Quem não tem gato, não caça – Augusto Vilaça
Dias atrás, apareceram uns ratos aqui por casa e, assim que notamos as visitas indesejáveis, resolvemos agir. Da primeira vez, colocamos uma armadilha que se parecia com um papel pega-moscas e funcionou direitinho, pusemos à noite e, na manhã seguinte, ele estava lá grudadinho. O bichinho era pequeno e asqueroso (como 99% deles), entretanto, durante o seu sepultamento, teve até direito a uma homenagem póstuma: ganhou o apelido de “Calunguinha”.
Não deu uma semana e percebemos que o problema persistia. Como em time que ganha não se mexe, compramos outra armadilha igualzinha, e não é que o roedor deu uma de Tom Cruise naquele filme: “Missão Impossível”? Levou o pedaço de pão e não deixou sequer rastros… ah, por duas vezes.
Diante de dois fracassos consecutivos, partimos para a força bruta e compramos uma daquelas ratoeiras de metal, com molas e tudo o mais, idêntica às que a gente vê nos desenhos animados. Sei que pode parecer ridículo de minha parte, mas preciso confessar que a primeira vítima da ratoeira fui eu mesmo quando, tentando entender o mecanismo de funcionamento, acabei acertando meu próprio dedo… e doeu, podem acreditar.
Falta de prática à parte, passaram-se três dias até que conseguimos o ajuste final, pois nas tentativas anteriores o aprendiz de Mickey Mouse foi mais esperto e conseguiu levar a isca embora. Na manhã do quarto dia, mais uma praga estava eliminada. Dessa vez, o rato já era mais vitaminado, um legítimo gabiru*. Para não ser injusto com o finado, seguimos o exemplo anterior, e também lhe demos um apelido póstumo: “Calungão”.
Se a presença indesejável de roedores já não fosse o bastante, outra coisa nos perturbava, era o fato de que, perambulando pelo nosso quintal, sempre vemos dois ou três gatos, que não perdem um churrasco, estão sempre na espreita por um vacilo ou esperando que alguém se compadeça daquela cara que inspirou o Gato de Botas no filme do Shreck e lhes jogue alguma comida.
Que me perdoem os defensores dos animais, porém se tem um bichinho que eu não suporto é o tal do gato. O desgraçado é interesseiro, dissimulado, egoísta e arredio. Entretanto, e antes que me crucifiquem e que eu comece a sofrer atentados da parte do Greenpeace ou algo do tipo, quero deixar claro: não gosto de gatos (não gosto mesmo), mas nunca fiz mal a nenhum.
Continuando… esses imprestáveis, que desde pequeno ouvíamos dizer que serviam para caçar ratos, não dão a mínima para os roedores que passam para cima e para baixo, mas ofereçam um pedacinho de carne na brasa pra ver…
Se bem que eu nem tiro toda a razão dos pobres bichanos, pois, justiça seja feita, os últimos exemplares de ratos que vimos rondando o quintal, já depois das duas eliminações (tá parecendo conversa de BBB, né?), eram maiores que os próprios gatos. A bem da verdade, o primeiro vulto que vimos, tudo bem que foi meio no escuro, eu cheguei a pensar que era uma capivara… eu tenho 1,80m de altura e tive medo, imagina os felinos. É, analisando com calma, acho que o caso aqui só seria resolvido com um gato-do-mato ou uma jaguatirica, pena que o Ibama não me deixe importar nenhum desses.
Não se fazem mais ratos como antigamente, sabem? Daqueles pequenininhos, que são fáceis de eliminar e que os gatos andavam caçando conforme lhes indicava o instinto. Isso é culpa do homem brincando com a natureza. Depois que descobriram as tais das clonagens e das modificações genéticas, a coisa virou um “Deus nos acuda!”. Depois da tal da ovelha clonada, já vimos de tudo: porcos que brilham no escuro, ratos com orelhas humanas nas costas, até de maconha mentolada eu já tive notícia.
Meu pai costuma dizer que a razão das gerações atuais serem bem mais altas do que as anteriores, são os hormônios que os granjeiros dão para as galinhas se desenvolverem mais rápido. Eu não duvido que seja verdade e, considerando que os ratos sobrevivem comendo restos, as sobras dos mesmos alimentos modificados que ingerimos, acabam indo para o lixo, viram comida para eles e o resultado é esse que eu contei.
Mas tudo bem, enquanto a coisa se limitar à classe dos roedores, sempre haverá alternativas para resolver o problema: ratoeiras, armadilhas ou venenos. Meu medo é que esse cardápio megavitaminado chegue a Brasília. Já pensou um político geneticamente modificado, do tamanho de um elefante e voraz como um demônio da Tazmania? Cruz credo! Não ia ter chumbinho* que desse jeito.
Do Timor, com carinho,
Gus,
Díli, 13/03/10
* Gabiru – designação tipicamente nordestina para rato muito grande;
* Chumbinho – famoso veneno para ratos, muito forte. É proibido no Brasil atualmente.
Augusto Vilaça tem 34 anos e é brasileiro de nascimento, pernambucano de registro, sertanejo de coração, policial por vocação, honesto por convicção, cozinheiro por enxerimento e escritor por falta do que fazer. Querem mais?
Todas as segundas com uma novidade no Blog Notícias de Muito Longe: http://aavs1976.wordpress.com











