milionárias, muitas até sem merecimento. Há casos de guerrilheiros que, hoje recebendo indenizações, mataram ou mutilaram inocentes, que sobrevivem na miséria, sem qualquer ajuda do Estado.
Enfim, este é o mundo dos humanos, onde a escravidão não acabou e está mais viva do que nunca. Somos escravos do dinheiro, dos impostos, do que fazemos e, principalmente, do que pensamos. Um planeta onde o maior crime é ter idéias. Muitos já morreram por elas e continuarão morrendo.
Este artigo poderá desagradar a muitos. Pensei até em não escrevê-lo para evitar aborrecimentos. Se me calasse, seria menos uma voz na luta contra governos tiranos. Estaria contribuindo para a perpetuação da escravidão humana. Chegou a hora de protestarmos contra isso e condenarmos aqueles que apóiam esses ditadores.
Ou o Brasil toma, perante o mundo, uma posição que coincida com os anseios de liberdade de seu povo, ou estará sendo conivente com o que de pior ainda sobrevive no planeta. Saiamos de perto do lixo. Se ainda for possível.
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Os subsídios agrícolas, o Big Mac e a salada – Cristine Martin
Um interessante artigo do site AlterNet levanta uma questão no mínimo preocupante: nos EUA, é mais barato comer um hambúrguer do que uma salada devido aos grandes subsídios oferecidos pelo governo norte-americano aos produtores de carnes e laticínios. O gráfico abaixo mostra que esses produtos recebem 73,80% dos subsídios governamentais, enquanto cereais recebem 13,23% e frutas e vegetais, apenas 0,37%.
Ao comparar as duas pirâmides do gráfico, vemos que a dieta saudável e ideal deveria ser composta de cereais, vegetais e frutas, e que os produtos proteicos, geralmente de origem animal, deveriam responder por uma pequena parte da dieta.
Entretanto, devido à disparidade de preços, famílias americanas com poucos recursos ingerem mais fast-food que deveriam, simplesmente porque esses alimentos são mais baratos e de fácil acesso que frutas e vegetais. Infelizmente, a diferença será gasta mais adiante, em médicos e remédios.
A procura por alimentos orgânicos e locais ainda está limitada aos que têm condições financeiras para buscar uma alimentação mais saudável; a população menos informada e com menos recursos (e tempo para cozinhar em casa) acaba ingerindo uma dieta rica em proteínas, gordura e carboidratos simples, que somados à falta de atividade física, levam aos altos índices de obesidade que afetam especialmente os menos favorecidos.
Na raiz desse problema está a legislação "Farm bill", que fornece bilhões de dólares em subsídios, cuja maior parte vai para grandes agronegócios que produzem milho, soja, trigo, algodão e arroz; os dois primeiros são usados na alimentação do gado. No final, esses subsídios "agrícolas" vão mesmo para a produção de carne.
Por outro lado, agricultores que produzem frutas e vegetais recebem menos de 1 por cento da ajuda do governo. O subsídio incluído na Farm Bill foi criado como um programa temporário em 1996, mas foi mantido pelas farm bills de 2002 e 2008.
O artigo também alerta que desde 1978 o preço dos refrigerantes caiu 33 por cento enquanto o preço das laranjas subiu 40 por cento. Não foram só esses números que mudaram desde a década de 70: o peso médio de um jovem de 18 anos hoje é 7 kg maior que o de um jovem de 18 anos no fim dos anos 70. O peso médio de uma mulher de 60 anos hoje é 9 kg maior que o de uma mulher de 60 anos no fim dos anos 70. O peso médio de um homem hoje tem 11 kg a mais. Os americanos estão ficando mais gordos e menos saudáveis.
Mas os grandes produtores de alimentos não são os únicos beneficiados pela política de subsídios governamentais norte-americanos; no capítulo mais recente da disputa entre o governo dos EUA e a Organização Mundial do Comércio (OMC), o Brasil recebeu autorização da OMC para retaliar os EUA pelos prejuízos causados pelos subsídios aos produtores de algodão. A China é o maior produtor mundial de algodão, enquanto EUA estão em segundo lugar e o Brasil é o quinto da lista.
