Dois dedos de prosa
Sempre quis escrever uma história com este título: ‘Dois dedos de prosa’. Já havia, mesmo, escolhido o nome do herói cujas proezas seduziriam o leitor curioso de lhes conhecer o desenlace: Douglas Guarabira. Essa parte da tarefa estava, pois, cumprida.
Seria uma narrativa amena; uma historieta, talvez. Isso! Um texto curto, seguindo a tradição oral: coisa contida, sem derramamentos líricos ou largos vôos; desígnio que teria, ainda, o bendito efeito de desobrigar os críticos mais rigorosos (desde que os houvesse preocupados com minha obra) de estranharem a ausência de introspecções psicológicas, intertextualidade e quetais.
Um conto, portanto, em que o façanhudo Douglas Guarabira fosse flagrado em diuturno contacto com uma realidade desprovida de revelações humanas impactantes, deslocando o eixo da história para a sensibilidade da personagem, atribuindo-lhe a incumbência de exibir ao leitor atento a atmosfera grandiosa que o envolvia, o brilho de sua inteligência, o exímio retratista que era, capaz de, com dois ou três traços, levantar um ‘tipo’.
Para que ficasse divertido, emprestei a Douglas uma graça picante e uma pena atilada (quase ia me esquecendo de anotar que o homem era poeta e, mais do que isso, com o estofo viperino de um Gregório de Matos).
Com uma personagem dessas — aí estava o grande achado —, poderia desprezar a intriga ficcional, manter a simplicidade prometida e, ainda por cima, desobrigar-me de justificar o título (o sugestivo rótulo que deu origem a este discurso), sem deixar de aproveitar-lhe a sonoridade que tanto me cativara.
Sanado o processo, tratei de providenciar um cenariozinho simpático: uma mesinha de canto, num bar da zona sul do Rio de Janeiro, onde o bardo pontificasse, dissesse a que veio. O arteiro fez bem mais do que lhe foi encomendado. Alargou, por conta própria, as fronteiras de seu talento, despejando sobre a carcaça desprevenida dos semelhantes uma insuspeita elevação de espírito e a irresistível eloqüência que persuade pelo sentimento.
Mas, no teatro que armou com a intenção de destilar seu veneno dissolvente sobre os espíritos incautos, que teria feito esse maroto para driblar as proverbiais afinidades eletivas dos leitores, se é que lhe ocorreu tal expediente?
Ora, no caso presente é perfeitamente razoável presumir que os leitores — independentemente de temperamento, educação, sagacidade e outro fatores subjetivos — não teriam pruridos em aprovar a fertilidade imaginativa de tão sublimado artista, e louvariam, fascinados, sua veia satírica: — Leu o epigrama sobre o dono da butique? Guarabira o chama de ‘nefelibata pachola’. É demais essa; caiu como uma luva. O cara é di-a-bó-li-co!
Correriam, então, a fotocopiar a página que divulgava a fenomenal tirada. E todos gabariam a argúcia, a pena ferina do vate e garantiriam entusiasmados que ‘ninguém escapava ao seu esporão de galo de briga … o maganão!’.
A comunidade se orgulharia de conviver no bairro com tão fecundo gênio. As universitárias que dividiam um apartamento em frente ao bar, por um momento largariam o cuidado com suas pesquisas para observar da janela aquele homem de meia idade, caprichoso em cultivar maneiras tão excêntricas, inclusive no vestir.
— Pô. Um cara genial desses, nem liga pras aparências; aquelas Havaianas verdes são o maior barato!
— Aí é que tá, esse jeitinho despojado …
— ‘Jeitinho despojado’? Vocês são bobas mesmo. É coisa …. Eu, nem me interessa a idade, se me pego com ele, não sei não…
A fama se espalharia por outros bairros da cidade. Nas uisquerias do centro, boêmios ilustres, gente lida e vivida, se identificaria com o tipo escarnecedor mas severo de Douglas, com sua inquieta melancolia. Condenariam a censura apressada dos que o consideravam meramente destrutivo, vislumbrando na verve aparentemente inconseqüente um agudo senso de realidade política.
Empresários atarefados, em seus escritórios, encontrariam tempo para telefonar aos amigos:
— Rapaz, compra a Tribuna da Imprensa de hoje. Reproduz um ditirambo fantástico do Guarabira. Não vá esquecer, hein! É de cabo de esquadra.
