Rato de Biblioteca

Por Cristine Martin, 13 de julho de 2010 3:29

Olá amigos,

Venho convidá-los para ler alguns dos textos publicados nas últimas semanas no blog Rato de Biblioteca:

10 livros em 10 dias – o desafio está concluído, e você pode ver lá no blog todos os artigos sobre os livros escolhidos; veja a lista completa aqui.

I Can Haz Cheezburger – de gatos fofinhos a um império na Internet - os ‘lolcats’, ou fotos de gatos com legendas engraçadas, viraram mania na Internet. Saiba mais sobre esse império que começou com um pequeno blog e hoje é uma rede de sites de entretenimento, com muito mais além de gatinhos.
Os Outros – este suspense sutil e arrepiante conta a história de Grace, que vive em uma mansão na Inglaterra com os filhos à espera do fim da II Guerra. As crianças têm uma doença estranha e por isso não podem ser expostas à luz, e após a chegada de 3 criados, coisas estranhas começam a acontecer. Dirigido por Alejandro Amenábar e estrelado por Nicole Kidman.

Adaptação – resenha desta ótima comédia escrita por Charlie e Donald Kaufman; Charlie precisa adaptar um romance sobre orquídeas para o cinema. Essa tarefa ingrata renderá, além de um roteiro maluco, um dos filmes mais criativos que já vi. Estrelado por Nicholas Cage e Meryl Streep.

Memento Mori: retratos da morte – na época Vitoriana havia o costume de tirar fotografias dos mortos. Você sabe por que isso era feito? Veja neste artigo os motivos por que as pessoas guardavam essas lembranças estranhas, que não são tão macabras como parecem à primeira vista.

E não esqueçam que todo domingo tem a Semana do Rato, com links para o que vi de mais interessante e divertido na Internet durante a semana.

Abraços, e boa semana a todos!

Cristine


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Memento Mori: retratos da morte – Cristine Martin

Por Cristine Martin, 7 de julho de 2010 17:29

Um dos costumes estranhos da era vitoriana eram os memento mori, ou fotografias dos mortos. Após a invenção do daguerreótipo na metade do século 19, tornou-se possível registrar imagens de pessoas e eventos especiais, o que antes era feito apenas em retratos pintados, um luxo só acessível aos muito ricos.

Com a popularização das fotos, a classe média podia guardar lembranças de pessoas queridas. Mas frequentemente, a única oportunidade de ter um retrato de alguém era após a morte, especialmente se o falecido era uma criança. Esse costume popularizou-se na segunda metade do século 19 e desapareceu no início do século 20, quando as fotografias ficaram mais baratas e acessíveis, e deixaram de ser novidade.

Memento mori significa “lembre-se que você vai morrer”; na Roma antiga, quando um general desfilava comemorando seu triunfo em batalha, um escravo seu tinha a tarefa de lembrá-lo que, apesar de estar saboreando a glória, amanhã ele poderia experimentar a desgraça e a morte. O escravo diria: “Memento mori“, e provavelmente o general responderia “Respice post te! Hominem te memento!” (Olhe atrás de si; lembre-se que não és nada além de um homem).

Na Idade Média, era comum haver igrejas com coleções de ossos e crânios, para lembrar os fiéis da transitoriedade da vida.  Ainda restam algumas igrejas com esse tipo de ‘decoração’ na República Tcheca e em Évora, Portugal.  Também eram comuns obras de arte moralizantes, com temas que lembrassem a morte e a necessidade de evitar os pecados para garantir a vida eterna.

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(detalhe do Ossuário Kostnice, na República Tcheca)

Uma forma atual de culto aos mortos e lembrete de que a vida é efêmera são os eventos de Finados, especialmente as celebrações do Dia de los Muertos, no México e em outros países da América Latina. A data é celebrada com festas, doces e pães em formato de ossos e crânios, muitas flores e cores vivas nas oferendas aos mortos.

Antes da Idade Média, a morte era simplesmente parte da vida; os mortos eram enterrados rapidamente e sem cerimônias, a vida prosseguia normalmente, de forma coletiva. Com o passar dos séculos, a vida e a morte ganharam um aspecto individualista, primeiro nas classes mais altas, e bem mais tarde, nas camadas populares. No século 19, a morte era um assunto doloroso e que afetava emocionalmente a família. Os funerais ganharam grande importância, e as cerimônias eram uma forma de demonstrar a dor dos familiares pela perda do falecido. Era comum, entre as pessoas abastadas, a realização de funerais caríssimos e elaborados e túmulos luxuosos.

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A morte foi tratada na sociedade do século 20 da mesma forma que o sexo na sociedade do século 19; o assunto era evitado, eram utilizados  eufemismos e isso não devia ser mencionado em público. Entretanto, a morte no século 19 era como o sexo no final do século 20: um assunto discutido abertamente, sem preconceitos.

Dessa forma, as fotografias eram uma forma de expressar essa dor e manter viva a lembrança do morto. No século 19, a sociedade estava mudando de um sistema coletivo de grandes famílias para núcleos familiares menores, em que a perda de uma pessoa querida era irreparável. Nessas situações é comum a negação do fato, e por isso muitos retratos de mortos tentavam mostrar a pessoa como se estivesse viva, ou dormindo. Contudo, também havia fotos dos mortos dentro dos caixões, e fotos do morto junto aos parentes vivos, como uma foto normal de família.

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A alta taxa de mortalidade infantil explica o grande número de fotos de crianças pequenas e até recém-nascidas. Essa era a única oportunidade de registrar a imagem da criança. Nas primeiras décadas desse costume, isso também era verdade para as fotos post-mortem de pessoas idosas. Essas fotografias eram uma forma de  ajudar a família a superar a dor da perda.

Apesar de hoje parecer um costume macabro, as fotos eram apenas um modo de preservar a memória da pessoa falecida. Ainda hoje há pessoas que fotografam pessoas queridas mortas, e em alguns hospitais nos Estados Unidos, a equipe médica oferece aos pais de bebês que morreram ou de natimortos, câmeras descartáveis com fotos da criança, para que os pais revelem quando estiverem preparados para vê-las. Nesses casos, é a única lembrança do filho perdido e um gesto bonito da equipe médica, pois os pais poderiam nem se lembrar de registrar imagens do bebê.

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A fotógrafa Annie Leibovitz usou a fotografia como modo de registrar e expressar a dor pela perda da companheira Susan Sontag, e fotografou-a em seu leito de morte e após o falecimento. Outros fotógrafos contemporâneos também registram imagens de pessoas mortas de forma artística, por vezes criando imagens com gosto duvidoso.

Como todas as formas de expressão, que parecem normais e aceitáveis no contexto da época, mas podem parecer bizarras ou estranhas com o passar do tempo, as fotos dos mortos foram um costume normal na era Vitoriana, como os hábitos alimentares (em especial os pratos de vísceras), os gêneros literários como os romances góticos, os shows de aberrações, as coleções de espécimes raros de culturas “primitivas” em museus de história natural, tudo isso nos parece estranho hoje, mas são frutos de sua época.

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As fotos dos mortos aparecem no filme Os Outros, e além de ampliar o clima sombrio e misterioso da história, também auxiliam na revelação final.  Em outro filme excelente, Sociedade dos Poetas Mortos, o professor Keating mostra aos alunos as fotos dos ex-alunos do colégio, àquela altura já falecidos, e lhes diz uma mensagem importante: “Carpe diem” (aproveitem o dia). Esta também é uma forma de memento mori: vivam intensamente, pois um dia todos estaremos mortos.

Os monumentos em homenagem aos mortos em grandes catástrofes coletivas, como memoriais de guerra ou das vítimas do atentado ao World Trade Center, e também os campos de concentração como Auschwitz, transformados em museus, são formas de lembrar os que partiram e também um tipo coletivo de memento mori; hoje estamos aqui, mas amanhã podemos não estar.

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(Memorial de Auschwitz – Birkenau)

Apesar de todo o desenvolvimento tecnológico e material de nossa época, ainda somos os mesmos seres humanos primitivos que devem enfrentar o medo da morte. Vivemos sem pensar nisso, e quando somos surpreendidos pela “indesejada das gentes”, temos dificuldade em aceitar o fato. Ainda assim visitamos os cemitérios, guardamos lembranças das pessoas queridas que partiram, lembramos aniversários de morte. O equivalente do século 21 dos memento mori seriam os perfis de pessoas falecidas mantidos nas redes sociais, que tornam-se locais onde os amigos podem deixar mensagens e demonstrar sua dor e saudade. Ainda precisamos nos lembrar de que morreremos um dia, e estar preparados para aceitar essa parte da vida.

