Nenúfares e fraldões – João Ubaldo Ribeiro

Por Editor, 14 de março de 2010 5:46

Aposto que, se eu não lhes dissesse, vocês não saberiam que hoje é o Dia Nacional da Poesia. Pois é, acho que ninguém lembra, é uma ingratidão com os nossos poetas. Pode ser que a pérfida memória me iluda, mas quero crer que antigamente os poetas eram mais estimados e poucos havia que não soubessem recitar uns dois poemas de cor. Até nos bregas da velha Salvador, lá conhecidos como castelos, alguns deles casas de cultura, era de esperar-se, antes de a noite acabar, pelo menos um Augusto dos Anjos caprichado ou um Olavo Bilac com o famoso plangente violão ao fundo. Aí pelo meio da madrugada, emoldurado por garrafas de cerveja e cercado pela admiração geral, um boêmio veterano recordava, com a voz soluçante e semiembargada, que a mão que afaga é a mesma que apedreja, embora o poeta fosse redimido pelo privilégio de ouvir estrelas.

Desde cedo a gente aprendia a admirar os poetas, que tinham até um perfil mais ou menos uniforme. Em primeiro lugar, usavam cabeleira de poeta e creio mesmo que algumas carreiras poéticas promissoras malograram porque o poeta ficou careca ainda moço e onde já se viu poeta careca. Em segundo lugar, traçavam todas as mulheres que decidiam seduzir com suas belas palavras, independentemente de idade, classe social, religião, cor ou estado civil, não havia essa que escapasse. Vários conhecidos meus tinham uma avozinha de cem anos que foi namorada de Castro Alves, era chique. Em terceiro lugar, o poeta passava meses sem ver o sol, era pálido e de saúde frágil, geralmente morrendo tuberculoso, com pouco mais de vinte anos.

A parte do morrer tuberculoso era meio chata, mas a gente se convencia de que o destino abriria uma exceção em nosso caso, conquanto morrer de sífilis ou envenenado por absinto fossem as outras opções. De qualquer forma, tentei muito ser poeta e devo admitir que comecei de forma desairosa, embora em conformidade com uma das mais venerandas práticas dos saltimbancos das letras de minha laia, ou seja, meter o mãozão no trabalho alheio. Bem verdade que eu não sabia direito o que era plágio, quando encontrei, num livro esquecido, um soneto escrito pelo general Osório. Copiei o soneto e o apresentei como meu, o que resultou em vistosa, se bem que efêmera, glória literária. Meu pai descobriu a falcatrua e me fez decorar e recitar o soneto perante a família, não sem antes anunciar que confessava se tratar de obra do general Manuel Luís Osório, marquês de Herval e patrono da Cavalaria. Passei grande vergonha, além de ter sido obrigado a estudar a vida do general.

Pouco depois disso, influenciado por um amigo intelectual, fui muito exortado a perseguir as tais belas palavras. Entre elas, não sei por quê, ele tinha preferência por “nenúfares” e tanto me impressionou que escrevi até uma coleção de besteiras rimadas intitulada “Nenúfares”, que, Deus seja louvado, nunca mostrei a ninguém, a não ser a meu pai, que aplicou nova ducha fria em minha trajetória poética, afirmando que nenúfar era coisa de baitola. Trauma de infância e deve ser por isso que até hoje não sei o que quer dizer “nenúfar”. Vou ao dicionário, olho e esqueço dez minutos depois, como agora (cartas sobre o que quer dizer nenúfar para o editor, por caridade).

Não cheguei a desistir e, já entrado na adolescência, comecei a ler o que então se chamava “poesia moderna”, execrada pelos mais velhos por dispensar rima e metro, mas, para nós, poetastros renitentes, uma benção. Não teríamos mais que procurar rimas nem ficar contando pés de versos, agora era só escrever em linhas de comprimentos desiguais. Foi isso mesmo que pensei, ao perpetrar o primeiro canto de um poema épico que trataria de nossas origens como povo, as famosas três raças tristes de que os livros antigos falavam. Escrevi quase um caderno todo e fui mostrá-lo a meu grande professor de português Antônio Barros, então começando carreira no também grande Colégio Central da Bahia. Acho que pressenti alguma coisa, porque não disse a ele que o autor do poema era eu.

