Aos heróis – Augusto Vilaça
Senhores, segue uma pequena homenagem aos nossos heróis.
Aos Heróis,
Há cerca de dezessete anos, quando eu decidi entrar para a Polícia Militar, meu pai tentou me subornar para que eu não o fizesse. Não queria que eu entrasse para a mesma corporação da qual ele fez parte por 30 anos.
Fingindo ter aceito a proposta, pedi-lhe algum dinheiro adiantado, fui correndo para o banco (na época, Bandepe) e fiz a minha inscrição. Alguns meses mais tarde eu estava me apresentando em Paudalho para iniciar os três anos mais longos da minha vida e que marcavam apenas o início da minha jornada.
O fato de meu pai não querer que eu me tornasse policial militar nada tinha a ver com descrédito na instituição, mas, por ter se dedicado pelo que hoje representa a metade de sua vida, a uma profissão tão nobre e, ao mesmo tempo, inglória, ele não queria o mesmo destino para mim. Só que todos vocês sabem o que é adolescente, né? Eu não estava nem aí para os conselhos dele, segui meu coração, minha vocação e hoje sou policial militar, com muito orgulho.
O que preocupava meu velho pai eram todas as situações que eu, a exemplo dele e de tantos outros, a seu tempo, enfrentaria no meu dia-a-dia: situações de estresse, cansaço, medo e perigo, onde a nossa vida nunca é a mais valiosa e nossos sentimentos precisam ser sempre controlados com a frieza de uma máquina ou o autocontrole de um monge budista.
Nossa profissão é muito ingrata, trabalhamos quando os outros se divertem, velamos quando os outros dormem, não podemos ter medo quando os outros estão apavorados e precisamos de uma força sobre-humana quando os outros já fraquejaram.
Exemplo claro disso é a situação que está acontecendo no Haiti. Homens, pessoas comuns como você e eu, assumiram o posto de heróis que lhes foi outorgado por aqueles que, em desespero, esquecem-se de que os super-poderes só existem na ficção.
Nossos heróis são pessoas de carne e osso, que também sentem fome, sede, frio, sono e medo, mas que sabem que não podem demonstrar seus sentimentos e nem se entregar, pois juraram que defenderiam o próximo “mesmo com o risco da própria vida”.
Todos são heróis!
Os que sucumbiram ao desastre são HERÓIS por saberem que correriam riscos e, ainda assim, deixaram a segurança do lar e o aconchego de suas famílias para cumprir uma missão nobre que era a de ajudar pessoas que não conheciam, mas que precisavam deles.
Os que sobreviveram são HERÓIS por, ao invés de quererem sair dali o mais rápido possível (já que isso faz parte do instinto humano de sobrevivência) preferiram ficar e assumiram uma tarefa comparável às de Atlas ou de Hércules, tendo que se multiplicar em vários para poder dar conta de tudo ao mesmo tempo: busca por sobreviventes, resgate de corpos, manutenção da ordem, controle e distribuição de recursos e sabe lá Deus o que mais? Deixando seu corpo, humano, em segundo plano.
Aos que se preparam para ir ao Haiti, já são HERÓIS por terem se voluntariado a encarar o perigo desconhecido, já que não sabem o que os espera, por estarem marchando na direção oposta ao que a “sensatez” recomenda, que seria fugir do perigo e não ir de encontro a ele. Antes disso, aceitaram o chamado do dever e se preparam para enfrentar o lhes aparecer pela frente.
Todos, saibam que são heróis para mim! Motivo de orgulho e admiração. Por causa de ações de pessoas como essas que eu decidi entrar para a Polícia Militar, para poder me tornar um deles! Nossa missão é, como temia meu velho pai, ingrata e recheada de momentos difíceis, entretanto fomos forjados para isso e nossa maior recompensa e a de termos no peito, não medalhas, mas o sentimento de que fizemos o nosso melhor.
Vocês que estão no Haiti, lembrem-se de que, ainda que não fisicamente (mas estamos tentando resolver isso), estamos com vocês. Confiamos em sua força e perseverança, pois “nos caminhos mais duros, só os mais duros caminham”, e vocês têm demonstrado que são capazes e duros o suficiente.
Aos que se foram, onde quer que estejam, mantenham a cabeça erguida e estufem o peito com a sensação do dever cumprido: “Vitória sobre a morte é nossa glória prometida! HURRA!”
Força e Fé!
Augusto Vilaça
Recife-PE, 18/01/10
Augusto Vilaça é Capitão da Polícia Militar de Pernambuco e atualmente integra missão de Paz no Timor Leste – UNMIT
Um abraço e fiquem em Segurança.
Best wishes, and stay safe.
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Augusto,
Parabéns pela sua homenagem tão bem escrita. Nada como saber o que se quer da vida. Grande abraço. Ana
Amigo
Não tenho nada a acrescentar depois de suas palavras vertidas nessa página de homenagem aos nossos herois. Sim! Esses são nossos verdadeiros herois! Não os idiotas do BBB, como disse e diz ainda o Bial na TV.
Nossos herois todos são: os brasileiros, mas também americanos, alemães etc, todos, civís e miliares que estão trabalhando dia e noite para salvar os que ainda vivem debaixo dos escombros nessa tragédia nunca antes acontecida.
Beijos Sonia Quartin
GUS
Lindo teu texto.
É muito justa esta homenagem aos nossos homens que estão lá no Haiti, representando com tanta dignidade o povo brasileiro.
Realmente, Gus, eles são heróis, pessoas que desconhecemos, vindas de toda a parte de nosso país, e que já estavam fazendo um brilhante trabalho de pacificação, ajudando o povo haitiano a se recompor.
No entanto, quis o destino que este desastre acontecesse.
No entanto, eles não se esmoreceram e estão dando mostra de grande amor ao ser humano, o que enche de muito orgulho toda a nossa Nação.
Parabéns pela tua crônica, muito oportuna.