A lembrança mais forte que tenho de Carmen Miranda é a de sua foto no caixão. Era agosto de 1955 e eu ainda não havia completado 7 anos de idade. Não me lembro se vi a matéria a respeito da morte e velório de Carmen Miranda na revista Manchete ou em O Cruzeiro. Estou certa de que era a primeira vez que eu via um defunto maquiado: lábios vermelhos, rouge e mais cabelos penteados, unhas vermelhas e vestido com um belo tailleur vermelho. Uma belíssima mulher, sem vida, num caixão. (Estaria ela esperando o príncipe que acorda as belas moças das histórias?) Depois disso, a não ser esporadicamente, em jornais ou revistas, li artigos sobre “a pequena notável”, ouvi algumas de suas músicas pelo rádio e algumas imagens pela televisão. Naquele tempo, as ondas do rádio eram curtas e a televisão custou a chegar com força ao interior do país.
Em 2002, assisti a uma palestra da pesquisadora, doutora em Literatura Comparada, professora da UFMG, Eneida Maria de Souza, com o tema Carmen Miranda. A fala da prof. Eneida, os vídeos que ela apresentou durante a palestra e alguns textos me fizeram saber da importância da personagem que representou a primeira grande marca da cultura brasileira no exterior. Não importa se cheia de balangandãs, vestida de baiana, turbantes coloridos e frutas tropicais na cabeça. Essa palestra deu-me uma imagem diversa de nossa Carmen.
Há muito o que falar a respeito da “pequena notável”, que media 1,53 e gingava seu corpo de forma graciosa e sensual, por cima de sapatos de elevadas plataformas. No entanto, o objeto deste artigo é um musical de 1936: “Alô, alô carnaval”, de Adhemar Gonzaga e Wallace Downey, lançado no Rio de Janeiro em janeiro de 1936 e em S. Paulo, em fevereiro. Segundo os historiadores do cinema, esse filme é um dos mais ricos e belos musicais do cinema brasileiro. Causou sensação e foi recorde de bilheteria na época. Também agradou nas 4 vezes em que foi relançado (em 52, 74 -sob supervisão do diretor Adhemar Gonzaga, 83 e 2002- com a presença de Braguinha, 90 anos, co-autor do roteiro e autor de algumas músicas do filme). Em todos os relançamentos Alô, alô carnaval atraiu público e elogios da crítica. O que haverá de extraordinário nesse filme quase sex… agenário?
Assim, os críticos procuram explicar a razão. Seria o clima carnavalesco, em todas as suas concepções? O consenso ficaria por conta do simples espectador, do apreciador de música popular brasileira ou de filmes-revista ou filmes musicais… Um ponto, que agrada a muitos, pode nos levar a refletir: a apresentação de diversos nomes, grandes “cobras” do cancioneiro popular: Francisco Alves, Mário Reis, Dircinha e Linda Batista, Braguinha (João de Barro), Joel de Almeida e Gaúcho, Almirante, Lamartine Babo, Hervê Cordovil e orquestra, Barbosa Júnior e Muraro, ao piano, etc. E mais Carmen Miranda e sua irmã Aurora. É um outro motivo de reflexão. Dizem que Aurora e Carmen Miranda provocaram um grande rebuliço no público nas suas apresentações de “Querido Adão” (Benedito Lacerda e Oswaldo Santiago) e “ Cantores de rádio” (Braguinha, Lamartine Babo e Alberto Ribeiro).
Quanto ao enredo de Alô, alô Carnaval, pode-se dizer que é muito fraco. O filme conta a história de dois endividados autores e produtores de revistas musicais, Arthur e José, que procuram um empresário português e lhe pedem para financiara montagem de um espetáculo que os livre da situação de miséria. O português se nega a fazê-lo, porém por outras razões, acaba se envolvendo em dificuldades. Os brasileiros se aproveitam da situação quando o empresário lhes pede ajuda. Vingam-se, obrigando o empresário a saldar todas as suas dívidas por meio de recursos duvidosos e superfaturamento. Meio a esse fraco argumento, as mais de vinte músicas são cantadas, orquestradas, dançadas, encenadas e enchem olhos e ouvidos dos espectadores, até então acostumados a ouvi-las apenas pelo rádio. Uma curiosidade do filme com relação a tradicional indumentária de Carmen Miranda está relacionada ao fato de ser essa uma das suas raras apresentações sem roupa de baiana.
Caro leitor, Carmen Miranda dá pano pra manga e pra turbante. Pretendo falar mais um pouco sobre ela e seus filmes em que festeja o carnaval. (Olha o carnaval chegando por aí, minha gente!) Por enquanto, fiquemos com a letra e imagem de suas músicas em Alô, alô carnaval.
Querido Adão
(Benedito Lacerda e Oswaldo Santiago)
Adão
Meu querido Ãdão
Todo mundo sabe
Que perdeste o juízo
Por causa da serpente tentadora
O nosso mestre
Te expulsou do paraíso.