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Para saber mais:

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Levar o amor

Por Cristine Martin, 16 de maio de 2010 16:18

Levar o Amor
Postado por Cristine Martin

Recebi este texto por e-mail de uma grande amiga. É uma mensagem bonita e, se fosse seguida por todas as pessoas, faria deste um mundo bem melhor.

Uma boa semana a todos!

Cristine Martin

Levar o amor

Que eu leve o amor… A mim, em primeiro lugar.
Que eu leve o amor para dentro de mim e que todo auto-ódio se converta em chance, em nova chance.
Que eu me dê novas chances… De amar de novo, de acertar de novo, de dar ao menos um pequeno passo adiante, afastando-me da estagnação.
Onde houver ódio em mim, que eu leve o amor; não esse amor de plástico, disfarçado de complacência, que mais me engana do que me enobrece.
Que seja um amor maduro, que proclama seguro: Eu sei quem sou! Eu sei quem quero ser!

* * *

Que eu leve o amor… À minha família.
Onde houver ódio em minha família, que eu leve o amor…
Que eu seja a luz, mesmo que pequenina, a iluminar a escuridão dos dias difíceis em meu lar.
Que eu leve o amor aos que sofrem em silêncio e não querem falar de suas mazelas. Que minhas preces e meu sorriso os guarde em paz…
Que eu leve o amor quando seja ofendido, maltratado, menosprezado, esquecido. Que eu lembre de oferecer a outra face do ensino do Cristo.
Que eu leve o amor quando meus filhos sejam ingratos. Que minha ternura não seque tão facilmente.
Que eu leve o amor quando meus pais não me compreendam e não sejam os pais que gostaria de ter.
Que minha compreensão desperte de seu sono e perceba que eles buscam acertar, que buscam dar o melhor de si, embora nem sempre tenham êxito.
São os pais que preciso. São os pais que me amam.
Que eu leve o amor quando o romance esfriar e algumas farpas de gelo me ferirem o coração.
São os espinhos da convivência. não precisam se transformar em ódio se o amor assim desejar.
Que eu leve o amor… Aos meus inimigos.
Que eu leve o amor mesmo a quem não me tem amor.
Que eu respeite. Que eu compreenda. Que eu não me entregue ao ódio tão facilmente.
Que eu leve o amor aos que me querem mal, evitando aumentar seu ódio com meu revide, com minha altivez.
Que ore por eles. Que lhes peça perdão em prece, mesmo muitas vezes não recordando dos equívocos que macularam seus corações.
Que lhes mostre que ontem errei, mas que hoje estou diferente, renovado, disposto a reconstruir o que destruí.
Que eu leve o amor… A minha sociedade.
Que eu leve o amor aos que não conheço, mas que fazem parte de meu mundo.
Que eu aprenda a chamá-los todos de irmãos…
Que eu leve o amor ao mundo, perfumando a Terra com bons pensamentos, com otimismo, com alegria.
Que eu leve o amor aos viciados em más notícias, aos pessimistas, aos que já se entregaram à derrota.
Que meu amor os faça ver a beleza da vida, das Leis de Deus, do mundo em progresso gerido por Leis de amor maior.
Que eu leve o amor aos carentes, do corpo e da alma. Que meu sorriso seja a lembrança de que ainda há tempo para mudar, para transformar.
Sou agente transformador. Sou agente iluminador. Sou instrumento da paz no mundo.
Que eu leve o amor…

Redação do Momento Espírita.

Em 10.05.2010.

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Sweeney Todd – O barbeiro demoníaco da Rua Fleet – Cristine Martin

Por Cristine Martin, 21 de abril de 2010 7:10

Nos comentários do último artigo do Gutie aqui no Alma Carioca, sobre Amor Sublime Amor, comentei que gosto muito do musical Sweeney Todd. As músicas desta peça foram compostas por Stephen Sondheim, que também assina as letras das músicas de “Amor Sublime Amor”. Para quem não conhece, aqui estão algumas informações interessantes sobre esta história macabra e ao mesmo tempo emocionante, contada ao som de músicas belíssimas.

1Fã que sou de Johnny Depp, fiquei ansiosa para ver esta versão cinematográfica do famoso musical da Broadway. Mas na época, tive de esperar o lançamento do DVD, pois não consegui vê-lo no cinema. Ainda assim, antes de ver o filme eu já conhecia as músicas, que minhas filhas tocavam o dia todo aqui em casa. Pelas letras das músicas consegui ter uma idéia da trama, mas pedi que não me contassem o final.

Quando finalmente assisti o filme já sabia o que esperar: ótimas músicas, poucos diálogos, um visual sombrio e muito sangue (felizmente, bem teatral, nada que dê para levar a sério!). E ainda bem que eu não sabia o final, pois foi surpreendente. Ah, fiquem tranquilos, não vou contá-lo aqui, não quero estragar a surpresa para quem não viu ainda.

Mas podemos contar o enredo: Sweeney Todd é um barbeiro na Londres vitoriana; ele tinha uma linda esposa e uma filha pequena, e foi injustamente condenado pelo Juiz Turpin, que lhe cobiçava a esposa. Ao retornar a Londres, 15 anos depois, ele descobre que sua amada esposa havia morrido, sua filha estava sendo criada pelo Juiz Turpin, e decide vingar-se dele. Com a ajuda da sra Lovett, eles planejam atraí-lo à barbearia de Todd para matá-lo.

Mas alguns contratempos, chantagens e pescoços cortados mais tarde, os dois decidem usar as vítimas para fazer tortas de carne e ‘reviver’a Loja de Tortas da Sra Lovett. Os negócios vão de vento em popa, mas Todd ainda não teve sua vingança.

Dali em diante os acontecimentos se sucedem, sempre contados em ótimas músicas, até o desfecho sangrento e surpreendente.

Origem

A história de Sweeney Todd foi publicada em uma revista semanal em dezoito partes, como The String of Pearls: A Romance (O Colar de Pérolas: um romance), de 21/11/1846 a 20/03/1847. A história provavelmente foi escrita por James Malcolm Rymer, apesar de também ter sido creditada a Thomas Peckett Prest. Alguns anos mais tarde houve várias adaptações literárias, teatrais e cinematográficas, com diversas alterações do enredo, personagens e nomes, afstando-se cada vez mais do conto original.

Originalmente, a história se passa no ano de 1785, em Londres. O Tenente Thornhill, um marinheiro, foi visto pela última vez entrando na barbearia de Sweeney Todd em Fleet Street. Thornhill levava um colar de pérolas, que entregaria a Johanna Oakley em nome do amante da garota, Mark Ingestrie, que se acreditava perdido no mar. Um dos amigos de Thornhill, o Coronel Jeffrey, começa a investigar o dessparecimento do amigo, com a ajuda de Johanna. Ela vai trabalhar na barbearia de Todd vestida de rapaz após o assistente do barbeiro, Tobias Ragg, ter sido internado em um manicômio.

As verdadeiras atividades de Sweeney Todd são reveladas com a descoberta dos corpos desmembrados de centenas de vítimas na cripta sob a igreja de St. Dunstan. Nesse meio tempo Mark, o amante de Johanna, que havia sido aprisionado e forçado a trabalhar como cozinheiro na loja de tortas, consegue escapar e faz o seguinte pronunciamento aos fregueses do estabelecimento:

“Senhoras e senhores – temo que o que vou dizer estragará seu apetite, mas a verdade é sempre bela, e devo anunciar que as tortas da Sra Lovett são feitas de carne humana!”

A Sra Lovett é então envenenada por Sweeney Todd que, por sua vez, é preso e enforcado. Johanna e Mark casam-se e vivem felizes para sempre.

2Broadway

Em 1973, a peça de Christopher Bond contando a história de Sweeney Todd foi levada ao teatro. Esta obra foi a base para o musical de 1979 na Broadway, com texto de Hugh Wheeler e música e letras de Stephen Sondheim.

Nesta montagem de 1979,  Len Cariou interpretou Sweeney Todd e Angela Lansbury foi  Mrs. Lovett. O musical conta a história de Benjamin Barker, conhecido como Sweeney Todd, que retorna a Londres vindo da Austrália após passar quinze anos na prisão por falsas acusações. Quando sua senhoria, a Sra Lovett, lhe conta que a esposa de Todd havia se envenenado após ter sido estuprada pelo Juiz que o havia acusado, ele jura vingança.

