Li, numa entrevista do escritor Rubem Alves, que as coisas aconteceram na vida dele de forma certa porque tudo que ele planejou deu errado.
E olha que isso tem me acontecido com freqüência cada vez maior. Não sei se estou perdendo a capacidade de planejar, se estou perdendo a intuição, sei lá, como muxoxa o caboclo, sei lá!
Minha vida foi sempre pautada por um planejamento muitas vezes inflexível. De longo, médio e curto prazo. Determinava meus objetivos e não os perdia de vista. Não que fizesse tudo para conseguir, mas dava voltas, voltas, e acabava, sem nenhum sacrifício maior que o normal, dando conta do recado. Assim fiz meus cursos, trabalhei mais de quarenta anos fora de casa, persegui uma aposentadoria que me bastasse e para tanto me preparei a fim de alcançá-la, publiquei meus livros depois dos quarenta anos de idade, quando foi possível editar, e viabilizei outras metas definidoras da caminhada. Evidente que, ao sabor da imprevisibilidade, montei nos cavalos arreados que passaram pela minha porta e, assim, fui tocando em frente.
Mas, agora, as coisas mudaram. Planejo uma coisa, dá outra. Jogo no leão e dá pavão. Compro passagem para a Lua, acabo chegando ao Sol. Trem danado. No princípio, a existência dos planos B, C, D, e assim por diante, me desconcertou completamente. Fiquei assim meio andando em linhas sinuosas, logo eu, uma criatura de retas intenções.
Passado o impacto das mudanças, estou adorando o novo esquema. Deixando a vida me levar, as coisas ficam mais leves e nem sofro mais o impacto do inesperado, que me fazia sofrer. Não gostava de surpresa e hoje saboreio planos alternativos e me adapto a eles com a rapidez de um raio.
O único senão é explicar o inesperado, quando isso se faz necessário. Como, por exemplo, faltar a uma reunião de confrades por causa de uma pinçada no nervo ciático impedidora de locomoção. Fico triste, pois, minha vontade é comparecer. A dor é forte mas sei que passa. A pausa possibilita ler, aquietar, pensar. Outra situação que vou ter que aceitar é quanto à hidroginástica. Poucas coisas na vida me dão mais prazer do que água. Recomeço o exercício tão necessário e, de repente, algo acontece e sou forçada a parar: uma gripe forte, uma lesão muscular, infecção de ouvido, ataque da artrose por causa do tempo que muda, e por aí vai. Fico numa tristeza só, até recomeçar. Nesses períodos, sou obrigada a ficar de castigo, sabendo de tanta vida pulsando lá fora. Também sei que passa, como tudo no mundo. Mas, até passar, é preciso exercer o dom da paciência em grau elevado.
O cantador, quando explicou que anda devagar por que já teve pressa, tomou uma sábia decisão de vida. Já tive muita pressa e custei, muitas vezes, a entender as paradas da vida. A bem da verdade, jamais compreendi, mas, hoje, que deixo que a vida me leve, soltei as rédeas da montaria e estou que nem o Frei Rosário, saudoso amigo ermitão da Serra da Piedade: quando ainda não existia a estrada que nos levava ao alto da montanha, os carros eram deixados numa casa ao sopé do morro e todos montavam em burros para subir o íngreme caminho rumo ao topo, muitas vezes furando baixas nuvens. Frei Rosário só dizia: soltem as rédeas que o animal nos leva em segurança. Enquanto isso, vamos rezar: Pai Nosso, que estais no céu…
E não é que se chegava lá em cima sem nenhum problema?
Pois é!
Hila Flávia nasceu em Pará de Minas/MG. Mora em Belo Horizonte há anos, desde que se casou. É mãe, avó, dona de casa, esposa, companheira, fazedeira de colchas de retalhos, escritora de muitos livros para gentes de todos os tamanhos. Faz parte da ALPM-Academia de Letras de Pará de Minas, cadeira: n. 9, Patrona: Cora Coralina.
A partir de agora estará presente nas nossas páginas.
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26 de agosto de 2008 at 11:05
Que coisa alegre e maravilhosa lê-la Hila! Nossa, e que lição perfeita nos dá o frei Rosário,imaginei voces de forma colorida lá, com os burricos e dá-lhe fé e reza…reza e fé…Olhe, só posso dizer que é muito agradável conhecer suas linhas! Abraços,Nina.
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26 de agosto de 2008 at 18:07
Adorei o texto, alías adoro todos os que leio aqui… e neste ano senti na pele ter que parar por que o corpo não quis me acompanhar… nas pedaladas caí e fraturei um ossinho da mão, tentei correr 3 vezes na semana e após 40 dias arrumei uns probleminhas no joelho, o tal menisco se rachou e outras coisinhas… mas não desisto e me sinto uma atleta e paro para logo recomeçar… Adorei essa frase:
“Não gostava de surpresa e hoje saboreio planos alternativos e me adapto a eles com a rapidez de um raio.”
Beijosssss
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26 de agosto de 2008 at 19:12
Hila,
Muito bom tê-la aqui.
[Resposta]
26 de agosto de 2008 at 19:37
Hila Flávia
Há muito que carrego uma filosofia de vida comigo “faça o possível para viver bem o presente momento e aguarde sem ansiedade o que está por vir”. Por mais que planejemos, jamais seremos donos de nossa existência.
E o grande Mestre foi sábio ao dizer ” A cada dia o seu labor”.
É lógico que sou uma pessoa responsável, mas a minha meta não ultrapassa os limites das possibilidades.
E vivendo assim a gente se torna mais otimista, mesmo derrotista e irritado.
Deixa a vida me levar
Vida leva eu…
Foi um prazer ler a sua crônica.
Grande abraço!
[Resposta]
3 de setembro de 2008 at 2:13
Hila Flávia,
belo texto!
Esse esquema de vida de aposentada é dos melhores. Deixar-se levar pela vida, pelo improviso, pelo inesperado, pelas surpresas.
Ser o chefe de si mesmo. Apenas.
E, de repente, ser mais feliz.
Beijos,
Tereza
[Resposta]