Quem não tem gato, não caça – Augusto Vilaça

Por Augusto Vilaça, 15 de março de 2010 6:47

gatorato

Dias atrás, apareceram uns ratos aqui por casa e, assim que notamos as visitas indesejáveis, resolvemos agir. Da primeira vez, colocamos uma armadilha que se parecia com um papel pega-moscas e funcionou direitinho, pusemos à noite e, na manhã seguinte, ele estava lá grudadinho. O bichinho era pequeno e asqueroso (como 99% deles), entretanto, durante o seu sepultamento, teve até direito a uma homenagem póstuma: ganhou o apelido de “Calunguinha”.

Não deu uma semana e percebemos que o problema persistia. Como em time que ganha não se mexe, compramos outra armadilha igualzinha, e não é que o roedor deu uma de Tom Cruise naquele filme: “Missão Impossível”? Levou o pedaço de pão e não deixou sequer rastros… ah, por duas vezes.

Diante de dois fracassos consecutivos, partimos para a força bruta e compramos uma daquelas ratoeiras de metal, com molas e tudo o mais, idêntica às que a gente vê nos desenhos animados. Sei que pode parecer ridículo de minha parte, mas preciso confessar que a primeira vítima da ratoeira fui eu mesmo quando, tentando entender o mecanismo de funcionamento, acabei acertando meu próprio dedo… e doeu, podem acreditar.

Falta de prática à parte, passaram-se três dias até que conseguimos o ajuste final, pois nas tentativas anteriores o aprendiz de Mickey Mouse foi mais esperto e conseguiu levar a isca embora. Na manhã do quarto dia, mais uma praga estava eliminada. Dessa vez, o rato já era mais vitaminado, um legítimo gabiru*. Para não ser injusto com o finado, seguimos o exemplo anterior, e também lhe demos um apelido póstumo: “Calungão”.

Se a presença indesejável de roedores já não fosse o bastante, outra coisa nos perturbava, era o fato de que, perambulando pelo nosso quintal, sempre vemos dois ou três gatos, que não perdem um churrasco, estão sempre na espreita por um vacilo ou esperando que alguém se compadeça daquela cara que inspirou o Gato de Botas no filme do Shreck e lhes jogue alguma comida.

Que me perdoem os defensores dos animais, porém se tem um bichinho que eu não suporto é o tal do gato. O desgraçado é interesseiro, dissimulado, egoísta e arredio. Entretanto, e antes que me crucifiquem e que eu comece a sofrer atentados da parte do Greenpeace ou algo do tipo, quero deixar claro: não gosto de gatos (não gosto mesmo), mas nunca fiz mal a nenhum.

Continuando… esses imprestáveis, que desde pequeno ouvíamos dizer que serviam para caçar ratos, não dão a mínima para os roedores que passam para cima e para baixo, mas ofereçam um pedacinho de carne na brasa pra ver…

Se bem que eu nem tiro toda a razão dos pobres bichanos, pois, justiça seja feita, os últimos exemplares de ratos que vimos rondando o quintal, já depois das duas eliminações (tá parecendo conversa de BBB, né?), eram maiores que os próprios gatos. A bem da verdade, o primeiro vulto que vimos, tudo bem que foi meio no escuro, eu cheguei a pensar que era uma capivara… eu tenho 1,80m de altura e tive medo, imagina os felinos. É, analisando com calma, acho que o caso aqui só seria resolvido com um gato-do-mato ou uma jaguatirica, pena que o Ibama não me deixe importar nenhum desses.

Não se fazem mais ratos como antigamente, sabem? Daqueles pequenininhos, que são fáceis de eliminar e que os gatos andavam caçando conforme lhes indicava o instinto. Isso é culpa do homem brincando com a natureza. Depois que descobriram as tais das clonagens e das modificações genéticas, a coisa virou um “Deus nos acuda!”. Depois da tal da ovelha clonada, já vimos de tudo: porcos que brilham no escuro, ratos com orelhas humanas nas costas, até de maconha mentolada eu já tive notícia.

Meu pai costuma dizer que a razão das gerações atuais serem bem mais altas do que as anteriores, são os hormônios que os granjeiros dão para as galinhas se desenvolverem mais rápido. Eu não duvido que seja verdade e, considerando que os ratos sobrevivem comendo restos, as sobras dos mesmos alimentos modificados que ingerimos, acabam indo para o lixo, viram comida para eles e o resultado é esse que eu contei.

Mas tudo bem, enquanto a coisa se limitar à classe dos roedores, sempre haverá alternativas para resolver o problema: ratoeiras, armadilhas ou venenos. Meu medo é que esse cardápio megavitaminado chegue a Brasília. Já pensou um político geneticamente modificado, do tamanho de um elefante e voraz como um demônio da Tazmania? Cruz credo! Não ia ter chumbinho* que desse jeito.

Do Timor, com carinho,

Gus,

Díli, 13/03/10

* Gabiru – designação tipicamente nordestina para rato muito grande;

* Chumbinho – famoso veneno para ratos, muito forte. É proibido no Brasil atualmente.

Augusto Vilaça tem 34 anos e é brasileiro de nascimento, pernambucano de registro, sertanejo de coração, policial por vocação, honesto por convicção, cozinheiro por enxerimento e escritor por falta do que fazer. Querem mais?

