Dia a dia, estupefatos, estamos vendo o desfilar da desonestidade. No seu lombo, carrega o enriquecimento de pessoas de má índole e ascensão delas, cada vez maior, ao poder e ao comando, tanto nos setores e atividades particulares e públicas.
Incrivelmente, essas pessoas que assim agem, desviadas da lei e dos bons costumes, são respeitadas e até homenageadas, pelo tamanho de sua conta bancária, pelo luxo de suas propriedades, pelo sucesso de suas empreitadas desonestas e pelo seu poder, que a fortuna roubada lhes trouxe, na sua atividade ilícita e aliada à corrupção, sem freios e, sob o aplauso daqueles que por eles são favorecidos.
Com imensa tristeza, lembro que somos remanescentes de um tempo bem diferente. No geral, acredito, que o ponto primacial daquela época estava baseada em duas virtudes: a humildade e o amor.
E essas virtudes somente existem na medida em que as praticamos, quando as ministramos e as cultivamos e as semeamos, delas fazendo nossos ensinamentos e exemplos, condutas de vida, que se frutificam em todos os corações, na aridez de valores humanos, que se encontra o mundo de hoje, um deserto sem Deus, mergulhada a humanidade no culto ao materialismo.
Com base nestes valores, a humildade e o amor, as demais estão neles imantados, agregados, unidos em torno delas, fazendo-nos fortes e valiosos, uma sociedade mais humana, menos violenta, menos cruel e, sobretudo, simples e feliz.
Recordo-me que meu primeiro emprego foi ocupar a função de contínuo de um estabelecimento de crédito. Um simples, mas honesto serviçal. Uma das coisas que eu tinha de fazer – isto aconteceu no final da década de cinquenta – era cobrar cheques da agência do banco onde trabalhava, junto às outras agências dos outros estabelecimentos bancários da mesma cidade, pois naquele tempo não havia serviço de compensação bancária local.
E eu me conduzia a pé, com uma maleta bem grande. Cobrava os cheques, a grande maioria deles tinham fundos, e voltava para minha agência, pelas ruas, com a maleta cheia de dinheiro. Sozinho e a pé, totalmente desprotegido, com aquela dinheirama toda.
Acreditam nisto? Mas isto é a pura verdade!
E éramos três contínuos, um em cada estabelecimento bancário. Nunca houve qualquer tentativa de marginais nos furtarem ou roubarem, ou qualquer prática de violência, mesmo todos sabendo que havia grandes somas em dinheiro em nossas maletas.
E nunca fomos tentados a fraudar nossos empregadores, fazendo nossos serviços com a maior dignidade, conscientes de que o trabalho e a honestidade eram a riqueza maior que deveríamos preservar.
Essa passagem é suficiente para mostrar como hoje a ética mudou e muito!
Os valores humanos são outros. Vale muito mais, para a sociedade em que vivemos, o que falo com amargura, ter um carro zero na garagem do que a honestidade, a honradez, a dignidade, o trabalho, o respeito às leis e à ordem, a amizade, a compaixão, a solidariedade, enfim a todos os valores humanos importantes, que nos davam a certeza de viver em paz e com muita alegria.
Vivemos hoje em uma sociedade em que o poder está em mãos facínoras, bandidas, malfeitoras, consequentemente a violência, a criminalidade e a corrupção estão crescendo assustadoradamente.
Vivemos em clima de medo que nos impede, inclusive, de sair, nas grandes cidades, nas ruas, pois há incerteza de voltarmos vivos aos nossos lares, vítimas de assaltos ou ciladas que a vida nos prepara a todos, sejamos ricos ou pobres.
Vivemos tempos que, incrédulos, diante da televisão, assistimos ao desfilar de fatos inacreditáveis, atitudes bárbaras e animalescas, atentados à vida em sociedade, aos nossos mais fundamentais direitos, a liberdade e a vida.
Vivemos tempos, em todo o mundo, que jamais sonhamos, nunca imaginamos, tragédias sem limites, incomensuráveis. talvez pela ausência de uma fértil capacidade de previsão… talvez, no entanto, iludidos e cegos pela nossa esperança na humanidade, naquele pensar em noites estreladas, sem lua, olhando para o infinito e acreditando que éramos privilegiados filhos de Deus!
Estamos longe, muito longe, da humildade e do amor!