A televisão em nossos dias – Edgard Santos
Acho que possuir uma mente livre e desapegada constitui enorme dádiva para o ser humano. Vivemos rodeados de influências as mais diversas, elas nos chegam sem que nos demos conta. Não medem hora nem lugar. A televisão é uma delas. A diferença fundamental está em seu campo de ação e este é medido pela nossa vontade. É querer ou não ser um fantoche, manipulado pela ditadura da comunicação. Hoje não é diferente do ontem, mas a tecnologia materialista confunde a mente do incauto. A informação é cavilosa; um prato cheio de iguarias tentadoras. A fome do ser e ter é suprida. A vontade de conhecer se embota e a ilusão faz a festa.
É justo e sadio querer mais, satisfazendo a ambição, mas a escolha tem de ser nossa. Quando falamos em televisão já relacionamos, inconscientemente que seja, a disposição de um, inerte e confortável, a aceitar calado e muitas vezes resignado, o que vem da telinha a sua frente. É claro que há na mão de alguém aquele dispositivo. Medidor da nossa satisfação. Ou cúmplice da teimosia em não querer coisa que valha. É uma questão de escolha.
Aqui surge um problema. Fazemos parte deste ramerrão em forma de lixo, pronto a nos engolir e nos tornar pequenos ou seria o contrário? Faria ele parte de nós? Será que nos resignamos, finalmente? É um sinal dos tempos, diriam outros. A verdade salta aos olhos. Os outros tempos estão aí a nossa frente. Nada ficou no passado. Ele nasce em cada ser que vem ao mundo, pois cada nascimento traz em si uma nova esperança. De humanos é feita a sociedade. Uns sempre influenciaram outros e vai continuar desse jeito, pois assim é o mundo. Então, por que não influenciar para o que é bom de verdade?
Impor algo é tirar a liberdade, mas dar exemplos é andar com ele o mesmo caminho. Aqueles que detém o leme da comunicação de massas foi imbuído de missão ímpar. Grande é sua responsabilidade. Infelizmente, nestes casos, manda o capital. Que manipula o detentor. Que manipula o meio. Que compra a vontade do cidadão que controla o controle. Aí, é só chegar, sentar à mesa do jantar, depois do banho tomado. Quando não, deitar no macio do sofá e dormir. Satisfeito. Porque o que está dito, está dito. E ele pagou para ver. E ouvir. Talvez, para aceitar o que a ele está sendo imposto.
Compramos idéias o tempo todo. São elas que vendem as mercadorias que consumimos. Ouvir pessoas inteligentes, ponderar suas palavras, é opção da mente que quer evoluir. Os semelhantes se atraem e se identificam. Daí, a busca do melhor se torna fácil. Exemplo no lugar da crítica. Há um menu repleto de coisas boas. Nem tudo é baboseira e, dentro da baboseira existe o joio do trigo a ser colhido na paciência e na tolerância. Enfim, o que vai para todos só chega ao destino se houver sintonia. Laser na educação é necessário. Divertimento, na falta de visão do todo é pretensão de iludir os menos favorecidos.
A crítica pura e simples vai de encontro à satisfação do gosto pessoal. É privar de relaxamento a mente estafada. Rotinizar o culto seria impraticável, longe disso. Defendo a cautela e o vigiar constante das pretensões da mídia. A sociedade de hoje reflete a influência da televisão em proporções alarmantes. Neste sentido, cego é aquele que vê. O alcance deste veículo e de suas programações pode e tem mudado o mundo de uma forma e de outra. Que seja o saldo positivo. Para o bem do todo. Assim pode ser. Se eles quiserem. Há muito de bom e aproveitável no cabedal de opções disponível, com tendências promissoras para uma ampla abertura. Circula a promessa de estender, nacionalmente, o acesso facilitado a todas as transmissões. Se, ainda assim, houver custos, que sejam estes mínimos. Poderemos, assim, comemorar o início de uma mudança. Que já se faz tardia. Para o bem da cultura. Que, então, outros povos nos sirvam de exemplo. De amor. E de vanguarda. Nesta marcha incessante. De melhoria do mundo.
