A Máfia – parte 4 – Edgard Santos
– O que quer de mim? – começou com esta pergunta.
– Absolutamente nada.
– Não entendo; poderia ser mais claro?
– Com prazer. Você já é nosso sócio; só tem agora que colaborar um pouco mais.
– Não sei se estarei disposto a colaborar com traficantes. – As feições de Nico se avermelharam com esta frase de Ernesto. Os olhos coruscavam e certa dose de ira tornou-se indisfarçável. Ernesto chegou a arrepender-se de ter soltado aquelas palavras que frustraram sua intenção primitiva de conter seus reais sentimentos. Mas já era tarde. O italiano seguiu frio nas palavras, contrariando o seu estado interior.
– Lembra quando lhe disse que tudo acabaria bem se usasse de inteligência? Agora não tem escolha.
– O que tenho que fazer? – perguntou, como se pressentisse as consequências de sua rebeldia.
– Você vai saber; mas quero prevenir: não comecei neste negócio ontem, portanto já conheço todas as artimanhas. Gosta da vida? Então é melhor colaborar; desse modo poderá viver ainda muitos anos. – Dizendo isto, olhou de soslaio para Arnaldo que não perdeu tempo em soltar seu sorriso sardônico.
Daquele dia em diante passou a ter Ernesto os seus passos vigiados. Entrara, com toda a força de sua ingenuidade, para uma máfia onde a morte passou a ser possibilidade cada vez menos remota e, em seus dias de medo e depressão, uma opção válida e definitiva. A falta de dinheiro do passado deu lugar à falta de tranquilidade de agora, não sabia qual das penas era a mais dura mas por medo ou por garantia pedia a Deus em suas preces uma justa comutação. Pensava com frequência em fazer o que seria certo e natural em uma situação como esta. Levando o caso à luz da investigação policial, teria a seu favor uma lei, mas contra si o fantasma da perseguição imposta pela força do crime; seria loucura, não sa iria desta com vida. O que fazer então? De uma coisa sabia; precisava optar por uma de duas escolhas, ambas repletas de risco e incerteza, mas tinha que optar.
Tomou uma decisão; não fê-lo sozinho. A falta de firmeza e de vontade, parte integrante na sua formação de caráter, nunca lhe permitiram tal discernimento. Procurou Jabara, em quem confiava, menos por razões para isso do que por imposição da longa amizade de mais de vinte anos. Como não tinha motivos para não confiar – tampouco outras amizades tão duradouras, por eliminação, escolheu aquela. O primeiro conselho foi o mais radical, nem por isso deixou de ser acatado. Urgia que largasse tudo e todos e fugisse por uns tempos. Para o mais longe que pudesse. Que mudasse de cidade, de estado e, se possível, deixasse o país. Reuniu todo o dinheiro, quantia considerável, e partiu. Escolheu o Chile para viver. Ali ficou por um ano e meio. Ficou no passado o deslize que o tornara um exilado e desterra do. A saudade apertara. Empuxado pela dor de não ver os filhos e a terra, retornou; na bagagem o medo e a esperança.
Por aqui muita coisa havia mudado. Parece que, de alguma forma desconhecida, a sorte favorecera mais uma vez o nosso amigo. Nico acabou recebendo novo golpe em sua trajetória de malfeitor. Semanas após o sumiço de Ernesto, o local foi invadido por policiais federais, numa ação surpresa. Na reação houve troca de tiros. Arnaldo tentou escapar ao flagrante e reagiu, mas foi morto ali mesmo. Nico, mais frio e mais experiente, deixou-se algemar; foi preso com outros dois comparsas. Ernesto, que preferiu ficar incomunicável em sua fuga, a fim de evitar riscos, só soube mesmo do fato um dia após o seu regresso. Procurou por Jabara que o notificou quanto ao ocorrido.
– Meus contatos com o italiano sempre foram raros – disse Jabara.
– Falando a verdade, após aquele dia em que saímos juntos para comemorarmos a sua aposentadoria, não o vi mais do que três vezes. Quando então fiquei sabendo do seu envolvimento com o tráfico de drogas, não mais o procurei.
– Onde está preso?
– Na Itália.
– Na Itália?
– Isso! Você conhece a Lei por aqui. Como tinha dinheiro, conseguiu trazer da Itália um bom advogado com uma liminar pedindo sua extradição. Em todo caso duvido muito que esteja atrás das grades. O que fez todo este tempo lá fora? – perguntou Jabara –, imagino que esteja aliviado agora.
– De certa forma sim – respondeu Ernesto. – Se eu soubesse antes do ocorrido teria retornado ha mais tempo.
– Garanto que foi melhor assim. O homem só deixou o país há quatro meses. O caso rolou um bom tempo na imprensa, pois acabou envolvendo gente grande da Cosa Nostra; houve muitas idas e vindas antes de ser solucionado. Em todo caso, foi bom que estivesse longe. Quer um conselho de verdade? Resolva sua vida por aqui e caia fora para sempre; c om a Máfia não se brinca. – Jabara mantinha os olhos fixos em Ernesto como a estudar sua reação; ele coçou a cabeça e falou com desânimo.
– Tudo o que fiz neste tempo lá fora foi gastar. Cada vez que olhava para as notas e pensava em sua origem suja, alimentava a minha indignação, só queria gastá-las. Em pensar que tantos anos trabalhando para frutificar uma idéia resultaram neste fiasco.
– O que fez quando se viu sem dinheiro?
– Desta vez, pelo menos, não fui tão idiota. Como tinha que viver por lá, decidi arriscar tudo o que possuía num empreendimento, modesto a princípio, mas que poderia render-me um bom dinheiro e tirar-me do terrível ócio que já durava um mês. Aluguei, por mil e quinhentos dólares mensais, uma pensão em San Antonio, balneário turístico da região de Santiago na costa do Pacífico. Como não tinha experiência, arranjei um sócio, Hernandes. Tive sorte. Em um ano e duas altas temporadas depois, conse gui triplicar o capital investido.
– Não parece que queria se desfazer do dinheiro.
– Aí é que está. Meu sócio foi o responsável por todo o sucesso do negócio. Era um sonho que tinha e só precisava do capital para começar. Quando conseguiu, se agarrou a ele com tudo. Eu apenas me limitava a tomar conta por duas ou três noites na semana, que era quando ele saía para as suas imperdíveis pescarias. Conheci ali um homem que passou a se hospedar com frequência. Era muito rico e por causa dele mudei de vida e de cidade.
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Oi, Edgard
Você está começando a ficar generoso com o Ernesto, mas estou um pouco desconfiado, essas histórias não costumam acabar em pizza, mesmo que seja italiana legítima. Vamos ver.
Abraços
Manoel
EDGARD
O Ernesto vai escapar da polícia até quando ?
Será que conseguirá mudar de vida?
Abraços.
Dhiga
Você é um escritor muito versátil.
Mal saiu do velho oeste e já aterrissa em meio aos mafiosos.
E haja dinheiro embutido nas tramas.
O Nel e o Gutie não estão gostando do tratamento dado ao Ernesto.
Reabilite o homem, amigo.
Abraços,
lu