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Quem for chegando, vai ficando atrás… – Augusto Vilaça

Por Augusto Vilaça, 8 de março de 2010 10:34

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Como aqueles que acompanham as minhas crônicas devem ter percebido, meus lampejos de nostalgia vão e voltam. Esta semana, tentei resgatar um aparelho de celular que a operadora daqui estava oferecendo para quem fizesse uma recarga no valor de 10 dólares, porém não consegui, quando me deparei com aquele amontoado de gente e tracei mentalmente um gráfico comparativo de valor agregado da premiação versus estimativa de tempo despendido focado no macroambiente (é nisso que dá inventar de fazer os tais dos cursos de “Gestão”), desisti.

Vocês devem estar se perguntando o que isso tem a ver com nostalgia, mas é que, quando eu vi aquele monte de gente se acotovelando, sem nada que pudesse dar a mais vaga ideia de algo que se parecesse com uma fila, lembrei-me dos tempos criança, quando estudava no Colégio da Polícia Militar e, na hora em que chegávamos, formávamos uma coluna com todos cantando: “quem for chegando, vai ficando atrás, pois menino educado é assim que faz…”.

Tem coisa mais irritante do que fila? Chega a dar desânimo olhar pr’aquele mundo de gente na sua frente, e a mínima projeção do tempo que será perdido aguardando a sua vez é simplesmente desesperadora.

Essa conversa de filas é tão séria que tem até leis tratando do assunto. Desde a Lei de Murphy, que diz: “não importa a fila em que você esteja, a do lado sempre andará mais rápido”, até as leis que tratam do tempo máximo de permanência em filas como as dos bancos. Entretanto, falando sinceramente, a única que vejo sendo aplicada ao meu caso é a de Murphy, e não falha nunca…

Se isso não bastasse, ainda aparecem os espertalhões que, quando não furam a fila na maior cara-de-pau, arrumam as mais diferentes formas para se posicionarem melhor. Quando não é um carrinho de compras, é alguém que fica ali, marcando o lugar, enquanto o indivíduo segue fazendo outras coisas.

E no cinema, então? A fila quilométrica, você lá, desde o meio-dia, esperando a vez de comprar o ingresso para a sessão das dez da noite, quando chega alguém que procura, procura e acaba encontrando, lógico que na sua frente, amigos de infância, dos tempos do maternal e que não se veem há décadas, com quem começam a puxar conversa e seguem “botando o papo em dia” até que chegam ao guichê, compram as entradas e saem, cada um pro seu lado. Para a coisa ficar ainda pior, ele é exatamente a pessoa que leva os últimos tíquetes e esgota os lugares na sessão do filme que você estava planejando assistir desde o mês passado.

Por outro lado, e por incrível que pareça, tem gente que gosta de enfrentar filas. Se não fosse assim o pessoal de São Paulo nunca sairia de casa, as escolas funcionariam por sistema de Educação à Distância, os escritórios seriam todos virtuais e comida só por telefone, os moto-boys dos restaurantes seriam os únicos que precisariam sair para alguma coisa: fazer as entregas; mas, do jeito que eles pilotam, a última coisa que eles se preocupariam seriam exatamente as filas.

Aliás, falando nos habitantes da maior cidade do país, que outro maluco teria a brilhante ideia de encarar milhares de quilômetros de engarrafamentos diariamente, além das filas nos pedágio, nos supermercados, nos restaurantes, nas repartições públicas, nos banheiros de bares e boates, nos parques e em tudo o mais? Algo que merece um estudo à parte são os feriados prolongados, quando os paulistas ou paulistanos (nunca acerto…) inventam de procurar um refúgio daquela selva de pedra com céu cinzento do dia-a-dia, demoram tanto as viagens de ida e de volta que não dá nem para aproveitar o lugar e já está na hora de voltar, tem que gostar muito de sofrer em filas mesmo.

Agora uma coisa é certa, como disse um amigo: “a necessidade é a mãe da criatividade” e, diante do problema que é tudo isso, surgem os prestadores de serviço, aquelas pessoas dedicadas e pacientes que fazem questão de aliviar o nosso sofrimento, entram e saem milhares de vezes das filas e são capazes de oferecer o “vale-lugar” por módicos 5 reais. Uma pechincha, considerando o tempo que será poupado. Quem nunca viu, é só ir em qualquer hospital público e dar uma bisbilhotada lá onde o povo implora pelo atendimento.

Uma versão mais tecnológica disso são as empresas online de venda de ingressos. Para quem não lembra, o último show do U2 em São Paulo (sempre São Paulo, né?) gerou filas que chegavam a 10 quarteirões, assim, quem se incomodaria em pagar 50 ou 60 reais a mais para ter as entradas entregues no conforto do lar?

Mas é assim mesmo, no Brasil temos fila pra tudo: pra tentar arrumar emprego, pra tentar abastecer o carro antes que a gasolina aumente, para tentar ser atendido pelo sistema único de saúde, para tentar matricular os filhos na escola pública, para tentar receber o seguro desemprego, para tentar se aposentar, para tentar ver seu direito ser reconhecido na justiça… ufa! É tanta fila que eu vou parafrasear o Policarpo Quaresma: “ou o Brasil acaba com as filas, ou as filas acabam com o Brasil”, afinal as leis existem para serem cumpridas e, no corolário de Murphy, tem outra que diz: “quanto mais tempo esperamos numa fila, maior é a chance de estarmos na fila errada”. Pior é que alguns fatos que têm sido veiculados recentemente na imprensa me dão a clara impressão de que o Brasil já está na mesma fila há 510 anos, acho que já é hora de mudar.

E se algum de vocês não concordar comigo e estiver com vontade de me criticar, não tem problema, pode entrar na fila.

Do Timor, com carinho.

Gus,

Díli, 05/03/10

Augusto Vilaça tem 34 anos e é brasileiro de nascimento, pernambucano de registro, sertanejo de coração, policial por vocação, honesto por convicção, cozinheiro por enxerimento e escritor por falta do que fazer. Querem mais?