Homens de espírito requintado, habituados a tirar proveito de pilhérias famosas, assanhados com os ditos jocosos do estimado causeur, mandariam às favas o recato e repetiriam durante o jantar, entre senhoras, certas irreverências que as pessoas finas e educadas guardam para a hora da sobremesa.
Até aquela gente sem-graça, que se situa acima dessas querelas vãs da dúvida e da inspiração, arrastando sua existência incolor em intermináveis conversações pelo celular, fingiria entender e aprovar ‘as piadas desse sacana do Douglas’.
A moça infiel, em seu amargo desencanto com o amante, que não fez jus à preferência dela, volta pra casinha de subúrbio, para o marido que não ignorava a escapada, mas a perdoou porque lera um poema de Guarabira em que o mestre dizia ser ‘raro uma mulher arrepender-se de ter sido amada por um homem indigno dela, mas certo arrepender-se de tê-lo amado’. O rapaz, confortado com o juízo enunciado na segunda parte do verso e muito agradecido a seu guru, espalharia por aí, com ar de mistério, que Guarabira salvara seu casamento.
Turistas de todas as cidades do país, passando à porta do bar retardariam os passos para bisbilhotar e anunciar, depois, que viram Douglas Guarabira em sua mesa cativa, colada à parede na qual se destacava uma foto emoldurada comemorativa do lançamento de seu livro mais recente — muito lampeiro, tendo na mão um copo de uísque com seu nome gravado —, cercado de gente deslumbrada com seu vasto saber. E seguiriam em direção à praia, comentando a boa impressão que ‘aquela figuraça’ lhes causara.
Fim de noite, o português cerra as portas do boteco mais tarde do que pretendia, aguardando, paciente e respeitoso, o desfecho de uma disputa literária na mesa do poeta. Ali, por meia dúzia de horas, filosofou-se a valer. Conta pendurada, o comerciante ainda encontra ânimo para sentenciar:
— Esse Guarabira é uma pândega!
Pois que seja, porque a mim — a cabeça confusa diante da magia verbal e do alcance dos vaticínios de Douglas Guarabira — resta invejar seu indiscutível sucesso. Eu, que só consegui até hoje elaborar tramas que, se baseadas em fatos reais pareceram inverossímeis, e bobas quando as inventei, considero prejudicado o propósito que tão diligentemente busquei. Assim, deixo a bola com a guarabiriana e erudita criatura. Que se arranje com os críticos, ele que mudou todo o curso da narrativa. Sim, pois com o leitor universal sempre se dá um jeito, não importa com quantos dedos de prosa.
2 viewsCai o pano
No início dos anos sessenta, cai o pano de boca sobre a aldeia encantada que nos servia de palco. A torrente de representações e imagens que nossa consciência, entregue ao doce engano do sonho, abrigava em seu teatro, dissipou-se na areia. Desarmava-se o cenário, desapareciam os figurantes.
A puxar os cordéis, o progresso travestido de especulação imobiliária.
O palco foi deslizando, animado por uma velocidade vertiginosa, e a voragem deformadora transformou o bairro ao jeito do charivari de mau gosto de Copacabana.
O crescimento urbano, é preciso admitir, é inevitável, mas no caso do Leblon, o preço pago pela subversão foi excessivo: custou-nos o precioso cantinho, prazeroso, amorável.
Dois fatores concorreram para sedimentar esse deplorável processo: a ocupação da Selva de Pedra, por forasteiros aspirantes à classe média e a apropriação dos bares, pela intelligentsia irrequieta, cansada de baldear por Copacabana e Ipanema, juntamente com o cortejo que lhe queimava incensos. Os componentes desses dois grupos – com raras exceções – tinham um cacoete comum a todos os descobridores, qual seja uma xenofobia às avessas, corrupta e insolente, que se manifesta pela injustificada e imediata rejeição da cultura local e se consolida mediante a imposição de novos ícones e ídolos. A diferenciá-los, o fato de que uns vieram para ficar; outros, para fazer piquenique.