A peça teve outras montagens famosas, como a de Londres em 1980, com Denis Quiley e Sheila Hancock como Todd e Lovett. Uma turnê americana, entre 1980 e 1981, contou com Angela Lansbury e George Hearn nos papéis principais.

Uma versão em concerto foi exibida em 2000 (Nova York) e 2001 (São Francisco), estrelada por Patti LuPone e George Hearn e com a presença dos atores e da orquestra no palco. Outras montagens foram feitas nos anos subsequentes, antes da mais recente adaptação cinematográfica. Esta versão (Sweeney Todd in Concert) está disponível no YouTube em 16 partes, sem legendas, e vale a pena ser vista!

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Cinema e TV

A primeira versão da história para o cinema foi em 1926, dirigida por George Dewhurst e estrelada por G. A. Baugham. Outras versões foram lançadas em 1928, com direção de Walter West e com Moore Mariott como Todd e Iris Darbyshire como Lovett, e em 1936, com Tod Slaughter e Stella Rho nos papéis principais e direção de George King. Uma última adaptação não-musical foi feita para a TV em 2006, desta vez estrelada por Ray Winstone e Essie Davis e dirigida por Dave Moore. Nesta versão, o colar de pérolas do conto original faz parte da trama.

Em 1982, uma versão musical para a TV australiana teve Angela Lansbury e George Hearn novamente nos papéis principais, com as músicas de Stephen Sondheim.

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O Musical

Finalmente chegamos ao musical lançado nos cinemas em 2007, com direção de Tim Burton. Agora Todd é vivido por Johnny Depp e a Sra Lovett, por Helena Bonham Carter. O filme é baseado na versão musical de Sondheim, mas algumas músicas foram retiradas. A Balada de Sweeney Todd, que é cantada por todo o elenco na versão teatral e apresenta a trama ao público, agora é o tema instrumental da abertura.

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Burton fez um filme sombrio, adequado ao enredo, e os atores estão ótimos. Johnny Depp, um dos melhores e mais versáteis atores das últimas décadas, faz aqui seu melhor trabalho dramático até agora (seu melhor momento na comédia, sem dúvida, é como Jack Sparrow). Helena Bonham Carter não decepciona. Seu longo treinamento para cantar as músicas do filme valeu a pena, e ela está tão sombria quanto Todd.

As músicas são deliciosas. Minha preferida é A Little Priest, quando Todd e Lovett decidem aproveitar as vítimas para fazer tortas, e discorrem sobre os diversos ’sabores’ que poderiam ser oferecidos aos clientes. Divertidíssima! Marcantes também são o dueto Pretty Women, entre Todd e o Juiz Turpin, e Epiphany, com Todd.  Outro grande momento do filme é em Johanna (reprise), com o contraste chocante entre o dueto dos personagens na música  harmoniosa e as cenas sangrentas na tela.

Para quem gosta de musicais, esta é certamente uma opção “diferente”. Apesar do tema e das cenas violentas, o diretor Tim Burton optou por um visual teatral, e tais exageros reduzem um pouco o impacto das cenas. Boas músicas e ótimas atuações fazem deste filme uma opção interessante para o feriado ou fim de semana.

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Trailer (legendado):

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Super Size Me – Cristine Martin

Por Cristine Martin, 6 de abril de 2010 14:20

Após a vitória do Oscar de melhor documentário por Bowling for Columbine (Tiros em Columbine), de Michael Moore, os documentários, que até há algum tempo eram aqueles filmes sem-graça que davam sono, passaram a ser filmes comercialmente viáveis, com produção caprichada e roteiro idem, que atraem pessoas ao cinema (coisa inimaginável tempos atrás), e estão ficando cada vez melhores. É o caso deste documentário, Super Size Me.

Morgan Spurlock resolveu realizar o filme após ver uma notícia sobre duas adolescentes obesas que estavam processando a rede de fast-food McDonald´s. Roteirista de sucesso, ele trabalhou em vídeo-clipes, comerciais e shows de TV. Este foi seu primeiro longa-metragem. (subtítulo em português – a Dieta do Palhaço). O produtor/diretor/cobaia (conforme ele se anuncia em seu site)

O filme começa mostrando fatos e dados sobre o crescente aumento da obesidade na América. 37% das crianças e adolescentes americanos são obesos, e 2 em cada 3 adultos estão acima do peso ou obesos. A Organização Mundial da Saúde declarou a obesidade como uma “epidemia global”. Se nada for feito, a obesidade irá superar o fumo como a maior causa evitável de morte da América. De quem é a culpa: da pessoas que não conseguem se controlar, ou das corporações de fast-food? Ele então anuncia sua decisão de passar um mês se alimentando exclusivamente de produtos vendidos em lojas doMcDonald´s. Ele determinou para si mesmo algumas regras:

  1. Sem opções: ele só poderia consumir o que viesse das lojas (incluindo a água);
  2. Só consumir as porções super size quando fossem oferecidas (e ele não as poderia recusar);
  3. Sem desculpas: ele deveria comer cada item do cardápio ao menos uma vez.

Antes de começar a maratona, ele visitou três médicos (um cardiologista, um gastro enterologista e um clínico geral) e uma nutricionista, que o monitorariam periodicamente durante o mês da experiência, e fez um check-up completo. Seu peso era normal, sua saúde boa, e todos os profissionais concordaram que a idéia era uma estupidez completa.

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Durante o mês da “experiência”, ele visitou 20 cidades americanas (ou pelo menos seus McDonald´s), incluindo Houston, a “Cidade mais Gorda” da América. Das 9 vezes que as porções super size foram oferecidas, 5 foram no estado do Texas (e a primeira ele não agüentou comer inteira, depois de meia hora tentando acabar com o lanche, ele “devolveu” tudo). O estilo de vida americano, incluindo a dificuldade de se fazer as refeições em casa, fazem que 40% das refeições dos americanos sejam feitas fora de casa (1 em cada 4 americanos visitam um restaurante fast-food por dia. O McDonald’s representa 43% deste mercado). Vemos lojas McDonald´s até em um hospital (segundo Morgan, fica mais fácil conseguir auxílio médico quando sua saúde se estragar por causa da comida).

Além de acompanhar a “dieta” de Morgan (de 5000 kcal por dia, o dobro do recomendado para um adulto médio), somos apresentados a alguns programas de merenda, alguns deles caros e cheios de itens não nutritivos, e um programa implantado em uma escola de Michigan, com o apoio dos pais dos alunos, que oferece apenas refeições nutritivas (e por um preço mais baixo que os programas tipo fast-food). Além do mais, este programa de merenda é acompanhado de um incentivo à atividade física, o que normalmente não acontece nas escolas americanas.

O documentário mostra como a comida fast-food pode viciar, como uma droga (O McDonald´s chama as pessoas que consomem muito de seus alimentos de “Usuários Pesados”); mostra os muitos problemas sérios de saúde que podem ser causados pela obesidade (hipertensão, doença coronariana, diabetes adulto, derrame, doença na bexiga, osteoartrite, apnéia do sono, problemas respiratórios, câncer no endométrio, de mama, de próstata e de cólon, dislipidemia, esteatohepatite, resistência à insulina, falta de ar, asma, hiperuricemia, irregularidades hormonais, síndrome do ovário policístico, infertilidade e dor nas costas. Acham pouco?), e como algumas pessoas recorrem a cirurgias de estômago na tentativa de controlar uma obesidade mórbida.

Um mês depois, Morgan estava 11 quilos mais gordo, estava com disfunção hepática,com sintomas de depressão, seu nível de ácido úrico subiu às alturas e seu condicionamento físico e sua libido despencaram (ele “combinou” que não andaria mais que o americano médio consumidor de Big Macs anda por dia, o que reduziu sua atividade fisica quase a zero).

Ele levou um mês desintoxicando o organismo (com a ajuda da namorada, uma chef vegetariana, que criou uma dieta desintoxicante para ele), e mais 9 meses para retornar ao peso anterior (84 kg). Nas notas finais, ele explica que, após o filme ser exibido em Sundance (onde ganhou o prêmio de melhor Diretor), o McDonald´s retirou a porção super size dos cardápios. E as garotas que processaram o McDonald´s… bem, elas perderam o processo, pois não ficou provado que os problemas de saúde foram causados pelos Big Macs ingeridos.Ao final do documentário, ficamos com vontade de comer um grande prato… de salada.

