para José Roberto Pereira
Faltam dois dias para chegar a Belo Horizonte, de onde saí no ano passado. No dia 20 de dezembro fomos, família toda, para Gramado e, de lá, viemos para a beira do lago. Aqui ficaram avós e netos e os pais deles vieram e foram, vieram e foram. Vou, mas volto rápido. Apenas o tempo de uma chuva, pois o carnaval se aproxima e o meu é meio comprido. Umas duas semanas e meia, pelo menos. Uma para preparar, meia para o propriamente dito e outra para descansar e arrumar a casa. De carnaval não vejo nadinha de nada, pois meu gosto mesmo é para barraquinha de festa junina, com quadrilha, bingo e leilão. E uma boa sanfona chiando na terra batida.
Mas o assunto hoje é o feijão.
Não sei se todos fazem idéia da trabalheira e da aflição que dá plantar e colher o feijão das águas. Tem o do tempo, que é menos sofrido, pois não tem a ameaça constante de chuva. Mas este das águas é um deus nos acuda. Hoje, como brilha um sol lindo e quente, todo o pessoal do povoado sumiu. Estão todos na lida do feijão. E é preciso mesmo, pois primeiro, depois da primeira chuvarada e com a terra molhada uns dois palmos para dentro, a semente é encovada. A partir deste momento, começa a rezação, pois é bom que chova um pouco, não muito, para não melar a semente. Dado um solzinho, as primeiras folhinhas aparecem linda e viçosas. Um pouco de chuva, um pouco de so. Um pouco de chuva, um pouco de sol. Os olhos continuam vigilantes, arrancadas aqui e ali umas pragas de capim invasoras. Chega o tempo de colher. E a chuva não dá trégua. Não pode passar do tempo, e a chuva não dá descanso. O assunto começa a render. Aliás, é o único que anda em todas as bocas. O feijão vai melar, o feijão vai aguar, vamos perder o feijão. Começam as promessas e as lamúrias: – Nunca mais na vida planto feijão nas águas. – É muito sofrimento. – Parece castigo. A ladainha parece sem fim.
Então, o sol aparece. É uma correria sem fim. Some o povo de novo, colhendo as ramas cheias de favas e colocando num lugar seguro. Nesta hora serve tudo: cimentado com cobertura, varandas, paiol, até sala das casas e cozinhas ficam cheias das ramas, até que sequem. Dá sol, colocam as ramas para fora. Ameaça chuva, volta com elas para dentro de casa. E o tempo, doido, brinca com o pessoal do feijão. O estado de excitação é enorme, vamos dizer mesmo que a adrenalina, para fazer um comentário moderno, corre solta.
As ramas secam. É hora de batê-las. É uma surra de dar medo. Batem as coitadinhas no chão com vontade e braço forte é preciso. E os grãos de feijão vão aparecendo. Uma cena de rara beleza, quando são jogadas para o lado as ramas secas e os grãos ficam no chão. Segue-se então outra fase muito importante, que é a secagem. Começa tudo de novo: pôe no sol, esconde da chuva. Põe no sol, esconde da chuva. Os grãos vão secando até chegar no ponto certo. Nem demais, nem de menos.
Vem a peneirada, no vento, para tirar as impurezas, as folhas, os raminhos, tudo que não pertence ao que deve ficar limpinho, que é o grão de feijão. A chamada, nesta hora, é pelo vento. Vem vento, vem ajudar a peneirar.
Peneirado e limpo o feijão, bem sequinho, é hora de enlitrar. O que é enlitrar? É colocar os grãos numa garrafa PET limpa e seca, com uns poucos grãos de pimenta do reino, fechar bem fechado, e estocar até que venha a safra do feijão de tempo.
Quando você cozinha o feijão e coloca na mesa aquela maravilha, nem se lembra de tudo o que aconteceu. O feijão maravilha. Fruto do trabalho do homem e da ajuda da natureza, milagre da alimentação.
É por esta e por outras que amo meu povoado. Aqui vejo e sinto tudo de bom no mundo: a natureza, o ar puro, as águas limpas, o sol e a lua à vontade, o vento fazendo parte do processo da vida, e o povo de Deus fazendo sua parte na transformação da semente em alimento. E não só do feijão, que no atual momento é a bola da vez.
Acompanha-se a lavoura e a feitura de tanta coisa: do milho, da mandioca, do amendoim, a dos queijos e requeijões de prato, das compotas de frutas da época, da colheita do pequi, da colheita do café nas grandes plantações de fazendas vizinhas (esta fora do povoado mas com a participação de muita gente daqui. Como o pagamento é feito por baldes colhidos, quem pode vai e colhe o que dá tempo de colher).
O interessante´é que, apesar das lamúrias e das aflições, nas próximas águas, todos semeiam de novo . E a vida tem sentido, vale a pena, renasce sempre a cada folha que desponta do chão.
Enquanto isto, sinto que tomei um rumo certo. Um tempo de plantação possível, que a idade não me deixa mais brincar de jovem, mas, certamente, um tempo de colheita do que consegui plantar.
Louvado seja Deus que tem me dado tempo para ver as maravilhas.