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Mandar é melhor do que… – Augusto Vilaça

Por Augusto Vilaça, 1 de março de 2010 7:31

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Como diz aquele ditado: “Mandar é melhor do que…”, ah, não se preocupem, não colocarei um palavrão na minha crônica. Os leitores de mente mais poluída já devem ter conseguido completar a frase, os de pensamentos mais puros, que ficaram sem entender, depois me mandem um e-mail que eu digo a palavra que falta.

Acho que nunca a sabedoria popular foi tão precisa em suas colocações, quero dizer, ainda que haja controvérsias, já que eu, por exemplo, prefiro a ideia que está subentendida nas reticências, a história universal tem nos mostrado que o poder é mesmo inebriante.

Por mais clichê que possa parecer, a única comparação que me vem à cabeça é a de uma criança que ganhou um doce, ela vai fazer de tudo para não largá-lo e, se por acaso alguém vier a tirar-lhe o mimo da boca, pode esperar que vai haver uma choradeira de cortar o coração.

Os registros feitos ao longo dos séculos nos dão conta de que as pessoas que tiveram o poder nas mãos não quiseram mais largá-lo. Foi assim com os Reis e Faraós da antiguidade, passando pelos ditadores e grandes revolucionários, e chegando até os políticos do chamado Mundo Democrático de hoje em dia. Mesmo os líderes dos movimentos socialistas e comunistas, estabeleceram mecanismos para se perpetuarem no poder e, embora pregassem a igualdade entre todos, duvido muito que passassem por toda a limitação de recursos que impunham aos demais.

É incrível e até mesmo inacreditável vermos casos de políticos que gastam nas campanhas muito mais do que receberão em salários durante todo o mandato. Das duas uma: ou o poder é mesmo algo muito bom e vantajoso ou ajudar e representar o povo que o elegeu é algo como o MasterCard: “não tem preço”.

A verdade é que meu espírito altruísta, construído através de anos de meditação quase tibetana, não consegue entender tanta bondade, é realmente algo para quem já alcançou a divina iluminação.

Para permanecer com o controle nas mãos vale de tudo: criticar amigos de infância, renegar os próprios pai e mãe, desfiliar-se de partidos, negar tudo e até se dizer “ressentido” e renunciar, ou melhor, dar um tempo na política para se dedicar um pouco mais à família que está reclamando da ausência.

Eles vão e voltam. Inimigos mortais viram aliados, pessoas que perderam mandatos são re-eleitas, e quem saiu de um partido cria o seu próprio. Aqueles que não tem a cara de se candidatar novamente, viram consultores ou “presidentes de honra” e passam a exercer o poder por tabela.

De uma maneira ou de outra, sempre estão por perto. Lembram daquele que levou impeachment? E do Tenor do Mensalão? E daquele outro que disse: “não sei, não vi”? Estão todos por aí. Às vezes eu sinto que estou tendo um déjà vu ou que estou assistindo às reprises de novela, o “vale a pena ver de novo”, com a grande diferença de que, na minha opinião, não vale mesmo…

O caso mais recente que temos desse apego ao poder é o que está acontecendo no Distrito Federal: afasta-se Governador por denúncias de corrupção, mas ele deixa o Vice. O Vice perde a filiação ao partido, mas diz que fica. Quando o cerco se aperta para o lado do Vice, ele resolve pedir para sair. E quando ele sai, quem assume? Uma pessoa ligada ao Governador que foi afastado. E o ciclo começa outra vez.

A coisa tá tão enroscada que a cúpula do partido a que pertencem decidiu que a solução (ou, talvez, a melhor “cortina de fumaça”) parece ser acabar com o diretório local, o que não vai ser muito complicado, vez que os remanescentes não estão se mostrando realmente dispostos a ficar por perto, pois como diz aquele outro ditado: “diz-me com quem andas que te direi quem és”, ou ainda: “diz-me quanto é o ‘por fora’ que eu te digo quantos panetones dá pra comprar”.

Sei não, mas isso não está me cheirando bem! Ou melhor, até que cheira bem, sim… cheira a panetone, que me lembra Natal, que me lembra festa, que me lembra reunião de parentes e amigos, que me lembra farra, que me lembra barulho, que me lembra o povo italiano, que me lembra orégano, que me lembra pizza… ih… Maldito Freud com aquela conversa de “livre associação”, comecei a pensar nas artimanhas do poder e acabei pensando em pizza, por que será? Bom, deixa isso pra lá, não quero nem uma fatiazinha, afinal eu tô de dieta mesmo…

Do Timor, com carinho,

Gus

Díli, 26/02/10

Augusto Vilaça tem 34 anos e é brasileiro de nascimento, pernambucano de registro, sertanejo de coração, policial por vocação, honesto por convicção, cozinheiro por enxerimento e escritor por falta do que fazer. Querem mais?

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Parabéns para mim! – Augusto Vilaça

Por Augusto Vilaça, 23 de fevereiro de 2010 14:47

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Parabéns para mim, nesta data querida, muitas felicidades, muitos anos de vida.

É isso mesmo, chegou o dia. Hoje, 23 de fevereiro, eu completei 34 anos. Sinceramente, nunca tinha passado um aniversário assim, longe de casa, sentindo que era um dia normal, como outro qualquer. Acordei na hora de costume, fui pro banho, troquei de roupa, tomei café da manhã exatamente igual ao de ontem e provavelmente idêntico ao de amanhã, escovei os dentes e sai para trabalhar.

