Alguém - Maria Avila Encerrando um ciclo - Paulo Coelho



dez 03

Estamos todos penalizados com a situação do Estado de Santa Catarina, bem como de outras cidades do Brasil onde as águas têm feito vítimas e dado prejuízos. A vontade era de pegar a primeira condução e ir ajudar, mas não sendo possível, fazemos um pouco que seja por aqui mesmo.

Sempre me contaram e sempre ouvi falar de que o poeta aparece para falar pela multidão, para exprimir o sentimento quando é difícil fazê-lo, para ser um instrumento da solidariedade manifestada por escrito. E desta vez não foi diferente. De tudo que li o que mais me comoveu foi um texto, infelizmente sem autoria, chamado Começar de Novo. A informação é de que ele foi escrito quando de uma grande enchente na Argentina, que fez muitas e muitas vítimas. E um morador catarinense, atingido, fez do texto a tradução de seu sentimento:

Eu tinha medo da escuridão
Até que as noites se fizeram longas e sem luz
Eu não resistia ao frio facilmente
Até passar a noite molhado numa laje
Eu tinha rejeição por quem era da capital
Até que me deram abrigo e alimento
Eu tinha aversão a judeus
Até darem remédios aos meus filhos
Eu adorava exibir minha nova jaqueta
Até dar ela a um garoto com hipotermia
Eu escolhia cuidadosamente a minha comida
Até que tive fome
Eu desconfiava da pele escura
Até que um braço forte me tirou da água
Eu achava que tinha visto muita coisa
Até ver meu povo perambulando sem rumo
Eu não gostava do cachorro do meu vizinho
Até naquela noite eu o ouvir ganir até se afogar
Eu não lembrava os idosos
Até participar dos resgates
Eu não sabia cozinhar
Até ver na minha frente arroz e crianças com fome
Eu achava minha casa melhor de todas
Até ver todas cobertas pelas águas
Eu tinha orgulho do meu nome e sobrenome
Até a gente se tornar seres anônimos
Eu criticava a bagunça dos estudantes
Até centenas deles me estenderem as mãos solidárias
Eu tinha segurança absoluta do meu futuro
Agora nem tanto
Eu vivia numa comunidade com uma classe política
Agora espero que a correnteza a tenha levado
Eu não lembrava o nome de quase ninguém
Agora guardo cada um no coração
Eu não tinha boa memória
Talvez por isso não me lembre de todo mundo
Mas terei o que me resta da vida para agradecer
Eu não te conhecia
Agora você é meu irmão
Tínhamos um rio
Agora somos parte dele
É de manhã, já saiu o sol
Não faz mais tanto frio
Graças a Deus
Vamos começar de novo.

Feliz de quem pode recomeçar e de quem não perdeu a esperança. Que a tragédia faça com que o solo seja respeitado bem mais do que a especulação imobiliária.
Se não tiramos uma lição do sofrimento ele se torna inútil e muito pior.

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Publicado por Hila Flávia \\ tags:

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5 comentários para “A tristeza de brasileiros - Hila Flávia”

  1. Sonia Quartin disse: Reply to this comment

    Amiga
    Bela página a sua. Especialmente a ela juntando esse texto anônimo e tão comovente. Por coincidência, comentei ontem com minha secretária que,nessa hora tanta gente,até então orgulhosa de seus “bens”, com nojo de usar roupas dos outros, etc, e agora pedindo a Deus uma seca para mudar. Vi pela TV uma menina de seus oito anos dizendo que tinha passado muito frio com suas roupinhas molhadas. Coisa muito triste de se ver. E aqui no Rio recomeçou a chover forte! Que Deus se apiede!
    Beijos Sonia Quartin

    [Resposta]

  2. Paulo Valença disse: Reply to this comment

    Hila Flávia,
    O seu comentário “A tristeza de brasileiros”, com a poesia que o acompanha exprimem muito bem o drama do estado de Santa Catarina ante a enchente que tanto mal lhe causou e que sensibiliza a todos nós, irmãos dos demais estados do Brasil.
    Parabéns.
    Abraço
    Paulo Valença.

    [Resposta]

  3. Ana Lucia Timotheo da Costa disse: Reply to this comment

    Hila,
    Não canso de repetir que temos muito mais a agradecer do que a pedir. Felizes os que ainda têm forças para recomeços. Bonito texto. Beijo. Ana

    [Resposta]

  4. Greice da Costa disse: Reply to this comment

    Prezada Hila Flávia,
    Pobres, ricos, crianças, jovens, enfim… A chuva, as enchentes atingiram a todos, alcançaram as casas simples e luxuosas. Seu texto deixa isto claro.
    Somos seres humanos e em momentos difíceis a dor não escolhe em quem irá atuar. Mas eu desejo que a solidariedade atue em todos de forma ainda mais forte que a dor.

    [Resposta]

  5. Hila Flávia disse: Reply to this comment

    Sabe, Greice, é meu desejo também. Evidente que a solidariedade provocada pela dor, pela tragédia, tem seu valor. Mas seríamos muito mais felizes, fraternos, se fôssemos solidários por morarmos num mesmo planeta, sermos todos criaturas e estarmos, afinal, no mesmo barco da vida. É uma luta na qual também me empenho de todo coração. Abração.

    [Resposta]

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