Os subsídios têm prejudicado a exportação de algodão pelos outros países, favorecendo os EUA na concorrência, pois seus preços caem artificialmente e provocam a queda dos preços internacionais dos produtos. Com a retaliação, que deve se iniciar em abril, diversos tipos de produtos importados dos EUA terão aumento nos impostos de importação. A medida afeta principalmente artigos de luxo como automóveis, eletrônicos e cosméticos, mas também o trigo.
Antes de 1996, os produtores agrícolas recebiam subsídios com base no tipo de colheita e nos preços de mercado. Tal política fazia que os agricultores decidissem o que plantar com base mais na política do governo que nas demandas do mercado. A reforma "Freedom to Farm", aprovada naquele ano, separou os subsídios daquelas condições. A partir daí, os agricultores recebiam valores fixos, sem importar o que fosse plantado. Com o tempo, a maior porcentagem dos recursos ficou nas mãos de poucos grandes produtores.
No início de 2009 o presidente Obama havia declarado o corte dos pagamentos diretos aos produtores agrícolas mais ricos (com ganhos de mais de $ 500 mil dólares por ano), a redução de subsídios para seguro rural e a eliminação de créditos para o armazenamento de algodão para o orçamento de 2010. A decisão da OMC indica que ele não cumpriu com essas determinações.
O Congresso dos EUA rejeitou por duas vezes o veto do presidente Obama à Farm Bill de 2008. No início de março deste ano, o Senado norte-americano aprovou um aumento no teto do subsídio a ser recebido individualmente pelos agricultores. O valor aprovado é de até 360 mil dólares por ano para cada produtor.
Como comparação, o maior gasto com subsídio agrícola no Brasil é na complementação da taxa de juros devida pelo agricultor aos bancos. Essa ajuda chega a R$ 60 bilhões por ano.
Os Estados Unidos e a Europa, que seriam grandes mercados para nossos produtos agrícolas, subsidiam seus produtores e suas exportações, o que gera uma concorrência desleal com países que não têm essa ajuda de seus governos. Ao mesmo tempo, exigem a abertura de nosso mercado.
No artigo do site MX Trading, o Prof. de Economia Rural da UFP, Eugênio Stefanello, diz que "os Estados Unidos não se constrangem em violar as normas do comércio internacional quando querem beneficiar seus produtores e chama isto de segurança alimentar ou promoção do desenvolvimento econômico interno. Os americanos já anunciaram que vão continuar subsidiando a sua agricultura e que querem aumentar suas exportações do agronegócio".
O Prof Stefanello afirma que ao Brasil resta buscar, através da OMC, o cumprimento das normativas internacionais, e que a estratégia que vem sendo usada pelo nosso Ministério da Agricultura é o melhor meio de enfrentar essa concorrência. O setor privado deveria aumentar a produtividade, reduzindo custos e melhorando a qualidade de seus produtos. O setor público deveria adotar uma política agrícola baseada na estabilização da renda, reduzindo a carga tributária, facilitando o transporte e simplificando a burocracia e negociando a redução de barreiras impostas pelos outros países à importação de produtos brasileiros.
O Brasil hoje exporta principalmente para a China, EUA e Europa; com essas medidas e o combate à política de subsídios usada pelos outros países, as exportações brasileiras poderiam crescer, o que seria bom para o PIB brasileiro e, por que não, para a dieta dos norte-americanos. Afinal, um sanduíche (não necessariamente hambúrguer) acompanhado de uma boa saladinha é bem melhor e mais saudável, não?
Para saber mais:
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artigo: "Why a Big Mac costs more than a salad", de Tara Lohan, no site AlterNet
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artigo: "Com chapéu alheio" – site MX Trading
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artigo: "OMC autoriza Brasil a retaliar EUA por subsídio ao algodão" – O Globo
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artigo: "Subsidies in the Soil: Farm Bill talking points", de Brain M Riedl, no site Heritage.org
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artigo: "Latest plan to cut farm subsidies likely dead", de Steve Karnowski, no site Real Clear Politics
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A vagareza da literatura – Terezinha Pereira
Fiquei matutando sobre o dito da escritora Malluh Praxedes (mineira, de Pará de Minas) em uma de suas crônicas: “a literatura é a mais lenta das artes”. Diz ela haver lido esta afirmativa numa entrevista que um escritor e estudioso de literatura concedera ao jornal “Estado de S.Paulo”. Um dizer que trata da relação silenciosa e solitária e lenta do autor e também do leitor com um livro.
