II Diário em Terras Estrangeiras – José Roberto Pereira

Por Editor, 28 de fevereiro de 2009 17:07

Peru e Bolívia – 1ª parte

jrp

Grandes nuvens brancas espalhadas pelo céu nos acompanharam por toda a nossa segunda viagem em terras estrangeiras. O céu de uma quinta-feira escurecia em Pará de Minas quando pegamos a estrada dando outro colorido às nuvens espaçadas. Era a segunda vez que eu e o Paulo viajávamos ao exterior cumprindo uma meta de, a cada dois anos, visitar um país; os primeiros a serem visitados foram o Chile e a Argentina. Agora embarcávamos rumo ao Peru para submergir na cultura andina e depois desbravar a Bolívia até o Salar de Uyuni, eleito umas das sete maravilhas do mundo moderno.

Na madrugada de sexta-feira embarcamos no aeroporto de Confins, Belo Horizonte, com escala em Guarulhos, São Paulo, com destino a Lima, no Peru. No trajeto o avião ora perfurava as grandes montanhas de nuvens brancas, ora sobrevoavam-nas deixando-se banhar nos longos raios de sol, o que acalmou a ansiedade que nos consumia em tocar solo Inca. Subitamente as Cordilheiras dos Andes, permanentemente cobertas de neve, surgiram à nossa frente. Encheram-me de alegria ao revê-las, tão imponente quanto pela primeira vez que as vi. Logo surgiu o imenso lago Titicaca, sobrevoamos um longo período sobre aquele mar de água doce incrustado entre imensas montanhas peruanas e bolivianas. Hipnotizou-nos a ponto de emudecer-nos. E finalmente o Comandante anunciou Lima, capital do Peru. Desembarcamos no aeroporto internacional. Estávamos menos ansiosos de quando embarcamos. Os primeiros a nos receber foram os policiais federais. O som do carimbo no passaporte abriu as ‘portas Incas’ para que pudéssemos explorar boa parte do território peruano.

Deixamos nossas malas no guarda volume do aeroporto. Sob segura orientação pegamos um táxi rumo à Praça de Armas no centro de Lima. Uma cidade de trânsito confuso e inconseqüente pintava-se ao longo do trajeto. Meninos pediam esmolas nos sinais. Gente de roupas típicas e coloridas movimentavam-se pela cidade. Entrávamos Lima adentro tão perplexos com o trânsito que se agravava em imprudências. Praças ornamentadas de bandeiras peruanas tremulavam-se ao vento. Um mar de gente se agitava mais que o ar quente e seco. Uma forte falta de ar apoderou-se de nós. A boca permaneceu aberta por todo o trajeto na tentativa de buscar o pouco oxigênio do ar; vez e outra por surpresa e admiração às paisagens urbanas estrangeiras. De repente toda a agitação com cara de pobreza desapareceu e uma grande praça cercada de magníficos prédios antigos surgiu a nossa frente. O táxi parou. Descemos boquiabertos pela beleza e pela falta de ar mesmo. Andamos horas pelo grande centro da capital do Peru. Lima foi fundada em 1535 pelo conquistador espanhol Francisco Pizarro e hoje é formada por várias pequenas províncias. Ao redor da Praça de Armas e ruas paralelas ficam todos os museus, galerias de arte, lojas de artesanatos, mercados, prédios históricos e a sede o governo. Andando por todo o dia visitando os atrativos turísticos. O museu da Inquisição e o de São Francisco com seus mausoléus foram os que mais me impressionaram. Saí deles sentindo-me uma outra pessoa, com maior percepção ao mundo e sua história.

A tarde caiu tão ligeira quanto os passos que dávamos para cruzar as ruas de Lima. Pegamos um outro táxi e seguimos rumo a Miraflores, umas das províncias que formam a grande metrópole; foi amor a primeira vista; apaixonei com sua luz, as pessoas, sua arquitetura, suas feiras, seus casarios, suas bares, igrejas. Um cheiro suave de maresia vindo do oceano Pacífico dava á província um charme indescritível. Decidimos pernoitar em Miraflores. A noite chegou com uma chuva típica da época e trouxe consigo um cansaço profundo devido ás longas caminhas ao longo do dia. A falta de ar continuava a nos abater causando imenso desconforto.