Sério, as refeições desintoxicantes preparadas pela namorada de Morgan parecem muito mais atraentes que os inúmeros big macs, milk-shakes, mac chickens, quarteirões e fritas que vimos na última hora e meia. E são mesmo.

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Para saber mais:

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O que torna as sociedades mais felizes e saudáveis? – Cristine Martin

Por Cristine Martin, 24 de março de 2010 16:23

O que tem maior impacto no nível de felicidade de uma sociedade? Se você pensou que é a riqueza, está enganado.

O epidemiologista britânico Richard Wilkinson estuda há algumas décadas por que algumas sociedades são mais saudáveis que outras. Ele descobriu que o que torna uma sociedade saudável não é o que ela tem a mais que outras – mais renda, mais educação, mais riqueza – mas a igualdade na distribuição dos bens.

Ele também constatou que muitos problemas sociais, desde doenças mentais ao abuso de drogas, são piores em sociedades desiguais. Os efeitos dessa desigualdade também incluem a diminuição da confiança, o aumento de doenças e a ansiedade, que encoraja o consumo excessivo.

Por outro lado, sociedades com menores diferenças entre ricos e pobres, ou seja, menor desigualdade social, são mais resilientes e seus membros têm vidas mais longas e felizes.

Ao analisar e comparar as sociedades, Wilkinson observou os índices de problemas como expectativa de vida, doenças mentais, gravidez na adolescência, violência, a porcentagem da população que está em prisões e uso de drogas. Esses índices eram muito piores em países com alta desigualdade social. A renda per capita não tem muito efeito nas previsões da taxa de mortalidade de um país, mas a distribuição de renda sim. Em países desiguais, esses problemas aumentam de dez a doze vezes que em países com maior igualdade.

O curioso é que sempre pensamos nesses problemas como ligados à pobreza. Wilkinson mostra que eles estão ligados não à renda, mas à estratificação da renda. Essa é uma ideia que a maioria de nós já tinha, intuitivamente – pensávamos que a concentração de renda era um fator pernicioso – e agora sabemos que isso é verdade.

Wilkinson lembra de um psiquiatra de prisão que passou 25 anos conversando com homens muito violentos, e disse que ainda não vira um ato de violência que não tivesse sido causado por desrespeito, humilhação ou perda da dignidade. Esses fatores desencadeiam a violência e são mais intensos em sociedades desiguais, onde o status e a competição são intensificados e somos mais sensíveis a julgamentos sociais.

Os efeitos psicossociais da desigualdade são os maiores fatores de estresse. Somos seres sociais, e o ambiente e os relacionamentos sociais nos afetam em grande escala. A competição e a ansiedade para manter o padrão social que (acreditamos que) esperam de nós causam grande estresse e levam a dívidas. Isso faz que as pessoas trabalhem mais, consumam mais (o que consumimos mostra quem somos, ou assim pensam as pessoas), e isso torna-se um círculo vicioso que cada vez mais diminui a sensação de felicidade e prejudica os relacionamentos. Nunca é o suficiente.

Outra consequência da desigualdade sobre os relacionamentos é que ela cria uma hierarquia social baseada no poder – e o que o acompanha: status, riqueza, acesso privilegiado a recursos. E essa hierarquia é um potencial para conflitos. Felizmente, ao mesmo tempo em que somos animais sociais, sujeitos a essas consequências da desigualdade, também temos o potencial para o amor, aprendizado e cooperação. Podemos anular esse potencial para conflitos através da participação, compartilhamento e generosidade, não só no sentido material.

Entre os países ricos com maior igualdade estão o Japão e a Suécia. Esta última tem grandes diferenças salariais, que são redistribuídos através de impostos e benefícios. O país tem uma grande taxa de assistência social pelo estado, que cuida da assistência médica, educação, seguridade social e seguro desemprego. Por outro lado, o Japão tem menos diferenças salariais, faz muito menos redistribuição e não tem grandes gastos sociais. Ambos os países vão muito bem; estão entre os países com maior igualdade e os resultados sociais são muito positivos.

Mas uma sociedade não pode depender apenas dessas medidas para garantir a felicidade, pois elas estão ao sabor dos governos e da política. A estrutura de igualdade deve estar profundamente enraizada na sociedade. Empresas amigáveis, com participação dos funcionários, cooperativas, transparência na contabilidade, geram maior produtividade e funcionários mais felizes.

Essa sensação de igualdade também se reflete em outras áreas, como a sustentabilidade. Os índices de reciclagem, a diminuição do consumo, o consumo consciente, vêm da sensação de estar colaborando para o bem comum. E isso é mais frequente em sociedades saudáveis e com maior igualdade.

Um bom exemplo de sociedade saudável e feliz é o Butão, a democracia mais jovem do mundo. Na verdade, o pequeno país asiático tem o índice de "Felicidade Interna Bruta" (FIB), que guia a política do Butão e seu modelo de desenvolvimento. Quem começou isso foi o Rei Jigme Singye Wangchuck, que há 35 anos tornou-se o quarto rei do Butão, com apenas 18 anos de idade.

O Rei Jigme, que foi educado no Reino Unido, é muito querido pelo povo, que não tem uma só palavra de crítica ou censura a ele. No dia de sua posse, ele disse que "A felicidade interna bruta é muito mais importante do que o produto interno bruto". Sua ideia é que o modo de medir o progresso não deve ser baseado apenas no fluxo de dinheiro. Uma sociedade só se desenvolve verdadeiramente quando os avanços material e espiritual se complementam e reforçam um ao outro. Cada passo de uma sociedade deve ser avaliado em função não apenas do rendimento econômico, mas também se ele leva ou não à felicidade. É o bem comum em primeiro lugar.

O fato de o país ser de maioria budista ajuda a explicar o sucesso dessa filosofia e prática de governo. Outro fator que contribuiu foi o relativo isolamento do Butão quanto ao resto do mundo. A televisão e a internet chegaram ao país apenas em 1999. Thimpu é a única capital do mundo sem semáforos, e o aeroporto internacional tem apenas uma pista.

Para o Butão, os quatro pilares que devem inspirar cada política do governo são:

  1. Um desenvolvimento sócio-econômico sustentável e equitativo
  2. A preservação e promoção da cultura
  3. A conservação do meio ambiente
  4. O bom governo

Para garantir que as decisões do governo estão indo na direção certa, os cidadãos butaneses respondem um questionário a cada dois anos, com perguntas sobre como o cidadão percebe sua vida em nove áreas principais. A análise das respostas indica se o povo está se sentindo feliz, e quais áreas merecem mais atenção por parte do governo. O questionário é a base para o cálculo do índice de Felicidade Interna Bruta.

O Butão é um país pequeno, com apenas 700 mil habitantes, e sua economia depende da energia hidráulica e do turismo sustentável. O país recebe ajuda externa, há pouca corrupção, e ainda assim em 2007 o Butão foi a segunda economia que mais rápido cresceu no mundo.

Apesar da receita butanesa não ser exportável, ela serve para inspirar outros países a repensar as decisões de seus governos. Se o FIB não pode ser usado pelos países ocidentais para medir o grau de felicidade e saúde de seus cidadãos, tampouco o PIB serve para isso.

Vivemos em sociedades altamente competitivas, e estamos sempre correndo atrás de algo – correndo para pagar as contas, para alimentar nossos filhos, para manter o emprego, para conseguir um emprego, para fazer mais um curso, para manter a cabeça fora d´água. E o resultado reflete-se na nossa saúde e em nossa falta de felicidade.

Talvez se tomarmos consciência disso e mudarmos individualmente, se cobrarmos de nossos governantes uma maior transparência e atitudes que beneficiem a todos em vez de a uma minoria privilegiada, se participarmos mais – seja através do voto, de nossas opiniões, de trabalhos voluntários – talvez consigamos dar o primeiro passo em direção a uma sociedade menos violenta, e mais saudável e feliz.

* * *

Para saber mais:

"What makes the healthiest and happiest societies? Hint: it´s not wealth" – artigo de Brooke Jarvis no site AlterNet

"Butão: o reino que quis medir a felicidade" – artigo de Pablo Guimón, publicado originalmente no jornal El País em 29/11/2009, cuja tradução (de Moisés Sbardelotto) está no site Sun Net.

