A ressurreição dos trilhos – J. Carino
Vez por outra, em obras na cidade, lá aparecem eles. Agora mesmo, em São Domingos, um bairro de Niterói, as simples escavações superficiais para obras numa praça os revelaram, quase íntegros, com a fortaleza do aço brilhando milagrosa ao sol depois de muito tempo sob a terra.
Falo dos trilhos de bonde. Eles estão por aí, ocultos, mas não mortos. São resistentes como sementes de capim. Quem já viu uma capina sabe: se não for muito bem feita, meticulosa ao ponto de se separar as sementes dos torrões, o capinzal volta, belo, viçoso, verdejante, depois de pouquíssimo tempo, sobretudo se cair um pouco de chuva.
Os trilhos de bonde também parecem ser assim. Também foram arrancados pela sanha supostamente modernizadora que erradicou os bondes em favor dos ônibus e automóveis. Com o mesmo furor, aliás, que igualmente erradicou os ramais ferroviários ditos economicamente inviáveis.
Aos bondes se atribuiu a capacidade de atravancar o trânsito, com sua lentidão e seus trilhos que prejudicavam a circulação justamente de automóveis e ônibus.
Quanta falsidade, mal escondendo o verdadeiro objetivo: abrir caminho para a marcha batida da indústria automotiva.
Quanta ironia, também. Sobretudo se a gente lembra que, nos centros das cidades, já bem cheias de carros, podia-se circular de bonde, saltando-se de carros e de ônibus e tomando-se esses veículos lentos porém arejados, barulhentos mas não poluentes.
No Rio, por exemplo, bondes circulavam da Praça Mauá à Praça da República, passando pelo Castelo, Passeio Público, Cinelândia, Arcos da Lapa, Largo da Carioca, Rua do Riachuelo e por aí afora.
Fiéis aos seus trilhos, ligados à rede de energia, obedientes à sua inexorável concepção mecânica e elétrica, não disputavam com os lotações o discutível privilégio dos desvios para cá, das fechadas para lá ou dos avanços de sinal a todo o momento. Hoje, as vans ocupam esse lugar de transgressões, juntamente com os ônibus e os automóveis, estes os reis do egoísmo transportado, com a imensa maioria levando apenas um passageiro.
Esse tempo, nem tão distante assim, volta na memória quando os trilhos aparecem. E, ao vê-los emergindo quando cavucam para instalar mais cabos de TV, telefone, redes de gás, ou para a expansão do Metrô, gosto de imaginá-los como veias sob o chão da cidade. Por elas, embora segmentadas, ainda passaria uma espécie de fluido vital que liga o outrora ao hoje. Para mim, é como se o bom senso resistisse nessa capilaridade de trilhos enterrados, esperando a hora de ressuscitar.
E não pensem que falo como um saudosista que romanceia tempos idílicos porventura existentes no passado. Não. Falo de bom senso para o aqui e agora de nossas metrópoles entupidas de carros e sufocada pela fumaça. Falo da sensatez que privilegia o transporte coletivo ao invés do individualismo sobre quatro rodas.
Não me refiro somente aos lindos, gostosos de andar porém lerdos bondes de outrora. Falo principalmente de bondes modernos, de veículos sobre trilhos como os que circulam por cidades certamente mais civilizadas que nossas caóticas e desumanas metrópoles. Aqueles que as reportagens e filmes nos mostram andando em cidades limpas, seguras e planejadas para as pessoas, não para os veículos.
Os trilhos de outrora estão por aí, sob a feiúra do asfalto, cujos buracos, cada vez em maior quantidade e representando maior perigo, ironicamente mostram o leito em que circulavam os bondes, numa espécie de vingança histórica sutil contra planejadores insensíveis, pouco inteligentes, e contra a ganância montada sobre quatro rodas e soprando a fumaça preta que acabará no fundo de nossos já saturados pulmões.
Em nosso Rio, existem testemunhas apropriadas, que parecem sorrir dessa situação. São os bondinhos de Santa Teresa. Apesar de inúmeras tentativas frontais de desativação, do sucateamento pela incompetência, ou da destruição pelo vandalismo e a má-fé, eles resistem, amarelinhos, subindo as ladeiras do velho e encantador bairro. Indispensáveis, práticos, baratos e românticos, os bondinhos parecem aguardar, pacientes, a inevitável ressurreição dos trilhos por toda a cidade.
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J. CARINO
Excelente teu texto, aliás o que é redundante reprisar.
Mas não posso dizer de outra forma.
Lembrei-me do bonde de minha infância, quando gostava e bastante de passear pela São Paulo, de bonde.
Um dos trajetos preferidos era o bonde Penha -Lapa.
Quantas vezes parava para ver o Mercado.
E quantas vezes descia no encontro mais poeticamente lembrando, a confluência entre a Avenida Ipiranga e S.João.
Eu era criança e naquele tempo, no tempo do bonde, a violência era raridade.
Então saia sozinho, perambulando com ônibus por toda S.Paulo.
Foi como Ataulfo Alves confessou:
“Eu era feliz e não sabia”.
Parabéns pela tua crônica, lembrando aquele tempo maravilhoso do bonde, que mesmo combatido ainda deixou resquícios espalhados por aí e uma imensa saudade.
J. Carino respondeu:
setembro 29th, 2009 at 12:57
@GUTIERRITOS,
Gutierritos:
Obrigado pelo comentário, como sempre muito pertinente e generoso.
Sobre bondes, há um vasto material disponibilizado por meu amigo Luiz de Lucca.
Entre outros endereços dele, se desejar, visite http://www.luiz.delucca.nom.br/acbneo/acb_inicial.html
Aliás, há um vídeo no YouTube, postado pelo de Lucca, em que fizemos uma montagem: imagens e informações colhidas por ele com minha narração.
Se tiver curiosidade, o endereço para acesso é http://www.youtube.com/watch?v=EB7kNBHGqas
Cordial abraço.
Carino