Adriana Calcanhoto – Devolva-me

Por Timoneiro, 30 de junho de 2009 20:20

Fim de noite

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Crônica dos dias que correm – Charles Silva

Por Charles Silva, 30 de junho de 2009 19:10

 O que foi feito com os dias compridos da minha infância?! Quando eu era pequeno, mesmo quando acordava tarde, os dias eram fontes inesgotáveis de ações e pensamentos. Tudo cabia com folga nos dias lentos que acendiam a minha infância. Dava para dar muitas voltas no mundo inteiro.

O mundo inteiro era a minha rua e a rua onde minha avó morava. Numa única manhã, eu podia fazer o que hoje levaria meses. Eu brincava com Samantha, uma vira-lata pequena e alegre, guarda-costas inseparável que, se não me protegia dos perigos reais, era meu dragão protetor no universo que eu inventava. Depois de alegrar Samantha, “viajava” de bicicleta, pois no final da minha rua ficava a cidade de São Paulo, com seu trânsito congestionado, sua gente educada que jamais se esquecia de agradecer a viagem segura de volta promovida por mim.

De São Paulo, seguia imediatamente para o Rio de Janeiro, entrava no Maracanã lotado, o Zico me dava a camisa dez e ficava com a oito, ao meu lado. Ah, como era emocionante ver a torcida rubro-negra gritando meu nome: “Charles Maravilha, nós gostamos de você!” O juiz apitava o início da partida, Zico tabelava comigo, eu driblava dois adversários, devolvia pra ele, que, habilidoso, passava a bola pelo meio das pernas do zagueiro e cruzava na área pra eu completar de cabeça, de voleio, de bicicleta, ou então, matar no peito, driblar o goleiro, estufar a rede e correr para a torcida carioca, enlouquecida com o craque que eu era!

Mais tarde, no vestiário, eu brincava com as bolhinhas de sabão que escorriam pelo azulejo do banheiro. Minha mãe batia à porta, dizia que era pra economizar luz, me apressar com o banho. Mas o que era pressa naqueles tempos? Quando os dedos estavam murchos, era a hora de desligar o chuveiro. Então, deslizava a toalha sobre meus vinte e poucos quilos e, enquanto aguardava meu pai para o almoço, observava curioso o tráfego eterno das formigas. Num esforço conjunto com o Governo Federal, o pequeno exército inaugurava a BR Fome Zero muito antes do Lula, que ligava a cozinha da minha mãe ao castelo suntuoso onde moravam dezenas de milhares de saúvas.

Férias de três meses, para a criança que eu era, equivalia mais ou menos a três anos-adultos com sol, seis com chuva! Os minutos imitavam as formigas em ordem e demora. Mas as formigas-minuto não chegavam a lugar algum, porque ficavam dando voltas e mais voltas no mesmo lugar. Por isso, o formigueiro-relógio não prosperava como o das saúvas.

O sol fazia com as nuvens daquelas tardes um âmbar de ternura tão profunda que apenas os avós conseguem reproduzir quando olham seus netos crescerem sob a luz tênue dos fins de tarde que ainda se despedem… Adeus, Souza, Silva e Silveira! Adeus Fantin, Girardello, Orofino! Adeus Gómez, Canclini, Barbero! Adeus Bourdieu, Morin, Deleuze! Adeus crianças de outrora!

A grande novidade do final do século XX não foi a Engenharia Genética, a exploração espacial, a Física Quântica. Também não foram as tecnologias, Telemática, Robótica, Informática! O que marcou de forma definitiva a humanidade neste período foi o surgimento de uma nova família: os “Não Tenho Tempo!”, assim mesmo, com exclamação no final.

Dona de todos os cartórios de registro espalhados pelo mundo inteiro, essa família promoveu uma verdadeira revolução na árvore genealógica de quase todos indivíduos inseridos nas sociedades capitalistas. Foi com muito estranhamento que recebi o telefonema de meu pai dizendo que não viria para meu aniversário. E se o sobrenome do meu pai mudou, o meu haveria de mudar também. Foi assim que comecei a perder estréias de filmes, peças teatrais, lançamentos de livros, simpósios, defesas de mestres e doutores. É mesmo assustador ver a minha nova assinatura na carteira de identidade: “Charles Não Tenho Tempo!”

Fiquei pensando nos problemas oriundos de relacionamentos sangüíneos entre indivíduos de uma mesma família. Mas o tempo é pródigo em resoluções: à nova família, novas famílias. Foi na Biblioteca que me dei conta de que, junto aos livros de “Gilka Não Tenho Tempo!”, fulguram também os livros da “Maria Isabel Vamos Combinar Qualquer Hora!”, da “Ingrid Se Der Eu Vou!”, da “Mônica Qualquer Coisa A Gente Se Liga!”; enfim, um fenômeno curioso que merece ser pesquisado.

E a coisa parece acelerar de tal maneira que não há mais garantia alguma de que os filhos recebam o sobrenome dos pais. Minha namorada, “Mônica Me Esqueci Completamente!” e seu filho, “Robertinho Deixa Aí Que Depois Eu Faço!”, atestam essa anomalia.

Também os irmãos não têm mais o mesmo sobrenome. Minha irmã agora se chama “Denise Não Vai Dar De Jeito Nenhum!” e meu irmão, “Rodi Como É Que Eu Posso Estar Em Dois Lugares Ao Mesmo Tempo?!”

Talvez algumas crianças continuem compondo dias compridos. Talvez tenham tempo para dar várias voltas ao mundo inteiro numa única manhã. Talvez algumas dessas crianças ainda vejam nas formigas uma forma de entretenimento. A verdade é que eu cresci e me tornei mestre em Educação. Essa noite sonhei que havia aberto um jardim de infância. Como sempre faço com as coisas que amo, quis ver esse jardim de longe, por isso atravessei a rua e, num misto de felicidade e tristeza, observava as letras coloridas que compunham o nome da minha empresa: “Jardim Calma, Pai! Calma, Mãe!”