- Ah, eu logo vi que não era você – disse ele, segurando o caderno à distância e fazendo uma careta, como quem pega em algo fedorento. – O autor deste negócio devia ser preso imediatamente, não pode ficar solto por aí. Evite a convivência, isso pega.

- Obrigado, mestre – disse eu e, de lá para cá, tenho contido meus ímpetos poéticos, não sem acentuada mágoa. A cabeleira desde os verdes anos já se foi, as mulheres nunca choveram, o estro continua a escapar-me. Mas isso não me impede de prestar minha homenagem aos poetas. Se nunca pude ser um deles, pelo menos posso exaltar seu papel. Se hoje é o dia deles, lembremos o quanto puseram em palavras o que para nós sempre foi indizível, o quanto nos abriram a sensibilidade, o quanto enobrecem a nossa língua, o quanto nos dão para recordar em comum.

E, se não posso fazer um poema comemorativo, posso pensar em outras celebrações. Ou posso juntar-me a quem esteja também comemorando. Procuro, pois, informar-me sobre o dia de hoje. Mas, com enorme decepção, constato que o Dia da Poesia não é observado no país de onde veio a nossa língua. Mais um golpe contra a poesia. Isto porque, em Portugal, vivendo e aprendendo, hoje não é o dia dela, mas o Dia da Incontinência Urinária.

Acho que estão tentando me dizer alguma coisa, ninguém liga mais para a poesia. Mas não é o caso de abandoná-la. Só aparentemente o Dia da Incontinência Urinária não pode ser conciliado com o Dia da Poesia. De minha parte, me sentirei recompensado se, depois de ler isto, alguém der um fraldão a seu velho mijão favorito, acompanhado de um cartão com versinhos.

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Nelson Gonçalves – Caminhemos

Por Editor, 7 de janeiro de 2010 17:00

Fim de noite

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Escaldado de peru – João Ubaldo Ribeiro

Por Editor, 25 de dezembro de 2009 9:00

Escaldado de peru

 Queridos amigos,

Espero que tenham todos passado uma bela noite de véspera de Natal e que hoje a ressaca esteja sendo leve. Dito isto, passo a tratar de um assunto delicado, qual seja o que fazer das inevitáveis sobras do peru de ontem. E almoçar ou jantar em casa sem ter quase nenhum trabalho na cozinha. Em minhas conversas cariocas, tenho notado que a solução que proporei é desconhecida de grande parte das pessoas, de forma que a passo para quem não a conhece, pois vale a pena e evita desperdício e insensatez. Pode-se resumir minha sugestão no seguinte: façam um cozido de peru. Na Bahia, isto se chama “escaldado” de peru e é o destino inevitável de maior parte das carcassas dos infortunados glugluzáceos consumidos na noite anterior. Pense num cozido em que as carnes sejam as do peru, é só, é o básico. O prato permite infinitas variações. Leva uns tomates, umas cebolas (inclusive inteiras, ou cortadas pela metade), uma salsinha (ou coentro, para quem gosta), repolho, couve, cenoura, abóbora, enfim, tudo o que pode levar um cozido, até mesmo jiló e quiabo. Corta-se a carcaça mais ou menos ao feitio com que cortam o frango assado da padaria e, se se quiser, refogam-se (os chiques usam óleo de oliva, mas não é indispensável) cebola e tomate, antes de acrescentar água e os pedaços do peru. Há quem use, numa medida que considero acertada, uns pedacinhos de paio para alegrar e há até (não sou muito a favor), quem adicione um pedacinho de carne-seca, para sorteio. Enfim, pense-se num cozido livremente, só que com as carnes do peru. O caldo pode ser usado para um pirão, para os que apreciam tal acompanhamento. Não é preciso desossar nada, fazer mais nada além disso. O peru resiste bem ao re-cozimento e é fácil, futucando com um garfão, ver quando a coisa já chegou ao ponto. Trata-se de iguaria leve e alegre, que vai fazer alguns de vocês reavaliar a baixa conta em que têm, por exemplo, o peito do peru, por insosso e seco demais. Fica uma delícia. Quem gosta de cozido jamais deixará passar-se outro Natal sem que se faça um escaldado de peru. Ponham a inventividade a favor de idéia, que é fácil, quase não dá trabalho, quase nem suja nada na cozinha, a não ser uma faca e uma eventual colher de pau. Fraternal e gastronomicamente vosso,