Para o dia começar ainda melhor, a bateria do carro não ajuda, acho que é problema no motor de arranque, e olhe que já passou uma semana na oficina e não arrumaram… tudo bem, não vai ser isso que vai tirar minha alegria, não hoje! Consegui voluntários, um empurrãozinho e o carro estava vivo novamente.

O restante do dia foi idêntico aos outros 292 desde que saí do Brasil e vim para o Timor, trabalhar.

Estar longe de casa, do outro lado do Mundo, é uma experiência muito válida e engrandecedora, sei disso. Não só tenho me aperfeiçoado no campo profissional, mas também creio estar crescendo como pessoa, tanto é que estou dando mais valor aquelas pequenas coisas que, anteriormente, eu não enxergava. Até aqueles engraçadinhos que esperavam dar meia-noite pra me ligar e desejar feliz aniversário, geralmente me tirando do meio do sono e que eu xingava de um lado e ouvia gargalhadas do outro, fazem falta, afinal, lembravam da data e hoje, garanto, ao invés de xingar eu os convidaria com sinceridade: “que bom que lembrou, vamos tomar uma agora mesmo para celebrar?”.

Sei que a gente não deve se sentir dependente dos outros para esse tipo de situações e eu juro que tentei me virar sozinho: comprei um presente para mim mesmo e, como queria me fazer uma surpresa, vendei os olhos e o escondi, o problema é que já revirei a casa toda e ainda não o encontrei, estou achando que, sem ver, devo ter “guardado” na lixeira e vocês já sabem o destino que deve ter tomado. O bom da história é que como eu estava monetariamente desfavorecido, comprei só uma “lembrancinha” e a dor foi maior em meu ego do que em meu bolso.

Também pensei em acordar mais tarde e me servir café na cama, contudo, pensando com um pouquinho de lucidez, eu vi que só conseguiria fazer uma coisa de cada vez: ou acordava mais cedo para preparar o desjejum ou ficava na cama esperando, em vão, que ele chegasse.

Tudo bem, sou brasileiro e não desisto nunca! Resolvi pegar a bicicleta e dar um passeio pela orla, mas vi que seria muito deprê fazer isso sozinho e, além do mais, choveu pra caramba. Deprê e molhado é demais…

Restava-me o jantar. Disse a mim mesmo: “- Vou preparar algo bem gostoso”, na medida das possibilidades e limitações, lógico, mas me lembrei de que esquecemos de comprar gás e acabei tendo que repetir o cardápio do café da manhã: torrada com presunto e café gelado com leite (ainda bem que não faltou energia e deu pra usar a torradeira e o liquidificador).

Tudo passa, já ouvi dizerem que “até a uva passa” (sei que essa piada é péssima, mas eu tô deprê e o texto é meu, escrevo o que eu quero!) e o dia passou, ou melhor, tá quase passando. Agora só no ano que vem.

Pois bem, amigos, espero que minha comovente história tenha tocado os corações de vocês. Não se esqueçam de que, no dia 23 de fevereiro de 2011 eu estarei no Brasil e que adoro café na cama, tenho preferência por frutas, iogurte, suco, torradas, geléia, croissant (acho que tô com esse desejo desde que não comi nenhum na minha passagem a jato pela França, como já contei em um texto anterior), bolo de rolo ou engorda marido, algumas fatias de queijo, outras de rosbife e um cappuccino.

Fora isso, saibam que estou precisando de um notebook novo, uma carteira (se já vier com conteúdo eu agradeço), um par de tênis de corrida, cuecas (Box, por favor) e sem esquecer de que livros, roupas e perfumes nunca são demais.

Ah, e quem estiver pensando em me levar para sair, sei de um lugar bem legal em Boa Viagem tem um ótimo rodízio de sushi e petiscos, e o chope é bem gelado.

Bem, acho que é isso. Sei que posso contar com a colaboração de todos, não é mesmo? Afinal, e como sei que gostam de mim, não querem que eu me traumatize, desenvolva um sentimento de rejeição e tenha que passar o resto da vida fazendo terapia e tomando antidepressivos. Além do mais, se vocês me decepcionarem, na hora em que eu for soprar as velas o bolo, vou desejar que as pulgas de 1000 camelos infestem os seus traseiros e que seus braços sejam muito curtos para coçar. E aí, vão arriscar?

Do Timor, com carinho,

Gus

Díli, 23/02/76 ops, desculpem, 23/02/10

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O ano está só começando – Augusto Vilaça

Por Augusto Vilaça, 22 de fevereiro de 2010 6:43

carnaval

Agora sim! Finalmente, e depois de longa espera, o ano vai começar. Como já é público e notório no Brasil, a coisa só embala mesmo depois do Carnaval. É hora de ir se preparando para dar início a todas as suas resoluções de ano novo: entrar em dieta, fazer exercícios, dormir cedo, voltar a estudar, beber menos, parar de fumar, abrir uma poupança…

De toda a lista, eu creio que o item mais difícil de tirar do papel, neste primeiro momento, vai ser começar a poupar dinheiro, pois passadas as festas de momo com todos aqueles extras “inesperados”: fantasias, abadás e kits de blocos, bebidas e remédios para ressaca; a gente se depara com um rombo no cheque especial tão grande quanto o túnel que escavaram para roubar o Banco Central. E pra completar, aquela velha história de que um corpo não pode estar em dois lugares ao mesmo tempo também funciona com o nosso dinheiro: ou cobre as dívidas ou vira poupança.

Não sei se vocês já notaram, mas tenho a impressão de que o ano termina em novembro, quando se abre o ciclo de confraternizações, entra dezembro e mais confraternizações, depois natal, réveillon, vem janeiro e aquele clima de férias, de verão, de praia… e daí o carnaval. E só depois dele é que o ano começa outra vez.

