Minha alma estava tão lavada quanto o ar do Rio nesta época do ano: sem névoa, transparente, deixando aparecer com nitidez o recorte das montanhas. Na véspera eu fora ver “Um porto para Elizabeth Bishop” e agora, caminhando pelo calçadão, continuava ouvindo a grande poeta americana falando da cidade. O horror que sentira ao chegar em 1951: “Tudo tão sujo, tão desorganizado! Como é que eles conseguem viver aqui?”
Continue lendo 'O cenário é uma beleza – Zuenir Ventura'»
A insistência daqueles chamados já estava me enchendo a paciência (isto foi há alguns anos). Toda a vez era a mesma voz infantil e a mesma teimosia:
— Mas eu nunca vou à cidade, minha filha. Porque é que você não toma juízo e não esquece essa bobagem…
Continue lendo 'Brotinho indócil – Vinicius de Moraes'»
Ser brotinho não é viver em um píncaro azulado: é muito mais! Ser brotinho é sorrir bastante dos homens e rir interminavelmente das mulheres, rir como se o ridículo, visível ou invisível, provocasse uma tosse de riso irresistível.
Continue lendo 'Ser brotinho – Paulo Mendes Campos'»
Era uma quinta-feira de maio e a gaivota vinha das Tijucas, em vôo quase rasante sobre a falésia da Avenida Niemeyer, longas asas armadas na corrente aérea que virava do Sul, lenta levando o seu corpo leve e descarnado, seu esqueleto pontiagudo, geometricamente estruturado para reduzir ao mínimo a resistência do ar e da água. Continue lendo 'Sobrevoando Ipanema – Paulo Mendes Campos'»
Ter na véspera o cuidado de escancarar a janela. Despertar com a primeira luz cantando e ver dentro da moldura da janela a mocidade do universo, límpido incêndio a debruar de vermelho quase frio as nuvens espessas. A brisa alta, que se levanta, agitar docemente as grinaldas das janelas fronteiras. Uma gaivota madrugadora cruzar o retângulo. Um galo desenhar na hora a parábola de seu canto. Então, dormir de novo, devagar, como se dessa vez fosse para retornar à terra só ao som da trombeta do arcanjo.
Continue lendo 'Receita de domingo – Paulo Mendes Campos'»
Estou só, quer dizer, tenho ódio ao amor que terei pelo desconhecido que está a caminho, um homem cujo rosto e cuja voz desconheço.
Continue lendo 'Rondó de mulher só – Paulo Mendes Campos'»
O amor acaba. Numa esquina, por exemplo, num domingo de lua nova, depois de teatro e silêncio; acaba em cafés engordurados, diferentes dos parques de ouro onde começou a pulsar; Continue lendo 'O amor acaba – Paulo Mendes Campos'»