João Ubaldo

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Noite feliz – João Ubaldo Ribeiro

Por Editor, 20 de dezembro de 2009 7:13

Aqui na ilha, verdade seja dita, o Natal nunca foi dos mais famosos. Há até quem sustente que Papai Noel não aparece por cá porque não confia no ferrobote (no original, ferryboat, mas o pessoal acha que o nome é por causa do ferro que ela dá na gente, logo o correto é isso mesmo), ou se recusa a pagar um absurdo para atravessar a baía apenas com um trenó velho e alguns animais aveadados. Contam-me também, não sei se é fato, que a tentativa de promover um Natal de amigo oculto não deu certo, até porque a maior parte entendeu mal a brincadeira e se escondeu o Natal inteiro, sem dar nem receber presente, tendo no fim achado a ideia tão besta que ninguém quis mais nem discutir a realização de outra festa de amigo oculto.

Este ano, porém, a coisa promete. Mostrando, mais uma vez, como nosso mundo é cheio de surpresas, a novidade natalina saiu de onde menos se esperava. Pasmem, mas quem está promovendo o novo Natal na ilha é Zecamunista, é o que estou lhes dizendo. Será que se confirmam os rumores de que, materialista empedernido, ateu impenitente, herege militante, ele é visto com frequência, antes do nascer do sol, encostado na porta da igreja de São Lourenço e argumentando com o santo em gestos veementes, talvez pedindo perdão pelos seus muitos pecados? Será que também se confirmam outros rumores, segundo os quais é dele o braço munificente que custeia as ricas novenas de Santo Antônio de uma certa viúva? Será mesmo, enfim, que ele se benze furtivamente, quando passa pela frente da Matriz?

Creio que nada disso vem ao caso, não vamos expor a intimidade de ninguém, ainda mais quando isso pode ser alvo de exploração política. O que vem ao caso é que todos têm comentado a grande movimentação que passou a ser notada na casa dele, desde fins de novembro. De início, pensou-se que ele estava promovendo mais um torneio de pôquer, depois que, numa sucessão estonteante de blefes amparados por suas grandes habilidades, raspou as fichas de seus contendores de Feira de Santana, mas deu o dinheiro quase todo para sua Fundação para a Defesa da Mulher-Dama Desamparada, podendo ser que agora estivesse precisando de algum apoio financeiro.

– De apoio financeiro eu estou precisando mesmo – me disse ele, quando o procurei para esclarecer os boatos. – Mas apoio de algum burguês endinheirado, não de um mero intelectual a serviço dos altos e baixos interesses de Wall Street, como você.

– Eu, a serviço de Wall Street?

– É uma avaliação genérica, tenha calma, não é caso de paredão, não é caso nem de uma temporada de trabalhos forçados na Sibéria. Tudo no Brasil está a serviço de Wall Street e da alta burguesia, a começar pelo governo. Você se lembra do que diziam do ditador Getúlio Vargas?

– Em que sentido?

– No sentido que interessa. O que diziam era que ele era o pai dos pobres e a mãe dos ricos. Agora o presidente é outro, mas é o mesmo, pai dos pobres, mãe dos ricos.

– Bem, de certa forma…

– De certa forma, não. De todas as formas, cada dia mais! Tudo a serviço da burguesia internacional!

– Nesse caso, por que você me disse que queria o apoio um burguês?

– Ah, é diferente. É porque eu estou organizando um Natal especial aqui na ilha, um patrocínio ajudaria nas despesas.

– Natal? Você, organizando um Natal?

– Um Natal do proletariado, um Natal da consciência de classe, um Natal sem esse embuste de Papai Noel. Ou, por outra, desmistificando esse Papai Noel americanalhado. O nosso vai sair numa carroça puxada por oito jegues e com um chapéu na mão, para, em vez de dar presentes, recolher as esmolas com que os plutocratas e corruptos querem comprar a consciência do povo. Esse pessoal que está aqui em casa está ensaiando para o cortejo que eu pretendo organizar.