 

Charles Silva nasceu em 1966, na cidade de Florianópolis, onde reside até hoje. É mestre em Educação e Comunicação, poeta, cronista e contista. É autor do livro “do açúcar à pimenta”.  

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O Guru e o líquido sagrado – Lu Dias

Por LuDiasBH, 30 de junho de 2009 17:47

aguacomxixi

Nessa minha saga pela Índia, comprovo a cada dia, que a espécie humana é a mais risível dentre todas. Estamos muito além, no ranking, dos nossos irmãos macacos.

A parvoíce do homem não está restrita às fronteiras geográficas das nações, como alguns podem pensar. Não, ela se estende de Norte a Sul, de Leste a Oeste do estropiado planeta Terra.

Mas, sem dúvida, a Índia foi e continua sendo um campo fértil, para nos revelar os mais engraçados e incríveis relatos de figuras ocidentais, que ali chegam, muitas delas com Ph.D. nisso ou naquilo, em busca da salvação da alma, depois de terem aproveitado de tudo a que tinham direito, dentro do capitalismo selvagem.

Tais fatos lembram-me o caso de uma parenta, morena das mais fogosas, com um vasto rol de amantes que, depois de ter se enfastiado de atender aos desejos do corpo, e não sendo mais tão desejada, tornou-se a mais fervorosa devota de certa crença. Agora, a piedosa arrependida, chama a todos nós, que não compartilhamos de seu credo, de “mundanos” e “ferramentas de Satanás”. Ulucapatá!

Tanto num caso, como no outro, os personagens querem se libertar do tédio que há dentro de si. E, com dinheiro ou sem ele, mas com a mortificação das necessidades mais elementares, abandonam a realidade na tentativa de levitarem em direção ao paraíso.

Desconhecendo o desdém que lhes é emanado pelos “curadores’ espirituais, que só veem nos “desespiritualizados”, a pecúnia, de preferência, bem substanciosa.

Segundo a escritora indiana Gita Mehta, para todo aquele que busca a iluminação, na Índia encontra-se um “sábio”. Há artigos para todos os tipos de cliente. Are Baba!

Ela conta em seu livro, Carma-Cola, um fato cômico, para não dizer patético, que ora passo a relatar:

Um aristocrata inglês encabulou-se ao tomar conhecimento de um guru, que vivia numa aldeia remota do país indiano, possuidor de dons milagrosos, inclusive o de transformar sua urina em água perfumada de rosas, assim que vertida.

O fidalgo encheu as malas Louis Vuitton com a mais inabalável fé e partiu numa jornada difícil, em busca do conceituado religioso, cuja fama ultrapassara o Atlântico.

Lá chegando, foi cortesamente dirigido para se assentar na primeira fila da meditação matinal, fora da tenda, momento em que o mentor tirava da bexiga, o líquido miraculoso.

Para melhor compreensão do fato, não posso me esquecer de dizer que havia uma profusão de pessoas em volta da barraca do “mestre”, observada com um interesse polido, pelo inglês.

Para surpresa do requintado senhor, as pessoas, subitamente, indicaram-lhe, através de gestos, que deveria ir até a tenda.

Não querendo parecer arrogante (atitude peculiar aos ingleses), o nobre dirigiu-se ao local, onde se encontrava o guru.

Ao adentrar pela barraca, pelos sinais e gestos do sábio, entendeu que fora escolhido para levar os fluidos do guia espiritual aos devotos, que aguardavam ansiosos.

O vaso quente com o líquido milagroso foi posto em suas mãos, quando resolveu testar o odor de seu conteúdo.

O cheiro – pensou com seus botões – era de urina comum.

No entanto, continuou carregando o precioso líquido, para os devotos em estado de veneração profunda, sendo recebido com fortes aplausos.

Assustado, viu que a intensidade da ovação tornara-se mais forte, ensurdecedora, enquanto tentava decifrar os sinais ansiosos que lhe enviavam os assistentes do “homem santo” (todos os “divinos” possuem assistentes).

Foi quando, num vislumbre de racionalidade, conseguiu perceber que o venerável Mestre – num gesto magnânimo – permitia que ele bebesse TODO o conteúdo, sem ter que dividir com os demais presentes.

O leitor, em estado de estupor, deve estar aflito para saber, se o aristocrata bebeu o maná do guru ou o recusou.

Deixo a dedução a seu critério, depois de acrescentar o que ele dissera, na ocasião, aos amigos:

- Tinha um gosto incrivelmente parecido com urina comum!

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Perdão – Ana Lucia Timotheo da Costa

Por Ana Lucia Timotheo da Costa, 30 de junho de 2009 17:24

No seu rosto
uma certa condescendência.
Apesar da mágoa
deixou-se afagar.
Mãos confusas,
olhares discretos,
tímidos – pedintes.
Por que não?
Afinal quem perdoa
se perdoa …

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Comentário do dia

Por Timoneiro, 30 de junho de 2009 11:05

Copiado do blog do Noblat

Petista é fogo! Se você conta uma piada, eles levam a sério e se indignam.

Se você fala a sério, eles pensam que é piada e se indignam também.

Vá entender esse povo.

AREZENDEFILHO

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Pensamento do dia – 30 de junho de 2009

Por Hila Flávia, 30 de junho de 2009 10:16

Espoliou, espoliou e virou espólio. Adiantou?

Hila Flávia

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Fred Astaire e Ginger Rogers

Por Timoneiro, 29 de junho de 2009 21:15

Fim de noite

Cheek to Cheek (do filme “Top Hat”)

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