Um bafejo de vida – LuDiasBH

Por LuDiasBH, 31 de agosto de 2010 0:09

Grande parte do território brasileiro sucumbe à seca. A chuva partiu para outras terras, deixando-nos com os olhos permanentemente no horizonte à sua procura. Peçamos aos céus que nos presenteiem com fartas chuvaradas, para lavar a nossa alma e molhar o nosso chão.

A terra cheia de sulcos mostra suas artérias.
As cores em derredor são débeis e queimadas
Como vasilhames de cerâmica, já bem gastos.
As árvores despem-se das folhagens delicadas.

As palmeiras são resistentes ao abrasamento,
Desfraldam ao longe suas velas rotas e mortiças,
Tremulando, como se fossem quebradiços navios
Á deriva num mar de tristeza e esquivança.

O ar envolve a terra macilenta e esfogueada,
Tremeluzindo e ondeando em lençóis de calor,
O tapete transparente de plástico ressequido,
Por onde desfilam tristes miragens incolores.

Contudo, o céu permanece extremamente belo.
Seu azul de metileno borrifa morros e planícies,
Anila a terra abrasada pelo escaldo da tarde,
Como se quisesse lhe fazer doces carícias.

Nos fiapos de capim pardo animais buscam comida,
Com as costelas à mostra, piedosamente resignados.
Vixe Maria! No horizonte não há um sopro de chuva,
E na terra agonizante só existe um bafejo de vida.

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As mulheres-girafas e o “dinheiro fácil” – LuDiasBH

Por LuDiasBH, 30 de agosto de 2010 5:07

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Quando os primeiros exploradores europeus chegaram à Ásia, eles se espantaram com alguns costumes ali encontrados. Por exemplo, ficaram horrorizados com as chinesas de pés disformes e as mulheres-girafas, exemplos das grandes anomalias encontradas na cultura asiática. Mas tais tradições eram tão comuns para aqueles povos, como usar cinto ou chapéu no ocidente. O governo chinês aboliu os pés pequenos, mas algumas comunidades asiáticas continuam a fazer uso dos pescoços longos.

As mulheres-girafas (recebem tal nome não só pelo tamanho do pescoço, mas também pelo andar altivo, provocado pelo peso dos colares), que fazem parte do grupo dos Padaung, vivem em Mianmá (antiga Birmânia), país situado entre a China e a Tailândia. São criaturas de estatura baixa e parecem extremamente frágeis, embora se mostrem muito alegres. Normalmente possuem muitos filhos.

Essas mulheres começam a fazer uso de argolas no pescoço após completarem cinco anos de idade, quando é posto o primeiro aro, numa cerimônia realizada durante a lua-cheia. À medida que crescem, as meninas vão tendo seus aros trocados por outros maiores, até atingirem 18 anos. Cada troca exige um ritual, quando uma curandeira massageia delicadamente o pescoço da garota. Os colares são colocados até atingir o número de vinte e cinco, por volta dos 25 anos de idade. Os aros não são tirados nem mesmo para dormir, tendo elas de dormir com travesseiros, para não machucarem o pescoço.

Os Padaung acham que a beleza da mulher é proporcional ao comprimento de seu pescoço. E, para que ele cresça cada vez mais, aros são ali colocados, ainda na infância, de modo que na idade matrimonial, as mulheres já possuam uma distância entre a cabeça e os ombros, entre 25 e 30 centímetros. Elas também usam aros nos pulsos e tornozelos, para que afinem.

As mulheres-girafas, incrivelmente, usam mais de 10 quilos de aros no pescoço. Sendo que o peso dos anéis e aros das outras partes do corpo pode chegar a 20 quilos. O que parece a nós, ocidentais, uma grande tortura, para se carregar ao longo da vida.

Em muitas literaturas é possível encontrar explicações, dizendo que o pescoço é sustentado por inúmeras gargantilhas, que nunca podem ser retiradas, devido à fragilidade desse, que passa a não mais aguentar a cabeça. E, caso isso aconteça, a cabeça cairia ao lado e impediria a respiração. A mulher morreria por sufocamento. O que não é verdade, pois as gargantilhas podem ser retiradas, sem prejuízo para a usuária. E, inclusive, são retiradas para a lavagem do pescoço, que só quebraria se fosse virado bruscamente.

