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Dias atrás, a minha filha chegou desconsolada e raivosa, com uma nota que recebera numa prova, pois achava que essa se encontrava abaixo do valor merecido.
E como é do meu feitio, jamais adotar o comportamento de leoa, para proteger o meu rebento, pois acredito que esse seja danoso a sua adaptação ao mundo, calmamente pedi-lhe que me desse as razões pelas quais se sentia injustiçada.
Ouvi-as e sugeri que voltasse a conversar com o professor, demonstrando serenidade, segurança e, sobretudo, capacidade de dialogar e aceitar as respostas dele. Expliquei-lhe que todo ser humano, por maior que seja a sua carga intelectual, está fadado a cometer erros, mas que a proporção de um professor errar é bem menor do que a de um aluno.
Para fechar o preâmbulo, devo dizer que tudo saiu a contento. Realmente o professor havia se enganado, pois o dia lhe fora muito estressante, com doença na família.
Acho que a raiva da minha filhota era importante, de modo a torná-la menos vulnerável às repercussões emocionais que vão acompanhá-la ao longo da vida. Não a incentivei a se calar, até porque considero a omissão o maior dos pecados da humanidade, mas a buscar caminhos, de modo a extravasar a sua indignação.
Na forma de lhe apresentar o mundo, uma preocupação está sempre presente em mim: o medo de que passe a agir como vítima. E, qualquer emoção não bem trabalhada, é uma colher de cimento na construção desse estado pavoroso de vitimização.
Certa vez li que “vítima é alguém que já se considera morto.”
Achei o argumento genial, quando o confrontei com pessoas, que conheço e que vivem em tal estado (não me refiro aqui à pessoa contra quem se comete um crime ou uma contravenção).
As “minhas vítimas” são pessoas que se recusam a viver, porque possuem uma inaceitabilidade muito resistente contra o mundo que está aí. Vestem uma couraça e se auto protegem contra tudo e todos, da maneira mais covarde possível, optando por não viver plenamente.
É fato, que viver confrontando os problemas que a família, a sociedade e o mundo trazem para todos nós, não é fácil. Mas, ainda assim, é muito melhor do que vestir a roupagem da vítima, “extremamente sensível” às agruras do mundo.
Algumas há que se sentem muito bem, nessa espécie de casulo. Mas, conviver com elas é insuportável, pois sugam, de quem vive em seu derredor, toda a energia amealhada com muita força e coragem.
Tais vítimas possuem uma ferramenta que trazem sempre às mãos: a chantagem emocional. E, como sanguessugas, tiram a última gota de sangue dos desavisados que as levam a sério.
Fingem entregar a outros as chaves de seu destino, de modo que planejem e executem-no, pois estão “fragilizadas” em demasia, para enfrentar os problemas acarretados pela existência.
Mentira! É tudo uma farsa! Na verdade, são elas quem carrega nas mãos, a saúde física e emocional daqueles que consigo convivem. Querem encarcerá-los no mesmo casulo de egoísmo, egocentrismo e covardia em que estão escondidas. São seres sadomasoquistas!
Quando carregamos uma boa imagem do que somos, estamos caminhando para alcançar uma meta. E nos tornamos fortes e inabaláveis diante das hostilidades que se encontram no nosso caminho, jogando-as, à margem da estrada, e passando adiante.
Todos nós, mesmo que oprimidos por uma causa ou outra, não podemos aceitar o estado vicioso de vítima, pois seria como passar o ouro ao bandido, ao se entregar à autocomiseração e ao masoquismo.
Quanto mais difícil o caminho, mais forte devem ser as passadas.
Caro leitor, permita-me fechar a minha reflexão com o pensamento do escritor negro Howard Thurman:
“A hostilidade costuma alimentar a ilusão da auto importância e do orgulho. Muitas pessoas se sentiriam ludibriadas, se de repente fossem privadas da definição do ego que seu sofrimento lhes dá”.
Abraços!
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O professor Heráclito adorava futebol. Seu maior tesouro era uma fotografia amarelada que trazia sempre consigo, caso a memória pensasse um dia também em amarelar.
1970. Eu contava então vinte anos. “Eis os doze titulares”, dizia a todos após a conquista do tri. E era mágico aquele momento em que contávamos várias vezes o número de jogadores até que se chegasse à conclusão espantosa: eram doze! Aquele craque ao lado de Pelé, cabelos longos e sorriso largo, peito estufado e olhar travesso se chama Heráclito!!!
Estudar história com ele era incrível. A turma se acotovelava pelos corredores, ignorava as escadas, escalava as paredes e se espremia na porta, na esperança de conseguir um lugar confortável para observar a entrada do mestre em campo. Tudo nele era imprevisível: a voz, o andar, a cor do giz, aula na sala ou no pátio… Nessa época não sabíamos precisar a distância entre prazer e aventura.