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Os subsídios agrícolas, o Big Mac e a salada – Cristine Martin

Por Cristine Martin, 13 de março de 2010 2:37

Um interessante artigo do site AlterNet levanta uma questão no mínimo preocupante: nos EUA, é mais barato comer um hambúrguer do que uma salada devido aos grandes subsídios oferecidos pelo governo norte-americano aos produtores de carnes e laticínios. O gráfico abaixo mostra que esses produtos recebem 73,80% dos subsídios governamentais, enquanto cereais recebem 13,23% e frutas e vegetais, apenas 0,37%.

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Ao comparar as duas pirâmides do gráfico, vemos que a dieta saudável e ideal deveria ser composta de cereais, vegetais e frutas, e que os produtos proteicos, geralmente de origem animal, deveriam responder por uma pequena parte da dieta.

Entretanto, devido à disparidade de preços, famílias americanas com poucos recursos ingerem mais fast-food que deveriam, simplesmente porque esses alimentos são mais baratos e de fácil acesso que frutas e vegetais. Infelizmente, a diferença será gasta mais adiante, em médicos e remédios.

A procura por alimentos orgânicos e locais ainda está limitada aos que têm condições financeiras para buscar uma alimentação mais saudável; a população menos informada e com menos recursos (e tempo para cozinhar em casa) acaba ingerindo uma dieta rica em proteínas, gordura e carboidratos simples, que somados à falta de atividade física, levam aos altos índices de obesidade que afetam especialmente os menos favorecidos.

Na raiz desse problema está a legislação "Farm bill", que fornece bilhões de dólares em subsídios, cuja maior parte vai para grandes agronegócios que produzem milho, soja, trigo, algodão e arroz; os dois primeiros são usados na alimentação do gado. No final, esses subsídios "agrícolas" vão mesmo para a produção de carne.

Por outro lado, agricultores que produzem frutas e vegetais recebem menos de 1 por cento da ajuda do governo. O subsídio incluído na Farm Bill foi criado como um programa temporário em 1996, mas foi mantido pelas farm bills de 2002 e 2008.

O artigo também alerta que desde 1978 o preço dos refrigerantes caiu 33 por cento enquanto o preço das laranjas subiu 40 por cento. Não foram só esses números que mudaram desde a década de 70: o peso médio de um jovem de 18 anos hoje é 7 kg maior que o de um jovem de 18 anos no fim dos anos 70. O peso médio de uma mulher de 60 anos hoje é 9 kg maior que o de uma mulher de 60 anos no fim dos anos 70. O peso médio de um homem hoje tem 11 kg a mais. Os americanos estão ficando mais gordos e menos saudáveis.

Mas os grandes produtores de alimentos não são os únicos beneficiados pela política de subsídios governamentais norte-americanos; no capítulo mais recente da disputa entre o governo dos EUA e a Organização Mundial do Comércio (OMC), o Brasil recebeu autorização da OMC para retaliar os EUA pelos prejuízos causados pelos subsídios aos produtores de algodão. A China é o maior produtor mundial de algodão, enquanto EUA estão em segundo lugar e o Brasil é o quinto da lista.

Os subsídios têm prejudicado a exportação de algodão pelos outros países, favorecendo os EUA na concorrência, pois seus preços caem artificialmente e provocam a queda dos preços internacionais dos produtos. Com a retaliação, que deve se iniciar em abril, diversos tipos de produtos importados dos EUA terão aumento nos impostos de importação. A medida afeta principalmente artigos de luxo como automóveis, eletrônicos e cosméticos, mas também o trigo.

Antes de 1996, os produtores agrícolas recebiam subsídios com base no tipo de colheita e nos preços de mercado. Tal política fazia que os agricultores decidissem o que plantar com base mais na política do governo que nas demandas do mercado. A reforma "Freedom to Farm", aprovada naquele ano, separou os subsídios daquelas condições. A partir daí, os agricultores recebiam valores fixos, sem importar o que fosse plantado. Com o tempo, a maior porcentagem dos recursos ficou nas mãos de poucos grandes produtores.

No início de 2009 o presidente Obama havia declarado o corte dos pagamentos diretos aos produtores agrícolas mais ricos (com ganhos de mais de $ 500 mil dólares por ano), a redução de subsídios para seguro rural e a eliminação de créditos para o armazenamento de algodão para o orçamento de 2010. A decisão da OMC indica que ele não cumpriu com essas determinações.

O Congresso dos EUA rejeitou por duas vezes o veto do presidente Obama à Farm Bill de 2008. No início de março deste ano, o Senado norte-americano aprovou um aumento no teto do subsídio a ser recebido individualmente pelos agricultores. O valor aprovado é de até 360 mil dólares por ano para cada produtor.

Como comparação, o maior gasto com subsídio agrícola no Brasil é na complementação da taxa de juros devida pelo agricultor aos bancos. Essa ajuda chega a R$ 60 bilhões por ano.

Os Estados Unidos e a Europa, que seriam grandes mercados para nossos produtos agrícolas, subsidiam seus produtores e suas exportações, o que gera uma concorrência desleal com países que não têm essa ajuda de seus governos. Ao mesmo tempo, exigem a abertura de nosso mercado.

No artigo do site MX Trading, o Prof. de Economia Rural da UFP, Eugênio Stefanello, diz que "os Estados Unidos não se constrangem em violar as normas do comércio internacional quando querem beneficiar seus produtores e chama isto de segurança alimentar ou promoção do desenvolvimento econômico interno. Os americanos já anunciaram que vão continuar subsidiando a sua agricultura e que querem aumentar suas exportações do agronegócio".

O Prof Stefanello afirma que ao Brasil resta buscar, através da OMC, o cumprimento das normativas internacionais, e que a estratégia que vem sendo usada pelo nosso Ministério da Agricultura é o melhor meio de enfrentar essa concorrência. O setor privado deveria aumentar a produtividade, reduzindo custos e melhorando a qualidade de seus produtos. O setor público deveria adotar uma política agrícola baseada na estabilização da renda, reduzindo a carga tributária, facilitando o transporte e simplificando a burocracia e negociando a redução de barreiras impostas pelos outros países à importação de produtos brasileiros.

O Brasil hoje exporta principalmente para a China, EUA e Europa; com essas medidas e o combate à política de subsídios usada pelos outros países, as exportações brasileiras poderiam crescer, o que seria bom para o PIB brasileiro e, por que não, para a dieta dos norte-americanos. Afinal, um sanduíche (não necessariamente hambúrguer) acompanhado de uma boa saladinha é bem melhor e mais saudável, não?

Para saber mais:

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Forrest Gump – Cristine Martin

Por Cristine Martin, 5 de março de 2010 9:40

Depois de ganhar tantos Oscars (inclusive o Oscar de Melhor Filme em 1995), este filme tornou-se uma unanimidade; um dos melhores dramas já realizados, com toques sutis de comédia. A história do rapaz inocente, que participa de alguns dos momentos mais importantes da história americana entre as décadas de 50 e 80, é hoje um dos grandes favoritos de todos.

Qual o segredo deste filme? Entre a magnífica atuação de Tom Hanks, a direção segura de Robert Zemeckis, os efeitos especiais que confundem ficção com realidade, a trilha sonora inesquecível (incluindo a música-tema de Alan Silvestri), o brilho dos coadjuvantes Sally Field, Robin Wright Penn, Gary Sinise, e o roteiro de Eric Roth, adaptando o romance de Winston Groom, ficamos com todos.

Tom Hanks já provou o grande ator que é; com este filme, conseguiu a façanha de ganhar dois Oscars de Melhor Ator em anos consecutivos. Merecido, principalmente pela cena em que ele descobre que tem um filho e pergunta a Jenny se ele é normal. A expressão em seu rosto transmite toda a emoção sentida pelo personagem, da alegria à preocupação e ansiedade, e finalmente ao alívio e novamente à alegria.

Forrest Gump

Forrest Gump

Outras cenas inesquecíveis são quando Jenny volta à sua casa da infância e nela atira as sandálias, e depois pedras, e então Forrest comenta: “Às vezes, acho que nunca há pedras suficientes” (Sometimes, I guess there’s just not enough rocks). Ou quando Jenny pergunta:

“- Você teve medo no Vietnã?

- Sim. Bem…eu- eu não sei. Às vezes a chuva parava o suficiente para que as estrelas aparecessem.. e então era bonito. Era como antes do pôr-do-sol na baía. Havia sempre um milhão de estrelas na água… como aquele lago na montanha. Era tão claro, Jenny, parecia que havia dois céus, um em cima do outro. E então no deserto, quando o sol nascia, eu não podia dizer onde o céu acabava e a terra começava. É tão bonito.

- Eu queria ter estado lá com você.

