Filhos noturnos – Paulo Valença

Por Paulo Valença, 27 de julho de 2010 20:01

1

O Seu Toinho da barraca tudo sabe do que ocorre aqui no morro “Planeta dos macacos”. Conhece todos os moradores, inclusive, como cada um se conduz perante a própria vida.

Sorrindo, se “gaba” disso para o negro Josuel que debruçado no balcão baixo, de madeira, encardido pelo tempo, escuta-o.

-É isso aí cara. O que se passa por aqui, eu sei. Sou observador… O rapazinho daquela casa ali na esquina, o filho de D. Marietinha, a viúva, é “maconheiro”. Avisa à mãe de que vai pra a escola, mas vai é se drogar nas praças. A coitada de D. Marietinha: viúva, operária da fábrica de papel e com uma cruz dessas!

O outro nada responde. Escuta interessado e toma a bebida de um gole rápido.

O barraqueiro continua falando:

- A morena alta, magrinha, bonita, que mora aqui defronte, na casa azul é outra que tá dando preocupação aos pais, Seu Clóvis e D. Maria, sai com o namorado, o cara do carro cinza, importado, um ricaço e volta de madrugada… Nesses dias aparece de “barriga” ou o namorado não vem mais buscar ela.

Faz uma pausa e, comercial:

- Vai outra dose, Josuel?

Sem mesmo esperar a resposta do freguês segura a garrafa e despeja o líquido no copo fino sobre o balcão.

Então a mão grande segura o copo e leva-o aos lábios grossos, arroxeados, bebendo a aguardente num só gole.

- Eita gota serena!

O barraqueiro solta a gargalhada:

- Essa é da boa, cara!

Exclama à reclamação do Josuel, que aos poucos vai se tornando assíduo freguês. E retorna a falar:

- O vigia Severino, que mora ali em cima, naquela casa branca e que cuida da Praça no Cordeiro, é outro malandro: finge que trabalha, mas na verdade, fica é de “olho” nas residências dos ricos para depois “passar o serviço” à turma do assalto. Tudo combinado…

Josuel aí sorri e quebra o mutismo, pois ao se embriagar, solta a língua, expondo-se:

- Seu Toinho o senhor é mesmo um “xereteiro” de marca, sabe da vida de todos os moradores daqui.

- Ora, esse menino, é a vida que ensina a gente a ficar assim. Vai outra?

- Possa botar. Bem reforçada.

A garrafa despeja o líquido branco, forte. A mão segura o copo. Os lábios recebem a bebida. E com a flanela, Seu Toinho esfrega o balcão.

- Conheço tudo por aqui. A canalha toda.

O automóvel cinza estaciona defronte à residência azul. E a mocinha apressada deixando o terraço entra nesse, que parte macio, para aonde?

- A putinha saiu com o namorado…

- Eita língua ferina da peste!

O barraqueiro sorri e volta a esfregar o balcão manchado pelo uso de anos.

Fora, a noite amadurece indiferente, superior a tudo.

2

As motos estacionam na praça.

- A casa é aquela, com o velhote no terraço.

Então o sujeito alto, magro se volta e encarando o outro negro, baixo, forte, ordena:

- Vamos agir, irmão.

Lado a lado encaminham-se ao portão largo ao centro do muro defronte à residência. E o negro pressiona a “cigarra”, chamando.

- Quem é?

Indaga a voz da senhora que acaba de adentrar na varanda, inocente da maldade humana.

- Que é, o que deseja?

Na cadeira, o rosto do enfermo se volta e, como se entendesse o perigo que os ameaça, tenta falar, contudo, não consegue e emite os sons roucos, incompreensíveis.

- Já tou indo.

Outra vez fala a voz inocente.

Os assaltantes aguardam já impacientes, enquanto afastado, sentado num dos bancos da praça, o vigilante segue a cena. E o adolescente chega para se drogar.

O portão é aberto.

3

Ele está ali, na varanda, na cadeira de balanço.

Magro, a cabeça branca, os braços compridos, as mãos secas, de unhas arroxeadas, a vista na praça defronte. Assemelha-se a imagem da angústia, de uma dor sem tamanho, pois não fala, apenas emite uns sons incompreensíveis, tudo em conseqüência de derrame recente. Em que pensará, assim sem se mover, dentro de uma tristeza que comove?

Na sala vizinha, a mulher idosa, sua esposa, analisa-o, pensativa. Quem lhe diria que numa hora futura, à tardinha, vertia o Dário desse jeito, um morto – vivo? Como a vida nos maltrata, como o futuro nos trai…

- Mamãe?

Ela se volta, despertando ao presente e, fitando a moça que se parece com o pai – o rosto comprido, os traços corretos, os cabelos lisos, os gestos nervosos de quando ele andava, movendo-se – inquire:

-Que é, filha?

