Fiquei matutando sobre o dito da escritora Malluh Praxedes (mineira, de Pará de Minas) em uma de suas crônicas: “a literatura é a mais lenta das artes”. Diz ela haver lido esta afirmativa numa entrevista que um escritor e estudioso de literatura concedera ao jornal “Estado de S.Paulo”. Um dizer que trata da relação silenciosa e solitária e lenta do autor e também do leitor com um livro.
Comentou também Malluh nesse artigo, a respeito do “amor à primeira vista” que pega um observador, espectador ou mesmo admirador diante de alguma expressão artística: um quadro, uma escultura, ou mesmo uma peça de teatro ou um filme. Nestes casos, a obra se desnuda de imediato diante do que a contempla. No entanto, quando um leitor pega um livro, esse não tem como imaginar o que vai encontrar ali dentro. Ele tem que percorrer página por página, linha por linha, palavra por palavra, ponto por ponto, para se dar conta do que o autor da obra estaria querendo lhe contar.
Pouco após a leitura do texto da Malluh, vi um programa na televisão, o “Terras de Minas” em que foram mostrados caminhos percorridos por Guimarães Rosa antes de ele construir a grande obra-prima da literatura brasileira que é o seu “Grande sertões: veredas”. Antes de escrever o livro, Rosa percorreu a pé, a cavalo, de carro de boi, grande extensão das terras de Minas que lhe possibilitaram conceber o cenário, a linguagem e os personagens de seu livro. Ele caminhou, dia claro, dia escuro, apreciou amanheceres, quando o céu apresentava um barrado rosa, viveu anoiteceres, quando este céu ficava de um laranja ou _ nem mesmo ele soube dizer_ se cor de cobre. Conheceu boiadeiros, jagunços, donos de fazendas, mulheres destemidas, terras sem fim. Ouviu casos acontecidos e também casos de assombração. Comeu de comidas ainda não experimentadas, bebeu de bebidas inusitadas. Coisas de sertão.
Nesse tempo, Rosa viveu o sertão. Sentiu o cheiro, a temperatura, viu as cores, até mesmo a infinidade de tons de verde das matas dos caminhos percorridos. Só então, isolado em seu escritório, Rosa trabalhou com as palavras. Pegou de uma caderneta, cheia de anotações e desenhos que, segundo seus acompanhantes, ele levava sempre pendurada no pescoço, como se fosse um medalhão e partiu para o jogo. (Que será a literatura senão um jogo de palavras?) Jogo de palavras. Palavras que vêm, palavras que fogem. Palavras que brotam de outras. Palavras que chegam carregadas de outras. Foram precisos mais de 3 anos de luta para que “Grande sertão: Veredas” chegasse aos leitores, em 1957.
Que nessa luta Rosa varou noites, dias, finais de semana, períodos de férias, estou convencida de que sim. Posso até jurar que ele tenha passado dias e dias perseguindo palavras. Ele refletiu, cogitou, remoeu, matutou, costurou, remendou, fez cortes e recortes. Quando o livro foi oferecido ao leitor, deu-se um susto. Que história é esta? Que são estas palavras? Nonada! A primeira palavra do livro. Que vem a ser uma história que começa com o não e o nada? O desafio de Rosa. (Querem me decifrar. Então, leia. Se necessário, releia, tresleia.) Depois de nonada, o narrador intervêm “Tiros que o senhor ouviu foram de briga de homem não, Deus esteja. ……….O senhor ri certas risadas…….. Olhe: quando é tiro de verdade, primeiro a cachorrada pega a latir, instantaneamente – depois, então, se vai ver se deu mortos. O senhor tolere, isto é o sertão.” Rosa faz alusão a ruídos para explicar o que é o sertão de que ele vai contar. Tiros. Risadas. Cachorrada a latir. Com palavras, Rosa pinta ruídos. Depois, depois…depois que a cachorrada pega a latir é que se vai ver se deu mortos. Com palavras, Rosa escreve o som, tece a paisagem, os diversos tons do verde, o tingimento variado do céu, o canto da boiada, a lamúria do boiador, a saga de cada um dos personagens. Com a justa vagareza da literatura.
Há 50 anos que Rosa trouxe a público o resultado de sua luta, de sua perseguição a palavras, num livro que percorre mundo inteiro a desafiar leitores. Um livro que encanta, espanta, surpreende, maravilha, assombra quem se propõe a percorrer, com lentidão e ao mesmo tempo com ritmo, uma das mais belas obras de arte da literatura de todos os tempos.