O dia amanheceu gelado e ainda continuávamos com dificuldades para respirar. Descemos rua abaixo e entramos em outro táxi rumo ao aeroporto para voarmos para a cidade de Cusco. O motorista percorreu toda a orla do oceano Pacífico que circunda a cidade. Toda ela estava sendo projetada para ganhar plantas típicas, calçadas, quiosques e praças, uma clara evidência à adaptação ao turismo internacional. O frio cortante não impediu que uma meia dúzia banhistas se atirarem ao mar. Revi pela segunda vez esse mar de águas calmas, pacíficas. Sorri um sorriso de Gioconda.

O avião decolou pontualmente rumo a Cusco. Finalmente pisaríamos, pela primeira vez numa cidade essencialmente Inca. A falta de ar crescia tanto quanto o céu coalhado de nuvens brancas. Voamos cerca de uma hora. Por fim Cusco entrou no nosso campo de visão. Finalmente nossos pés tocariam poeiras Incas e finalmente também resolveríamos nossa falta de ar… Iríamos experimentar, pela primeira vez, folhas de coca.

Continua…

Foto: Praça de Armas- Lima – Peru

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Meus versos – J. Triste

Por Gutierritos-SP, 28 de fevereiro de 2009 4:24

J.Triste (João Baptista Pimentel)

Meus pobres versos,
Tão dispersos,
Tão sem jeitos
E imperfeitos,
São sinceros, todavia !
E possuem a primazia
De despertar corações
Endurecidos,
Empedernidos,
Amolecendo-os,
Enternecendo-os !

Meus versos são meus cantares,
Meus lamentos, meus penares,
Sinfonias de minh´alma !
Meus anseios, minha calma,
Meus sonhos, felicidades,
Prantos, risos e saudades !

Há sempre, nos versos meus,
Uma flor…um mal-me-quer !
Uma reverência a Deus
E um coração de mulher !

Poesia publicada em 1957

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Celinha do Bandolim – Nina Araújo

Por Nina Araújo, 27 de fevereiro de 2009 19:49

Ainda que o entusiasmo arrefeça
Faça um ré maior para mim
E assim veremos cantares
Envolvendo a luz dos bares
Entre as cordas e o teu bandolim
E na leveza da dança
E na fossa dos contumazes
Hão de ressurgir olhares
Varando a noite sem fim.

É assim que um dia surge
Que a vida espalha a labuta
No talento e na permuta
Também no frigir dos acordes
Pois sei tudo quanto podes
O viço na cor de tua lira,
A benção da poesia
No compasso , na boêmia
Em tons de carmim e rouge…

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Mãe Gaia pede socorro – Lu Dias

Por LuDiasBH, 27 de fevereiro de 2009 16:08

A Terra vai se contorcendo, num movimento
elíptico, dentro do espaço azul, que a envolve e
o sol joga-lhe uma torrente de luz, trazendo-lhe
força, para que cada broto seu, renasça viril.

Os rios correm ligeiros sobre seu corpo de safira,
como potentes veias e artérias, levando vida pra
tudo que nela habita, enquanto o vento, em torno
dela, tece primorosas espirais, numa dança etérea.

Aos poucos, o sol vai saindo de fininho, pra dar
lugar à lua, que penetra humilde pelos minaretes,
templos e catedrais, palácios e choças, banhando
os reinos animal, mineral e vegetal, em deleite.

O universo inunda a Mãe Gaia com sua ternura,
enchendo o planeta de afeto, mas, mesmo assim,
ela está dobrada pela dor, judiada pelo sofrimento,
em muitas partes está famélica, quase um espectro.

Não mais consegue esconder a agonia; mostra
a sua dor e pede a compaixão do homem, que
não vê a sua angústia, atolado no delírio do
poder mesquinho, covarde, prepotente, insano.

Apesar de tão bela, vista de longe pelos olhos
brilhantes das estrelas que a observam, ela
soluça e afunda em desespero, enquanto o caos e
a confusão alastram-se sobre Gaia, aos borbotões.