Tomando como exemplo o colonizador histórico, o primeiro grupo, dos felizes proprietários das unidades imobiliárias da Selva de Pedra, erigida sobre os escombros ainda fumegantes de uma Praia do Pinto criminosamente incendiada, ostentava o perfil ibérico, ainda que afetasse a arrogância e o desdém do anglo-saxônico, sem sê-lo (ou sem selo), que jamais foi suficiente, porém, para disfarçar a sintaxe trôpega do discurso do jeca deslumbrado, ou do suburbano reprimido.
O outro predador, o elitizado (ou etilizado), veio com a retórica anglo-saxônica, mas com comportamento de ibérico, saqueando até esgotar o veio, indo embora deixando sobre a grama as sobras do piquenique… talvez caviar, mas pouco importa! O processo, neste caso, foi sofisticado: a súbita celebridade que seus fautores emprestaram ao local teve o mesmo efeito devastador do prospecto imobiliário da companhia predial.
O velho e doce Leblon foi conspurcado pelos hábitos nocivos dessa cultura híbrida, pizza mezzo a mezzo de fatuidade e hipocrisia, de arranjo e gosto duvidosos, e os nativos perderam-se no anonimato, ou sumiram sem deixar pistas. O fulgor das cabeças pensantes, a fosforescência arrebicada da protoperuagem e o fumacê catinguento provocaram um segundo incêndio, tão nefasto e deprimente quanto o outro, queimando os arquivos originais, e lá se foram as individualidades e as referências. Ficaram fantasmas, que só aparecem para quem tem o dom de reconhecê-los, como nos filmes de ficção, o que, de certo modo, atenua nos eleitos a angústia da ausência e da certeza da irreversibilidade.
Sei que é impossível reviver aqueles fantasmas, e parece quixotesco bater-me contra o inevitável crescimento do arrivismo, mas o preço que paguei embute o jus esperneandi e permite-me lamentar e reprovar a voragem desfiguradora. Por isso, ´montei` no modesto Johann Faber – o meu Rocinante – e vou mandando bala nos espigados moinhos de vento. Aceito adesões.
Estamos em 2005…
O Leblon tornou-se definitivamente cenário de uma patuscada promovida por arrivistas e festeiros, estimulada por associações dirigidas por oportunistas sem compromisso com as tradições do bairro e referendada pela maioria dos cronistas/colunistas de cadernos e suplementos dos periódicos mais ´vendidos`, jornalistas esses orfãos de idéias e reféns da bajulação, da trivialidade e do convidativo recurso de bisbilhotar a carta lacrada que os convencionais passam de mão em mão.
Como todos os invasores, a panelinha pratica uma xenofobia às avessas, rejeitando a cultura local e tentando impor seus próprios ícones e ídolos de pés de barro.
O processo – que pode vir mascarado de roteiro gastronômico, às vezes reduzido a libelos hipócritas por conta das contrariedades da igrejinha, freqüentemente timbrado pela idolatria feminóide ou outra atribulação entre as que habitualmente acodem a alma desvelada do fofoqueiro de plantão – tem o mesmo efeito devastador que outrora causou o prospecto imobiliário da companhia predial.
4 viewsUm pouco do Leblon
O fascínio que sobre mim exercem a graça e a inteligência das reflexões de Elsie Lessa fazem-me, sempre que posso, reler suas histórias, e foi numa dessas vezes que reencontrei, recentemente, a descrição de um eclipse observado ao longo da avenida da praia, por onde vinha a cronista, em marcha lenta, desde “os confins do Leblon”.
Fixei-me, surpreso e enleado, nessa referência. Entrevi, no belo cenário descrito, uma nesga entre os restos de sol de um céu azul escuro e antigo, e enfiei-me de mansinho numa tarde qualquer de 1950.
Era, com efeito, o Leblon um dos extremos da cidade. Prá lá do canal da Avenida Niemeyer, só iam pescadores que moravam no Vidigal e alguns aventureiros motorizados à cata de um sítio ermo para seus encontros furtivos na Barra da Tijuca, então, apenas, um acidente geográfico com mar batido e enorme areal coberto por vegetação rasteira e espessa – uma espécie de jibóia entrelaçada – que fazia as vezes de leito para um ou outro casal mais afoito.