– Pelo que eu estou vendo, a coisa vai ser boa, com essas moças daí.

– Não vulgarize minhas intenções! Não me venha com suas inferências vulgares! Essas são minhas colaboradoras num objetivo sociopolítico, elas vão me ajudar no projeto de socialização de nossas riquezas.

– Zeca, você me desculpe, mas agora eu sou obrigado a achar que essa é uma ideia desmiolada. Que riquezas são essas? Quer dizer, ar puro, paisagens bonitas e assim por diante, que é mesmo o que nós temos, já estão socializados, todo mundo pode desfrutar à vontade.

– Você se esquece de nossa principal riqueza. É mais um exemplo de alienação e baixa autoestima. A nossa principal riqueza somos nós mesmos.

– Está certo, mas você vai socializar a nós mesmos? Não entendi.

– Você vai entender e vai querer também se socializar. Socializar, no nosso caso, significa estarmos à disposição de qualquer pessoa que pretenda usar nossos préstimos de forma legítima.

– Você quer dizer trabalhar de graça?

– Isso não, nada de alienar nossa mais-valia. Isto aqui é uma terra de lazer, eu me refiro à socialização do lazer. Por exemplo, meu lazer está aberto ao lazer de qualquer conterrânea que queira desfrutar de mim de graça.

– Ah, já vi tudo. E você acha mesmo que as mulheres vão topar?

– Eu sou pela igualdade dos sexos, são as mulheres na vanguarda do socialismo científico. E, além do mais, foi ideia delas. Você vai ver que noite.

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Herculano e o capenguinha – O retorno – João Ubaldo Ribeiro

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Por Editor, 13 de dezembro de 2009 7:00

Não posso considerar-me devoto dela, mas, antes de mais nada, desejo homenagear a santa de hoje, a piedosíssima Santa Luzia. É a protetora dos deficientes visuais e, pelo Brasil afora, muitas cidades e paróquias estão fazendo festa para ela. Todo ano, em Salvador, formam-se filas diante da fonte dela, porque lavar os olhos em sua água é perspectiva certa de cura. Em Itaparica, o Mercado Municipal, não por acaso, tem seu nome. Perde-se a conta dos milagres e graças atribuídos a ela na ilha, dentre os quais seleciono apenas um exemplo, somente para vocês terem uma ideia que talvez os convença a procurar sem demora seus santos padroeiros, até porque o que vou narrar abaixo envolveu a ação simultânea de dois santos.

Deu-se que Chiquinho de Enedina, depois de anos como sineiro, começou a não escutar mais quase nada, além de padecer de uma cruel zuzuia, onomatopeia que descreve com felicidade uma zumbideira no zuvido. Zuzuia essa que só passou quando ele se pegou com o santo padroeiro dos surdos, por acaso xará dele, o grande São Francisco de Sales. Quanto tempo o santo levou para tomar uma providência, não se sabe. O que se sabe é que foi mais ou menos na época em que Jacob Preto lavou os olhos com água da fonte de Santa Luzia todo dia durante três meses, ao final dos quais a santa apareceu a ele num sonho.

–– Seu Jacob, me compreenda uma coisa – disse a santa –, eu dei grande valor às suas rezas e suas lavagens de olhos na água da minha fonte, de maneira que, de hoje, em diante, o senhor vai ter a melhor vista do mundo, ou não me chamo Luzia.

Dito e feito, porque, alguns dias depois, os dois conterrâneos estavam à beira do cais, apreciando o nascer do sol, quando Jacob apertou os olhos e mirou na direção das torres da igreja do Bonfim, em Salvador, do outro lado da baía de Todos os Santos.

–– Iéguas! – exclamou ele, usando a interjeição mais comum na ilha. –– Iéguas! Quando Santa Luzia fala, pode escrever! Você acredita que daqui eu estou vendo os pombos na torre da igreja? Estou vendo como se fosse aqui, tem um pretinho ali do lado esquerdo, dois cinzentinhos…

–– Bom, ver eu não estou vendo, não, que meu santo é outro – disse Chiquinho. Mas estou ouvindo as pisadinhas deles.