A moça ocupa o sofá defronte e sorrindo, desejando mostrar naturalidade:

- A senhora aí quietinha, calada… Pensando no papai?

A mulher fugindo a atenção à varanda, ao marido que lhe parece, agora cochila, com o rosto caído sobre o peito batido pela magreza, então responde:

- Estava, Ivete. O coitado do seu pai: naquela cadeira, mal se mexendo, sem falar…

Os olhos de repente se nublam e chora baixinho, se libertando.

A filha entende-a e deixa-a chorar. Chorando, desabafa o que sente, liberta a voz do que a sufoca.

Calada, respeita o choro baixinho, do desabafo.

Na praça as luzes dos postes que a contorna, se acendem, no anúncio do nascimento de mais uma noite.

Então se erguendo a moça se avizinha à mãe e lhe afaga a cabeça alva, de cabelos finos, ondulados, num gesto de carinho. E quebra o mutismo:

- Mamãe a gente tem de se conformar. Deus saber o que faz…

A idosa nada responde e chora.

4

Na praça, o adolescente chega e senta-se no banco próximo ao balanço e, abrindo a bolsa presa ao ombro esquerdo pela correia, retira o cigarro comprido e fechando a bolsa, busca o isqueiro no bolso da calça e acende-o. Fuma. Tragando a erva forte.

Novo trago, que o faz sorrir, embalado na ilusão do bem-estar que se lhe apossa do corpo, vencendo-o.

Sozinho na praça se volta a si mesmo.

Na varanda, do primeiro andar, da residência defronte, o velho na cadeira de balanço, tudo segue?

- Que nada! O “coroa” é doente, tá “noutra!”.

Sorri ante o desabafo, que lhe justifica o que faz. Da avenida próxima, chegam os sons dos veículos cruzando-a, mas é como se tudo fosse num outro mundo, num outro mundo…

Novo sorriso. Outro trago. E o idoso deixa a cadeira. Devagarzinho, amparado no braço da mulher que se move com cautela, medindo os passos.

- O “coroa” saiu. Deve ir jantar.

O guarda estaciona a bicicleta e… Vem para cá? Ergue-se e em passos rápidos abandona a praça, temendo um provável aborrecimento.

O guarda com o olhar analítico acompanha a figura magra do adolescente movendo-se com rapidez. E reflete. O “viciado” estava ali, se “drogando”. Deve ter “queimado” a aula, para se entregar ao vício. Mas, cada um com a própria vida… E foge a atenção à varanda defronte, no primeiro andar da residência murada, de portão ao centro.

O doutor Dário deve estar jantando ou no quarto, o terraço está vazio… Um homem rico e de repente, com o derrame, se encontra sem falar! Mas… O casal jovem chega no automóvel cinza, que estaciona à esquerda, no meio-fio da praça.

- Os safadinhos…

Dentro do veículo o casal se entrega às carícias, protegido pelo vidro fumê, dos olhares indiscretos.

Como se nada percebesse, o vigilante se move, contornando a praça, no fingimento de que a protege, enquanto a noite amadurece na marcha de sempre.

Na varanda, a cadeira vazia se assemelha à tristeza de uma aflitiva interrogação.

Lu Dias BH disse:
Paulo Valença O escritor dos contos curtos
Você é o escritor de seu tempo.

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Os fantasmas – Paulo Valença

Por Paulo Valença, 24 de julho de 2010 0:04

1

Ah, D. Ângela, estou velho. Aqui, na cama, meio-adormecido duma banda do corpo, mal mexo as mãos (parecem garras de animal sem forças). Mas a senhora que é contratada (dando-me alimentação, porque mal consigo sustentar algo: as mãos não ajudam) sabe muito bem disso… Então, fico pensando, que me resta senão isso? Além, é claro, das compaixões (compaixões?) dos visitantes.

- Mas como foi que aconteceu?

- O senhor não anda?

- Move as pernas? Tenha fé em Deus, que é pai, não é padastro…

Na maioria das vezes, não lhes respondo. A humanidade é sádica, gosta de presenciar dores, tragédias.

O que aconteceu comigo foi de repente: a vista escureceu, fiquei tonto e, caí na valeta. E a coluna sendo atingida… Total paralisia que, com a fisioterapia nos meses seguintes, foi diminuindo até chegar ao estado atual.

Minha mulher (falecida) também ficou assim: da cama para a cadeira, dessa para… Por que ela e mais tarde, eu?

Lembro-me do passado, quando ela ainda vivia. Estávamos hospedados na casa de sua irmã, no interior do sertão de Sergipe.

Lá conheci Zequinha. A moça morena. E o galego que acabara de chegar com a família. E o que ocorreu aos três… Está cansada, D.Ângela? Então, prosseguirei.