No mergulho proustiano que empreendi, vejo-me, à noitinha, cercado de garotos como eu, sentado na calçada da praia, sob a iluminação fraca das grandes luminárias guarnecidas de arabescos, encimando meia-dúzia de pesados postes de ferro, tentando adivinhar o algarismo final da placa dos automóveis. De trinta em trinta minutos passava um deles, e iniciávamos outra rodada de apostas. A quietude e a ausência quase total de transeuntes, que pudessem desviar nossa atenção, estimulavam o hábito da conversação; os assuntos, sempre os mesmos, mas as opiniões, variadas. Ainda não havíamos sido cooptados e globalizados pela tal da mídia; a televisão engatinhava, era experimental. “1984″, de Orwell, não chegara ao Brasil, pelo menos na atual versão tupiniquim.
Raros como os postes, um homem aqui, um casal acolá podiam ser vistos, de vez em quando, a passeio. Mulheres sós, nunca. Às oito e pouco, recolhíamo-nos às nossas casas. Nós e todo o mundo, que o comércio há muito tinha cerrado as portas e cessava o movimento pelas ruas. O monumental silêncio só era quebrado pelo ranger dos bondes nos trilhos, o coro lamuriento da gataria ou pela voz de uns poucos notívagos a caminho do botequim.
Antes de tornar-se via migratória e serventia da diáspora rastaqüera e point de agito de arrivistas, intelectuais de araque e oligóides, o Leblon foi um bairro muito bacana.
Dois ou três botecos, entre o canal e o Jardim de Alá, ficavam abertos até as onze horas, se tanto, para atender motoristas de lotação, motorneiros e boêmios. Estes últimos, sempre os mesmos velhos conhecidos, reuníam-se para falar sobre futebol e outras amenidades, e relaxar um pouco antes de ir dormir. Crianças só entravam nos bares durante o dia, para comprar balas ou dar recados.
Não existiam cadeiras nas calçadas, carros à porta com rádio ligado alto, brutos suarentos a urrar disputando lugares, nem risos histéricos de mulher. Não havia pressa; a cerveja era servida muito gelada e podia-se pedir, no máximo, ovo cozido e pão com mortadela ou queijo. A maioria ia bater papo, e quem quisesse comer, que fosse fazê-lo em casa (comida feita com banha de porco tirada de uma lata com desenhos de coqueiros verdes). Dispensavam-se exibidos profissionais. Claro que havia babacas, esses pupulam em todas as épocas, mas ainda não predominavam… pelo menos nos botequins.
Nada dos incensados Bracarenses da vida (já falei da liberdade de escolha, e de que as individualidades não tinham sido totalmente dizimadas?). O Recarey, quando apareceu (por volta de 56, mais ou menos, -eu já freqüentava os botecos e lembro-me muito bem-) era comim do Três Vinte, onde é hoje a Pizzaria Guanabara, sede de um desses malfadados baixos que proliferam por aí, acolhendo maltas de romeiros automatizados, flutuando a um milímetro da discórdia.
Naqueles tempos, as pessoas encontravam diversão nos bairros em que residiam e só transitavam por outro a caminho do trabalho ou em visitas ocasionais. O Leblon não servia de acesso a lugar algum, já disse, ficava nos confins: era o extremo sul, ponto de partida ou de chegada. Uma aldeia encantada, em grande parte por esse motivo.
No mais, sem carros, baixos, visitantes desagradáveis, as ruas eram nossas e as desfrutávamos de pés descalços, casimirianamente, donos do pedaço, até porque os adultos gastavam os dias envolvidos nos afazeres domésticos, ou na cidade. Impunha-se ir à cidade para trabalhar, ir ao dentista ou médico, para negócios de qualquer natureza e para compras maiores. Perto de casa só havia quitanda, farmácia, barbeiro, padaria e botequim. Ah! Tinha, também, o armarinho, no qual mamãe mandava compar retrós mercerizado, com a Joana, filha do dono e irmã do Nagib, que morreu novo, coitado, e muitos terrenos baldios, também, onde se jogava bola e caçava-se rolinha, para quem se lembra disso: de terra batida, bem carecas no meio e muito capim alto roçando os muros. Como sempre ocorre às crianças, pareciam-nos imensos, verdadeiros Maracanãs.
Anti-sociais ou gregários, nem pensar, já que todos se conheciam muito bem. Tímidos, abusados, é certo que os havia; distribuíam-se por turmas, geralmente conhecidas pelo nome das ruas. Algumas dessas ruas guardavam ainda suas designações indígenas originais, que, aos poucos, foram substituídas pelos nomes dos generais sul-americanos, cuja bravura livrou-nos da invasão dos marcianos e de outras graves ameaças. Uma briguinha, vez por outra, logo seguida de ruidosa confraternização, animava uma saudável rivalidade entre aquelas corriolas.
