As asas da realidade (2) – Hila Flávia

Por Hila Flávia, 7 de maio de 2009 1:28

2ª Parte

Ou, talvez, a asa possa ter sido feita com o cheiro do perfume MADEIRA DO ORIENTE! A menina bebeu o vidro todo de uma vez. A asa poderia ter cheiro também de FLOR DE MAÇÃ, o cheirinho de sua mãe. Bom que só vendo. Quer dizer, só sentindo.

E, de cheiro em cheiro, procura a menina a primeira lembrança, para tentar explicar a coceirinha nas costas, e a primeira lembrança vem com o pai, entrando em casa aos gritos, dando notícia de que a guerra havia acabado. E uma barulheira de foguete pipocando na cidade, de gente correndo e gritando. A menina tinha pouco mais de dois anos. Será que foi ela a causa do fim da guerra? Seu pai a jogava para cima sem parar. Uma coisa. Um dia, comentava a menina, já passadas várias dezenas de anos, que não sabia o porquê de sua rejeição a todo e qualquer tipo de bebida alcoólica. Até uma taça de vinho ela sempre recusou. E no decorrer da conversa ela comentou que, não existindo problema de alcoolismo na família, não compreendia sua ojeriza exacerbada, sua falta de paciência com usuários e sua recusa até de lavar copos e taças usados. O irmão abaixo de idade comentou que não tinha caso de alcoolismo na família mesmo não, mesmo porque o pai havia lhe confessado que o único dia que havia bebido foi no dia do fim da guerra. Então a outrora menina descobriu que, no dia em que foi jogada para cima sem parar, deve ter sentido um medo pavoroso. E a marca ficou para sempre.

Mas quem sabe a causa de nascer asa seriam as histórias que a mãe contava toda noite e nunca terminava porque ela, a mãe, dormia antes? A causa das asas e o material de que eram feitas continuam sendo um mistério, nos primeiros sete dos sete vezes sete.

A coceirinha nas costas continuava mais forte mesmo porque o material, o chão, o horizonte, tudo era diferente. Diferente até que não, digamos ampliado. A menina usou, então, as asas de forma invisível, debaixo da túnica da Primeira Comunhão. Esta poderia ter sido uma beleza se a catequista não tivesse ameaçado tanto com o garfo tridente que o capeta usava nos meninos malvados que encostassem os dentes na hóstia. Diziam até que saía sangue, o que, na cabeça da menina, era fogo do inferno na certa. E para sempre. Mas o que seria mesmo para sempre? E que seria tridente de espetar menino? Até hoje a menina nunca viu um tridente de capeta. Como é que a catequista era tão íntima dele? Dele, o tridente? Teria ela um em casa? Murchava até asa esse terrorismo.

Outra coisa que murchava asa, alegria, qualquer coisa era a fivela da correia do pai. Cantava solta e pesada, por motivos alheios ao ambiente da casa. Na ausência do pai, o rádio tocava, os meninos brincavam, a mãe cantava, ria, bordava, o grande quintal era varrido com calma. Mas aí, a porta batia. Nunca era fechada. Sempre batia. E cessava tudo o que a antiga musa cantava. Cada um corria para o seu canto para não dar motivo de irritação. E todos com a asa murchinha.

Antes de terminar o segundo dos sete vezes sete, a menina criou asa mesmo. Descobriu tanta coisa! Até começou a andar na Rua Direita, de braço dado com uma amiga, duas a duas, para flertar com os moços maiores. Andava quilômetros. Sem voar. Os moços encostados na frente das casas, as meninas andando para lá e para cá, flertando com eles. Os namorados indo e vindo noutra faixa. Os mais pobres andavam do passeio do outro lado da rua, num espaço dividido. Os casais só podiam andar de mãos dadas depois de noivos de aliança no dedo. Era tudo tão marcado! Incrivelmente aceito sem questionamentos.

De repente, todos paravam. Paravam o passo no ar, a palavra no meio, a respiração quase que cessava. Batia o sino da Igreja Matriz, ouvia-se o sininho da Bênção do Santíssimo, batia de novo o sininho. A vida voltava. Toda noite. Durante seculum seculorum. Amém. Viajante que estava nas redondezas se imaginava surdo e batia com as mãos nos ouvidos. Para todos era normal, pois o sino reinava naquele vale cercado de morros, onde o sol rachava de dia e o frio cortava de noite.

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10 comentários para “As asas da realidade (2) – Hila Flávia”

  1. hellen disse:

    eu tenho 11 anos e vim aki buscar um lindo poema para minha mae esses sao perfeitos amei

    Hila Flávia respondeu:

    Continua lendo a história, Hellen. Que bom ver gente nova no pedaço. Beijim.

  2. Lu Dias Bh disse:

    Hila

    Você me fez voltar ao passado, quando ganhei o meu primeiro frasco de perfume MADEIRA DO ORIENTE, presenteado por um tio.
    Eu me senti inebriada, poderosa, uma princesa das Arábias, encabulada com aquele pedacinho de madeira ao fundo, imaginando de onde viera.

    Mas como fui sempre despojada, ao chegar em sala de aula, gastei metade do vidro, perfumando todos os colegas, mesmo dizendo que uma gota permanecia uma semana no corpo.