- Você estava.”

Os efeitos especiais permitiram a Forrest ”contracenar” com personagens históricos como John Kennedy, Richard Nixon, John Lennon, Lyndon Johnson e outros. Juntamente com uma perfeita reconstituição dos cenários e figurantes, podemos ver Forrest na passeata em Washington, recebendo a Medalha de Honra na Casa Branca, numa entrevista na TV com John Lennon. O toque de comédia fica evidente no episódio de Watergate, ou quando Forrest fala de seu antepassado homônimo, que pertencia a um “tipo de clube” em que usavam capuzes brancos; ou ainda quando conta que Ten. Dan investiu o dinheiro de Forrest em uma ‘companhia de frutas’ (Apple).

Mas a essência do filme é a inocência de Forrest, e seu amor por Jenny. Uma garota confusa, que passou por situações difíceis e reagiu a elas do modo errado, fugindo de si mesma, ao mesmo tempo em que tentava se encontrar. Seu porto seguro é Forrest, que a amou incondicionalmente toda sua vida, e em quem ela encontra o amor e a segurança que buscou em vão, antes de voltar para casa.

Sempre nos lembraremos de frases memoráveis como “A vida é uma caixa de chocolates: você nunca sabe o que vai encontrar”, ou “Estúpido é quem faz estupidez”, ou ainda “Meu nome é Forrest Gump. As pessoas me chamam de Forrest Gump”, e “Corra, Forrest, corra!”.

E isso é tudo o que eu tenho a dizer sobre isto.

Filme x Livro

Ou não. Depois de assistir ao filme muitas vezes, li o livro de Winston Groom, no qual o roteiro foi baseado. Há grandes diferenças entre a história do filme e a história do livro. O Forrest do filme é um rapaz essencialmente inocente, mas com consciência de suas limitações mentais; no livro, ele tem mais malícia, embora também seja consciente de sua situação. A inocência não está presente; ele sabe que é limitado intelectualmente, mas é um pouco “malandro” ao tirar proveito disto em algumas situações.

Forrest Gump

Forrest Gump

O Forrest do livro é um idiot savant; um idiota sábio, como o autista de Dustin Hoffman em Rain Man; em um episódio, ele se revela um ótimo aluno de Fisica na Universidade resolvendo equações complicadas sem compreender a teoria, embora não conseguisse distinguir ‘Física’ de ‘Educação Física’, e aprende a tocar harmônica sozinho. Mesmo com tais talentos, ele não é autista, e revela uma grande percepção das coisas ao seu redor. No início do livro (usando a famosa comparação que foi alterada – para melhor – no filme), ele comenta:

“Deixem-me falar uma coisa: ser um idiota não é uma caixa de chocolates. As pessoas riem, perdem a calma, te tratam como lixo. Dizem que as pessoas devem tratar bem quem está em dificuldades, mas vou dizer – nem sempre é assim. De qualquer maneira, eu não posso reclamar, porque acho que tive uma vida interessante, por assim dizer.”

Interessante é pouco; episódios inteiros que estão no livro não foram contados no filme; Sue, o macaco, Rachel Welch, Forrest como astronauta, o resgate de Mao, a luta-livre, os pigmeus canibais, o campeonato de xadrez, são algumas das histórias que só existem no livro. Muito da temporada universitária de Forrest e Jenny é resumido, e o final da história de Jenny e Forrest é completamente diferente do que no filme.

Apesar do livro ser muito interessante, falta-lhe a magia e o lirismo que Eric Roth e Robert Zemeckis criaram. Na maioria das vezes eu prefiro o livro ao filme, mas esta foi uma agradável exceção.

  • Livro: Forrest Gump – Winston Groom
  • Página do filme no IMDb

Trailer – Forrest Gump

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Sete Vidas – Cristine Martin

Por Cristine Martin, 1 de março de 2010 11:01

“-Emergência, 911.
- Preciso de uma ambulância.
- Você está em 9212 West Third Street em Los Angeles?
- Sim, no quarto número 2.
- Qual é a emergência?
- Houve um suicídio.
- Quem é a vítima?
- Sou eu.”

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Este filme perturbador e emocionante começa com uma sucessão de cenas desconexas, e aos poucos vamos compreendendo a história. O auditor da Receita Federal Ben Thomas (Will Smith) é um mistério. Ele age de forma estranha, e faz coisas que parecem sem sentido; mas tudo isso tem um propósito. Ele quer se redimir de um acontecimento trágico em seu passado.

“Em sete dias Deus criou o mundo; em sete segundos eu destruí o meu.”

Ele liga para um atendente de telemarketing, o rapaz cego Ezra Turner (Woody Harrelson) e o trata com crueldade e preconceito; após desligar, vemos a angústia de Ben. Ele procura Emily Posa (a bela e talentosa Rosario Dawson), que tem uma doença congênita no coração, e lhe oferece um prazo maior para que ela quite uma dívida com a Receita. Ben pede à assistente social Holly que lhe indique um nome, e ela sugere Connie Tepos, que tem dois filhos pequenos e é espancada pelo namorado. Ben procura Connie e lhe deixa seu cartão. Ele também limpa sua bela casa de praia e se muda para um motel, enquanto se recusa a falar com seu irmão.

O motivo para todas essas decisões, aparentemente desconexas, será revelado ao longo do filme, que culmina em um final surpreendente de sacrifício e generosidade.

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Este é um filme que nos toca profundamente; uma história de amor e sofrimento, que nos faz pensar até que ponto nos sacrificaríamos por outra pessoa, e o que faríamos para nos redimir de um erro. Como fazer para superarmos um trauma? Como continuamos a viver quando nosso mundo é destruído? Como reparar o mal que causamos?

As excelentes atuações, ótimo roteiro (de Grant Nieporte) e direção competente (de Gabriele Muccino) garantem o resultado impecável, que dão suporte à história comovente de Ben Thomas. Smith e Muccino trabalharam juntos antes em “À procura da Felicidade”, outro filme comovente; Will Smith disse que o diretor era “um mestre em relacionamentos humanos”.

Spoiler: O título do filme em inglês (“Seven Pounds”) é uma referência à peça de Shakespeare, “O mercador de Veneza”, na qual o mercador Antonio concorda em dar ao agiota Shylock uma libra de sua própria carne se a dívida não for paga no prazo. No filme, Ben paga sete “libras” pelas sete mortes que causou. Com exceção de Connie, todas as libras são pagas com sua própria carne.

Will Smith já provou que é um ótimo ator e tem feito dramas excelentes, além das comédias pelas quais ficou famoso. Neste filme ele consegue nos causar empatia com o drama de Thomas, e nos levar às lágrimas. Prepare o lencinho e não perca este filme maravilhoso. Em cartaz no canal HBO e também disponível nas locadoras.

*     *     *

Para saber mais:

  • Página do filme no IMDb

Trailer: Sete vidas (legendado)

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Casa de Areia e Névoa – Cristine Martin

Por Cristine Martin, 25 de fevereiro de 2010 11:28

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Quando dos Oscars de 2004, ouvi falar deste filme; três indicações (melhor ator, Ben Kingsley; melhor atriz coadjuvante, Shohreh Aghdashloo,  e melhor trilha sonora), me pareceu muito bom. Mas como eu realmente não tenho pressa em assistir aos lançamentos, só fui assisti-lo quando passou na TV paga.  O filme realmente é muito bem feito, boa fotografia (o diretor, Vadim Perelman, era diretor de comerciais quando leu o livro, adorou e decidiu realizar seu primeiro filme de longa metragem; escreveu o roteiro em conjunto com o autor do livro e o resultado é um visual deslumbrante e um roteiro bem fiel ao livro), os atores estão ótimos… mas aí vem a história.

Kathy (Jennifer Connely) é uma mulher que foi abandonada pelo marido, ambos ex-viciados, e que após a separação deixou de abrir a correspondência, entre outras coisas típicas de quem passou por uma dessas.  Mas na correspondência descartada estava uma cobrança de taxas municipais (cobradas indevidamente), o que faz com que ela perca a casa e esta vá a leilão.

Massoud Behrani (Ben Kingsley) é um ex-oficial iraniano que teve de abandonar seu país quando da queda do Xá; americano naturalizado, ele mora com a família em São Francisco, e trabalha como operário de limpeza de estradas durante o dia e de balconista em uma loja de conveniências, à noite. Mas a família e os conhecidos não sabem disto; ele mantém uma imagem de prosperidade, gastando aquilo que não pode para alugar um apartamento de luxo no bairro onde moram os iranianos ricos, e relacionar-se com pessoas prósperas, para que possa casar bem sua filha. Após o casamento dela, ele decide investir o pouco capital que lhe resta em uma casa comprada em leilão, revendê-la pelo preço de mercado e iniciar uma carreira de especulação imobiliária.