Mostrando que minhas crônicas também são culturais, vou matar a curiosidade de alguns e explicar porque o carnaval é uma festa com data móvel: isto acontece pois o domingo de carnaval (depois do sábado do Galo da Madrugada) tem que ficar exatamente a 49 dias do domingo de Páscoa, que, por sua vez, é comemorado sempre no primeiro domingo de lua cheia após o início da primavera no hemisfério norte. Pode parecer complicado, mas é assim que funcionam os cálculos. De minha parte, acho bem mais prático deixar a teoria de lado e procurar no calendário que eu ganho todo ano da padaria, que já está lá, marcadinho.

Aliás, essa história de data para começar e terminar o carnaval é a maior conversa fiada. Na Bahia, por exemplo, com todas as suas prévias e “pósvias”, o carnaval do ano seguinte já começa na quarta-feira de cinzas do ano anterior. Já em Pernambuco, o prefeito do Recife andou declarando à imprensa que o sucesso do carnaval 2010 foi tão grande que ele pretende, para 2011, adicionar mais 7 dias de festa… imaginem só…

Conversando sobre o assunto com um amigo, ele me saiu com esta: “Em Pernambuco, assim como na Bahia, a linha do "espaço-tempo" é diferente, então não servem como parâmetro!”, acho que tenho que concordar com ele.

O negócio é que, se a moda pega, são sete dias a mais de carnaval, depois se coloca uma micareta no meio, uns dois ou três feriados e, quando a gente perceber, já estamos na sexta-feira Santa, sábado de Aleluia e domingo de Páscoa. Pra chegar ao Corpus Christi é um pulo e considerando que, no nordeste, o São João de Caruaru e de Campina Grande já duram um mês inteirinho, não demora e vão começar a dizer que o ano só começa, pra valer, em julho.

Mas a coisa não para por aí… para os esquecidos, este ano temos a Copa do Mundo, cada jogo é um motivo para sair do trabalho mais cedo, reunir os amigos, beber, fazer barulho e se divertir. Ah, e assistir ao jogo, ainda que seja a emocionante disputa pela 32ª colocação, entre Eslovênia e Eslováquia.

Com isso, junho e julho estão perdidos e se o Brasil inventar de ser Campeão, mais carnaval.

Mas em agosto o ano começa! Bom, teoricamente… Vale lembrar que 2010 é ano eleitoral, vamos escolher: Deputados, Senadores, Governadores e o próximo Presidente da República. E o que seria de um ano político sem festas para o povo e, ainda que com outros nomes, para se adequarem à Lei Eleitoral, os conhecidos Showmícios?

Com isso, vamos, com muita fé em não haver segundo turno, até outubro. Passada a eleição, é hora de comemorar os vitoriosos. E o que isso significa? Mais festa, carreatas, passeatas, motoatas, bicicletatas etc… tudo acompanhado de bebida e trios elétricos.

E então chegamos a novembro e o ano acaba novamente. Mas tudo bem, 2011 já está quase aí, fevereiro tem carnaval e começa tudo outra vez.

Do Timor, com carinho,

Gus

Díli, 21/02/10

Augusto Vilaça tem 33 anos e é brasileiro de nascimento, pernambucano de registro, sertanejo de coração, policial por vocação, honesto por convicção, cozinheiro por enxerimento e escritor por falta do que fazer. Querem mais?

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Só acredito vendo! – Augusto Vilaça

Por Augusto Vilaça, 15 de fevereiro de 2010 7:23

algemas

Como diria o São Tomé: tem coisas em que eu só acredito vendo, e uma delas era político preso no Brasil por suspeita de corrupção. Qual não foi a minha surpresa ao ler as manchetes na internet um dia desses? O ex-governador do Distrito Federal estava preso na sede da PF por suspeita de estar encabeçando um esquema de corrupção, com direito a Habeas Corpus negado e tudo o mais.

Tá certo que estamos em ano de eleições e as manobras políticas para derrubar adversários podem chegar a assumir níveis inacreditáveis, mas tudo tem limite! E tenho que admitir: mesmo tendo esperado umas boas décadas para ver tal coisa acontecendo, me assustei, pensei que isso era um sinal do fim dos tempos, acho que o coração do brasileiro honesto e cumpridor dos seus deveres não está preparado para ouvir uma notícia como essa, assim, de supetão.

Infelizmente, e desde que me entendo por cidadão brasileiro votante e preocupado com o futuro do país até hoje, só tínhamos visto denúncias, notícias na imprensa, investigações e as famosas “CPIs”, que nunca deram em nada além de pizza. Dessa vez, parece que a coisa mudou.

Pensando no assunto, forcei um pouco a memória e vi que já passamos por casos como: os anões do orçamento, a violação dos painéis do Senado, o Projeto Sivam, os caixas-dois de campanha, os grampos telefônicos, mensalão, mensalinho, as privatizações, caso Daniel Dantas, Proer, sanguessugas, e tantos outros… Mas eu pergunto: de quantos deles você se lembrava? Quantos políticos foram presos, ou julgados culpados por eles? Eu, particularmente, não consigo citar um nome sequer.

A fim de matar a minha própria curiosidade, recorri ao tabernáculo do saber (Google, para os não iniciados…) e descobri que tem até um endereço na Wikipédia, onde consta uma lista com 274 escândalos políticos do Brasil desde a década de 70, entretanto, como disse no início do texto, político preso é a primeira vez.