É bom saber que não é o pescoço que cresce como muitos pensam, mas são os ombros que descem, pois a clavícula cede com o peso dos aros. De modo que, quatro vértebras torácicas passam a fazer parte da estrutura do pescoço.

Interpretações para o uso de tal hábito:

- Os colares teriam o objetivo de espantar as forças sobrenaturais.

- Os aros eram usados pelas camponesas como uma proteção contra os tigres, que atacavam primeiro a garganta, para beberem o sangue.

- As mulheres adúlteras usavam os colares como castigo, antigamente.

- Para que suas mulheres não fossem raptadas, os homens tornavam-nas feias, usando aros nos pescoços.

- Era uma maneira de os homens mostrarem, através dos aros, a riqueza que possuíam.

- Para os padaungs (principal tribo de mulheres-girafas) o centro da alma localiza-se no pescoço. Os aros protegem a alma e a identidade da tribo. Antigamente eram de ouro, mas hoje são de cobre.

Hoje em dia, se alguém pergunta o porquê do uso de tantos aros pelo corpo, recebe a seguinte explicação: “Uso todos estes aros, assim como minha mãe, minha avó e minha bisavó usavam, simplesmente para ficar mais bonita”.

Contudo, assim como acontecia com as mulheres chinesas de pés pequenos, ninguém pode imaginar que em tal cultura não haja grande sofrimento, a começar pelos movimentos de que se priva o corpo. Mas, por que elas não abandonam tal tradição? Porque o pescoço funciona como uma fonte de renda. Elas se deixam fotografar pelos turistas em troca de dinheiro. As agências de turismo chegam a oferecer passeios de elefante através da selva, para vê-las de perto, como se fossem animais em exposição. Os turistas são responsáveis por fomentar tal suplício. Tanto é que o colar, que estava saindo de moda, volta a ser usado nas meninas, em função das vantagens financeiras. É dinheiro fácil, dizem as mães. Como na prostituição, essas mulheres usam o corpo para obter dinheiro.

É fato que as novas gerações vêm se recusando a se transformar em mulheres-girafas, sendo que a grande maioria das mães aceita de bom grado tal decisão. E as mulheres-girafas, que abandonam a tradição, não são incomodadas ou marginalizadas. Algumas, por motivos médicos têm que fazê-lo, por sentirem dores insuportáveis. Muitos rapazes escolhem esposas, que não fazem uso desse costume, por considerá-las modernas. As mães, que ainda querem que as filhas sigam a tradição estão, na verdade, preocupadas com o futuro das filhas, pois os pescoços compridos são a garantia de que ganharão dinheiro para comer arroz e ter um teto com facilidade.

Fonte de pesquisa: http://marieclaire.globo.com/edic/ed114/rep_mulhergirafa.htm

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A boiada e a partida dos homens misteriosos – LuDiasBH

Por LuDiasBH, 26 de agosto de 2010 6:56

 

Pode ser que alguém dê um boi, para não entrar numa briga e uma boiada, para não sair mas, quando a boiama extrapola os limites da racionalidade humana, aí a vaca vai pro brejo. E foi exatamente isso que aconteceu em Manarairema. Vamos aos fatos.

A população do povoado não levou muito a sério o fato de um boizinho aparecer ali, outro acolá, mais outro no quintal da casa e assim por diante. Os animais poderiam ter se soltado do campo de algum fazendeiro e ali estavam à procura de pasto novo. Além de tudo eram calmos, tranquilos e confiantes. Quando se cansassem iriam embora.

Mas, caro leitor, não foi bem isso o que ocorreu, para desespero dos manarairenses. Dupliquem a quantidade da cachorrada citada no último acontecimento e terá a real dimensão da quantidade dos ruminantes. E, não seria nada mal, se acrescentassem mais um terço ao rol dos já imaginados. Todo o povoado era deles, assim como o horizonte. Todos os outros bichos estavam mortos, por falta de espaço, ou puseram os pés no mundo, buscando ar para respirar. Os bois estavam gordos, luzidios e indiferentes. Só havia perigo, quando brigavam entre si por mais espaço, pois tudo estremecia e as cercas dos quintais e paredes de adobe iam ao chão.