Zequinha: baixo, forte, braços longos, o dedo faltando na mão direita. Quando embriagado, sorridente, apertava a mão de quem encontrava.

- Como vai jovem? É um prazer, sempre renovado, toda vez que vejo o amigo…

E, se afastava. O ombro esquerdo mais arriado, os braços desengonçados. Adiante, novamente apertaria outra mão. Minutos conversando para depois ir beber no bar de Seu Antides. Não tardava, retornava.

A tarde perdia a luz com a chegada da noite, que abraçava as residências conjugadas, a igreja ao centro da praça larga, incompleta. O frio se pronunciava. Zequinha se despedia:

- Jovem, vou indo. A gente se encontra…

E tomava a direção da casa, para impaciente, logo deixá-la. Dirigindo-se então, ao bar da esquina.

Meninos corriam para a praça larga. As luzes dos postes acendiam-se. No interior da igrejinha fechada à claridade também surgia. Homens altos, com chapéus, cruzavam a praça. Adiante, na pista, caminhões passavam. Do mercadinho próximo à igreja, o rádio tocava a prece das sete horas…

Vindo do bar, Zequinha sentia o desejo de… Não querendo se trair, nervoso, passa a mão sobre os olhos. Com passos vacilantes, empurra a meia-porta. Entrando, senta-se no tamborete junto à mesa de serviço (conserta rádio, televisão). Então, sem mais se conter, chora.

O sujeito foi buscar o rádio. Bateu palmas, anunciando-se. Como não obtivesse resposta, empurra a parte superior da porta, destrava o ferrolho da inferior e entra. No quarto vizinho à oficina, depara-se com Zequinha sobre a cama…

Comentaram que ele havia morrido durante o sono. Do jeito que bebia que poderia se esperar?

2

A mocinha morena, de longos cabelos estirados, pretos, magra, alta, de rosto afilado, andar de manequim, segurando a mão da irmã, cruza a calçada. Escuta o choro vindo da sala. Discreta, apressa-se. Sabe ser Zequinha, que ao se embriagar, assim procede. O que se comenta é que ele vive com mulher madura, que de vez em quando, viaja. Daí é quando bebe.

A jovem chega à praça. Será que está sendo… O coração emocionado, com força, palpita.

O homem de meia-idade está hospedado em casa da cunhada. Disfarçadamente, sempre está olhando-a. Entre vaidosa e curiosa, procura saber de quem se trata.

- Ele veio buscar a mulher, aquela da cadeira-de-rodas. Dizem que são de Pernambuco. Mas Silvinha, por que tanta pergunta?

Ela, de rosto virado:

- Nada.

A amiga silenciosa, enigmática. Cruzam a praça. Silvinha sente o desejo de se virar… À luz do poste, agita a longa cabeleira, que solta reflexos à noite. Entende a loucura: simpatizar com homem muito mais velho e casado… Ou é o fato de querer viver numa grande cidade, e o desconhecido represente essa possibilidade? Sempre foi sonhadora.

- Tás tão calada, Silvinha…

Em resposta, o tímido sorriso. E no característico gesto, novamente balança os cabelos. Apressa-se. Adiante, sem poder se dominar, vira-se.

Na calçada, ele está. E a onda de bem-estar domina-a. E sorri.

- Que foi?

- Nada, Ana…

E a amiga a segue. Nos passos mais ligeiros.

3

Nasceu o namoro. A paixão. Fomos amantes. Doidos. Temerosos. Contudo, felizes. Depois, quanta vez quis o afastamento, pôr fim ao romance com a mocinha mal saída de meninice? Além de perigoso, parecia-me ridículo o papel que fazia.

Se a família dela descobrisse? Se minha mulher (sofrendo na sua doença) soubesse? Tudo isso falei à Silvinha, que não se convenceu. Então, D. Ângela, achei melhor deixar o povoado. Covardemente fugir… Depois, soube que ela ao se encontrar abandonada e grávida… Sim, ela tomou os comprimidos…

Pouco depois da tragédia, minha mulher faleceu. Eu, então, estava mais magro, envelhecido. Noites sem dormir, durante quanto tempo? E o derrame não terá sido devido ao sofrimento? D. Ângela está com sono? Termino já.

4

Sob o sol trabalha. Curvado, puxando o mato-rasteiro aos pés. Deixando os pés-de-feijão e milho livres para crescerem. Que o Pai não permita que lagartas ou gafanhotos ataquem a lavoura!

Ergue o rosto, perscruta a luz:

- Onze e coisinha.

Retorna à limpa. Próximo (no umbuzeiro?) a rolinha-cascavel canta. Fogo-pagô, fogo-pagô. A cantiga compassada prossegue ininterrupta.

- Bichinha de valor!

