A máfia – Parte 1 – Edgard Santos
Fazer simplesmente o melhor, primar pela excelência; esforço contínuo, denodado, que leva certamente à satisfação final de contemplar a obra concluída. O que para uns – pequena minoria – é uma rotina tão simples e natural quanto mudar de sobrecasaca, para o restante da humanidade exige certa dose de concentração e esforço, às vezes mal visto, mal compreendido e, não sem frequência, invejado. Parece que o homem ainda se encontra longe de aceitar, sem lástima e frustração, certos fatos da vida. Um amor não correspondido, um estudo cuja finalidade deturpou-se em razão de outros interesses, uma espera infrutífera são, por um lado, a meaças ao bem estar da alma. Entretanto, se bem analisados e aceitos, podem representar a liberdade de ação, a independência, a vitória sobre a ilusão e a fatuidade.
Essas palavras, que na verdade não eram palavras e sim idéias, dançavam e se remexiam na cabeça de um homem, acendendo de entusiasmo e energia todo o seu processo pensante. Ia ele pelo canto da rua, querendo aproveitar os últimos centímetros da sombra que aos poucos se despedia da calçada, enquanto ruminava esses conceitos filosóficos. Era Ernesto, 56 anos, dirigindo-se para mais um dia de trabalho na empresa que já acolhia seus préstimos pelos últimos trinta e cinco. Era um dia especial para ele, pois ia se aposentar. Acordou já inspirado, entabulando pensamentos resultantes de intermináveis projetos mentais que o acompanhavam há vários meses. De mãos nos bolsos e cabeça baixa, ia tão absorto que mal respondia aos cumprimentos de um ou outro conhecido que com ele cruzava. A travessou a rua e foi para o ponto de ônibus; desta vez, os quase vinte minutos de espera sequer lhe incomodaram. Até passaram depressa, interrompendo seus devaneios futuristas. Entrou e refestelou-se na última poltrona junto à janela. Enquanto olhasse as paisagens mais do que conhecidas, colocaria em ordem os pensamentos embaralhados. “Tem tudo para dar certo, tem que dar certo”, pensava. “Tenho que manter o segredo na companhia”.
Já estava cansado daquela rotina monótona e frugal. Não fazia outra coisa nos últimos dias que não fosse rejeitar e odiar a idéia que, não só ele, mas todos – e isto era o que mais lhe doía na consciência – faziam de sua vida. Pobre Ernesto naquela manhã; mais do que negativos eram os seus pensamentos. Chegavam-lhe a ser repugnantes. “Sou um inútil”, dizia em voz baixa para si mesmo, com receio de que o passageiro ao lado ouvisse e com mais receio ainda de que ele, zangadamente, confirmasse: “Tudo bem, amigo; concordo qu e seja um inútil. Agora, me deixa dormir em paz, falou?”. Mas, isso não aconteceria. Seu companheiro de viagem dormia feito rocha e ainda roncava. Então sua mente seguia a lhe pregar peças. Planos arrojados, antes de serem concluídos, davam lugar a lampejos de frustração que por vezes desanimavam-no, trazendo a indecisão. Desta vez, porém, ele não falharia. Iria mostrar ao mundo o seu talento. “Cansei de ser um João Ninguém”.
A família de Ernesto não era grande, porém, maior do que o seu parco salário podia sustentar. Na verdade poderia, não fosse o maldito vício que o embebedava, que por sinal não era o da bebida, embora tomasse alguns tragos com os amigos de vez em quando. O que vinha consumindo as forças e a felicidade de Ernesto era o jogo. Este sim era o responsável por quase todas as desculpas que tinha de dar com frequência a quem devia; e isso era em quase todos os lugares que frequentava, exceto junto à corja que o acolhia com pr azer sádico porque ali não tinha escapatória: era pagar ou morrer.
Contudo, o maior desafio para Ernesto estava dentro da sua própria casa, na figura da mulher, sua maior credora. Com efeito, suportar os trauteios de Dalva era tarefa acima da capacidade dele. Por isso não se afligia, mas refugiava-se, o que era pior ainda. Por amá-la, sofria, mas, por amar também o jogo, sofria ainda mais.
Ainda assim, a esperança era a grande arma de Ernesto. Por ela suportava o dia a dia sufocante do banco que, quando confirmou e aceitou o seu pedido de aposentadoria, transformou-se numa espécie de pelourinho acolhedor de mais um candidato à liberdade. Portanto, aquele era um dia mais do que especial para ele; é claro que iria aproveitar. Prometera a Dalva que seria em forma de comemoração. Chegaria a casa cedo, lá pelas seis, e a levaria para jantar; iriam a um cinema e terminariam a noite de forma especial, dedicada aos dois e ninguém mais. Afinal, el e bem merecia. E ela mais ainda. Pois, já se perdera no tempo a última vez em que saíram a sós para qualquer coisa, imagina para um programa como este. Custou, mas Dalva acreditou e ficou esperando. Na companhia, abraços de despedida, tapinhas nas costas e dissimulações de saudades antecipadas eram vistos por Ernesto com a mesma veleidade característica de sua vida até então. Houve de tudo na despedida: de bolo a aclamações em sua homenagem, repletas de verborragia.