Graças à inexistência de attaris e tamagotchis, jogava-se bola o dia inteiro. O resto do dia inteiro era curtido na praia. Mas isso, a convivência entre os ricos e os pobres da Praia do Pinto, num bairro em que preponderava a mais genuína classe média, e otras cositas mas são assuntos que demandam novos espaços, novas crônicas.
Por enquanto, vou matando a saudade, reconfortando-me com uma primeira dose dessas coisas velhas e ricas que tive a ventura de possuir e testemunhar. Acho que precisava olhar para trás e veio-me na hora certa. Não agüento mais consumir essa vida que não pára e, ao mesmo tempo, não leva a nada. Angústia por angústia, prefiro a sofreguidão que possam causar-me essas recordações à trama diabólica que me atormenta e atrela a esse cometa estúpido, obstinado, que me carrega por onde não quero ir.
Do livro:
119 viewsCruzes e Cruzeiros

Cruz da Ponte de Marília, ou Ponte de Antônio Dias, Ouro Preto. Foto Luiz Cruz
Porto Seguro, sexta-feira, 1º de maio de 1500. Este o local e a data que temos sobre as primeiras notícias da terra descoberta. O registro foi feito pelo escrivão da frota de Pedro Álvares Cabral, Pero Vaz de Caminha, encarregado de relatar a viagem, oficialmente, ao rei Dom Manuel. A Carta de Caminha é um documento importante, que transmite ao rei as primeiras impressões sobre o Brasil, os indígenas e a Igreja, especialmente com a cruz, que foi a primeira obra a ser construída e instalada no solo descoberto pelos portugueses.
No século IV, da era cristã, Santa Helena encontrou um fragmento da cruz em que Cristo foi crucificado e isso fortaleceu e ajudou a difundir o culto à Santa Cruz. O dia 3 de maio foi dedicado à festa da Invenção da Santa Cruz – em razão do verbo invenire = achar. Sendo o símbolo máximo do cristianismo, a cruz está presente nos diferentes momentos da vida e da morte, em celebrações diversas, como o batismo e a extrema unção. Ao realizar o sinal da cruz, invoca-se o Pai, o Filho e o Espírito Santo.
Como vimos na Carta de Caminha, herdamos de Portugal a longa tradição de culto à Santa Cruz. Segundo a pesquisadora Adalgisa Arantes Campos, em fins dos seiscentos, em Portugal, foi difundido o culto às almas, relacionado com os cruzeiros. Nas imediações de Lisboa foram identificados seis cruzeiros seiscentistas por Souza Viterbo.
Na Terra de Santa Cruz, cruzes e cruzeiros foram amplamente utilizados, nos adros, em largos, sobre as pontes – para proteger a passagem, em esquinas, encruzilhadas e especialmente em pontos de destaque, dominando a paisagem, ou ao longo de caminhos. Indicavam que aquele espaço não era totalmente selvagem, mas dominado, agenciado pelo homem dotado de crença específica. Ou seja, a questão da ocupação e urbanização estava intrinsecamente ligada à instalação da cruz ou do cruzeiro.
Algumas cidades mineiras possuem belos exemplares de cruzes e cruzeiros. Provavelmente Ouro Preto abriga o maior número deles, mas São João del Rei, Tiradentes, Diamantina e outras localidades possuem vários. As pontes de Ouro Preto têm uma cruz em pedra para proteger a travessia, compõem o maior conjunto de pontes tombadas isoladamente pelo IPHAN. No bairro Alto da Cruz, um morro bem elevado e arredondado, há em seu topo uma cruz, predominando a paisagem e protegendo a população. Ainda em Ouro Preto, existe um Oratório de Santa Cruz, conhecido também como Oratório do Virasaia, que fica localizado na esquina da Rua Santa Efigênia com Barão de Ouro Branco. Esses oratórios, muito comuns no século XVIII, foram utilizados para espantar “fantasmas com pés de pato, asas e chifres”, conforme podemos apreciar no Guia de Ouro Preto, de Manuel Bandeira. Em frente à Capela do Padre Faria, de 1710, temos uma das mais elegantes cruzes do Brasil, uma cruz pontifical, em grande proporção e esculpida em arenito. Na base da cruz foi gravada a data de 1756. No bairro Alto das Cabeças, próximo à Igreja do Bom Jesus, no meio do largo, há uma cruz em pedra arenítica; outra está no distrito de Cachoeira do Campo, também no meio do largo, em frente à Igreja de Nossa Senhora de Nazaré. Essa cruz tem, esculpidos na base, os instrumentos da flagelação de Cristo. No Museu da Inconfidência há um pequeno cruzeiro do século XVIII, em madeira, com os instrumentos da crucificação primorosamente esculpidos. No Panteão da Inconfidência há uma cruz grande, em duas tábuas, com o corpo de Cristo pintado, lembrando a arte medieval. Há ainda uma cruz franciscana, com detalhes das mãos chagadas de São Francisco e de Cristo.