Pois é. Concedo que, no caso, talvez a ação dos santos, já por si mesma poderosa, se robusteça ainda mais com a afamada radioatividade que envolve toda a ilha, nunca se sabe. Lamentavelmente, não posso pedir a ajuda deles, pois suas especialidades não se endereçam a minhas necessidades e não estou mais na ilha. Estou, na verdade, me preparando para, depois de intensa preparação psicológica, durante a qual muitas vezes temi o fracasso, voltar a caminhar no calçadão – é o que estou lhes dizendo, em absoluta primeira mão.

Cumprimento-me por ter persistido em calçar os tênis sozinho. Estive à beira de pedir ajuda e houve um momento em que achei que somente os bombeiros resolveriam o problema, mas terminei por vencer e eis-me agora pronto para o grande reingresso. Mas nem chego perto da rua. Antes de sair, já dá para perceber que o tempo não está colaborando e chove aos potes. O jeito é esperar, talvez ir para a beira do terraço, para pelo menos assistir ao oscilar satisfeito das plantas debaixo da chuva.

Quem vejo lá no canto, impassível e como sempre fazendo pose em cima da cerca? Isso mesmo, Herculano, o gavião que andava sumido havia meses e que já fora dado como finado pelos mais pessimistas. Parecendo que ficou ainda maior do que já era, talvez estivesse voltando de uma excursão recreativa ou tivesse viajado para constituir família. Também como sempre, ignora minha presença, a não ser que eu chegue excessivamente perto. Se eu faço isso, ele me olha como quem diz que só não me dá uma unhada no meio da testa porque está sem saco, abre as asas e decola com desdém.

O regresso dele deve ser um bom sinal. Entre os muitos livros loucos que já li nesta vida airada, estavam alguns que falavam nos augúrios da antiguidade. Mas só me lembro, não sei por quê, dos augúrios com corujas e mochos, nada com gaviões ou águias. Decido então que a presença de Herculano é um bom presságio, tudo de bom acontecerá na minha nova temporada no calçadão. Cumprimento-o à distância, ele parece reconhecer minha saudação, embora não a retribua. É tudo auspicioso, sim, até mesmo a chuva passou. Já em passo acelerado e decidido, tomo o rumo da orla.

Não posso reclamar, quando, ainda antes de chegar à primeira esquina, vem na direção oposta à minha uma senhora que conheço de vista aqui mesmo na rua e estaca, fazendo sinal para que eu também pare. Como ainda não estou oficialmente em caminhada, as normas permitem a interrupção. Ela me dava parabéns, era o primeiro dia da volta, não? E o capenguinha, eu estava pronto para o capenguinha?

O capenguinha, como pude esquecer dele? Meio sem graça, despedi-me dela, andei devagar e pensativo até o calçadão. Já do outro lado da rua, examinei os caminhantes, não havia sinal dele. Sem querer cair na armadilha da pressa e da precipitação, olhei de novo. Não, capenguinha nenhum – e, aliviado, comecei a andar. Mas que é isso que pressinto aqui atrás de mim, esses passinhos, que serão? Não tive tempo de pensar muito e – zupt! – eis que me passa ele, saído de não sei onde, a perninha curta em rápido movimento de compasso apoiado na perna mais comprida e aqui estou eu comendo poeira outra vez. Acho que vou deixar a caminhada para as resoluções de ano novo.

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O tempo que foge – Ricardo Gondim

Por Editor, 11 de dezembro de 2009 14:15

Contei meus anos e descobri que terei menos tempo para viver daqui para frente do que já vivi até agora. Sinto-me como aquela menina que ganhou uma bacia de jabuticabas. As primeiras, ela chupou displicente, mas percebendo que faltam poucas, rói o caroço.

Já não tenho tempo para lidar com mediocridades. Não quero estar em reuniões onde desfilam egos inflados. Não tolero gabolices. Inquieto-me com invejosos tentando destruir quem eles admiram, cobiçando seus lugares, talentos e sorte.

Já não tenho tempo para projetos megalomaníacos. Não participarei de conferências que estabelecem prazos fixos para reverter a miséria do mundo. Não quero que me convidem para eventos de um fim-de-semana com a proposta de abalar o milênio.