Contudo, um medo danoso tomava contava da gente do povoado: o estouro da boiada. Sabia que, se isso acontecesse nada ficaria de pé. À noite, quando todos os gatos são pardos, o pavor tomava conta da respiração das pessoas. Nem mesmo as orações, que varavam as cumeeiras das casas e se misturavam ao mugido dos bovídeos, traziam alento. Todos os habitantes estavam reclusos, pela falta de espaço, até mesmo para pôr um pé fora de casa. E pior, não havia sinal de que os bovídeos fossem embora. Fato que estava deixando o povoado numa grande inquietude. Aliado ao desânimo dos habitantes, tudo em volta havia se transformado num mar de urina e excremento, ocasionando dores de cabeça e vômitos. Manarairema morria aos poucos.

Certa noite houve um comportamento atípico dos bois, que pareciam espeloteados, berrando, arremetendo o rabo e cavando o chão. Os moradores não deram importância àquilo. Já não tinham mais uma réstia de esperança. Nada mais poderia fazer diferença. A morte seria o fim de tudo. E que ela chegasse. O melhor a fazer seria dormir… dormir.

Em certas pessoas, mal a madrugada chega, o corpo já pede, para ficar na posição vertical. E assim reagiram certos moradores, mesmo sabendo que nada tinham, para fazer. Nessa hora, os ouvidos se põem vigilantes, pescando tudo em derredor. E foram elas as primeiras pessoas a descobrir que os ruminantes tinham partido. A notícia, apesar da madrugada, espalhou-se como palha seca ao vento. Era “gente chamando gente, sacudindo gente, arrastando gente para ver. Gente rindo, gente pulando, gente se vestindo às pressas, gente esmurrando portas, gente correndo pelas ruas e gente caindo no mar de urina e esterco”.

O dia seguinte amanheceu num lenga-lenga de chuva, que não dava, para lavar a obra deixada pelos bois. À tarde o sol deu as caras. Geminiano apareceu com a carroça carregada de utensílios. Serrote mal conseguia puxá-la. Diante da indiferença das pessoas gritou:

- Na tapera tem muita coisa boa. É só pegar. Os sujeitos foram embora. Deram no pé de madrugada.

Diante da incredulidade das pessoas ele arrematou:

- Juro por Deus. Quero ficar cego se estou mentindo. De viventes só ficaram as penosas e os porcos.

Não houve interesse pelo butim. À população de Manarairema era suficiente o consolo de ter se livrado daqueles estranhos intrusos. Fim!

O leitor deve estar tão insatisfeito com o final da história. Mas foi assim que aconteceram os fatos. Portanto, não há como dizer exatamente quem eram os homens misteriosos, porque escolheram o povoado de Manarairema, porque travaram amizade com Amâncio, porque enviaram as pestes (bois e cachorros), porque escravizaram Geminiano e porque queriam tanta areia.

Na verdade, o autor de A Hora dos Ruminantes (1966), deixou a sua obra aberta, para que o leitor se deleitasse com as dúvidas. É incrível a sua capacidade de transformar sua obra num livro interativo, já naquela época.

Os leitores, que me acompanharam nesta saga, deram respostas a todas as indagações do autor e, paralelamente, construíram histórias brilhantes, com as mais variadas interpretações. De modo que o livro de José J. Veiga foi ricamente reescrito. Ele deve estar muito feliz, lá do outro lado do rio…

Confesso que fiquei imensamente feliz com o resultado. Como são talentosos e generosos os leitores deste blog! Foi, para mim, uma experiência magnífica. Prometo que, assim que esquecermos Manarairema, voltaremos com uma nova missão. Quem sabe no estrangeiro!!!!

Obrigada, amigos, sem vocês, nada teria valido a pena. LuDiasBH

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Que criaturinhas fascinantes! – LuDiasBH

Por LuDiasBH, 25 de agosto de 2010 7:33

Este poema foi colhido num lugar que mais parece o paraíso. E eu o dedico a meu primo, Manoel Matos, que ali finca raízes.

A manhã está tépida e extremamente bela.
Uma densa ala de bambusa circula a entrada,
Com suas folhas da cor de penas de papagaio.
As árvores curvam-se diante deste santuário.