Mas em compensação
O teu pobre coração
Que era pobre, pobre
Muito pobre de amor
Cresceu e eternizou meu Adão,
O teu pecado encantador.
Querido Adão:
Cantores do Rádio
(Braguinha, Lamartine Babo, Alberto Ribeiro)
Nós somos as cantoras do rádio
Levamos a vida a cantar
De noite emabalamos teu sono
De manhã nós vamos te acordar
Nós somos as cantoras do rádio
Nossas canções, cruzando um espaço azul,
Vão reunindo
Num grande abraço
Corações de norte a sul
Canto pelos espaços afora
Vou semeando cantigas
Dando alegria a quem chora
Canto pois sei
Que a minha canção
Faz estancar a tristeza que mora
No teu coração
Canto pra te ver mais contente
Pois a ventura dos outros
É a alegria da gente
Canto e sou feliz só assim
E agora peço que cantem
Um pouquinho pra mim
Cantores de rádio:
Agora, quem viu e gostou dos vídeos de Carmen Miranda e Aurora, gostará de ver o “Um Pierrot Apaixonado”, de Noel Rosa e Heitor dos Prazeres, com Joel e Gaúcho, marchinha que também contribuiu para o sucesso de “Alô,alô carnaval”. Muita gente ainda se lembra do caso daquele Pierrot apaixonado que vivia só cantando por causa de uma fútil e bela Colombina. Outrossim, vai recordar que o apaixonado acabou chorando. Chorando! Pois a Colombina… A Colombina… A Colombina entrou num botequim e bebeu todas. Bebaça, qualificou o enamorado de cacete e o mandou tomar sorvete com o Arlequim. O Pierrot, sentindo, do amor, o triste fim, quereria a companhia do fanfarrão Arlequim? Nada disso. Depois do levar o grande “chute”, foi tomar vermuth com amendoim! E assim termina mais uma “commedia dell’arte” e uma marchinha de carnaval entra para o rol dos clássicos da música brasileira.
Amei o seu texto sobre a pequenina “GRANDE” Carmem Miranda.Quando ela faleceu eu tinha 10 anos e prá mim parece que ela sempre viveu, pois suas músicas eram cantadas no rádio todos os dias.E eu amava ouví-la. (o tico tico cá, o tico tico lá, rs rs) e muitas outras. Ela era demais…
Amei as letras e a imagem destas músicas maravilhosas de carnaval.
Beijos.
Terezinha respondeu: fevereiro 3rd, 2010 at 11:40
@Maria Vicença, Obrigada pela leitura e pelo comentário.
Que bom que tenha gostado. Nosso colega Gutie, deste espaço, foi quem me sugeriu a fala sobre o carnaval. Está me ajudando nos vídeos. Ele é expert em localizar vídeos.
Beijo,
TT
É que tive a semana turbulenta e somente agora estou tentanto fazer os comentários.
TGeu texto ficou excelente, como já havia te digo antes de publicares.
Realmente, o filme deve ter sido brilhante, pela presença da Carmen Mirando e sua irmã Aurora e ainda Francisco Alves, Mário Reis, Dircinha e Linda Batista, Braguinha, Joel de Almeida e Gaúcho, Almirante, Lamartine Babo, Hervê Cordovil e orquestra, Barbosa Júnior e Muraro, ao piano, como mencionastes com muito acerto.
Vou continuar a comentar teus textos e os acho muito bons.
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Terezinha!
Amei o seu texto sobre a peq
opa, apertei a tecla errada.
Amei o seu texto sobre a pequenina “GRANDE” Carmem Miranda.Quando ela faleceu eu tinha 10 anos e prá mim parece que ela sempre viveu, pois suas músicas eram cantadas no rádio todos os dias.E eu amava ouví-la. (o tico tico cá, o tico tico lá, rs rs) e muitas outras. Ela era demais…
Amei as letras e a imagem destas músicas maravilhosas de carnaval.
Beijos.
Terezinha respondeu:
fevereiro 3rd, 2010 at 11:40
@Maria Vicença, Obrigada pela leitura e pelo comentário.
Que bom que tenha gostado. Nosso colega Gutie, deste espaço, foi quem me sugeriu a fala sobre o carnaval. Está me ajudando nos vídeos. Ele é expert em localizar vídeos.
Beijo,
TT
TEREZINHA
Perdoa-me pelo pelo atraso.
É que tive a semana turbulenta e somente agora estou tentanto fazer os comentários.
TGeu texto ficou excelente, como já havia te digo antes de publicares.
Realmente, o filme deve ter sido brilhante, pela presença da Carmen Mirando e sua irmã Aurora e ainda Francisco Alves, Mário Reis, Dircinha e Linda Batista, Braguinha, Joel de Almeida e Gaúcho, Almirante, Lamartine Babo, Hervê Cordovil e orquestra, Barbosa Júnior e Muraro, ao piano, como mencionastes com muito acerto.
Vou continuar a comentar teus textos e os acho muito bons.
Parabéns.