Parece que, enfim, depois de tantas tentativas da Polícia Federal com aquelas operações de nomes estranhos: Anaconda, Confraria, Dominó, Saúva, Testamento, Navalha, Xeque-Mate, Moeda Verde, Sétimo Céu, Aquarela, Águas Profundas, Hurricanes I, II e III, Mão-de-obra, Caixa de Pandora e, em minha opinião, a mais criativa delas – Satiagraha, finalmente a coisa funcionou como pretendiam e o suspeito foi preso sem conseguir, de imediato, uma ordem de soltura.

Sinceramente, já não era sem tempo, eu estava cansado de ver a coisa não dar em nada, de ver político dançando em pleno Congresso Nacional, festejando o fato de seu correligionário, acusado de corrupção, ser absolvido por seus pares que o julgavam, e não perder o mandato. A manifestação, que ficou conhecida como a “dança da pizza”, é uma clara demonstração da falta de respeito pelas instituições democráticas do país e, principalmente, por nós que assistimos a tudo isso e insistimos em perpetuá-los no poder, eleição após eleição.

É meus amigos e fiéis leitores, acho que a coisa está tomando jeito. Que sirva para nós como uma luz no fim do túnel, aquela leve fagulha de esperança que faz com que nós, brasileiros, não desistamos nunca. Pelo menos é melhor crer que seja assim. Já pensou se isso é apenas mais uma brincadeira de carnaval? Se for, eu vou vestir umas calças folgadas e coloridas e um colarinho enorme, porque só podem estar achando que eu tenho cara de palhaço, ou não é?

Por fim, e sabendo que estamos vivendo num tempo em que tememos uma inversão dos valores, não é tarde nem descabido nos lembrarmos de um trecho do discurso de Ruy Barbosa ao Senado Federal em 1914:

"De tanto ver triunfar as nulidades, de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça, de tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar da virtude, a rir-se da honra, a ter vergonha de ser honesto."

Embora quase centenário, o texto é de uma atualidade impressionante e deve servir para nos lembrar de que ainda existem pessoas corretas e conscientes da importância que é ser honrado. Esse é um exemplo a ser seguido. Façamos como o saudoso Águia de Haia: levantemos a cabeça, estufemos o peito e nunca, mas nunca mesmo, tenhamos vergonha de sermos honestos. Agora, o triste nisso tudo é que, mesmo tendo sido direcionados ao Congresso Nacional, esses ensinamentos parecem não fazer parte do currículo dos políticos de nosso país.

Do Timor, com carinho,

Gus

Díli, 13/02/10

Augusto Vilaça tem 33 anos e é brasileiro de nascimento, pernambucano de registro, sertanejo de coração, policial por vocação, honesto por convicção, cozinheiro por enxerimento e escritor por falta do que fazer. Querem mais?

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Daqui praí – Augusto Vilaça

Por Augusto Vilaça, 8 de fevereiro de 2010 6:49

janela

Foi bom enquanto durou, mas acabou-se o que era doce!

Como vocês que acompanham as crônicas sabem, estive recentemente no Brasil, de férias. A folga passou rápida como um raio e a programação, coordenada pelos meus dois filhos pequenos, foi super-intensa: zoológico, praia, shopping, parque de diversões e cinema (onde eu assisti de: Xuxa e o mistério da feiurinha até Sherlock Holmes, passando por Avatar e Astroboy).

No total foram vinte e seis dias, dos quais seis foram só viajando e vinte dias em casa.

Saindo do Timor, a primeira parada foi Bali e a empresa: Merpati – avião pequeno, entretanto a viagem estava só começando e, como era de se esperar, a excitação em voltar para casa, depois de oito longos meses, me fazia superar tudo, até mesmo o fato de não achar uma posição confortável para colocar as pernas, que insistiam em não caber no espaço entre uma fileira de poltronas e a outra. Ah, rolou almoço, com direito a sobremesa: uma espécie de pudinzinho em formato de flor, parece que estamos mordendo uma barra de sabonete mais macia.

Em Bali eu levei um chá de chão, meu voo só saía à noite e nem na parte interna do aeroporto eu podia esperar, tive de ficar do lado de fora, sentado no chão e vendo o tempo passar. Quando finalmente entrei, fiz o check-in e depois de passar por aqueles procedimentos de raio x e detectores de metal por duas vezes, uma ainda na entrada do aeroporto, enfim, partimos.

O próximo destino era Doha, a capital do Catar, nos Emirados Árabes. A empresa: Qatar (é assim que se escreve) Airways, o conforto mudou da água para o vinho, ou melhor, da água para um suco de uvas, já que vinho só serviam na classe executiva… Poltronas que me cabiam, tela individual com filmes, seriados, joguinhos e música. Nas refeições, havia até um menu (chique, hein?!), a comida, confesso, era de um paladar diferente do nosso, ainda assim, bem melhor que barrinhas de cereal. O estranho nesse vôo foi que, mesmo tendo passado, por duas vezes, naqueles procedimentos de segurança – raio x, detectores de metal, tira sapato, cinto, essas coisas… – no meio do caminho aterrisamos em Singapura, onde tivemos de descer da aeronave e passar por tudo outra vez para embarcar de novo e continuar a viagem.

Em Doha, me impressionei com o tamanho do aeroporto, o avião para a uma boa distância do prédio e tem uns ônibus esperando para nos conduzir, uma espécie de “integração” de luxo. A viagem leva quase 15 minutos, e aí vocês calculam a distância que é percorrida.

O lugar em si é requintado, fiquei até com medo de entrar no Duty Free, olha o nome: “Milionaire”, dá pra acreditar? Com o dinheiro mais do que contado, nem arrisquei. A única coisa de que eu não gostei foi o banheiro, imundo e fedorento, e se eu já era bastante contente por ter nascido homem, imagine encarando um sanitário daquela categoria, ainda bem que nosso equipamento de tirar água do joelho é mais prático que o das mulheres e possibilita o uso à distância.

