A idiossincrasia do mestre Heráclito – Charles Silva
O professor Heráclito adorava futebol. Seu maior tesouro era uma fotografia amarelada que trazia sempre consigo, caso a memória pensasse um dia também em amarelar.
1970. Eu contava então vinte anos. “Eis os doze titulares”, dizia a todos após a conquista do tri. E era mágico aquele momento em que contávamos várias vezes o número de jogadores até que se chegasse à conclusão espantosa: eram doze! Aquele craque ao lado de Pelé, cabelos longos e sorriso largo, peito estufado e olhar travesso se chama Heráclito!!!
Estudar história com ele era incrível. A turma se acotovelava pelos corredores, ignorava as escadas, escalava as paredes e se espremia na porta, na esperança de conseguir um lugar confortável para observar a entrada do mestre em campo. Tudo nele era imprevisível: a voz, o andar, a cor do giz, aula na sala ou no pátio… Nessa época não sabíamos precisar a distância entre prazer e aventura.
“A vida é um risco a nos saber sangrar de felicidade”, dizia, sempre que ficava satisfeito com o nosso desempenho. E sorria com as mãos o que não cabia nos dentes. Ao contrário dos outros professores, não fazia a chamada, dava a escalação: “goleiro, Alexandre; zagueiros, Beatriz e Beto; lateral direito, Carlos; lateral esquerdo, Débora…” Não importava o tamanho da turma. O professor Heráclito inventava funções para todos. Assim, depois de escalar titulares e reservas, chamava a comissão técnica, a equipe jornalística, a torcida organizada, enfim, todo o universo futebolístico.
Quando o treinador falava, um som grave ecoava por toda sala e o time inteiro ficava atento à espera do pontapé inicial. Era incrível ver como aquele homem baixinho de calva e barriga, com seus óculos de lentes pesadas, mãos pequeninas, pernas curtas e grossas, dominava aquela oitava série bagunceira e campeã em notas baixas. Para deixar claro que uma considerável parcela dos habitantes das cidades européias, à época do Antigo Regime, pertencia aos grupos da burguesia comercial, compunha música, fazia teatro, contava piadas e inventava uma série de atividades que instigavam nossa imaginação.
Certa vez, ao perceber que a turma toda estava “viajando”, o capitão Heráclito propôs que fizéssemos um barco humano. Foi um sucesso. Conseguimos compreender por que a maior parte das grandes cidades européias, por volta do século XVIII, dependia de portos. Essas atividades, feitas de improviso, contribuíram bastante para que as quarenta cabeças de repolho não naufragassem naquele ano.
O professor Heráclito se referia aos três estamentos do Antigo Regime como se fossem times de futebol. Afirmava que dois deles pertenciam à elite, mas o outro, o time do povão, era o de maior torcida. Insistiu inúmeras vezes que era praticamente impossível, naquela época, os jogadores mudarem de clube.
Um dia ele entrou na sala de mau humor. Com um grito poderoso derrubou Marcinha, que era uma espécie de graveto esverdeado com orelhas gigantes. “O estado sou eu! A vontade de Deus é que todo aquele que nasceu súdito obedeça cegamente”! Nem mesmo os mais bagunceiros ousaram se mexer. O “seu coisinha” ficou o tempo inteiro de cara fechada e só na aula seguinte explicou sua estratégia. Então sorrimos aliviados.
As gargalhadas eram constantes nas aulas do palhaço Heráclito. Senhor absoluto do picadeiro, transformava-se em domador, equilibrista, mágico, trapezista, palhaço e às vezes, professor. Mas o personagem preferido por todos era o extravagante técnico de futebol. Aí ele era impecável.
Nunca esquecerei aquela tarde em que o treinador fez a escalação oficial da turma do barulho. Aproximou-se de Perivaldo, monstrinho ruivo de voz aguda, e falou com emoção fingida: “John Locke, você será o capitão do maior time da história – o Iluminista!” Olhou para Joaquim e Ariovaldo, o primeiro de pouca inteligência, o segundo de muita preguiça, e prosseguiu com a voz inflamada: “Para compor o meio de campo, Montesquieu e Voltaire!” Caminhou até o fundo da sala e espetou os olhos em Carlão, mestre da cola e da mentira: “Rousseau, você será o nosso centroavante!” Depois se voltou para Pedrinho e Manoel, os caras mais engraçados do colégio: “Diderot e D’Alembert, vocês serão os zagueiros.” Coube a mim ser o arqueiro deste time histórico e atender pelo nome de Adam Smith.
Nossos pais eram torcedores fiéis, mas muito exigentes. Enquanto o placar não se mostrasse favorável, nossas orelhas camaleônicas desafiavam “a insustentável leveza do ser” ao mesmo tempo em que descobríamos que chinelas e cintos, dentre tantas outras coisas, e não menos importantes, são objetos de tortura caseira.
Naquele ano, porém, o Iluminista não foi campeão. O professor Heráclito não resistiu ao aneurisma cerebral e faleceu. O colégio inteiro desbotou. As crianças trocaram risos por rugas, e durante muito tempo tivemos um entardecer com vários sóis caindo sem que a noite chegasse.
Charles Silva nasceu em 1966, na cidade de Florianópolis, onde reside até hoje. É mestre em Educação e Comunicação, poeta, cronista e contista. É autor do livro “do açúcar à pimenta”.
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CHARLES
Lembrar os tempos de estudante, dos saudosos professores, dos colegas mais engraçados, aquela vida tão cheia de alegria e prazer, um viver irresponsável paradoxamente responsável !
Ao ler seu texto, excelentemente escrito, a saudade bateu forte e desfilaram emoções nostálgicas… mas não me senti triste, por compreender que tudo passa, mas o outro ser querido e amado fica inesquecível e eterno em nossa memória.
Hegel dizia: nós somos o outro.
E você, acredito, é o Heráclito que restou dentro de seu coração.
O bom professor é aquele que aprende sempre com seus alunos. O seu deve ter aprendido muito com eles, pois foi um mestre e tanto. Vida que valeu a pena viver, certamente.