A dura vida de um Brâmane – Lu Dias
Os brâmanes sempre gozaram das delícias do poder, tendo enfraquecido um pouco, apenas quando o budismo sacudiu a Índia. Mas esses sacerdotes, com a tenacidade que lhes é peculiar, deram uma volta por cima e reconquistaram o poder, ainda na dinastia dos Guptas.
A partir do século II da nossa era, os registros já mostram grandes doações, principalmente em terras, feitas às castas dos brâmanes. Segundo alguns historiadores, a maioria das escrituras era fraudulentas.
E, como não mais nos causa surpresa, as terras dos brâmanes eram isentas de taxas, mas só até a chegada dos ingleses.
Por certo os britânicos não levaram em conta o Código de Manu que advertia o rei de que “nunca deverá taxar um brâmane, mesmo quando todas as outras fontes de renda estejam esgotadas, pois um brâmane irado pode imediatamente destruir o rei e todo o seu exército, apenas com a recitação das maldições dos textos místicos.” (Poderoso!!!)
Está aí o motivo de tanta riqueza e tanto ouro. Além disso, os espertinhos instituíram que “o mais importante elemento em todos os sacrifícios aos deuses era a taxa paga ao sacerdote ministrante; e a mais alta demonstração de piedade era uma gratificação engrossando essa taxa”.
Isso é que é espírito de “abnegação”, para quem as coisas materiais não possuem valor algum. ULU é a pessoa que acreditava ou acredita em tamanha santidade!
Mas a mina do rei Midas, não fica apenas nisso para a casta bramânica. Ela ia muito, mas muito além. Ela estava presente nos milagres e nas superstições. Pois o brâmane podia tudo:
-
tornar fecunda uma mulher estéril (desde que o defeito fosse no homem, penso eu);
-
conduzir negócios por meio de oráculos (sempre levando a melhor parte);
-
levar os homens de loucura “simulada” a confessar ao povo, que estava assim, por castigo, por serem pouco generosos com os sacerdotes (brâmanes);
-
tirar o mau augúrio que levava à doença, ao sonho desagradável, ao mau negócio.
O poder bramânico, muito espertamente, era assentado no monopólio do conhecimento. Cai muito bem para eles o provérbio de que “em terra de cegos, quem tem um olho só é rei”.
Eles eram os reformadores e guardiães de todas as tradições hinduístas. Não havia para ninguém. E, polivalentes, eram educadores das crianças, compositores, editores e tudo mais.
A lei bramânica rezava que, se um sudra (a quarta casta em posição) ouvisse a leitura das Escrituras Hinduístas, deveria receber como castigo, chumbo em fusão no ouvido (Haja bondade!).
Se recitasse qualquer coisa dos livros divinos, tinha a língua cortada (Nada de sabedoria para a gentalha).
Se das Escrituras guardasse qualquer coisa na memória, era cortado em dois (Todos deviam responder: Não sei, não vi, não dou notícia!).
O bramanismo era apenas para os iluminados (Povo é povo em todos os tempos).
Um brâmane estava, por direito divino, sobreposto a todas as criaturas (Legal para eles!)
E os “coitadinhos” ainda tinham que ser mantidos através de doações públicas e privadas. Não escapava ninguém de outras castas. E, que ninguém tivesse a petulância de dizer que era por “caridade”, mas era sim uma obrigação “sagrada”, sacratíssima.
Saibam que, a hospitalidade a um brâmane constituía um alto dever religioso. E se o pobre infeliz era mal recebido (encontrou uma pedra no arroz), retirava-se levando todo o mérito das boas obras do hospedeiro (Que perigo!).
Os brâmanes Nambudri exerciam o “jus primae noctis” (hahahaha) sobre todas as noivas de seu território (até tempos recentes).
Eles se ofereciam para curar a esterilidade das mulheres que passavam uma noite no templo (Coitadinhos, que serviço mais pesado!).
Se um brâmane cometia um crime, jamais podia ser morto. O rei exilava-o, mas sem lhe retirar a propriedade, é claro.
Quem “tentasse” bater num brâmane ganhava o castigo de sofrer cem anos no inferno. E, se o desafortunado chegasse a bater, o castigo passava para mil anos.