No saguão eu vi um monte de pessoas com aquelas roupas enormes e que parecem abadás de trio elétrico, usando turbantes e barbas longas. Só me lembravam daqueles “homens-bomba” que vemos na TV. Até fiquei com vontade de tirar foto, mas tive receio de que o flash da câmera pudesse disparar uma bomba, vai saber…

Mais um tempinho de espera e voamos para Paris. Minha primeira vez na “Cidade Luz”, fiquei até emocionado. Como a conexão seria de quase oito horas, calculei o tempo para pegar as malas e para um novo check-in e achei que poderia dar um passeio na cidade. Sabe aquela coisa bem clichê? Visitar a Torre Eiffel, comer croissant, e tirar uma foto com um baguete dembaixo do braço.

A coisa começou a dar errado antes mesmo de eu chegar lá. A previsão do tempo era de neve e temperatura de -5º C, para um nordestinho, acostumado ao sol do Recife e sem os apetrechos necessários para enfrentar o frio, isso era o retrato do apocalipse. Por outro lado, como a oportunidade poderia ser única, resolvi encarar o desafio.

O problema é que eu levei mais de uma hora até achar a saída do aeroporto, quando finalmente o fiz, fui até um posto de informações onde tomei nota dos ônibus que deveria tomar para cumprir o roteiro que desejava. Troquei alguns euros e fui até a parada. Já me assustei com o preço da passagem: 34 euros ida e volta, fora o metrô que ainda precisaria pegar, caso quisesse ir até a Torre Eiffel (e Paris sem a Torre Eiffel, não é Paris). O frio estava me castigando, a única proteção era uma calça jeans e uma jaqueta que um colega me emprestou.

Mais uma espera. Trinta minutos depois, o ônibus ainda não havia chegado e eu comecei a me preocupar com a hora e, lógico, em gastar 34 euros. O espírito pirangueiro* falou mais alto do que o espírito aventureiro e eu desisti do passeio. Voltei ao saguão e procurei saber como fazer para chegar ao balcão da TAM onde faria o novo check-in para o vôo até São Paulo.

Prestei bem atenção ao que me informaram e fui atrás do tal Shuttle Bus*, que de ônibus não tinha nada, estava mais para um mini-metrô. De onde eu estava (Terminal 1) até o Terminal 2 (estranhamente, o Terminal 3 ficava no meio…), levamos uns 10 minutos e, a partir daí, eu tive que caminhar quase 20 minutos até o balcão de atendimento da TAM. Fiquei imaginando se, realmente, daria tempo para o meu passeio pela cidade e acho que tomei a decisão correta ao desistir.

Espera novamente. Comecei a ficar com um pouco de fome e resolvi procurar um lugar para comer comida tipicamente francesa. Achei: McDonald’s! Ora, considerando que era feito na França, era comida francesa ou não? O sanduíche estava ótimo, bem diferente dos que temos no Brasil: o pão era diferente, uma espécie de ciabata, e ainda vinha com um molhinho poivre*, muito bom. O resto era o de sempre: coca-cola e batata frita. Aproveitei para usar a internet (de graça) e dar notícias sobre a viagem.

O avião da TAM não deixou a desejar, consegui me encaixar na poltrona e as pernas cabiam no espaço, ainda que não tão confortavelmente quanto no vôo anterior. Depois de 11 horas e qualquer coisa voando, novamente pisava em solo brasileiro.

Agora em Sampa, mais um chá de espera, se bem que, dessa vez, me sentindo em casa. Quase sucumbi ao que diz aquela música de Roberto Carlos: “… e ao se sentir em casa, sorrindo vai chorar…”. Só mais algumas horas e eu estaria, de novo, na minha terrinha amada.

Poupando-os daquele velho blá-blá-blá procedimental, já estava pronto para embarcar, outra vez, agora pela Webjet, fiquei sabendo que o avião atrasaria uma hora – “é, cheguei mesmo ao Brasil”, pensei.

Finalmente embarcado, tive de discutir com a aeromoça, ou melhor, comissária de bordo que, deliberadamente, enquanto eu fui ao banheiro, colocou um pessoal na fileira onde eu estava, ocupando a minha poltrona. O pior é que ela ainda veio braba pro meu lado, como se aquele não fosse o meu lugar. Depois de ver que eu estava certo, perguntou se eu fazia questão, o que já devia ter ficado claro quando comecei a argumentar com ela, respondi que sim, pois tinha escolhido aquele assento, na saída de emergência, para poder esticar as pernas. Depois de algumas caras feias (fome, talvez?), saíram e eu pedi que devolvessem a jaqueta e o livro que eu tinha deixado marcando meu lugar.

O voo, a opção mais barata, saía de São Paulo e fazia conexão em Brasília. Devido ao atraso, saímos de um avião e corremos para o outro. A única coisa que eu pude ver da cidade foi o corredor entre os minhocões de acesso, mas posso garantir que era bonito e, aparentemente, bem planejado, como dizem que é tudo na nossa Capital.

Ah, antes que eu me esqueça, o lanche foi barrinha de cereal (realmente eu estava no Brasil).

Por último, Recife! Muita gente me esperando no aeroporto, me senti uma celebridade. Beijos, abraços e acredito até ter visto algumas lágrimas. Minha filha pulou no meu colo e só me largou quando entramos no carro, para me agarrar de novo quando o carro parou no restaurante onde mais um monte de gente me esperava e onde pude matar um pouco as saudades do meu povo e de alguns sabores dos quais eu já havia quase me esquecido.