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Oi, Terezinha
É verdade: livros que descrevem lugarejos reais, ou estilos de vida e linguagem, ou fatos ocorridos, demandam um tempo grande de pesquisa (imagino antes da tecla delete). Mas assim também ocorreu com as grandes sinfonias, e outras obras de artes famosas.
Eu já fui acometido de amor à primeira vista abrindo livros numa página ao acaso; e com certeza teria comprado o livro do Guimarães Rosa só pela sua abertura. Por outro lado, cansei de interromper leituras de obras consideradas geniais, pelo fato do escritor não me seduzir desde o início.
O que estou tentando dizer é que até a orelha do livro, até a contracapa, podem atrair o leitor: realmente não tenho certeza se a literaura é a mais lenta das artes.
Gostei muito do seu texto: a saga do Guimarães Rosa para escrevê-lo merecia um livro adicional.
Abraços
Manoel
Tetê,
Uma beleza de texto. Assinaria embaixo do comentário que o nosso amigo Manoel escreveu. Obras imortais são realmente aquelas em que há vivência antes de ser escrita e nisto o G. Rosa foi mestre. Beijo, querida. Ana
Olá Terezinha!
Excelente artigo, que traduz um dos motivos pelos quais nos apaixonamos por essa arte vagarosa. É preciso tempo e dedicação para apreciar uma obra de arte escrita; para concebê-la, mais ainda.
Para mal dos meus pecados, ainda não li o Grande Sertão: Veredas. Mas ainda quero apreciar essa obra-prima com o carinho que ela merece.
Parabéns pelo ótimo texto, que você também é mestre em alinhavar palavras com arte e poesia.
Grande beijo!
Terezinha respondeu:
março 15th, 2010 at 16:27
@Cristine, Obrigada pela leitura e pelo comentário. Gosto mesmo de alinhavar palavras e correr com ela atrás de arte. Agora, alcançar… é uma outra história.
Beijo,
TT
TEREZINHA
Puxa vida! Que show de comentário.
Um comentário digno de uma grande analista literária, inclusive fazendo-o com um festival lindo de expressões e palavras, concatenadas, levando-nos a entender, com excelência, como a literatura é uma arte diferenciada, difícil de ser construída e também de ser apreciada, ” a mais lenta das artes “.
Realmente, sempre lutei com este fantasma da lentidão dos grandes romances e textos, pois dificilmente consegui terminar a leitura de um dos clássicos, confesso.
Foi um dos melhores textos que li, referentemente ao conceito artístico de Literatura.
Saio satisfeito por tê-lo lido e agradecido imensamente por esta oportunidade.
Parabéns.
abraços.
Terezinha respondeu:
março 15th, 2010 at 16:33
@gutierritos, Obrigada pelos cumprimentos!
Vou lhe contar de um livro que ainda não acabei de ler. É A montanha mágica, do Thomas Mann (que tem um pé no Brasil).
Digo que subi a montanha até o topo. Ainda não criei coragem para descê-la… Não sei dizer o motivo. Já li outros Thomas Mann. Amei Morte em Veneza, que gerou um dos mais belos filmes de amor (platônico!) que já vi até hoje.Mas, não acho hora de “descer” a montanha mágica.
Abraço,
TT
Bom te ler… você me prendeu do início ao fim!
E eu também já deixei livros no meio ou li me empurrando para ver se melhorava… mas amo os livros, quase sempre!
Beijo!
TT
A lentidão da literatura talvez se dê por expressar com mais intensidade os sentimentos humanos.
E, esses são eternos.
Aliados a isso temos os diversos gêneros, que agrada mais a uns do que a outros.
Eu, por exemplo, tenho horror a livros extremamente descritivos.
De José de Alencar, gosto apenas de Helena.
Guimarães Rosa deixou-nos uma obra-prima: Grandes Sertões: Veredas.
É um dos grandes mestres da literatura nacional.
Você é uma senhora crítica literária.
Belo texto.
Abraços,
lu
Terezinha respondeu:
março 15th, 2010 at 16:37
@LuDiasBh, Tive um professor de literatura que é expert em José de Alencar. Porém, ele comenta que, a literatura de Alencar é monológica. Razão que leva a pessoa com anos e anos de leitura, a passar a achar simplista a literatura de Alencar.
Já reparou que, quando bem jovem, gostamos de Alencar e não gostamos de Machado de Assis. E que, quando chegamos “à idade da muita leitura”, passamos a amar Machado de Assis? São as vozes que os bons autores colocam em seus textos!
Beijo,
TT
@manoel rodrigues: Obrigada, Manoel
@manoel rodrigues: Obrigada, Manoel
O divagar na literatura, até que nos faz bem.
TT
@Ana Lucia: Obrigada, Analu.
Gostei de seu comentário.
Beijo,
TT