Terra amada, fonte generosa de vida, quisera eu abrir
meu peito pra lhe dar guarida, não permitindo que lhe
arranquem os pelos verdes, intoxiquem-lhe as veias,
tingindo de cinza o azul de tantos tons e tantas belezas.

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Quem dá mais – Hila Flávia

Por Hila Flávia, 27 de fevereiro de 2009 12:23

Ora violentos como um raio
ora mansos como gota de orvalho

ora resignados como amélia
ora sensíveis como camélia

ora tristes como a chuva
ora contentes como a uva

ora sossegados como o anoitecer
ora desesperados como o empobrecer

ora esperançosos como o amanhã
ora saudosistas como anciã

ora amorosos como noiva
ora irados com doida

do alto de minha razão
contemplo, desalentada,
a inconstância de meus sentimentos

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Relembranças – Ana Lucia Timotheo da Costa

Por Ana Lucia Timotheo da Costa, 27 de fevereiro de 2009 8:54

Mães em quantidade à saída da escola.
Parecia um abrir de porteira.
Crianças de todo tipo: lourinhas, morenas,
mulatas, negrinhas, gordinhas, magrinhas…
Era a visão de um formigueiro ambulante.
Umas voltariam a pé para casa, outras de carro,
as restantes pegariam transporte urbano.
A expectativa era a mesma – o olhar das mães, semelhante.
Tanto a executiva quanto a dona de casa parecia “catar”
no meio da balbúrdia, a sua criança.
Crianças sorridentes, umas distraídas, outras
de cochicho a compartilharem segredos.
Por um momento voltei a fita da vida e
revivi no tempo, minha época de filho miúdo.
O sinal tocou alertando às últimas crianças que,
esquecidas em si, ainda brincavam no pátio,
que o portão voltaria a ser fechado.
Acordei para o hoje e tive a nítida certeza de que
muita coisa muda, mas a grande maioria se repete…

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Pinceladas sobre a Índia – Lu Dias

Por LuDiasBH, 26 de fevereiro de 2009 16:09

A Índia pode ser vista como uma nação, levando em conta o tamanho de sua população, a variedade de línguas, a diversidade de clima, literatura, arte, religião e filosofia.

Ali temos regiões geladas que sofrem as frias rajadas de vento e o nevoeiro vindos do Himalaia, assim como o calor seco das terras do sul, bem próximos dos 50º.

Segundo alguns historiadores “o calor enfraquece o físico do homem, encurta-lhe a mocidade e o leva a adotar o quietismo como religião e filosofia, pois o único alívio contra o calor é a inanição – entregar-se ao imobilismo, nada fazer, nada desejar; apenas esperar os meses de estio, quando o mar envia ventos refrescantes e chuvas fertilizadoras”.

Enganam-se, aqueles que pensam que foi a religião, que determinou o número de castas.

Os invasores arianos já chegaram trazendo regras de endogamia (proibição do casamento fora do grupo racial) e de exogamia (proibição do casamento com parentes próximos). Como consideraram o povo invadido inferior, embora fosse em número bem maior do que o dos invasores, os arianos trataram de dar garantias à própria raça.

Ao pensar na procriação, logo vem à mente o casamento, em qualquer cultura. Pois era por aí, que deveriam atacar, para garantir o status do grupo ariano. Caso contrário em, no máximo dois séculos, estariam absorvidos e assimilados pelos “inferiores”.

A primeira divisão de castas deu-se em função da cor. Os arianos eram separados dos nagas e dravidianos (primeiros povos da Índia). O que foi perpetuando cada vez mais e aumentando o sistema de castas.

Os párias ou dalits ou intocáveis inicialmente, vinham das tribos não convertidas, ou eram prisioneiros de guerra ou homens condenados à escravidão como castigo. Hoje, basta nascer numa família de intocáveis, ou não obedecer ao regime das castas.

O casamento obedecia a alguns estratagemas: ia do rapto da noiva à compra dessa ou a um acordo entre as famílias.

As mulheres preferiam ser raptadas ou compradas e pagas. Achavam deprimentes ser casadas através de acordos verbais.

Com o início da prática do “suttee” a vida da mulhere tornou-se um inferno. Ela tinha que obedecer a seu esposo, mostrando humildade, coragem e fidelidade até morrer. Não podemos nos esquecer de que o contato com o islamismo contribuiu, e muito, com a derrocada da liberdade da mulher.