Vixe, o texto ficou muito longo, espero que me perdoem e que consigam lê-lo até o final com a paciência costumeira. Ainda tenho muito a contar, mas isso fica para o próximo capítulo, ok?

Do Timor, com carinho (como podem ver, já estou de volta)

Gus,

Díli, 04/02/10

* Pirangueiro – avarento, muquirana;

* Shuttle Bus – ônibus para pequenos deslocamentos;

* Poivre – pimenta-do-reino.

Augusto Vilaça tem 33 anos e é brasileiro de nascimento, pernambucano de registro, sertanejo de coração, policial por vocação, honesto por convicção, cozinheiro por enxerimento e escritor por falta do que fazer. Querem mais?

Todas as segundas com uma novidade no Blog Notícias de Muito Longe: http://aavs1976.wordpress.com

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Aos heróis – Augusto Vilaça

Por Augusto Vilaça, 18 de janeiro de 2010 18:18

Senhores, segue uma pequena homenagem aos nossos heróis.

Aos Heróis,

Há cerca de dezessete anos, quando eu decidi entrar para a Polícia Militar, meu pai tentou me subornar para que eu não o fizesse. Não queria que eu entrasse para a mesma corporação da qual ele fez parte por 30 anos.

Fingindo ter aceito a proposta, pedi-lhe algum dinheiro adiantado, fui correndo para o banco (na época, Bandepe) e fiz a minha inscrição. Alguns meses mais tarde eu estava me apresentando em Paudalho para iniciar os três anos mais longos da minha vida e que marcavam apenas o início da minha jornada.

O fato de meu pai não querer que eu me tornasse policial militar nada tinha a ver com descrédito na instituição, mas, por ter se dedicado pelo que hoje representa a metade de sua vida, a uma profissão tão nobre e, ao mesmo tempo, inglória, ele não queria o mesmo destino para mim. Só que todos vocês sabem o que é adolescente, né? Eu não estava nem aí para os conselhos dele, segui meu coração, minha vocação e hoje sou policial militar, com muito orgulho.

O que preocupava meu velho pai eram todas as situações que eu, a exemplo dele e de tantos outros, a seu tempo, enfrentaria no meu dia-a-dia: situações de estresse, cansaço, medo e perigo, onde a nossa vida nunca é a mais valiosa e nossos sentimentos precisam ser sempre controlados com a frieza de uma máquina ou o autocontrole de um monge budista.

Nossa profissão é muito ingrata, trabalhamos quando os outros se divertem, velamos quando os outros dormem, não podemos ter medo quando os outros estão apavorados e precisamos de uma força sobre-humana quando os outros já fraquejaram.

Exemplo claro disso é a situação que está acontecendo no Haiti. Homens, pessoas comuns como você e eu, assumiram o posto de heróis que lhes foi outorgado por aqueles que, em desespero, esquecem-se de que os super-poderes só existem na ficção.

Nossos heróis são pessoas de carne e osso, que também sentem fome, sede, frio, sono e medo, mas que sabem que não podem demonstrar seus sentimentos e nem se entregar, pois juraram que defenderiam o próximo “mesmo com o risco da própria vida”.

Todos são heróis!

Os que sucumbiram ao desastre são HERÓIS por saberem que correriam riscos e, ainda assim, deixaram a segurança do lar e o aconchego de suas famílias para cumprir uma missão nobre que era a de ajudar pessoas que não conheciam, mas que precisavam deles.

Os que sobreviveram são HERÓIS por, ao invés de quererem sair dali o mais rápido possível (já que isso faz parte do instinto humano de sobrevivência) preferiram ficar e assumiram uma tarefa comparável às de Atlas ou de Hércules, tendo que se multiplicar em vários para poder dar conta de tudo ao mesmo tempo: busca por sobreviventes, resgate de corpos, manutenção da ordem, controle e distribuição de recursos e sabe lá Deus o que mais? Deixando seu corpo, humano, em segundo plano.

Aos que se preparam para ir ao Haiti, já são HERÓIS por terem se voluntariado a encarar o perigo desconhecido, já que não sabem o que os espera, por estarem marchando na direção oposta ao que a “sensatez” recomenda, que seria fugir do perigo e não ir de encontro a ele. Antes disso, aceitaram o chamado do dever e se preparam para enfrentar o lhes aparecer pela frente.

Todos, saibam que são heróis para mim! Motivo de orgulho e admiração. Por causa de ações de pessoas como essas que eu decidi entrar para a Polícia Militar, para poder me tornar um deles! Nossa missão é, como temia meu velho pai, ingrata e recheada de momentos difíceis, entretanto fomos forjados para isso e nossa maior recompensa e a de termos no peito, não medalhas, mas o sentimento de que fizemos o nosso melhor.

Vocês que estão no Haiti, lembrem-se de que, ainda que não fisicamente (mas estamos tentando resolver isso), estamos com vocês. Confiamos em sua força e perseverança, pois “nos caminhos mais duros, só os mais duros caminham”, e vocês têm demonstrado que são capazes e duros o suficiente.

Aos que se foram, onde quer que estejam, mantenham a cabeça erguida e estufem o peito com a sensação do dever cumprido: “Vitória sobre a morte é nossa glória prometida! HURRA!”

Força e Fé!

Augusto Vilaça

Recife-PE, 18/01/10

Augusto Vilaça é Capitão da Polícia Militar de Pernambuco e atualmente integra missão de Paz no Timor Leste – UNMIT

Um abraço e fiquem em Segurança.

Best wishes, and stay safe.

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