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Edgard
Infelizmente enquanto as elites estiverem pautando as grandes mídias, estaremos em estado total de efeito manada, onde nos impõem o lixo midiatico em prol dos grandes interesses, em detrimento cultural.
Reta-nos esperar a massificação da internet, ou cassar concessões adquiridas na calada da noite, que só prejudicam o desenvolvimento de nossa sociedade.
Não acompanho as mídias editadas a algum tempo; hoje, só a rede mundial.
Gostei do seu texto.
Abraços
Edgard Santos respondeu:
março 28th, 2009 at 11:28
@Mário Mendonça,
Mendonça,
Belo comentário, obrigado. A única saída mesmo é a massificação da internet, como você disse. Esperemos que toda a população tenha livre acesso a ela; aí as coisas tenderão a mudar. Abraços,
Edgard Santos
Também sou cética quanto ao noticiário de televisão, jornal, revista, etc e tal. Normalmente procuro saber de fonte alternativa quando o assunto me interessa mesmo. Da TV gosto da Cultura da Fundação Padre Anchieta, que é que mais assisto. Tem programas ótimos, como o Café Filosófico, o Rolandro Boldrim, o Jornal com o Heródoto Barbeiro, os filmes, muitas entrevistas boas. Da Globo vejo uma novela de cada vez. Atualmente é o Caminho das Índias. Sou que nem o sultão da Cherasade, adoro ouvir histórias. E gosto do Luciano Huck no sábado que estou em casa por causa do Lata Velha e do Lar Doce Lar. No mais, é canal rural ou de fora. Também vejo na Rede Vida o Prazer em Conhecê-lo e o Este é o Meu Brasil, porque gosto muto de saber do que anda se passando pelas cooperativas e das invenções de muita valia no campo. Nenhum destes programas me irrita. Futebol também gosto muitíssimo, principalmente jogos do campeonato italiano, espanhol e inglês. Daqui, uns poucos. E nunca na Globo, que a voz do Galvão não entra bem nos meus ouvidos. Já é muita coisa, não é Edgar?
Edgard Santos respondeu:
março 28th, 2009 at 12:15
@Hila Flávia,
Tem razão. Estou admirado como encontra tempo pra tanta coisa. Mas, é o que eu disse: é uma questão de seleção. Eu, por exemplo, posso contar nos dedos os minutos que passo em frente a uma tv. Mas existem boas opções.
Edgard Santos
Mário Mendonça respondeu:
março 28th, 2009 at 12:18
@Hila Flávia,
Cuidado, é do “nostro governadô”; ultimamente expulsa todos os jornalistas que tentam fazer jornalismo sem “pauta prévia”
Abraços
Edgard,
gostei: “cego é aquele que vê”.
Abraços,
TT
EDGARD
A influência do meio de comunicações em nossa vida é incontestável.
Seu artigo é repleto de sabedoria e sua crítica é procedente, principalmente quando separa o joio do trigo.
Pena que programas como BBB são ainda líderes de audiência e os citados pela Hila, como exemplo o café filosófico, fiquem exibidos às escondidas, quase sem nenhum acesso e pouca divulgação.
Até, o que acho deplorável, as igrejas estão tomando conta do vídeo em horários nobres, dificultando, cada vez, mais o acesso aos bons programas.
As crianças – pobres crianças – quase não tem mais opções, com já chegaram a ter com programas infantis ( que até gente adulta assistia ), como a séria do Sítio do Pica-pau Amarelo. Lembra-se ?
Meu avê dizia que estamos em mudança.
E quando há mudanças, levamos nossas coisas de uma casa para outra.
E até as colocarmos no lugar demora.
Parece que o mundo está em mudanças drásticas, de forma vertiginosa, cada vez mais intensa, levando-nos à confusão mental coletiva, misturando valores e sentimentos.
No centro disto, você acerto: está a televisão e sua influência que agora, felizmente, está sendo amenizada pela Internet.