Se um sudra abusasse da mulher de um brâmane tinha a propriedade confiscada e muito pior ainda, tinha os órgãos sexuais cortados (Virava eunuco, quando não morria!).
O sudra que matava outro sudra (coisinha àtoa) obtinha o perdão através da doação de dez vacas aos brâmanes (Eta gentinha amiga do Gerson, sempre levando vantagem!)
Se o sudra matava uma vaicia ( pertencente à 3ª casta) tinha que dar cem vacas (uma troca mais do que justa).
Mas, se o maldito matava um brâmane, estava ferrado, fulminado, porque somente o homicídio de um brâmane era considerado como tal. (Morte ao infrator, sem apelação!)
O brâmane era obrigado a estudar as leis e aprender os Vedas (pelo menos isso). Jamais poderia casar fora da casta. Lá vem o Manu:
“O homem que nasce alto, se torna baixo pelas suas baixas associações, mas o que nasce baixo não se torna alto, por meio de altas associações.”
O infeliz brâmane tinha que:
-
banhar todos os dias e tomar mais um banho, se o barbeiro pertencesse a outra casta;
-
purificar-se com esterco de vaca o sítio onde ia dormir;
-
nas necessidades fisiológicas tinha que seguir um ritual higiênico.
-
Usar nesse sagrado rito a mão esquerda e lavar as partes pudendas com água.
Se um estrangeiro usasse papel, considerava conspurcada a casa. (Alguns médicos dizem, hoje, que o papel deve ser usado apenas para secar aquelas partes de fino trato).
O brâmane usualmente lavava mãos, pés e dentes antes da refeição. Comia com os dedos e só usava duas vezes os mesmos pratos e talheres. Ao terminar a refeição lavava sete vezes a boca. A escova de dente (um fragmento de madeira) era sempre nova.
Mascava folhas de bétel (um tipo de planta indiana) para branquear os dentes. Usava o ópio espaçadamente, pois tinha que se abster do fumo e do álcool.
Na Índia hinduísta, nenhuma decisão é tomada sem primeiro consultar o sacerdote (Pandit), que sempre aproveita dos casamentos e negócios para tirar mais dinheiro das famílias.
E depois alguns dizem, que não existe paraíso na Terra.
Quanto engano!
Nota: este texto é uma homenagem ao leitor(a) de SCOTTSDALE (Arizona) que jamais deixou de ler um só tema, desta nossa viagem.
Obrigada, amigo(a), deixe nos comentários o seu “alô”.
Namastê!
Veja também...
Imprimir
Enviar a um amigo
3.548 views













Oi Lu,
Cada vez mais me surpreendo com esta pirâmide de interesses na antiga sociedade indiana. Mas agora foi demais com esta do sacerdote. Certamente havia levantes contra esta turma, mas eficientemente eliminados!
Continuando aguardando contato. Parece que desistiram da viagem!
Messias
lu dias bh respondeu:
março 5th, 2009 at 17:10
Messias
Mande quem pode, obedece quem tem juízo.
E quem é louco de lutar contras os brâmanes, com tanto castigo.
Queremos a vigem 08000.
Abraços,
lu
Lú, longe desses Brâmane em furia eu Heim!!!!!
Abraços
lu dias bh respondeu:
março 5th, 2009 at 17:12
Massa
Já pensou na possibilidade de virar um deles?
Veja quantas vantagens… risos.
Até curar mulher estéril.
Beijos,
lu
Êta ferro! Por esta e por outras é que Nos Contos de Canterbury já se dizia que não havia homem no céu pois o céu dos homens era na terra. Deviam estar pensando nos amiguinhos brâmames. Gente boa! ( mais um texto para meu precioso caderno). Bjs
Hila
O céu de alguns homens é a Terra, mas para outros sobra o purgatório ou o inferno.
Mas que aqueles privilegiados levam uma vida de nababo, isso é verdade.
E ainda há quem tenha pena do serviço dos “coitadinhos”.
Nós é que não somos!
Beijos,
Lu
Hare,
E o José de Abreu está ótimo no papel de Pandit. Tic?
Djan Paulo
Ele está ótimo.
Mas horroroso.