Comentou também Malluh nesse artigo, a respeito do “amor à primeira vista” que pega um observador, espectador ou mesmo admirador diante de alguma expressão artística: um quadro, uma escultura, ou mesmo uma peça de teatro ou um filme. Nestes casos, a obra se desnuda de imediato diante do que a contempla. No entanto, quando um leitor pega um livro, esse não tem como imaginar o que vai encontrar ali dentro. Ele tem que percorrer página por página, linha por linha, palavra por palavra, ponto por ponto, para se dar conta do que o autor da obra estaria querendo lhe contar.
Pouco após a leitura do texto da Malluh, vi um programa na televisão, o “Terras de Minas” em que foram mostrados caminhos percorridos por Guimarães Rosa antes de ele construir a grande obra-prima da literatura brasileira que é o seu “Grande sertões: veredas”. Antes de escrever o livro, Rosa percorreu a pé, a cavalo, de carro de boi, grande extensão das terras de Minas que lhe possibilitaram conceber o cenário, a linguagem e os personagens de seu livro. Ele caminhou, dia claro, dia escuro, apreciou amanheceres, quando o céu apresentava um barrado rosa, viveu anoiteceres, quando este céu ficava de um laranja ou _ nem mesmo ele soube dizer_ se cor de cobre. Conheceu boiadeiros, jagunços, donos de fazendas, mulheres destemidas, terras sem fim. Ouviu casos acontecidos e também casos de assombração. Comeu de comidas ainda não experimentadas, bebeu de bebidas inusitadas. Coisas de sertão.
Nesse tempo, Rosa viveu o sertão. Sentiu o cheiro, a temperatura, viu as cores, até mesmo a infinidade de tons de verde das matas dos caminhos percorridos. Só então, isolado em seu escritório, Rosa trabalhou com as palavras. Pegou de uma caderneta, cheia de anotações e desenhos que, segundo seus acompanhantes, ele levava sempre pendurada no pescoço, como se fosse um medalhão e partiu para o jogo. (Que será a literatura senão um jogo de palavras?) Jogo de palavras. Palavras que vêm, palavras que fogem. Palavras que brotam de outras. Palavras que chegam carregadas de outras. Foram precisos mais de 3 anos de luta para que “Grande sertão: Veredas” chegasse aos leitores, em 1957.
Que nessa luta Rosa varou noites, dias, finais de semana, períodos de férias, estou convencida de que sim. Posso até jurar que ele tenha passado dias e dias perseguindo palavras. Ele refletiu, cogitou, remoeu, matutou, costurou, remendou, fez cortes e recortes. Quando o livro foi oferecido ao leitor, deu-se um susto. Que história é esta? Que são estas palavras? Nonada! A primeira palavra do livro. Que vem a ser uma história que começa com o não e o nada? O desafio de Rosa. (Querem me decifrar. Então, leia. Se necessário, releia, tresleia.) Depois de nonada, o narrador intervêm “Tiros que o senhor ouviu foram de briga de homem não, Deus esteja. ……….O senhor ri certas risadas…….. Olhe: quando é tiro de verdade, primeiro a cachorrada pega a latir, instantaneamente – depois, então, se vai ver se deu mortos. O senhor tolere, isto é o sertão.” Rosa faz alusão a ruídos para explicar o que é o sertão de que ele vai contar. Tiros. Risadas. Cachorrada a latir. Com palavras, Rosa pinta ruídos. Depois, depois…depois que a cachorrada pega a latir é que se vai ver se deu mortos. Com palavras, Rosa escreve o som, tece a paisagem, os diversos tons do verde, o tingimento variado do céu, o canto da boiada, a lamúria do boiador, a saga de cada um dos personagens. Com a justa vagareza da literatura.
Há 50 anos que Rosa trouxe a público o resultado de sua luta, de sua perseguição a palavras, num livro que percorre mundo inteiro a desafiar leitores. Um livro que encanta, espanta, surpreende, maravilha, assombra quem se propõe a percorrer, com lentidão e ao mesmo tempo com ritmo, uma das mais belas obras de arte da literatura de todos os tempos.
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Palavras e Preconceitos – Rosali Amaral
É claro que devemos ter o cuidado com o que pronunciamos. Afinal, a boca fala aquilo de que o coração está cheio.
Mas proibir a pronúncia de certas palavras só aumenta o foco do preconceito, que existe nas pessoas, e não nas palavras em si.
