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A dura vida de um Brâmane

Por , 5 de março de 2009 17:09


Bramane
José de Abreu, sacerdote (Pandit) em Caminho das Índias

O homem que nasce alto se torna baixo pelas suas baixas associações, mas o que nasce baixo não se torna alto, por meio de altas associações. (Código de Manu)

Os brâmanes sempre gozaram das delícias do poder, tendo enfraquecido um pouco, apenas quando o budismo sacudiu a Índia. Mas esses sacerdotes, com a tenacidade que lhes é peculiar, deram uma volta por cima e reconquistaram o poder, ainda na dinastia dos Guptas. A partir do século II da nossa era, os registros já mostram grandes doações, principalmente em terras, feitas às castas dos brâmanes. Segundo alguns historiadores, a maioria das escrituras era fraudulenta. E, como nada não mais nos causa surpresa, as terras dos brâmanes eram isentas de taxas, mas só até a chegada dos ingleses.

Os britânicos não levaram em conta o Código de Manu que advertia o rei de que “nunca deverá taxar um brâmane, mesmo quando todas as outras fontes de renda estejam esgotadas, pois um brâmane irado pode imediatamente destruir o rei e todo o seu exército, apenas com a recitação das maldições dos textos místicos.” Está aí o motivo de tanta riqueza e tanto ouro. Além disso, os espertinhos instituíram que “o mais importante elemento em todos os sacrifícios aos deuses era a taxa paga ao sacerdote ministrante; e a mais alta demonstração de piedade era uma gratificação engrossando essa taxa”.

Mas a mina do rei Midas, não ficav apenas nisso para a casta bramânica. Ela ia muito, mas muito além. Ela estava presente nos milagres e nas superstições. Pois o brâmane podia tudo:

  • tornar fecunda uma mulher estéril;
  • conduzir negócios por meio de oráculos;
  • levar os homens de loucura “simulada” a confessar ao povo, que estava assim, por castigo, por serem pouco generosos com os sacerdotes (brâmanes);
  • tirar o mau augúrio que levava à doença, ao sonho desagradável, ao mau negócio.

O poder bramânico, muito espertamente, era assentado no monopólio do conhecimento. Cai muito bem para eles o provérbio de que “em terra de cegos, quem tem um olho só é rei”. Eles eram os reformadores e guardiães de todas as tradições hinduístas. Não havia para ninguém. E, polivalentes, eram educadores das crianças, compositores, editores e tudo mais.

A lei bramânica rezava que, se um sudra (a quarta casta em posição) ouvisse a leitura das Escrituras Hinduístas, deveria receber, como castigo, chumbo em fusão no ouvido. E se recitasse qualquer coisa dos livros divinos, tinha a língua cortada. Se das Escrituras guardasse qualquer coisa na memória, era cortado em dois. O bramanismo era apenas para os iluminados. Tudo era feito para que as castas baixas não tivessem acesso ao conhecimento, pois esse lhes daria poder, questionamento e revolta.

Um brâmane estava, por direito divino, sobreposto a todas as criaturas. Deviam ser mantidos através de doações públicas e privadas. Não escapava ninguém de outras castas. E, que ninguém tivesse a petulância de dizer que era por “caridade”, mas era sim uma obrigação “sagrada”. A hospitalidade a um brâmane constituía um alto dever religioso. E se era mal recebido, retirava-se levando todo o mérito das boas obras do hospedeiro.

Os brâmanes Nambudri exerciam o “jus primae noctis” sobre todas as noivas de seu território (até tempos recentes). Eles se ofereciam para curar a esterilidade das mulheres que passavam uma noite no templo em companhia deles.

Se um brâmane cometia um crime, jamais podia ser morto. O rei exilava-o, mas sem lhe retirar a propriedade. Quem “tentasse” bater num brâmane ganhava o castigo de sofrer cem anos no inferno. E, se o desafortunado chegasse a bater, o castigo passava para mil anos.

Se um sudra abusasse da mulher de um brâmane tinha a propriedade confiscada e muito pior ainda, tinha os órgãos sexuais cortados. O sudra que matava outro sudra obtinha o perdão através da doação de dez vacas aos brâmanes. Se o sudra matava uma vaicia ( pertencente à 3ª casta) tinha que dar cem vacas. Mas, se o maldito matava um brâmane, estava ferrado, fulminado, porque somente o homicídio de um brâmane era considerado como tal.

O infeliz brâmane tinha que:

  • banhar todos os dias e tomar mais um banho, se o barbeiro pertencesse a outra casta;
  • purificar com esterco de vaca o sítio onde ia dormir;
  • nas necessidades fisiológicas tinha que seguir um ritual higiênico. Usando nesse sagrado rito a mão esquerda ao lavar as partes pudendas com água.

Se um estrangeiro usasse papel, considerava conspurcada a casa. O brâmane usualmente lavava mãos, pés e dentes antes da refeição. Comia com os dedos e só usava duas vezes os mesmos pratos e talheres. Ao terminar a refeição lavava sete vezes a boca. A escova de dente (um fragmento de madeira) era sempre nova. Mascava folhas de bétel (um tipo de planta indiana) para branquear os dentes. Usava o ópio espaçadamente, pois tinha que se abster do fumo e do álcool.

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