Risível…
HAAHAHAHAHAHAHAHAHAH
Beijos,
lu
Lu querida, leio todas as suas postagens e respostas. Infelizmente, não
tenho acompanhado todos os comentários, como gostava de fazer.
Ando, de fato, sem tempo algum. O despertador permanece ligado o dia
todo para que eu não esqueça a hora dos remédios de Eric. Ele se opera
de catarata semana que vem, e isso já vai nos dar uma noção sobre se a
tonteira que ele sente é da vista ou não. Depois precisamos saber até
que ponto o hipotireóidismo acentuado está simulando sintomas
semelhantes ao Parkinson. E ainda temos que fazer exames da coluna
cervical e ir ao neurologista no próximo dia 20.
No meio dessa confusão, estou concluindo o texto sobre Tatiana Leskova
para a São Paulo Companhia de Dança, tenho que estar presente a
Joinville, mesmo virtualmente, e à faculdade.
Estou cansada, mas bem animada com a possibilidade de Eric ficar bom,
voltar a dirigir e a amar a vida.
Na verdade, amiga, pouco tempo tive para chorar a morte de minha mãe.
Resolvi até criar uma comunidade pra ela e papai. Pronto, vira minha
homenagem.
Um grande beijo da Cami
Cami
Não entendi se o seu comentário era para ser postado aqui ou não.
Como não foi no meu e-mail pessoal, imaginei que sim.
Preocupe-se apenas com o Eric.
O resto, depois verá com calma.
Todos nós passamos por momentos difíceis em nossa vida.
Temos que atravessá-los a qualquer preço.
Sei como é dedicada e carinhosa.
O Eric vai ficar ótimo!
Estamos torcendo por ele.
Acredite nas manifestações de cura da vida.
Sua mãe continua velando por você.
Sinta a presença dela perto de si.
Quando tudo estiver normal, volte novamente para nós, como antes.
Grande beijo para esse coração lindo que há dentro de você.
lu
Lu,
Cada vez mais me surpreendo com a India. A reflexao maior a partir de seus textos que o maior investimento em um povo é a educaçao. Com certeza tudo seria diferente!
beijoosss
lu dias bh respondeu:
março 6th, 2009 at 11:58
Tati
Sem dúvida alguma.
É a educação que nos abre os olhos para o mundo.
Mas é bom que se faça a diferenciação entre educação e conhecimento.
Na Índia, parece-me que o arquivo de conhecimento bate de cara na educação, que é a transformação de um povo, levando-o a uma postura crítica.
A olhar o mundo com os olhos do humanismo.
Beijos,
lu
Oi Lu, andei meio sumida, estava viajando para minha terra. Cheguei com sede de seus textos. Este aqui me deixou estarrecida!
Beijooo
Aline
lu dias bh respondeu:
março 6th, 2009 at 12:00
Aline
Que bom que tenha chegado.
Estava com saudades.
Já estamos chegando ao fim dessa nossa viagem.
Para recomçarmos outras.
Beijos,
lu
Oi Lu,Bom dia…
Mais uma vez fico á beira da revolta com tanta injustiça e poder na mão de pouquissimos que abusam e deixam os pobres mais pobres ainda (se é que é possilvel em um país com tantos contrastes), mas me encanto com a informação e a forma como vc a coloca.
Obrigada por me enriquecer viu?!?
Muitos beijos e que venham mais…
Lilian
Lílian
Também tenho aprendido muito, sempre que faço uma nova pesquisa.
Agradeço o incentivo de vocês.
Saiba que faço com o maior carinho.
Meus leitores merecem o máximo de mim.
Mas já estamos chegando ao fim da viagem.
Mais algum poucos dias e retornaremos ao Brasil.
Beijo,
lu
Lu, serei brâmane e não terá pra ninguém. E tenho dito. Como sempre, comentar teus ótimos textos é ser repetitivo e chover no molhado. Mas que dá gosto lê-los! Ho! Se dá!
Beijos,
Moacyr.
lu dias bh respondeu:
março 6th, 2009 at 13:53
Moá
A sua avaliação é muito importante para mim.
Obrigada!
Não seja um brâmane!
O que farei eu, se já sou uma “manglik”?
Veja se põe o chapéu mais abaixo, de modo a me alcançar.
HAHAHAHAHAHAHA
Beijos,
lu