Aquele abraço – J. Carino

Por J. Carino, 1 de novembro de 2009 0:10

Atravesso o Rio como numa aventura. Deixo para trás uma cidade emparedada e me lanço em direção ao subúrbio. A Avenida Brasil me cobra uma pressa que eu não teria; me obriga a navegar rápido num mar de automóveis; não me deixa olhar com vagar essa estranha transição entre dois mundos que convivem na mesma cidade.

Aos poucos, a luz muda, a paisagem se transforma. Os prédios aglomerados cedem lugar às casas, essas singularidades arquitetônicas hoje cada vez mais escassas. E, no subúrbio, resiste-se à ditadura de uma homegeneização arquitetônica: uma puxadinha aqui, para abrigar mais um parente, um andar a mais para acolher a filha que casou…

Muitas casas, moradias eternamente inacabadas, em que a falta de emboço escreve nos tijolos aparentes a história da permanente falta de dinheiro.

Chego ao meu destino: Realengo. Na larga avenida, os muros altos e compridos a não mais poder escondem os quartéis, lugares sérios e proibidos ao menino que só queria não perder sua pipa ou seu balão.

Sim, ainda há pipas e balões no subúrbio. Essa humanidade profunda contida nas brincadeiras infantis; no cansaço nunca sentido depois das longas “peladas” jogadas em campinho de várzea; no sabor da fruta madura roubada dos quintais; no cheirinho que sobe depois da chuva nas ruas de terra – tudo isso está lá em Realengo, convivendo com o progresso, que invade, célere e inevitável, os redutos suburbanos.

Lá estão as moças bonitas, o papo no bar da esquina, e essa figura tão rara em outros cantos da cidade: o vizinho. Está lá esse ser da casa ao lado, da mesma rua. Esse alguém que empresta ovos e açúcar; que ajuda no mutirão da construção da casa. Essa pessoa que vai entrar na família, virando compadre, virando nora ou genro, chegando e ficando para sempre, dando alma e corpo à amizade.

Realengo está lá, e vale a pena saber que os bairros lá estão, cheinhos de gente muito boa, cuja pele sua no trabalho como escorrem as gotas na garrafa da “loura gelada”.

Volto de alma nova. E cantando com o Gil: Alô, alô, Realengo! Aquele abraço!

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4 comentários para “Aquele abraço – J. Carino”

  1. GUTIERRITOS disse:

    J. CARINO

    Continuando a falar de tua aldeia, estás dando um verdadeiro show de conhecer este espaço maravilhoso onde moras e certamente tens por ele uma profunda afeição.

    Agora, Realengo, mostrando o povo, a vida mais doméstica, mais chegada da vizinhança, aquela coisa linda da amizade, um cotidiano cada vez mais difícil em uma grande cidade.

    Parabéns.

    J. Carino respondeu:

    @GUTIERRITOS,

    Obrigado, Gutierritos.
    Aquele abraço!

    Carino

  2. Terezinha disse:

    Carino,
    bom conhecer os (en)cantos do Rio através de seu olhar.
    parabéns! Abraços,
    TT

    J. Carino respondeu:

    @Terezinha,

    É importante se saber que os (en)cantos do Rio têm muito mais do que violência.
    Cordial abraço.

    Carino

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