As pontes da Cadeia e do Rosário de São João del Rei são encimadas por cruzes. A da primeira é esculpida em xisto verde e a da segunda foi destruída por vandalismo, mas reconstituída em cimento. Os cruzeiros são muitos: do Pau d’Angá, do Senhor dos Montes, do Largo da Cruz, das Mercês, do Bom Fim, do Rua do Ouro e do Pontilhão. O mais antigo é o das Mercês, que já esteve instalado na base da escadaria da igreja e hoje se encontra mais alto, ao lado, no final da escadaria da Igreja de Nossa Senhora das Mercês. O cruzeiro do Pau d’Angá está sobre um trecho de rocha da Serra do Lenheiro, em um elevado com degraus e uma grade que o protege. O mais curioso é o do Largo da Cruz, que fica na parede de uma casa, contendo todos os objetos da crucificação, mas o galo ficou sobre o telhado, por falta de espaço. A cidade possui várias cruzes, sendo que algumas estão na Serra do Lenheiro. A Cruz do Barro está na esquina da Rua Padre Faustino, no nível da rua e sobre a calçada. Nessa cruz se para durante o trajeto da “Encomendação de Almas”. Sobre o telhado das igrejas de São Francisco de Assis, Nossa Senhora do Carmo e das Mercês foram instalas três cruzes em pedra. A cruz do frontispício do Carmo é formada por folhas esculpidas em xisto verde.
Em Tiradentes também podemos encontrar exemplares curiosos de cruz e cruzeiro. No adro da Matriz de Santo Antônio foi instalada uma cruz em madeira com as pontas esculpidas, tendo base em um bloco em pedra lavrada. Essa cruz se destaca no cenário que tem ao fundo a paisagem da Serra de São José, compondo uma das mais belas vistas de Minas. No Alto de São Francisco, em frente à capela, foi instalado um cruzeiro, que apresenta os instrumentos da flagelação de Cristo. Esse já foi substituído algumas vezes, há um registro fotográfico de 1940, de José Belline dos Santos, que nos mostra um cruzeiro bem menor e mais elegante. O atual foi reconstruído pelo IPHAN. No adro do Santuário da Santíssima Trindade há um cruzeiro e ao lado da Capela de Santo Antônio do bairro Canjica também há outro, de menor porte. Sobre o telhado da Igreja de Nossa Senhora do Rosário foram instaladas três cruzes esculpidas em pedra arenítica.
Quando o viajante inglês Revendo Robert Walsh esteve em São José, hoje Tiradentes, percorreu pela Serra de São José e registrou: “Ao começarmos a descer a encosta, a primeira coisa que vimos foi uma cruz tosca, fincada numa rocha nua, indicando que ali havia sido cometido um assassinato”. Trata-se da Cruz do Carteiro, um dos pontos mais curiosos da Serra de São José, pois, segundo a tradição, toda pessoa que passar por lá deve atirar uma pedra. A Cruz do Carteiro permanece no mesmo local até hoje. É o mesmo Walsh que nos informa sobre sua passagem por Lagoa Dourada: “O arraial de Lagoa Dourada consiste numa rua comprida, ladeira abaixo, contando aproximadamente com cinqüenta casas e três igrejas. Trata-se de uma proporção muito elevada de prédios religiosos para um lugar tão pequeno, mas seus moradores pareciam muito devotos, pois havia cruzes erguidas diante de um número incontável de portas, dando-nos a impressão de que a cada habitante da cidade correspondia uma cruz”. Continuando sua viagem: “os campos pululavam de cruzes fincadas em toda parte, que me pareciam tão numerosas como as que eu encontrara em Wallachia. Verificamos também que ali elas não indicavam locais de assassinato: algumas, erguidas por diferentes fazendeiros, indicavam os limites de suas terras, já que os devotos brasileiros consideram a cruz o melhor símbolo que poderiam usar em qualquer ocasião”.