Imbés, orquídeas, antúrios, bromélias e roseiras
Espalham-se pelo vasto jardim em frente à casa.
A grama molhada e bem cortada, ainda úmida,
Lembra o friozinho conchegativo da madrugada.

O sol, inda débil, vai, aos poucos, ganhando altura
E dando um novo ritmo a toda a vida e a toda via.
O céu azulego prepara o leito pra seu doce amado,
Que ali permanecerá ao longo de mais um dia.

Repentinamente ouve-se um farfalhejar de ramos,
Um matraquear de galhos secos e alguns guinchos.
São os acrobatas dos ares em busca de comida,
Já acostumados ao banquete de bananas maduras.

Uma família, a mais faminta ou esperta no chegar,
Escala as altas copas das árvores até um gradil, pra
Receber o alimento das mãos de quem lho ofereça.
Minutos depois, muitas delas disputam um lugar.

As cabeças pequeninas, com uma estrela branca,
Viram, reviram e desviram em todas as direções.
Os olhinhos inquietos movem-se apressadamente,
Avaliando e reavaliando o terreno com emoção.

Nem o odor e o apelo gustativo, ou mesmo a fome,
Podem falar mais alto do que o instinto de defesa.
Somente depois de se sentirem em total segurança
É que as “familinhas” tomam lugar à mesa.

Curiosidade:

O mico-estrela, também conhecido como “sagüi ou suim”, possui coloração castanho-escura e apresenta, na testa, um losango branco, sinal típico da espécie, além disso, este animal apresenta um par de tufos com pêlos escuros na cabeça. Ele se alimenta de seiva de árvores, frutas, néctar, e pequenos animais. Possuem uma estrutura social, baseada na hierarquia, na qual apenas as fêmeas dominantes podem procriar.

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A invasão dos cachorros (V) – LuDiasBH

Por LuDiasBH, 23 de agosto de 2010 0:43

Se alguém ainda tinha a doce ilusão de que os forasteiros eram pessoas de bem, caiu do cavalo, quando se deparou com um marzão de cachorros, a perder de vista.

Uns três dias antes do ocorrido, o povo de Manarairema captou certa cachorrice no ar. Mesmo de bem longe do acampamento, notou que os bichos estavam esfogueteados e abespinhadiços. Alguns achavam que os animais estavam afaimados e outros que se preparavam para uma caçada.

Segundo Gemi, melhor conhecedor da situação do lado de lá do rio, aquilo não era cachorros, mas capetas de quatro patas, vindos diretamente do inferno, enviados por Belzebu. Ao ser indagado sobre o número deles, explicou que dúzia e meia morria por dia, o que já dava para se ter uma noção da quantidade da cachorrada dos estranhos.

De repente, não mais que de repente, o cachorrismo dos homens misteriosos se fez presente em todo o povoado. Eles não mais deixavam dúvidas na cabeça dos ingênuos que, até então, acreditavam que vieram trabalhar para o progresso do povoado. Os cachorros alucinados apareciam do nada, enchendo ruas, becos, buracos, calçadas, terreiros, muros, telhados e descampados, obrigando as pessoas a ficarem presas em casa. Até as necessidades fisiológicas a céu aberto, foram suspensas. Ninguém queria uma língua de lixa lambendo certas áreas dos países baixos.

Manarairema virou uma amotinação de pêlos, dentes, rabos, urina e cocô. Era uma inhaca só. E ainda tinha que conviver com o rosnado, uivos, choramingos e o raspa-raspa dos caninos. Todas as aves domésticas foram estraçalhadas num piscar de olhos. Não havia tiro de espingarda, água quente ou pedrada que os enxotasse. Se cinco saíam de perto de uma janela, outros dez tomavam o lugar. E pior, ninguém sabia o que buscavam.

Os habitantes do povoado, lacrados em suas casas, sem que um fiapo de ar entrasse pelas janelas ou portas e ainda com medo de que lhes caíssem os bichos sobre as cabeças, eram obrigados a engolir a fumaça do fogão à lenha, sob os ganidos incessantes dos cães.

