Meu olhar é santo - Nina Araújo Oração - Sonia Quartin



ago 28

— Tio Bráulio então me diga, e é preciso ser doido?

— Um pouco.

— Desses de precisar prender?

— Não, Fabinho. Só desses de ficar rouco…

— E precisa ser mentiroso?

— Mentiroso não, só inventivo…

— Desses que inventa as maluquices, é?

— Ih, você cismou com isso, menino!

— O senhor prometeu que ia me contar o que era preciso para ser artista!

— Estou fazendo isso, Fabinho… o que você quer saber mais?

— E pode conhecer o mundo?

— Pode sim, o artista viaja o mundo todo mostrando sua arte.

— E fica um tempo longe de casa?

— Sim, às vezes fica muito tempo por esse mundão de meu Deus, se apresentando longe de casa.

— Era isso que eu tinha medo…

— Por que Fabinho?

— Preciso conversar com papai um minuto e já volto.

O tio tentava não rir do menino que com o ar de muito sério, se dirigia ao pai deitado na rede da varanda calmo lendo o jornal matutino.

— Meu pai o senhor tem que me ajudar!

— Sim meu filho. Então você já se decidiu Fabinho, vai aceitar a sugestão de seu avô?

— Não senhor, mas vou precisar que ele aumente a minha mesada.

— Por que isso meu filho?

— O senhor sabe como é, agora eu preciso ser artista e até ter uma companhia das artes como o tio Bráulio, vai levar um tempão.

O pai fez um ar de consternado, puxou o filho para perto do peito e disse que ajudaria a conversar com o vovô à tardinha.

Naquela semana era já a quarta profissão que Fabinho decidira seguir, a coisa tomava um rumo inesperado, pois tinha combinado ser motorista no caminhão do seu Paulo, e professor como a irmã, e também advogado como o pai e o avô Costa, agora seria o artista que viajaria o mundo mostrando as coisas inventadas.

Não se sabe quanto tempo aquelas cenas permaneceram na cabeça de Fábio por todos os anos em que esteve à frente do seu escritório de Direito, mas nesta noite, no momento em que autografava o seu quinto livro de romances, com a alegria própria daquele menino , ele se lembrou do tio Bráulio e das viagens que finalmente faria pelo mundo através da profissão que sem o saber escolheu desde sempre.

Era reconhecidamente um grande escritor.

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