Às cinco, ligou para Dalva. Chegaria um pouco atrasado em função da necessidade de atender aos pedidos de outros amigos – não mais da empresa – no sentido de lhe prestarem outra homenagem. Ernesto sabia que não era para aceitar, mas não teve como; seria uma tremenda desfeita. Entre eles estava Jabara – que Ernesto conhecia desde os tempos de adolescência – e outros mais recentes. Não se podia afirmar com convicção que era Jabara o melhor amigo de Ernesto, mas sempre lhe fora fiel e com isso ganhou total confiança ao longo do tempo. Mas, a reputação de Jabara perante a sociedade não era das melhores e até passava longe dos simples débitos monetários do nosso personagem principal.
Muito bem, Ernesto entrou no carro e foram parar no Taliatteli, um dos mais caros e requintados restaurantes da Barra da Tijuca. Sem problemas e tudo por conta de Jabara. No caminho conversaram animadamente. Ernesto ao lado do companheiro que dirigia e mais três no banco de trás. Dentre eles havia um totalmente estranho ao recém aposentado; os outros o chamavam Nico, na intimidade. Domenico, seu verdadeiro nome, era um italiano radicado em nosso país há menos de cinco anos. Era um homem vigoroso, apreciador das massas óbvias de sua pátria, que veio ao Brasil em 89 para longas férias de três meses com a mulher e o filho de 28 anos. Queria, na verdade, fugir um pouco da pasmaceira habitual que eram seus dias lá em Florença.
Gostou tanto do clim a favorável a negócios escusos que esqueceu seus escrúpulos de bom samaritano e acabou envolvendo-se em rapinagem e contrabando, crime visto por aqui com outros olhos e, a depender deles, até passável. Mas, Nico deu azar. Quis estender demais as mãos ávidas de enriquecimento ilícito, portanto fácil, e acabou perdendo tudo. Foi parar atrás das grades, de onde conseguiu se safar graças a certas influências e algum dinheiro que possuía. Todavia, os poucos meses que passou enjaulado foram suficientes para deixá-lo à beira da falência. Os companheiros de crime fugiram do país levando o produto de suas trapaças. A mulher o abandonou. O filho casou-se após formar-se em advocacia e retornou à Itália, levando a mãe e o seu sofrimento. Nico vivia agora de frustrações inquietantes e das lembranças que lhe atormentavam. Queria reencontrar-se, mas via dificuldades e não achava apoio.
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Dhiga
Qualquer que seja o nosso trabalho, tudo acaba em rotina,de modo geral.
Entretanto, nenhum dia é igual ao outro, pois a essência da vida é a sua fluidez.
E, quando se aposenta com um salário que se julga injusto, fica muito mais difícil carregar essa aposentadoria.
O personagem Ernesto parece um homem bom, mas também uma pessoa muito fraca, com medo de tomar decisões, quer em casa, quer na vida, de um modo geral.
Pela vida que ora leva, presumo que vá entrar numa encrenca brava, ao lado do não tão amigo Jabara.
O jogo é um vício feroz, que necessita de tratamento.
Vamos ver o que acontecerá com o nosso amigo Ernesto.
Parabéns por nos apresentar personagens tão comuns e humanos.
Abraços,
lu
Edgard Santos respondeu:
fevereiro 8th, 2010 at 14:51
@LuDiasBh,
lu,
Você sempre analisa muito bm a situação. Ernesto vai entrar num imenso pepino, espero que goste,
E.S.
Oi, Edgard
Você aborda duas situações angustiantes no conto: a aposentadoria, que é horrivel quando mal encaminhada, e o jogo.
Estou na época de decidir sobre a primeira e ando em círculos, sem saber o que fazer. E não estou falando na parte financeira, eu me refiro a colocar o chinelo no pé e enfrentar as 24 hs. de cada dia.
Vamos ver o complemento, vem coisa triste por aí.
Abraços
Manoel
Edgard Santos respondeu:
fevereiro 10th, 2010 at 13:27
@manoel rodrigues,
Meu amigo,
Nesse caso, não há outra saída a não ser arranjar uma atividade. Se for remunerada, melhor ainda. Penso que o homem não foi feito para se aposentar e nem ser escravo de outro homem. Temos que procurar, sim, deixar o melhor para a humanidade, ou seja, fazer com que nossa passagem por aqui tenha valido a pena – para o mundo, principalmente.
O conto vai criar situações ainda mais angustiantes para Ernesto, mas, que tudo sirva de exemplo. Abraçõ,
E.S.
manoel rodrigues respondeu:
fevereiro 10th, 2010 at 22:16
@Edgard Santos,
Edgard
Você tem absoluta razão quanto à procura de uma atividade. O único ponto é que ela tem que corresponder a algo interessante e que preencha um razoável volume de tempo disponível.
Vou ler a segunda parte do seu conto, espero que o Ernesto não sofra muito.
Abraços
Manoel
EDGARD
Excelente início do conto.
Parabéns.