Depois de passada a laúza, houve gente contando que os bichos entraram em sua casa, sem que soubesse por onde passaram. Uns apenas saíam arrastando chinelos e roupas pelos dentes, mas outros apenas descarregavam a bexiga ou os intestinos. A seguir saíam abanando o rabo, como se nada tivessem feito.

Como o que não tem remédio, remediado está, assim que a população percebeu que os animais não mordiam ninguém e tampouco estavam com pressa de ir embora, começaram a deixar suas casas para travar relacionamento com os cães, que passaram a ser aceitos como se fossem antigos moradores da cidade, recebendo toda sorte de mimos, causando humilhação nos legítimos cachorros do povoado, que passaram a ser tratados como cães de segunda classe.

Contudo, certa tarde, no principiar do entardecer, Manarairema teve uma súbita surpresa: os amigos caninos escafederam-se, sem despedidas ou ranger de dentes, como se guiados pela flauta de Hamelin, em direção ao acampamento dos forasteiros, deixando para trás um mar, ainda maior, de cacas e um bodum de revirar os bofes. Os cachorros foram, literalmente, soltos na gente do povoado e, depois, chamados de volta. Ninguém conseguia intrujar o motivo de tanta humilhação. Afinal de contas, o que queriam aqueles homens?

Apesar de tudo, Amâncio ainda teve o desplante de rosnar na porta de sua venda:

- Eu estou com os homens, o resto é muxingo de gongomé macho. Quem não gostar, que tire a ceroula e pise em cima.”

Caros leitores, ajudem-me a descobrir o porquê de os “homens misteriosos” terem soltado os cachorros na gente de Manarairema.

Fonte: A Hora dos Ruminantes? José J. Veiga/ Editora Civilização Brasileira

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O retorno de Amâncio, os novos amigos e a depressão de Geminiano (IV) – LuDiasBH

Por LuDiasBH, 21 de agosto de 2010 12:00

Um rumorejo espalha-se por todo o povoado de Manarairema, em razão da visita de Amâncio aos homens misteriosos. A demora é vista como um sinal de bons presságios, pois “conversa demorada é briga adiada”. Sem falar que “para saber se numa moita tem onça é preciso chegar perto”. E de longe, corre-se o risco de confundir veado com jaguar.

O carroceiro Geminiano transformara-se num enigma para a gente do povoado. Muitas pessoas estavam de acordo que ele “andava escondendo leite”, de modo que poderia dizer com segurança, se se tratava de onça ou veado. Outros o defendiam, dizendo que os forasteiros não iriam lhe contar nada.

Amâncio surgia como a salvação da lavoura. Era muito esperto para ser posto para trás. Além disso, não era funcionário dos intrusos. Enquanto a turma, reunida na venda do audaz pesquisador, discutia o assunto, um menino, que chegara na garupa de uma besta de carga, contou que vira os homens jogando peteca com o vendeiro. A notícia gerou um reboliço geral. Aquilo era invencionice do moleque que não tinha o que falar. Pois, se fosse verdade, estaria tudo “tudo confuso, trançado, sobrando pontas”.

Com o sol já a pino, Amâncio entra na venda, trancado no seu antigo palavrório. Parece querer martirizar as pessoas, botando mais curiosidade nelas. Ao ser indagado sobre a ida ao acampamento, apenas responde “Fui e voltei. Não fui mordido. Proseamos, brincamos. Gente aberta, sem pé-atrás”. E tratou logo de botar outro rumo na conversa. Ao ser atochado por Manuel, acrescentou: “Compadre, eu vou lhe dizer uma coisa. Todo mundo estava comendo gambá errado. Se todo mundo aqui fosse como eles, Manarairema seria um pedaço de céu, ou uma nação estrangeira.”

Tal como as gentes pensavam de Geminiano, também passaram a pensar de Amâncio. Ele estaria escondendo o leite, ou querendo ser bajulado pelos intrusos. O melhor seria dar o caso por encerrado e não tentar tirar dele nenhuma bisbilhotice. Seria chover no molhado e ainda deixá-lo se sentido o tal. O caso estava morto morrido!