Dharma – diz respeito à moralidade do hindu. É a regra de vida de cada indivíduo, determinada por sua casta. E a religião hinduísta sedimentou os preconceitos advindos da invasão indiana pelos arianos, ao definir para o homem os seus direitos e limites, dentro da própria casta. A fé fanática levou o hindu a não questionar a sua condição, fosse lá qual fosse.

Todas as castas deveriam seguir o dharma geral:

1- respeito aos brâmanes;

2- reverência pelas vacas;

3- respeito ao dharma da cada casta, sem intromissão;

4- a obrigação de ter filhos.

Os filhos eram de suma importância. Segundo o Código de Manu um homem só está perfeito, quando é três: ele, mulher e filho (eu disse filho). Levavam em conta que:

os filhos traziam vantagens econômicas para os pais, sobretudo na velhice;
eram responsáveis por manter a adoração dos ancestrais (oferecendo alimento aos mortos, pois sem esses as almas morreriam de inanição).

Mal nascia o rebento, os pais já começavam os arranjos do casório. Não se podia ficar solteiro, sob o risco de virar um pária, sem consideração social, cuja virgindade prolongada era uma desgraça para a família e o cidadão.

O amor não entrava nessa história. Xô Cupido! Vejamos as causas:

1- era de mais interesse para a casta e a sociedade do que para o casal;

2- a paixão só trazia cegueira e maus resultados;

3- tinha que ser arranjado antes que o sexo metesse a colher de pau (na verdade uma outra casta);

4- forma de o pai proteger a menina contra as sensibilidades eróticas do macho (a mulher era casta, não possuía desejos… risos);

5- o casamento por escolha mútua era permitido, mas não respeitável e, segundo o Código de Manu era apenas o filho do desejo sexual.

Quem sabe alguma coisa sobre o Kama-sutra (Doutrina do Desejo), sobre o qual ainda iremos falar, verá que ao macho tudo era possível.

Mahatma Gandhi opunha-se vigorosamente contra o casamento infantil, quando dizia que

“A mim repugna o casamento infantil. Arrepia-me ver uma criança viúva. Não sei de superstição mais grosseira que a que atribui ao clima da Índia a causa da precocidade sexual. A verdadeira causa está na atmosfera mental e moral da família indiana.”

A prostituição era confinada aos templos.

As devadasis eram as “servas de Deus, as “mulheres sagradas” (prostitutas) cuja função era dançar e cantar diante dos ídolos e depois divertir os brâmanes. Algumas eram reclusas, outras levavam os seus serviços a quem pagasse. E, como não poderia deixar de ser, parte da féria ia para os sacerdotes.

Na Índia, as paixões não influem no casamento. À mulher compete amar o esposo e tratá-lo com paciente devoção. “Ao esposo cabe dar à esposa, não afeição romântica, mas solíticita proteção.”, reza o Código de Manu.

Vejam como o Código de Manu refere-se, tão “cordialmente”, à mulher:

1 – é a fonte de desonra;

2- é a fonte de discórdia;

3- é a fonte de mundanidade;

4- cumpre, portanto, evitar a mulher (não sabia que era tão poderosa… risos).

A mulher que desobedecia ao marido tornava-se chacal na próxima encarnação (Vixe Maria, coitada das brasileiras!).

Ao marido, bastava alegar que a esposa não era casta, para obter o divórcio. Mas a vítima tinha que agüentar o sujeito até o fim de seus dias. Não podia divorciar. Sendo que, a viúva fiel não deve desejar sobreviver ao marido, e sim queimar orgulhosamente com ele na fogueira (contam alguns, que essa era uma forma, para impedir que as mulheres envenenassem os maridos. Tinham que fazer tudo para o dito ter vida longa).

Dizem, que os brâmanes se opuseram a tal prática no começo, mas depois de “muita iluminação”, aceitaram-na, interpretando-a como a eternidade do casamento: a mulher

que se casava, casada ficava pra sempre, nesta e na outra vida.”

Resta-nos saber, verdadeiramente, o que ainda persiste até hoje.

E você aí, mulher brasileira?

Está reclamando de quê?

Namastê!

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