Existem algumas palavras politicamente corretas, na cartilha Cartilha do Politicamente Correto, que fazem com que ela fique mais parecida com uma cartilha de piadas.
Vejam se não tenho razão:
- Anão: (serve também para “baixinho” ou “tampinha”): Dizer pessoa verticalmente prejudicada ou pessoa verticalmente desavantajada ou verticalmente comprimida.
- Careca: dizer pessoa capilarmente desavantajada ou portador de um tipo especial de organização capilar. Aí, ao invés de cantar “é dos carecas que elas gostam mais”,é melhor cantar: “é dos que têm proposta capilar alternativa que elas gostam mais”.
- Cabeça-de-vento: dizer indivíduo cérebro-atmosférico.
- CD Pirata: substituir por genérico da música (custa mais barato e tem o mesmo efeito).
- Desempregado: não-assalariado, pessoa que goza de lazer involuntário, indefinidamente inativo, temporariamente deslocado do mercado de trabalho, privado de vocação, em transição entre carreiras.
- Feio: dizer(para preservar a auto-estima dos assim designados)cosmeticamente diferentes. Na versão politicamente correta, a estória infantil ” O Patinho Feio” deveria ser “O Patinho Cosmeticamente Diferente”.
- Mudo: indivíduo vocalmente desafortunado ou oralmente prejudicado.
- Morto: pessoa terminalmente prejudicada ou pessoa não-vi va.
- Pesca: atividade criminosa que resulta na opressão e/ouextinção genocida das criaturas ictio-americanas (vulgos peixes).
- Suruba: poligamia consensual.
- Velho: maduro, experiente, cronologicamente abastado.
Fala sério!
Isso parece brincadeira, mas infelizmente não é!
Felizmente a sensatez falou mais alto e a SecretariaEspecial dos Direitos Humanos retirou de circulação e engavetou esta cartilha.
O policiamento da linguagem deve ser uma atitude ética, advinda da educação e do caráter.
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Cada um com suas dores – Jovimari Balotin
Viver é doído. Triste constatação, mas real e verdadeira. E com tão fortes aflições presentes no mundo, vou me acostumando. E me acostumando vou tentando descobrir uma forma de proteção. E penso, aceito e também sofro em dizer “cada um com suas dores”, mas é a única forma que encontro para seguir forte em meio a pequenas e grandes fraquezas, minhas e de tantos.
Sinto que me acostumo com inúmeras dores em minha volta e fico triste, mesmo sabendo que apenas sou mais uma nesta estrada de múltiplas facetas.
Há tristeza em me acostumar com o pedinte que me emocionava ao dizer em agradecimento, uma poesia simples, mas cheia de ternura. Há tristeza em me acostumar a ouvir os lamentos de amigos com dores da alma, do coração, da solidão. Há tristeza em me acostumar com ausências de importantes amores, de queridos amigos, de inesquecíveis paixões, de eternas lembranças. Há tristeza em me acostumar a não ter lágrimas na calada do abandono. Há tristeza em não doar aconchego num momento de carência. Há tristeza em sentir o incômodo silêncio e o seu barulho ensurdecedor, e nada fazer.
Os dias se consagram na pureza de cada manhã, mas logo acompanha o caminhar. E cada passo leva à direções indefinidas, mas impostas. Sigo meu destino. Ou ele me segue? O sofrimento do próximo, fica mais próximo. Está em mim.
Ouso imaginar palavras de conforto. Até as pronuncio, discreta em meu mundo. Reflito, procuro consolo no outro, e então, sou capaz de sugerir, de insistir, de persistir. Mas nada é capaz de mudar aquele pequeno universo, repleto de vozes internas e traumas marcantes. Eles não me ouvem, eles não se ouvem. É mais fácil apenas continuar. Renovar nem sempre traz conforto inicial. Há o medo que apavora, me mascara, que impede.
Não posso ajudar. De coração atado a fios invisíveis, perco meu sono, que tanto me alivia, e escrevo o que não digo. Escrevo na procura do som que a minha voz não emite. Eu quero, na verdade, encontrar nem que seja um murmúrio, mas que tenha intensidade suficiente e uma possibilidade clara que acalme, que alivie, que traga mudança, esperança, vida.
Confusa, cansada, deixo que meus sussurros me calem.
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