Quando o sol ia dando de banda, a carroça de Geminiano estacionou na porta do vendeiro. Dela apearam três dos intrusos, muito bem vestidos, sendo recebidos com muito aprazimento pelo vendeiro. Logo após, a porta foi fechada. E o mais estranho é que essas visitas, de tanto se repetirem, acabaram caindo na rotina. Se havia algum freguês na venda, ele saía assim que os homens chegavam. Ninguém mais se preocupava com o que acontecia ali. Tudo já fazia parte da usança do povoado.

Um fato incomum começou a mexer com o ramerrão de Manarairema. O carroceiro Geminiano, antes tão calado e confiante, começou a rezingar. A princípio, suas lamúrias foram vistas como parte de se cansaço num serviço, que nunca tinha fim. Até seu bom burro Serrote andava “desespiritado”. O caldo entornou, quando a carroça quebrou e metade da areia vazou para o chão. Desesperado, Geminiano deitou a soluçar como criança. Suas lágrimas misturavam-se a seus rogos: “O que é que eu faço, meu pai. Como vou sair desta prisão? Não aguento mais. O meu remédio é um tiro na cabeça ou um copo de veneno”.

O carroceiro, pranteando, consertou a carroça, ajuntou a areia e partiu para o acampamento com seu fiel amigo Serrote. Seus amigos ficaram para trás, tentando decifrar a causa da tristeza e revolta de Geminiano. Um deles falou condoído: “Tempo de escravo já acabou.” O outro completou: “Por que não manda os homens pentear macaco?”. Mas Dildério, sempre comedido, arrematou “Cada um sabe, onde morde o borrachudo.”

O fato é que não mais existia o Geminiano de antes. Alguma coisa o impedia de largar aquele serviço. E, se assim fosse, estaria comendo o pão que o diabo amassou com o rabo. Mas, “se ele entrou no rio com os próprios pés, por que não saía também com os próprios pés, se não estava chumbado?”.

Passa o tempo e os fatos se repetem: Geminiano carreteando areia, cada vez mais deprimido e taciturno. Amâncio recebendo os homens do acampamento e fechando a porta, tão rebarbativo como as suas visitas. E a gente do povoado sem saber qual era a incumbência dos visitantes em Manarairema.

Peço a meus nobres colaboradores que me ajudem a desvendar as seguintes pendências:

1- O que aconteceu, para aproximar o vendeiro Amâncio dos homens misteriosos, a ponto de se tornarem amigos?

2- Qual é a causa da depressão de Gemininiano?

3- A que fim se destina a areia?

Fonte: A HORA DOS RUMINANTES/ José J. Veiga/ Editora Civilização Brasileira

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Senhor, tende piedade de nós! – LuDiasBH

Por LuDiasBH, 20 de agosto de 2010 2:47

Este poema é didicado com muito carinho a meu amigo Anarquista, que há muito anda sumido de nossas plagas. Nunca mais fez trilha sonora para os meus poemas. Estou com saudades!

A terra seca e cheia de sulcos expunha as artérias.
As cores em derredor eram débeis e queimadas
Como vasilhames de cerâmica, gastos pela faina.
As árvores despiram-se de suas roupas delicadas.

Umas palmeiras mais resistentes ao abrasamento,
Altas e solitárias ostentavam suas velas mortiças,
Tremulando ligeiramente, como se fossem navios,
Á deriva num mar de areia, perdidos no tempo.

O ar se corporificava acima da terra tremeluzindo,
Cintilando, ondeando e dançando, como se fosse
Imensuráveis lençóis de plásticos transparentes,
Espelhando e criando miragens incessantes.

Contudo, o céu mostrava-se amistoso e sedutor.
Seu azul de metileno ia borrifando serras e vales,
Anilando a natureza abrasada pelo sol escaldante,
Como se quisesse consolá-la por todos os males.

Entre os fiapos de capim pardo jaziam os animais,
Com as costelas à mostra, piedosamente resignados,
Como se fossem personagens feitos de tosca argila,
Enfeitando os presépios natalinos dos miseráveis.

Não se assuntava uma nuvem andarilha no céu.
Tampouco uma florzinha ornava aquele quadrante.
A felicidade partira sem deixar recado ou endereço.
Somente a vontade de viver era constante.

Lá longe, principiava a procissão:
Senhor, tende piedade de nós!
Senhor, ouvi as nossas preces!
Senhor, trazei água pro sertão!

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