Era uma cidadezinha qualquer em que,
não se importa o nome, que se dê a ela,
com seus telhados tortos, feito espinha
de lagartos a ziguezaguear pela ruelas.
A mulher areia o pote de barro vermelho,
tentando lhe tirar uma mancha, como se
quisesse apagar a própria vida, naquele
lugar lânguido, debilitado, sem esperança.
O sol escaldante despeja um sorriso da mais
pura ironia, enquanto ela traz no rosto triste
e côncavo um visível sofrimento, pontilhado
de segredos e desespero, numa desilusão fria.
A vida impõe aos miseráveis as suas leis:
viver ali é passar a vida malhando em terra
estéril e madeira seca, segurando a dor e
reprimindo a vontade de atravessar cercas.
Parece até que lhe botaram arreios no corpo,
de modo a obrigá-la a parir uma penca de
crianças, que brinca nua, nas mesmas ruas
das desesperanças de sua paupérrima infância.
Ter nascido foi um crime banal, mas viver
é uma punição solene, nessa vidinha boba,
como uma mancha vermelha, ardente e
protuberante no coração da sofrida gente.
Ela olha fixamente para o nada lá fora, como
se fosse uma esfinge minguada, triste e rota,
resto de todos os excrementos do universo,
sem saber o que faz aqui, na sua inútil rota.
A intensidade da desolação vai além de onde
os olhos podem alcançar, mas ali está seu
mundo, ali está seu jarro; junto com a terra
ardente e a mancha no velho pote de barro.
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Que belo texto! Mostra o sofrimento de uma realidade que está longe de nós, mas existe. E ao invés de dar um final feliz, meio fora da realidade, a vida dela continua assim… Parabéns!
lu dias bh respondeu:
fevereiro 5th, 2009 at 14:24
Mr. Zahta
Obrigada pela visita.
É muito importante a opinião de nossos leitores.
Continue conosco.
Abraços,
lu dias bh
Qual a diferença, – ou será melhor dizer semelhança? – entre essa mulher, e tantas outras na mesma situação, e os dalits? Talvez o nome e local de nascimento.
lu dias bh respondeu:
fevereiro 5th, 2009 at 19:22
Paulo
Não tão igual, até em função do cristianismo,mas em muitos casos muda apenas apenas o local do fato.
As culturas não possuem apenas pontos positivos.
Alguns são extremamente maléficos.
Não ocupa espaço no tempo, não passando apenas de uma mancha.
Abraços,
lu
LU DIAS
A certeza de nascer assim e continuar para o resto da vida assim e assim, sempre assim, deve ser um tornento.
Deve ser como viver sem esperança.
Como é viver sem esperança ?
E ainda resignar-se ?
lu dias bh respondeu:
fevereiro 5th, 2009 at 23:43
Gutie
Melhor seria que a pessoa fosse irracional, limitada.
Pois assim diminuiria o sofrimento.
Ou talvez nem o sentisse.
A vida é dura para essa gente.
O sofrimento não é igual para todos no mundo.
Beijos,
lu
Só passei para dizer que indiquei seu blog ao selo “Olha que Blog Maneiro”. Se não quizer dar sequência ao prêmio, não importa, mas se quizer, passa no meu blog para conferir. Abraços e tchau!
Mr. Zahta
Mais uma vez, obrigada pela sua presença.
Ficamos felizes com a indicação do nosso blog.
Você foi muito gentil.
Será um prazer conhecer o seu blog.
Grande abraço!
lu dias