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Acontece que a casa comprada em leilão é a de Kathy, que de repente se vê sem ter aonde ir, sem marido, sem amigos, e sem ter contado nada à família , nem mesmo sobre a separação. Um policial (Lester) aproxima-se dela e aos poucos surge um envolvimento entre eles, que cresce e faz que ele abandone sua família.

Nem Kathy abre mão de conseguir sua casa de volta (dela e do irmão, herança do falecido pai), nem Behrani abre mão de ficar com a casa e obter lucro (merecido, segundo ele) com sua venda. As coisas começam a se complicar quando Lester resolve intervir em defesa de Kathy, e a partir daí tudo acontece muito rápido, decisões, emoções e atitudes com conseqüências inesperadas e um final trágico.

Fiquei realmente sem fôlego ao fim do filme; como as pessoas, por teimosia, cobiça, preconceitos e medo, podem tomar atitudes que acabam levando a um caminho sem volta? Como as coisas poderiam ser diferentes se a cadeia de acontecimentos tivesse sido interrompida; como um mau julgamento ou uma impressão errada sobre os sentimentos de outra pessoa pode levar a uma atitude precipitada… É um daqueles filmes que nos deixa pensando por dias, sobre o que aconteceu e o que ‘poderia’ ter acontecido se… e graças a Deus que é apenas ficção.

Filme x Livro

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Algum tempo depois li o livro, escrito por Andre Dubus III (em inglês; ainda não foi traduzido para o português). A primeira parte é narrada em primeira pessoa, alternadamente entre Kathy e Behrani; esse recurso mostra claramente o pensamento de cada um, os preconceitos e a negação que cada um faz de seus próprios defeitos ou problemas; ela, ao racionalizar seu vício (álcool, no filme, e cocaína e álcool, no livro), atribuindo boa parte da culpa ao ex-marido viciado; ele, ao atribuir sua decadência material às injustiças sofridas pela elite militar que ajudava o ex-Xá do Irã, e atribuindo a culpa de tudo ao serviço Secreto (SAVAK), que, com sua truculência, ajudou a causar a revolta que levou à queda do regime do Xá.

Ambos se sentem injustiçados, e não abrem mão do que crêem ser seu por direito.  Behrani não entende a revolta da esposa, e seu caráter melancólico desde que a família teve de deixar o Irã; afinal, ele não fez o possível para proteger a família?

“ Pois ela estava muito errada a respeito do meu envolvimento com a polícia secreta, SAVAK. Eu pouco tinha a ver com os assuntos deles. E é claro, ela nunca antes reclamou de todos os nossos privilégios; ela nunca reclamou das criadas e soldados que ela usava na manutenção da casa; ela nunca reclamou das viagens para esquiar nas montanhas do norte, ou de nosso bangalô, sobre o Mar Cáspio em Chahloose; ela nunca reclamou dos vestidos finos que ela podia usar nas festas dos generais e juízes e advogados e atores e cantores famosos; ela nunca reclamou quando numa tarde de domingo eu ordenava a Bahman para levar minha família ao cinema mais fino em Teerã e é claro havia uma longa fila de pessoas esperando, mas eu estava vestido em meu uniforme então nós nunca esperávamos, nós nem mesmo pagávamos; éramos conduzidos ao balcão reservado às Pessoas Muito Importantes, longe da multidão. E sim, eu via com freqüência o medo por trás dos sorrisos daqueles gerentes de cinema enquanto eles acenavam e nos conduziam pessoalmente aos nossos assentos, e sim, ninguém que esperasse na calçada ousava fazer uma queixa que eu pudesse ouvir; mas não havia sangue em meus dedos. Eu comprava jatos. Eu não era da SAVAK.”

No livro também é mais claro o preconceito dos personagens: Behrani pensa que os americanos são um povo fraco, sem disciplina, que não merecem a prosperidade que têm; em sua narrativa, ele se refere a Kathy como gendeh, prostituta, talvez pelas suas roupas, ou pela bebida. Em um momento de confronto com Kathy, ele lhe diz: “Em meu país, você não seria digna de erguer seus olhos para mim. Você é nada. Nada.”

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A atitude em relação às mulheres também se revela em seus comentários sobre a esposa, Nadereh (Shohreh Aghdashloo): “Minha esposa tem cinqüenta anos, mas ela falava como uma garotinha, uma recém-casada. Eu pensei que talvez ela estivesse desapontada comigo, mas então reparei em seu sorriso, no modo como ela mantinha seu queixo baixo, olhando para mim com aqueles olhos de gavehee, e enquanto ela tomava minha mão e me levava pelo corredor de volta a seu quarto, meu coração era uma pedra pesada caindo na água e minha respiração estava suspensa como a de um garoto que avalia sua boa fortuna.”

Outro episódio revelador é a morte da prima, Jasmine, morta com um tiro pelo pai quando este soube do caso amoroso da filha com um americano; Behrani diz que, apesar do comportamento impróprio da prima, nunca agiria como o tio, resolvendo as coisas com um revólver: “Eu odiei meu tio, acreditando que ele agiu arrebatadamente e com muita paixão. Nós somos uma família educada; não precisamos viver como a classe de camponeses, resolvendo nossas questões com sangue derramado”. Em outro momento ele admite que já “levantou a mão” para a esposa:

“Eu nunca aprovei a violência contra a mulher, apesar que sim, eu bati em minha esposa em uma ocasião, mas me arrependi profundamente do incidente. Uma vez em nossa casa em Teerã, eu bati na face de Nadi por erguer a voz para mim na presença de um jovem oficial. Seus olhos se encheram de tristeza e humilhação e ela saiu chorando da sala. Mais tarde naquela noite, quando ela ainda não falava comigo, eu levantei a manga de minha camisa, acendi um charuto turco e pressionei a brasa em minha carne. Eu queria chorar mas não o fiz. Acendi o charuto de novo e me queimei novamente. Fiz isto cinco vezes, e pedi perdão a Deus a cada queimadura da minha carne.”

O preconceito também fica evidente na pessoa de Lester, que considera o iraniano um cidadão de segunda categoria, que roubou a legítima propriedade de Kathy; e no modo como os trata e se sente a seu respeito:

“Lester estava com sede e queria beber do chá que a mulher do coronel lhe servira, mas fazê-lo naquele momento pareceria um movimento conciliatório, como se ele fosse um cão expondo sua garganta a um cão mais forte. Ele olhou novamente para a foto emoldurada na parede, de Behrani discursando para o Xá do Irã, um homem sobre quem Carol contara, há muitos anos, ter mandado fuzilar centenas, talvez milhares de pessoas em uma tarde por terem ousado um protesto desarmado contra ele e sua comitiva. ( … ) Ele começou a se sentir amedrontado, e quis chutar o coronel nos dentes, este amigo de ditadores, este homem que se recusou a vender de volta a Kathy sua casa “.

Na segunda parte do livro (talvez pelos fatos escaparem à ciência dos dois personagens principais), aparece um narrador em terceira pessoa, onisciente, nos momentos em que Lester conduz a ação e Kathy e Behrani não estão presentes. Essa mudança de foco narrativo  destoa um pouco do começo do livro, mas não estraga o rumo da história.  No filme, o final trágico é atenuado em parte por não mostrar as reais conseqüências para Kathy e Lester, focalizando apenas na tragédia em si. No livro, as conseqüências são mais claras, mostrando as perdas e danos de todos os personagens.

ATENÇÃO: SPOILER(não leia se você ainda não viu o filme ou não leu o livro)

Esta é uma história trágica porque todos os personagens perdem, de algum modo; alguns, a vida; outros, todo o resto. Vemos toda a família Behrani destruída, por causa do caráter controlador de Massoud; ele não admite perder a casa que tornou-se seu único investimento e chance de ascensão social; não admite ter de retornar à condição de trabalhador braçal, ou ter de iniciar uma carreira que não a anterior, na indústria aeronáutica (inviabilizada por seu passado no antigo regime iraniano). Por isso, em um momento de atitude impensada do filho, ele o encoraja a tomar a atitude que, agora sabemos, é a pior possível.

