Olha o aviãozinho… – Augusto Vilaça
Quem pensava que a crônica desta semana seria sobre a Copa do Mundo e o fiasco de nossa seleção, “gorou o ovo*”… em primeiro lugar porque tenho certeza de que o assunto já está sendo mais do que esgotado por outras pessoas e eu correria o risco de cair na mesmice e escrever um texto batido e repetitivo, e, em segundo, pelo fato de que os Argentinos também foram eliminados na mesma fase e com um placar bem mais vergonhoso do que o nosso, assim não teremos que aguentar os “hermanos” capitaneados por Maradona cheios de si por terem conquistado a Copa do Mundo, o que não seria nada fácil.
Se não fosse o suficiente, por tabela ainda nós nos livramos do risco de vê-lo nu perambulando por Buenos Aires. Só fico com pena do Paraguai também ter caído fora, porque a nudez da Larissa Riquelme seria bem mais agradável aos olhos do que a do técnico argentino, que mais parece um cruzamento do Tatu da Ilha da Fantasia com um Che Guevara sem pescoço.
Mas vamos deixar a Copa pra lá, tenho coisas mais importantes com o que me preocupar no momento, e uma delas é aproveitar as férias escolares para mudar os hábitos alimentares de meus dois filhos pequenos.
Não é novidade para ninguém que criança não combina com frutas e verduras. Aquele garoto da propaganda que pede pra mãe comprar brócolis é apenas ficção. Por outro lado, também não é novidade que as fibras, vitaminas e tudo o mais devem estar presentes em nossa pirâmide alimentar. Tá, eu sei, você sabe, o pediatra sabe, mas quem consegue convencer os pequenos disso?
Outra coisa que pesa em nosso desfavor são os mimos excessivos dos avós e da babá: biscoitos, salgadinhos e comidinhas atendendo ao gosto do freguês, já que tanto eu quanto a minha esposa trabalhamos o dia todo e nem sempre estamos por perto na hora da refeição, e quando isso acontece, somos sempre os chatos da história. Aí já viu, com um placar injusto, são 5 contra 2, decidimos agir antes que fosse tarde demais. Já era a hora de introduzir efetivamente os vegetais na dieta da nossa prole, e eu confesso: achei que seria bem mais fácil.
Começamos a peleja com as frutas, a primeira foi o mamão. Escolhemos o final de semana, já que nem eu nem ela iríamos trabalhar e teríamos toda a manhã para atingir o nosso objetivo que era fazer com que cada um dos nossos dois filhos comesse meia fatia de mamão Havaí.
O drama foi grande: choro, ânsia de vômito, reclamação, várias idas ao banheiro para fazer xixi e inúmeros copos d’água, e olhe que tanto eu quanto minha esposa também comemos da mesma fruta, afinal acreditávamos que seria bem mais fácil convencer pelo exemplo. Depois de várias broncas, lágrimas, argumentações e muita paciência, a missão foi cumprida. Tudo bem que a operação teve início no café da manhã e só terminou perto da hora do almoço, mas o primeiro passo foi dado, no dia seguinte tentaríamos o segundo.
Mudamos fruta, mas o dramalhão foi o mesmo. Outra vez um desjejum que durou das 08 da manhã até quase o meio-dia, só para comerem uma banana cada. A minha sogra acompanhava a cena com os olhos marejados, contudo se manteve firme e não cedeu às chantagens emocionais dos pequenos.
Dia seguinte, nada mudou: salada de frutas e outra batalha… mas, aos trancos e barrancos, a coisa tá andando e estamos esperançosos de que conseguiremos vencer a guerra. O grande desafio agora parece ser convencer a “avozada” de que precisam jogar do nosso lado, mas vou usar todos os argumentos possíveia para lembrar à minha mãe de que eu cresci forte e saudável porque, quando eu era pequeno, nunca dei trabalho para comer. Não posso adiar a conversa, tô indo almoçar lá na casa dos meus pais e tratarei do assunto na mesa. Como toda mãe, eu sei que ela vai entender, ela faz tudo pra me agradar, hoje, por exemplo, vai ter a comida que eu mais gosto: macarrão, purê e carne moída, com molho de tomate peneirado e sem verduras. O quê? Exemplo? Isso eu deixo para quando estiver na frente deles, até porque já comi a minha cota de vegetais durante a infância. No mais, é “faça o que eu digo, não faça o que eu faço” e pronto.
Com carinho,
Gus
Recife-PE, 05/07/10
* Gorou o ovo – sinônimo de erro, falha ou frustração. Expressão muito usada em jogos de esconde-esconde quando a pessoa que procura perde a partida ao dizer o nome errado de um dos procurados, todos os participantes gritam: “- Gorou o ovo”.
Augusto Vilaça tem 34 anos e é brasileiro de nascimento, pernambucano de registro, sertanejo de coração, policial por vocação, honesto por convicção, cozinheiro por enxerimento e escritor por falta do que fazer. Querem mais?
Todas as segundas com uma novidade no Blog As Crônicas do Gus: http://cronicasdogus.com