“A vida é um risco a nos saber sangrar de felicidade”, dizia, sempre que ficava satisfeito com o nosso desempenho. E sorria com as mãos o que não cabia nos dentes. Ao contrário dos outros professores, não fazia a chamada, dava a escalação: “goleiro, Alexandre; zagueiros, Beatriz e Beto; lateral direito, Carlos; lateral esquerdo, Débora…” Não importava o tamanho da turma. O professor Heráclito inventava funções para todos. Assim, depois de escalar titulares e reservas, chamava a comissão técnica, a equipe jornalística, a torcida organizada, enfim, todo o universo futebolístico.
Quando o treinador falava, um som grave ecoava por toda sala e o time inteiro ficava atento à espera do pontapé inicial. Era incrível ver como aquele homem baixinho de calva e barriga, com seus óculos de lentes pesadas, mãos pequeninas, pernas curtas e grossas, dominava aquela oitava série bagunceira e campeã em notas baixas. Para deixar claro que uma considerável parcela dos habitantes das cidades européias, à época do Antigo Regime, pertencia aos grupos da burguesia comercial, compunha música, fazia teatro, contava piadas e inventava uma série de atividades que instigavam nossa imaginação.
Certa vez, ao perceber que a turma toda estava “viajando”, o capitão Heráclito propôs que fizéssemos um barco humano. Foi um sucesso. Conseguimos compreender por que a maior parte das grandes cidades européias, por volta do século XVIII, dependia de portos. Essas atividades, feitas de improviso, contribuíram bastante para que as quarenta cabeças de repolho não naufragassem naquele ano.
O professor Heráclito se referia aos três estamentos do Antigo Regime como se fossem times de futebol. Afirmava que dois deles pertenciam à elite, mas o outro, o time do povão, era o de maior torcida. Insistiu inúmeras vezes que era praticamente impossível, naquela época, os jogadores mudarem de clube.
Um dia ele entrou na sala de mau humor. Com um grito poderoso derrubou Marcinha, que era uma espécie de graveto esverdeado com orelhas gigantes. “O estado sou eu! A vontade de Deus é que todo aquele que nasceu súdito obedeça cegamente”! Nem mesmo os mais bagunceiros ousaram se mexer. O “seu coisinha” ficou o tempo inteiro de cara fechada e só na aula seguinte explicou sua estratégia. Então sorrimos aliviados.
As gargalhadas eram constantes nas aulas do palhaço Heráclito. Senhor absoluto do picadeiro, transformava-se em domador, equilibrista, mágico, trapezista, palhaço e às vezes, professor. Mas o personagem preferido por todos era o extravagante técnico de futebol. Aí ele era impecável.
Nunca esquecerei aquela tarde em que o treinador fez a escalação oficial da turma do barulho. Aproximou-se de Perivaldo, monstrinho ruivo de voz aguda, e falou com emoção fingida: “John Locke, você será o capitão do maior time da história – o Iluminista!” Olhou para Joaquim e Ariovaldo, o primeiro de pouca inteligência, o segundo de muita preguiça, e prosseguiu com a voz inflamada: “Para compor o meio de campo, Montesquieu e Voltaire!” Caminhou até o fundo da sala e espetou os olhos em Carlão, mestre da cola e da mentira: “Rousseau, você será o nosso centroavante!” Depois se voltou para Pedrinho e Manoel, os caras mais engraçados do colégio: “Diderot e D’Alembert, vocês serão os zagueiros.” Coube a mim ser o arqueiro deste time histórico e atender pelo nome de Adam Smith.
Nossos pais eram torcedores fiéis, mas muito exigentes. Enquanto o placar não se mostrasse favorável, nossas orelhas camaleônicas desafiavam “a insustentável leveza do ser” ao mesmo tempo em que descobríamos que chinelas e cintos, dentre tantas outras coisas, e não menos importantes, são objetos de tortura caseira.
Naquele ano, porém, o Iluminista não foi campeão. O professor Heráclito não resistiu ao aneurisma cerebral e faleceu. O colégio inteiro desbotou. As crianças trocaram risos por rugas, e durante muito tempo tivemos um entardecer com vários sóis caindo sem que a noite chegasse.
Charles Silva nasceu em 1966, na cidade de Florianópolis, onde reside até hoje. É mestre em Educação e Comunicação, poeta, cronista e contista. É autor do livro “do açúcar à pimenta”.
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A tarde de inverno é perfeita. O tempo nublado acinzenta tudo. Mesmo os mais empedernidos cultores da agitação, do barulho, das cores, hoje se rendem a uma certa passividade e melancolia. Os espíritos ensimesmados reinam; os ativos pagam tributo à reflexão. Sem o sol, que provoca a rudeza dos contrastes, tudo é sutil, tudo é suave.