Já não tenho tempo para reuniões intermináveis para discutir estatutos, normas, procedimentos e regimentos internos. Já não tenho tempo para administrar melindres de pessoas, que, apesar da idade cronológica, são imaturos.

Não quero ver os ponteiros do relógio avançando em reuniões de ‘confrontação’ onde ‘tiramos fatos a limpo’. Detesto fazer acareação de desafetos que brigaram pelo majestoso cargo de secretário-geral do coral.

Lembrei-me agora de Mário de Andrade que afirmou: ‘As pessoas não debatem conteúdos, apenas os rótulos’. Meu tempo tornou-se escasso para debater rótulos, quero a essência, minha alma tem pressa!…

Sem muitas jabuticabas na bacia, quero viver ao lado de gente humana, muito humana; que sabe rir de seus tropeços, não se encanta com triunfos, não se considera eleita antes da hora, não foge de sua mortalidade, defende a dignidade dos marginalizados, e deseja tão-somente andar ao lado do que é justo.

Caminhar perto de coisas e pessoas de verdade, desfrutar desse amor absolutamente sem fraudes, nunca será perda de tempo.

O essencial faz a vida valer a pena.

O texto acima circula pela internet, sendo a autoria atribuída a diversos autores, entre eles Rubem Alves. O verdadeiro autor é Ricardo Gondim, conforme informações em seu site.

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Deus sabe das coisas – João Ubaldo Ribeiro

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Por Editor, 6 de dezembro de 2009 7:08

Aqui na ilha, o problema da corrupção nunca foi muito grave. Os maledicentes, despeitados e invejosos, que não engolem a verdade patente de que Itaparica é a rainha do Recôncavo Baiano, tentam tirar-lhe mais esse galardão, alegando que nunca furtaram dinheiro público aqui porque aqui nunca houve dinheiro público para furtar e muito menos privado. Esquecem-se eles até mesmo dos inúmeros períodos faustosos de nossa história, dos quais o mais recente talvez tenha sido o dos petroleiros, no tempo em que produzíamos petróleo. Os petroleiros eram ricos milionários e me lembro de Zenóbio Merdinha (assim alcunhado por causa de um episódio de infância, que melhor estaria se olvidado, até porque Zenóbio sempre foi um cidadão exemplar) mandando botar luz fluorescente na casa toda, inclusive na fachada, a ponto de ter sido veiculada a notícia de que a Marinha ia usá-la como farol. E muitas mais dessas fases esplendorosas eu poderia enumerar, se não corresse o risco de abusar do leitor.

Bem verdade que terra nenhuma, nem mesmo Itaparica, é perfeita, de forma que, embora envoltos nas névoas falazes do passado, contam-se lá e cá alguns episódios dos quais somente os mais antigos se recordam. No tempo em que meu avô ainda era coronel atuante e organizava impecavelmente as eleições, a ponto de só sairem votos para os candidatos dele, numa perfeição de planejamento, houve boataria em torno do finado Nonato Pururuca. Segundo se comentou, ele teria se envolvido num caso de estelionato, mas me garantiu Ary de Maninha que foi tudo um deplorável mal-entendido. Nonato era casado com Stela da Bica, matrimônio felicíssimo, mas de vez em quando sujeito a brigas que todos comentavam, inclusive certos ignorantes do Mercado. Assim, não houve um caso de estelionato – atenção, para que não se continue a encampar uma calúnia –, mas um caso entre Stela e Nonato, o que é muito diferente e dar umas paneladas no marido, de vez em quando, faz parte. Esse pessoal ouve o galo cantar sem saber onde e aí sai espalhando aleivosias contra quem já não está em condição de defender-se.

Atualmente, não se pode afirmar que nos encontramos numa dessas fases áureas. Os efeitos da crise foram sentidos e, apesar de Jacob Branco, em análise econômica feita num inspirado discurso pronunciado no Largo da Quitanda, ter asseverado que, se, no resto do mundo, a crise fora uma bufa medonha, na ilha havia sido um punzinho social, desses que se esgueiram para o ar livre sem que os demais presentes notem. Mesmo assim, ponderou Jacob, até as vendas de jornal caíram sensivelmente, despencando de onze exemplares para três por dia. Isso, porém, não teve repercussão alguma nos nossos níveis de corrupção, que permanecem próximos do zero.