    Mesmo depois de acabado o perfume, o vidro fez parte de meus apetrechos por muitos anos.
    Era o meu tapete mágico para as TERRAS DAS MIL E UMA NOITES.

    O seu texto está lindo, onde você faz menção ao inesquecível “foot”.
    Que bom que a menina tenha criado asas.
    Assim ela se tornou totalmente livre.
    Estou ansiosa pela próxima parte.

    Beijos,

    lu

    Hila Flávia respondeu:

    Me aguarde, querida. Você vai voar comigo. Bjs

  3. Edgard Santos disse:

    Lu,

    Vamos ver a que tamanho chegam as asas dessa menininha. Seu texto faz a gente ler nas entrelinhas. Tem leveza e suavidade. Beijos,

    Edgard Santos

    Hila Flávia respondeu:

    As asas vão crescendo, Edgard, e mudando de textura. É a vida. Fico contente de você acompanhar a história. Abração.

  4. GUTIERRITOS disse:

    HILA

    Você despertou-me lindas lembranças, coisas que meu pai viu acontecer e que me contou e hoje não passam de memórias quase inacreditáveis.

    Na minha cidade, antes e durante a missa da noite, na praça da Matriz, havia o ” footing”, a paquera de hoje, que era realizada em outra praça ajardinada, no quarteirão debaixo da Praça.

    Dentro da desta praça ajardinada havia o que se chamava de ” redondo “, que era um passeio circular interno, ao redor também do coreto ( onde a banda tocava aos sábados e domingos ).

    No redondo era feito o ” footing”, ou seja, as moças passeavam ( sem asas, pelo menos naquele tempo ) de um lado, e outros moços de outro.

    Se os olhares começassem a se atraírem, logo viam-se os cochichos das amigas e o comentário dos rapazes.

    - Olha está lhe dando bola.

    Nas voltas seguintes, a coisa se confirmava ou não.

    Confirmada a simpatia nos olhares, o moço saia do redondo e se postava em uma das saídas do jardim ( eram várias ).

    Aí ele dava à sua simpatizante um sinal.

    Se topasse o sinal, a moça também saia e seguia com o moço para se conhecerem no ” quadrado “, que era o passeio externo da praça.

    A primeira vez, somente conversavam e conversam e conversam e mais nada.

    Nas vezes posteriores, em outros dias, em uma semana era possível pegar na mão, andar de mãos dadas.

    Coisa romântica !

    Depois de várias semanas, acabavam por sentar nos bancos da praça um pouco mais afastados e os primeiros beijinhos, muito envergonhados aconteciam.

    Ah, quando os sinas da matriz tocava, ao meio da missa, todos lá fora sabiam que era a hora da consagração ( a missa é dividida em três partes – o ofertório, a consagração e a comunhão ).

    Esse momento sagrado era respeito do lado de fora.

    Enquanto os sinos tocavam, realizava-se a consagração e todos, digo todos, paravam, “o footing “parava, os que estavam passeando paravam, os veículos encostavam e paravam, aqueles que estavam sentados levantavam-se, em respeito à consagração.

    Respeito, meu Deus, onde isto está acontecendo hoje ?

    Essas recordações daqueles tempos são mesmo inacreditáveis, mas você as confirmou.

    Existiram mesmo.

    Ah, cheguei a ver alguma coisa parecida no início de minha juventude.

    Hoje tudo isto já acabou.

    Mesmo estando a missa sendo realizada, a turma da praça está bebendo muita cerveja, com som do carro no último e dando gargalhadas.

    Hila Flávia respondeu:

    Exatamente assim em Pará de Minas, só que o footing era na Rua Direita, batizada Rua Benedito Valadares. Esta rua acabava na Praça da Matriz, que reinava imponente sobre a cidade dos teares e dos sinos, que tinha as montanhas douradas de sol. São versos do nosso lindo Hino. Mas demorava mais a pegar na mão. As mocinhas de antes não davam moleza não, rapaz. Para dançar, a gente logo colocava a mão esquerda na frente do ombro do rapaz e afastava qualquer aproximação. Verdade que, de vez em quando, a mão ficava fraquinha e um rosto encostava no outro, de repente. Saía até faisca. Não faço juízo de valor porque não tenho muita certeza de nada. Mas que era danado de bom, isto lá era.

  5. Terezinha disse:

    Hila e Gutierritos,
    “Enquanto os sinos tocavam, realizava-se a consagração e todos, digo todos, paravam, “o footing “parava, os que estavam passeando paravam, os veículos encostavam e paravam, aqueles que estavam sentados levantavam-se, em respeito à consagração.”
    Sempre pensei que “parar o footing” quando o sino anunciava a Consegração ou a Bênção do Santíssimo fosse “marca registrada” de Pará de Minas!……………
    Belos textos, tanto as reminiscências da Hila, as quais muitas também são minhas e as de Gutierritos.
    Bom, somos meio contemporâneos. Deve ser por isso que nos entendemos muito bem.
    Abraços,
    TT

  6. Terezinha disse:

    Hila,
    esqueci de dizer.
    Puder sentir o cheiro de Madeiras do Oriente e de Flor de maçã…
    Muito bom!
    TT

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