Tardes assim nos reconciliam com o efêmero. Longe das certezas substanciais, ficamos flutuando entre as névoas da dúvida. A superficialidade, que aparentemente plenifica, dissolve-se; acabamos ancorados no porto das insatisfações. E, ao invés de nos perenizarmos como singularidade, desejamos subsumir na névoa… como a montanha e a tarde.
A vida sempre pára numa tarde assim. É como se tudo congelasse. Moléculas, músculos, máquinas e espíritos interrompem seu furor produtivo e se rendem, estáticos, à magia da tarde cinzenta.
Numa tarde assim, não há senão uma coisa a fazer: contemplar. O espírito, carregando consigo um corpo por vezes contrariado, aquieta-se e divaga; torna-se receptivo a tudo: aos mínimos sons, às réstias de luz que atravessam a névoa, ao lento e pesado progresso que tudo conduz para o fim do dia, para o mergulho nas brumas da noite. As narinas absorvem com prazer um odor que parece carregado de umidade; a pele sente o toque enérgico do frio. O langor impõe-se e comanda esse estar-no-mundo como que suspenso por um tênue fio que nos liga, timidamente, à vida ativa.
Nas tardes cinzentas o coração balança entre a paz e a inquietação, porque a calma e o silêncio inquietam. O azáfama anestesia; o não-fazer deixa o espírito alerta - como um nervo exposto a qualquer acontecer.
Não há jamais nada de espetacular nas tardes cinzentas, a não ser o espetáculo da própria tarde. E este é grandiosamente simples: ar friorento, claridade difusa que se perde no cinza, contemplação, inatividade e o contraditório do espírito aguçado e acuado por esse acontecer minimalista da vida.
Na tarde fria e cinzenta, corpos se rendem ao aconchego de roupas macias ou de braços macios em abraços suaves. Somente olhares e corações conservam o fogo das paixões. As vozes agudas e imperativas transformam-se em sons baixos, quase guturais, que muitas vezes convertem-se em sussurros, como temendo quebrar a magia da tarde.
Não nos iludamos com as aparências: não há necessariamente tristeza nas tardes cinzentas. Mas também não existe aquela alegria inconseqüente dos dias cálidos e dourados pelo sol. Existe, sim, um equilíbrio perfeito, numa eqüidistância entre o tédio e a euforia, fazendo-nos caminhar sobre um tênue fio distendido entre o amargor e a satisfação, entre o entusiasmo e o tédio. Tudo isso, porém, só se mostra aqui e ali, em meio à bruma difusa, ao cinza que permeia tudo.
Uma simples tarde cinzenta pode parar o mundo, pode deter a vida. Somente por um instante. Mas talvez apenas nos corações sensíveis.
Ouça “Tarde cinzenta” na voz do autor, J. Carino:
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Que saco
este gato
jogando
bolinhas
de gude
por todo
assoalho
do piso
de cima!
De dia ele
dorme
eu ralo
trabalho
abrindo cabeças
com do/does e did.
Seu dono não vejo
sai o dia todo
e deixa o coitado
trancafiado.
Se pudesse
eu entrava
calada e
soltava
o bichano
da noite.
Já pensaram que
súcia e astúcia
o pobre faria?
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O bondoso mestre quedou-se,
ante a tristeza de seu discípulo,
corpo empenado, perdido no
emaranhado dos pensamentos.
No intuito de trazê-lo à vida,
resgatando-o de seus tormentos,
pediu-lhe que dissesse em que
nostalgia e melancolia se diferem.
O aluno saiu do transe alucinatório,
pra meditar nas palavras do guia;
pensou… pensou… e num vislumbre
de lucidez, analisou a diferença.
Nostalgia, meu mestre amado,
são lembranças de momentos
bons, que nunca se repetirão,
ficaram no passado eternizados.
Muito bem!- diz o sábio -
deixemos para trás o que não
se pode trazer ao presente, pois
cada tempo tem o seu legado.
Melancolia, meu pai espiritual,
é uma tristeza indefinida não
sei de quê, ou por que motivo
insiste em nos embaçar a lida.
Vem junto com um sentimento de
impotência e nulidade diante de tudo;
é um achar que nada tem sentido, é um
não se importar com o respirar do mundo.
Meu filho – diz o mestre a seu discípulo –
ambas são passageiras como as quentes
chuvas de verão; elas vem e vão, assim
como o dia dá lugar à noite.
Qualquer uma das duas é figura sombria,
a encher nossa vida de tristeza, mas,
faz-se necessário ser feliz agora, não
esperando pelo instante derradeiro.
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