Mais ao norte de Minas, a cidade de Diamantina tem alguns cruzeiros muito interessantes. Um deles está na parte baixa da cidade, tendo ao fundo a Serra dos Cristais. No Parque Estadual do Biribiri, encontramos uma cruz de homem morto, que indica o local onde morreu uma pessoa. Essa cruz está cercada por pedras que foram ficando polidas e oxidadas pelo tempo e ganharam tons fortes, destacando-se na área.
Em Belo Horizonte, na Praça Governador Israel Pinheiro, que é mais conhecida como Praça do Papa, uma cruz feita em aço, com design moderno, mas que tem a mesma função das cruzes das localidades setecentistas: proteger a cidade.
Outro aspecto curioso de nossa cultura relacionada com os cruzeiros, vamos encontrar registrado na obra Afrografias da Memória, de Leda Maria Martins, que aborda a questão do preconceito que a Igreja Católica tinha com os Ternos de Congado, impedindo-os de entrar na igreja para venerar Nossa Senhora do Rosário. “As relações do Congado com o clero eram conturbadas e a Igreja Católica não permitia que os congadeiros celebrassem suas cerimônias no templo. Os festejos eram, assim, realizados nas casas dos reis e capitães e, esporadicamente, ao redor do cruzeiro, no adro das capelas”. Na festa do Reinado do Jatobá, em Contagem, que mantém a forte tradição congadeira, levanta-se o mastro e depois vão aos pés dos cruzeiros rezar e reunir as energias para a festa do Rosário.
Muitos chafarizes receberam cruzes como elemento decorativo e de proteção. Um dos maiores chafarizes mineiros é o de São José, em Tiradentes. A data de sua construção é 1749. Todo trabalhado em pedra arenítica, se difere dos demais por suas características peculiares: na fachada há uma imagem do padroeiro São José de Botas, em terracota. De três gárgulas cai água em grande tanque abaulado, bem ao gosto do barroco. A parte frontal é fechada por mureta com banco. Nas laterais há um tanque para as lavadeiras e outro para os animais. Uma grande cruz encima o Chafariz de São José.
É provável que a cruz seja um dos símbolos mais fortes utilizados no barroco mineiro, que expressa uma reação da Contra-Reforma, ou seja, uma aproximação da devoção ao homem. A colocação de cruzes por todos os pontos, em topos de morros ou no meio de largos, pode nos afirmar isso. Um exemplo curioso é uma cruz afixada na parede lateral da Igreja de São Francisco de Assis, de Mariana. Quando caminhamos à noite e passamos por ela, com a iluminação ganha projeção e nos imprime respeito. Em São João del Rei, na parede lateral da Matriz de Nossa Senhora do Pilar, encontramos uma cruz feita em argamassa, com base em arenito, alta e elegante, bem integrada ao monumento arquitetônico. Outra cruz de parede está no antigo Colégio do Caraça, na área que não foi atingida pelo incêndio que destruiu boa parte do colégio, é uma bela peça esculpida em arenito.
Mantendo a tradição secular, na véspera do dia de Santa Cruz, os moradores de Tiradentes e outras cidades mineiras, enfeitam as cruzes e colocam nas portas de entrada da casa. Durante a madrugada, segunda a lenda, Nossa Senhora passa visitando a casa que enfeitou a cruz, abençoando a família. As cruzes são enfeitadas com papel crepom, papel de seda, fuxico, flores de papel, feitas de material reciclado, como latinhas, ou mesmo de flores naturais. No dia 3 de maio todas as cruzes ficam enfeitadas.
A exposição Cruzes e Cruzeiros – Objetos e fotografias – de Luiz Cruz, realizada no Centro Cultural Yves Alves/Tiradentes, no período de 03 de maio a 03 de junho de 2012, apresenta peças e fotografias de diversas cidades.
Luiz Cruz, professor
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