A sala de visita, ai meu Deus,
da minha tenra infância,
está tão longe de mim,
quanto o diabo de Zeus
e o idoso da criança,
embrulhada em cetim,
dentro do mágico baú
das minhas doces lembranças.
Mas ainda assim,
trago todos os detalhes:
na sala um banquinho,
tosco e de pernas tortas,
onde nos sentávamos,
à noite, ouvindo histórias
de batalhas, massacres e glórias,
de vampiros e almas-mortas.
A velha mesa de madeira,
peça mais importante da sala,
com um pano de risca bordado,
rodeada por quatro cadeiras,
um sofá roto, no fundo,
com almofadas de chita,
especial para as visitas,
do nosso ingênuo povoado.
Enfeitando a entrada
uma lata já alquebrada,
pelos vários anos de uso,
compunha a nossa mobília,
nesse ambiente confuso,
com espada - de –São Jorge,
e comigo-ninguém-pode,
para espantar a arrelia.
E na parede de tabatinga,
quase grudados ao teto,
quadros da Sagrada Família,
Sagrado Coração de Jesus
e Sagrado Coração de Maria,
bem vigilantes e modestos,
ajudando-nos a levar a cruz,
dando-nos paz, saúde e afeto.
Uma esquálida cristaleira,
com um bule e seis xícaras,
feitos de latas de óleo,
seis pratos de alumínio,
já machucados nas beiras,
para servir as visitas,
e sete canecas esmaltadas,
de cores já esquecidas.
Um vaso de barro lascado,
bem centrado na mesa,
com três flores de crepom,
da mais pura singeleza,
dava o ambiente por acabado,
mas a saudade ainda persiste
a trazer minha sala de visitas,
de um tempo que não mais existe.
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21 de agosto de 2008 at 20:20
Lu,
ela devia ser tão bonita. A da casa da minha avó no interior era assim também.
Você fica fazendo a gente voltar no tempo. A sua poesia parece um retrato do lugar. Beijos.
[Resposta]
21 de agosto de 2008 at 20:21
Luluzinha, gostei muito deste poema. Pena que eu não posso mais conhecer este lugar, pois nossos avós já partiram.
Beijos.
[Resposta]