Parabens pelo seu notável e muito bem escrito artigo ( como sempre, é claro )
Edgard Santos respondeu:
março 28th, 2009 at 15:54
@GUTIERRITOS,
Você acertou no comentário, amigo. As crianças, que são os adultos de amanhã, precisam de muito apoio neste sentido. Quem vai olhar para elas, o empresário, que quer nos empurrar propaganda até durante as programações? Gosto, as vezes, de assistir humor na tv. Mas, um dia, assistindo ao Zorra Total, tive que mudar para um filme: um quadro e um montão de propaganda…. é demais pra mim! um abraço,
Edgard Santos
Hila Flávia respondeu:
março 28th, 2009 at 19:35
@Edgard Santos, Zorra Total é inassistível, igual ao imexível do Magri. É o fim da picada. Nem como toda boa vontade do mundo dá para ver. Só se for para fazer penitência. Assim sendo, prefiro rezar ajoelhada em bago de milho. Credo! Os outros nem vou citar nome para não fazer propaganda.
Egard
Quando da queda de Richard Nixon, falava-se que a mídia era o terceiro poder.
Com o passar dos anos, penso que ela chegou ao 1º poder.
Mas o nascimento da internet, veio acompanhado da derrocada da mídia.
Essa é uma guerra da qual ela não poderá fugir.
Principalmente por se tratar de uma mídia capitalista e manipuladora.
Mesmo a tv a cabo está um lixo.
Pagamos para ver propagandas, enlatados e filmes repetidos.
Já pensei em retirar a minha.
Acredito, que somente com o amadurecimento intelectual de um povo é que a Tv pode mudar.
Trocando em miúdos: com a pressão popular.
Se ainda existem os BBBs da vida, é porque o número de espectador é compensativo.
Não temos programas culturais.
Estamos caminhando para a mesmice.
Essa mudança demanda outra mudança na mentalidade de nosso povo, tão sem perspectiva de lazer, pelo alto preço dos ingressos de cinema, teatro, circos.
Vou para Bollywood, onde um uma sessão de cinema custa poucos centavos de rúpia. (22 rúpias equivalem a um real, se não me engano).
Parabéns pela excelência do texto.
Um abraço,
lu
Edgard Santos respondeu:
março 29th, 2009 at 12:35
@lu dias bh,
Lu,
Obrigado. Suas palavras são sempre sábias. Existe, sim, a derrocada da mídia, mas somos nós os timoneiros nesta viagem da comunicação; é só dizermos não à enxurrada de besteiras que querem nos impor. Beijos,
Edgard Santos
Por que a programação das emissoras é mediocre? Porque os telespectadores, em sua maioria, assim o querem.
Quantos assistiam ao programa “Quem tem dedo de musica clássica?” com o Artur da Távola, e tantos outros programas instrutivos, onde o gosto refinado era incutido na mente das pessoas? Muito poucas.
A audiência é quem manda.
A rádio campeã de audiência no Rio toca pagode e funk o tempo inteiro. A excelente Opus 90 não conseguiu ir adiante por falta de ouvintes.
Vejamos o exemplo de casa, neste blog: procuramos levar cultura aos leitores e abrimos as portas para quem desejar se exercitar na arte da escrita. Temos excelentes textos dos mais renomados escritores e centenas de textos de novos escritores. Recebemos apenas duas mil visitas por dia. E como lutamos para conseguir isso e manter a audiência. São 20 horas de trabalho diário.
A página do BBB recebe estas mesmas duas mil visitas em um minuto, se tanto.
As tentativas para obter patrocínio, mesmo a preços ridicularmente baixos, tem sido infrutíferas. Não há interesse em apoiar a cultura. Os sites de fofocas e fotos de mulheres seminuas consegue o patrocínio que quiser. E como têm audiência!
Às vezes desanima. Ser idealista também cansa. O idealismo não paga as contas nem o supermercado. Os exemplos estão aí para mostrar que, na maioria das vezes, a ignorância não é obstáculo para ganhar dinheiro. O contrário, talvez seja.
Edgard santos respondeu:
março 28th, 2009 at 19:57
@Paulo Afonso,
Você tem razão em cada palavra que disse. Mas não vamos desanimar. Penso que a cultura sempre vence. Prefiro curtir as letras e apreciar os bons textos a permanecer horas na frente de uma tela de tv. emburrecendo. Um abraço,
Edgard santos
[...] Alguns comentários do artigo de Edgard Santos “A televisão em nossos dias“ [...]