Mas é claro que não existe unanimidade quanto a nada nesta vida, o que pude mais uma vez constatar no bar de Espanha, onde Zecamunista terminava uma palestra sobre como o presidente Zelaya tinha realizado o sonho da casa própria às nossas custas.

– Vocês sabem o que quer dizer Honduras, onde o Brasil é superpotência? A palavra honduras, em espanhol, vocês sabem o que significa? – concluiu ele dramaticamente, com um murro no balcão que fez Espanha segurar as garrafas. – Significa funduras! É isso mesmo, funduras! Só quem fala em Honduras somos nós, ninguém mais sabe onde é! Boa imagem, o Brasil nas funduras!

– Que é isso, Zeca, também não é assim.

– Não. É pior. Você viu na televisão os caras em Brasília metendo a mão em dinheiro de suborno?

– Vi. Pegaram os caras direitinho.

– Pegaram os trouxas como você. E no fim vão prender o balconista que vendeu a um deles a cueca de levar dinheiro. Chega de enganar o proletariado, todo mundo sabe que não vão prender nenhum desses criminosos! Aliás, minto. Criminosos, não, supostos criminosos, alegadamente criminosos, suspeitos. Senão, quem acaba preso sou eu, eles roubam e ainda prendem quem reclamar.

– Não, Zeca, desta vez eu acho que eles realmente não têm para onde correr.

– Oropa, França e Bahia, tudo isso é lugar para onde eles podem correr, com a grana que já enfiaram no subilatório. Eles já devem ter dinheiro suficiente para comprar as funduras, não compram porque não iam achar a quem revender.

– Mas não há como negar o que aparece claramente nos vídeos, é tudo muito claro.

– Para nós dois. Para todo mundo, aliás, menos eles lá, que são o que interessa. E mais tarde eles podem até provar que só malocaram o dinheiro nas cuecas e nas meias com medo de assaltos, porque era tudo para instituições de caridade.

– Pensando bem, lá isso é. Tem até um vídeo que mostra três ou quatro deles fazendo uma oração de agradecimento a Deus.

– É, mas nisso eles vão se dar mal. Deus é difícil de enganar, finge que foi enrolado e no fim mostra quem é mesmo que sabe das coisas no pedaço.

– Que é isso, Zeca, estou estranhando você. Deus? E o materialismo, você não é marxista-leninista, materialista?

– Sou materialista científico, sim, com muito orgulho, mas não sou fanático. Ter certeza de que existe inferno é muito consolador.

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Cheiro de chuva – Valdelice Santos

Por Editor, 4 de dezembro de 2009 17:59

O cheiro de terra molhada
No ventre a germinar
O homem prepara a terra
Para a semente plantar

Graças ao sentido olfativo
Podemos comprovar
Ao cheiro de terra molhada
Nenhum outro há
As gotas caem no solo
E ele sobe ao ar.

Se na chuva caminhar
Sentimos carinhos mil
Dos pingos cristalinos
Com seu toque sutil
Tocando em nosso corpo
De modo meigo e gentil

Terra molhada
Lembra-nos nova vida
A chuva tocando ao solo
É logo absorvida
A milagrosa metamorfose
Espera ser aplaudida

O orvalho molhando os pés
O perfume exalando no ar
É fusão de água e terra
Que não cansamos de esperar
Esse líquido presente
Para a vida renovar

É gostoso de se vê
A terra cálida, nostálgica do sol
As gotas frias de água receber
Seu seio todo se rompendo
Para as águas absorver

Diante do milagre
Vindo do céu como benção
Molhando o duro chão
Parece nos convidar
Para assoviar uma canção

Passando o momento mágico
Tudo em volta se modifica
O cheiro permanece
Na memória e nas narinas
As corres se aguçam
O mundo se ilumina

A chuva deve ser rápida
Quase quanto um beijo roubado
Pois quando dura muito
Deixa tudo alagado
Subjuga coisas e gente
O mágico torna nostálgico

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