Anjo azul - Sonia Quartin O conto de Peixotinho - Nina Araújo



ago 19

Quero falar de Ana. Se, quem era Ana, de pouco sei. Vou precisar construir, dela, os traços em minha memória. Como se faz um desenho. Pego o papel, o lápis, as tintas para colorir, que Ana suspirou que, de menina, muito era ruim, mas nem todo o sempre. Para isso, preciso das cores. Nem tudo pede preto no branco. A Ana de hoje é a mãe de ontem. Ou. A mãe de ontem, que morreu pouco mais que menina, é a menina de hoje.

Num primeiro risco, faço seu rosto de traços suaves e olhar penetrante. O olhar. Esse era o seu essencial. Era ela assim. Calada, quase. Com o olhar aspirava do que a vida lhe oferecia. Havia a tia, as duas irmãs, o pai, a governanta de seios enormes. O pai, cismava ela, gostava de seios com volume grande. De seios, de mulheres. Nem ligava se a mãe padecia, rolando na cama, de uma dor sentida. O pai tinha era de morrer. Mas, antes, foi a mãe que de doente morreu. O pai levava outras mulheres para a cama que era da mãe, acho. Era Ana que tinha do veneno. Infalível. Depois, era só lavar o copo de leite… Bolas, o pai morreu e ela podia jurar que vira a Amélia (seria?), saindo de casa, a recolher os panos da blusa para cobrir os peitos, ligeira. Para trás, havia deixado, morto, o pai. As irmãs, a mais velha e a caçula beijaram o pai no caixão. Ela não. Preferira não tocar os lábios numa pedra de gelo. De costume, a imagem do pai fazia que ela pensasse no frio. No intocável. Por mulher menina. A empregada, eram muitas, essa era a dos peitos grandes, sorriu quando o pai lhe bolinava os seios, perto da janela. Um convite para um logo mais. Acho que, então, Ana correu para salvar a mãe de olhar. Era dessa forma o pai. Disseram-lhe que do coração que morrera. Melhor que disseram isso. Se não havia sido dela esse pai, melhor que se fosse. Quisera tanto sentar em roda, ela, a irmã mais velha, a irmã caçula, e no meio, o pai a lhes contar histórias. Podia ser uma história que sabia de menino… Mas, como? Podia o pai desarranjar sua farda de general? O fizesse a tia, que a essa era que havia sido dado o encargo de adestrar as meninas, na falta da mãe. Acontece que Ana sabia que a tia deitava na cama com algum homem, que a qualquer hora podia da casa se afastar. Ah, mas era ela que tinha o veneno. Um copo de leite e uma colher do pó branco, que guardava no esconderijo, lá no fundo do porão escuro, que um dia a mãe lhe mostrara. Tinha de descer uma escada e caminhar sem ver. A tia bebeu todo o leite com a mistura que lhe dera. Continou vivinha. Ana provou do pó. Perdera a eficácia? De que mesmo havia morrido o pai?

Ana está no quarto de banho, com as três irmãs. Preparam-nas para irem para a escola. Tia e empregada penteiam seus cabelos. Ana fica de olho nos peitos grandes da empregada. Outro dia ela insistiu, que acabou vendo aqueles peitos que o pai havia amassado. Tem raiva da mãe. Por que tinha que morrer? Agora ela sabe que o pai morrera não fora por causa daquele veneno. Havia sido mesmo de algum mal de coração, coração duro. A lata do pó venenoso que a mãe lhe dera como um brinquedo, uma poção mágica, guardara com cuidado. Sinto que é difícil desenhar a minha Ana. Tracejo aqui, risco ali, procuro usar das cores, que nem sempre havia sido tudo tão triste. Seus olhos negros me escapam. Não sei se olham para a frente, se para mim. Ao ver as três irmãs sendo aprontadas para a escola, desenho nelas um uniforme de tweed axadrezado, camisa branca, engomada e bem passada, gravata do mesmo tecido xadrez da saia, suspensórios. Uso das tintas, que acho que esse uniforme não era só de preto e branco. Poderia ser de marrom com amarelo. Ou de marinho com bege. Poderia. As três saem saltitando para a escola. Não posso usar somente lápis preto no papel branco. E a mãe menina, essa disse que, às vezes, havia tempo para o riso. Acho que, em vista disso, não pude ainda acabar o meu desenho.

(Lembranças do filme “Cria Cuervos”, de Carlos Saura)

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4 comentários para “Ana, o desenho de uma personagem - Terezinha Pereira”

  1. Lu Dias Bh disse: Reply to this comment

    Terezinha Pereira

    A minha passagem é rápida. Seu texto está maravilhoso, cheio de cores.
    Estou com o marido internado.
    Grande abraço!

    [Resposta]

  2. Terezinha Pereira disse: Reply to this comment

    Lu,

    Muito obrigada pela leitura e pelo comentário.

    desejo que seu marido fique bem logo.
    Abraços,
    Terezinha Pereira

    [Resposta]

  3. Luiz Cruz disse: Reply to this comment

    Terezinha,
    Vou comentado aos poucos, agora que estou conseguindo navegar com a máquina nova, que é fabulosa.
    Este desenho é delicioso, deu vontade de pegar o lápis e as tintas.
    Abraço, Luiz Cruz

    [Resposta]

  4. Terezinha disse: Reply to this comment

    Luiz,

    procure ver o filme Cria Cuervos, do Saura. Tenebroso. Causo de assombração é fichinha.
    A cabeça do ser humano é povoada de fantasmas.

    Obrigada pela leitura e pelo comentário.

    Terezinha

    [Resposta]

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