Depois da tragédia consumada, ele tenta ‘poupar’ Nadereh do trauma iminente, e tira-lhe a vida por ‘saber’ que ela não o suportaria, e por achar que é seu dever ‘protegê-la’. Por fim, antes de tirar a própria vida, deixa uma carta para a filha, dizendo a ela o que fazer com a casa. Interesante é sua atitude em relação a uma força superior; no momento do desespero, ele diz que vai fazer nazr, que vai entregar a casa a Kathy se a vida do filho for poupada. Quando isto não acontece, ele impede que a casa fique com Kathy, dizendo (em testamento) que a deixa para Soraya, a filha. É uma atitude curiosa, de tentar barganhar com Deus. Até neste momento ele tenta controlar o desenrolar das circunstâncias, como esteve acostumado toda sua vida. Lester, que aproveitou o incidente com Kathy para dar a virada em sua vida que sempre desejou fazer e nunca teve coragem, acaba perdendo a liberdade, Kathy, e a vida em família. Por suas atitudes em pressionar Behrani, mesmo infringindo a lei, ele acaba responsabilizado criminalmente pela tragédia.

Mais uma vez vemos o caráter controlador em ação. Ele acha que pode desviar um pouquinho a letra da lei, para cumprir o espírito da mesma (plantar evidências para ‘salvar’ uma mulher vítima de violência doméstica; não prender o menino filipino, por um sentimento paternal e por achar que este era vítima das circunstâncias; pressionar Behrani para ajudar Kathy por acreditar que ela estava sendo fraudada por ele na questão da casa, além do detalhe que a casa seria seu futuro lar com Kathy). Ao fazê-lo, acaba se enredando em uma situação cada vez mais sem saída.

Quanto a Kathy, não vemos um caráter controlador, mas uma pessoa que não tem coragem em tomar o controle de seu destino. Ficamos sabendo que ela acabou mergulhada no vício através da companhia de seus dois ex-maridos (e alguns namorados, mas isto é meio vago). Freqüentou o Grupo de Recuperação Racional acompanhando o marido; quando este a abandona, ela mergulha numa apatia e nada faz para mudar sua situação. Tem medo que a família saiba de seu ‘fracasso’  e a culpe por tudo, vício, abandono e, por fim, a perda da casa herdada do pai. Seu medo da responsabilidade por seu destino é tal que ela prefere perder tudo  a admitir a culpa, para a família. É interessante a cena final, em que ela decide continuar presa, fingindo ser “muda”, a ter de lutar por sua liberdade (mas culpando Lester por tudo). A viver sem ele, assumindo a responsabilidade por si dali por diante, ela escolhe continuar sem liberdade, sem voz e ‘protegida’ (desta vez pela detenta dominante do grupo que se apieda dela, ao pensar que esta é muda). É a vitória do medo. (fim do spoiler)

Ambos, filme e livro, são tocantes, mostrando o desenrolar de um drama trágico, numa espiral crescente de mal-entendidos, ações impensadas e escolhas insensatas. Vemos os personagens tomarem a decisão errada, e nada podemos fazer para mudar seu destino.

(Tradução de trechos do livro – Cristine Martin)

*   *   *

  • Livro – Casa de Areia e Névoa (House of Sand and Fog – Andre Dubus III)
  • Página do filme no IMDB
  • Trailer: Casa de Areia e Névoa

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Juno – Cristine Martin

Por Cristine Martin, 17 de fevereiro de 2010 17:42

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Juno é um filme bonitinho e adorável; não é uma obra-prima, mas uma história interessante e gostosa de assistir. O filme começa quando Juno MacGuff (Ellen Page), de 16 anos, descobre que está grávida após a primeira e única transa com seu melhor amigo.

Ela pensa em interromper a gravidez, mas após uma visita à clínica  de abortos, decide ter a criança e entregá-la para adoção. Com a ajuda da amiga, encontra rapidamente nos classificados do jornal um casal que parece perfeito e depois de tudo encaminhado com eles, conta ao pai e à madrasta.

A família de Juno é tão pouco convencional como ela, e também amorosa e compreensiva,  e ela recebe todo o apoio à sua decisão. Apesar de gostar de Paulie Bleekers (Michael Cera), o pai do bebê, ela nem pensa em ficar com a criança, e muito menos em casar com ele. Aparentemente a solução é boa para todos: como diz Juno, “daqui a 30 semanas poderemos fingir que isso nunca aconteceu”. Uma boa maneira de fugir das consequências e da responsabilidade.

O casal escolhido parece perfeito: são simpáticos, saudáveis, moram em uma linda casa e parecem muito felizes. O maior desejo da esposa, Vanessa (Jennifer Garner), é ser mãe. O marido, Mark (Jason Bateman), é um compositor de jingles e roqueiro frustrado, e se dá muito bem com Juno pois ambos gostam de rock. Na verdade, ele parece (ou gostaria de) ser da geração dela.

A partir daí vamos acompanhando a gravidez de Juno, como ela é observada e deixada de lado pelos outros adolescentes, e como com o passar dos meses ela vai percebendo que o mundo dos relacionamentos adultos é mais complexo do que imaginava; Juno sabe o que quer, e fica perplexa por ver que isso não acontece com algumas pessoas crescidas que também deveriam saber.

O final é tocante e singelo; não há como não comparar as complicações que as pessoas causam em suas vidas e a simplicidade e honestidade do amor adolescente, e torcer para que Juno consiga manter essa inocência de espírito quando chegar à vida adulta. Mas com um pouco mais de responsabilidade.

Apesar de interessante e com boas interpretações, especialmente de Ellen Page, não acho que o roteiro de Diablo Cody seja merecedor de um Oscar; apenas um roteiro razoável. E o filme trata com demasiada leveza de um assunto muito sério.

A gravidez adolescente é um problema grave nos EUA, e as recentes campanhas de abstinência juvenil, os bailes de virgindade e toda a atmosfera moralista que pairava no ar durante a era Bush, sem mencionar o fiasco que foi o caso Bristol Palin, não conseguiram diminuir os altos índices de gravidez na adolescência naquele país.

Esse é um problema social que afeta tanto os países desenvolvidos quanto os do terceiro mundo, apesar das causas e circunstâncias serem diferentes nos dois grupos.

Enquanto no terceiro mundo a gravidez adolescente geralmente vem acompanhada de pobreza e leva ao casamento precoce (especialmente se o pai da criança for mais velho que a garota), o que não causa preconceito nem problemas de aceitação no grupo social para a jovem, nos países desenvolvidos as gravidezes acontecem fora do casamento, causando estigma social e abandono dos estudos,  e consequente pobreza e dificuldades para criar a criança, que também terá piores prognósticos sociais e educacionais.

Entre os países desenvolvidos, Estados Unidos e Reino Unido têm os índices mais altos de gravidez na adolescência, enquanto Japão e Coréia do Sul têm os menores. Os índices de aborto nos EUA também são muito altos – um terço das gravidezes precoces terminam em abortos.

Não é fácil tentar a redução desses números, especialmente quando por um lado campanhas, escolas e famílias tradicionais pregam a abstinência ao mesmo tempo em que a mídia e toda a cultura em que o adolescente está inserido valoriza a aparência, a sexualidade cada vez mais precoce e até mesmo a promiscuidade, associando-as ao sucesso e aceitação social. É uma briga dura.

Um filme como Juno, apesar de mostrar a inocência do amor juvenil, tem como natural que esse amor encontre expressão física, e mais natural ainda que a garota tenha um filho e o entregue para adoção, sem criar laços emocionais com ele, continuando sua vida como se aquilo fosse um episódio normal de sua vida.

Na minha opinião, esse é um modo irresponsável de se tratar um assunto tão sério. A paternidade é algo que muda a vida de uma pessoa, ainda que de diferentes formas. Se essa gravidez terminar em casamento, aborto ou adoção, qualquer uma dessas opções causa mudanças profundas na vida de uma pessoa adulta, e ainda mais em uma adolescente.

Apesar de tratar o caso de Juno com leveza, o filme mostra como a decisão de ter (ou adotar) um filho pode alterar a vida de pessoas adultas, e como é difícil tomar essa decisão. Creio que o filme poderia ter passado uma mensagem diferente, não que uma gravidez precoce é algo ‘light’, inócuo e que todos podem viver felizes para sempre, sem consequências. Mas não poderíamos esperar isso de uma roteirista como Diablo Cody.

Recomendo que assistam o filme, mas não deixem de refletir a respeito.

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Para saber mais:

Vídeo: Juno – trailer

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