Se Deus quiser, esse ano a roça dar-lhe-á roupa e sapatos para as festas de fim de ano. Dele, da mulher e dos meninos. À esquerda, está a companheira e os dois rapazinhos, no mesmo serviço.

Pouco adiante, à direita, da estradinha, chega-lhe a zoada das patas do cavalo. Ligeiro, se vira. O cavaleiro, com a mão erguida cumprimenta-o.

Retribui ao aceno.

- Bom dia.

O outro se distancia. Dobrando a esquina de evelós, desaparece.

Aliviados, silenciosos, retornam à obrigação repentinamente interrompida. Estão sempre alerta. Acostumaram-se à desconfiança nascida pela profissão do chefe da família. Nunca demoram num lugar. Sempre expulsos pelo medo.

Há pouco chegaram aqui. O galego comprou (afastadas do povoado) a terra com a residência. Após chover, fizeram à plantação, que, cuidam, no momento.

O sol torna-se mais quente. A rolinha continua cantando. O menino mais velho pensa em pegá-la, pondo-a numa gaiola. O outro apanha a casca do caranguejo a fim de depois brincar com este (converter-se-á em boi) num pequeno cercado construído de pedrinhas. O homem com as costas da grande mão vermelha de sóis enxuga a testa. E se diz para ficar tranqüilo. Nesse sertão, quem o conhece?

Calculando ser meio-dia, grita:

- Hora de enganar a barriga!

E os demais, imaginosos do que os aguarda (feijão verde, maxixe, arroz, farinha, capão “cevado”) seguem-no em rumo à casa afastada uns cem metros.

O mesmo estranho retornando, causa surpresa, paralisação à família. E, perplexos, escutam os disparos. Atingido na testa e peito, o chefe tomba à terra quente, escura.

- Pra tu não matar mais ninguém.

Diz baixinho quem o alvejou e, esporeando o animal, foge em disparada.

O caído se imobiliza… Os rostos se voltam para o corpo…

- Terminei. Vá descansar D. Ângela.

Sem palavras, ela me atende.

E fico sozinho, com os mortos. Por quanto tempo esses fantasmas me farão companhia?

(*) Lu Dias BH disse:
Paulo Valença, O escritor dos contos curtos.
Você é o escritor de seu tempo.

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As feras da selva – Paulo Valença

Por Paulo Valença, 22 de julho de 2010 17:03

1

Há quantos dias ele estacionava o carro e sentando-se à mesa, na entrada do restaurante, chamava-me, acenando com a mão?

Solícito, atendia-o:

- Às ordens.

- Um uísque do melhor e um pratinho com lagostas.

- Pois não.

Então, dirigindo-me em sentido da abertura em formato de janelinha, pedia:

- Gordo, um prato com lagostas.

Enquanto este providenciava o solicitado, ia atender ao novo freguês que acabara de chegar.

Disfarçando, eu analisava o primeiro freguês. Calmo, bem vestido, com aparência. Por que, apesar de procurar não demonstrar, ele não desviava os olhos do edifício na esquina? Contudo, dever-me-ia apenas me limitar ao trabalho, para que depois não ouvisse reclamação do gerente. Retornava à janelinha:

- As lagostas estão prontas? Apressa isso, Gordo.

Sorrindo, ele buscava me aquietar:

- Estão quase prontas.

Contendo-me na impaciência, fazia com a mão gesto ao primeiro freguês, para que esperasse mais um pouco e, voltando-me ao Gordo:

- Chego já.

Em seguida, ia ao balcão próximo:

- Uma dose do melhor uísque.

Em sinal com a cabeça, aquiescendo, Ivan retirava o litro, de sob o balcão.

Fora, a noite despontava. As lâmpadas clareavam o prédio. À mesa na entrada, o homem também fixava a iluminação.

Sob a falsa tensão contida, ele mostrava-se sereno. Ou tudo não passava de minha impressão? Contestava-me. Não, devido à experiência, entendia-o, ele planejava algo.

- Colega, o uísque.

Pondo o copo na bandeja, outra vez dirigia-me à janelinha:

- O prato ficou pronto, Gordo?

- Ficou. Segura.

Sorrindo, eu gracejava:

- Você é um cara arretado!

Com o uísque e as lagostas na bandeja, novamente cruzando o salão, aproximava-me do sujeito com a discreta atenção no edifício.

O que ele planejava, em silêncio? Indagava-me outra vez, e sentia um estranho pressentimento.

- O pedido, senhor.

Ele, sem desviar o olhar do prédio:

- Obrigado rapaz.

Então, devagar afastando o braço de sobre a mesa, permitia que eu pusesse o copo e o prato. Depois, apressado, retirava-me, indo saber o que desejava o casal que acabara de se sentar.

O movimento crescia. A noite adiantava-se. E, assim servindo mesas, eu a atravessaria.

2

- O que tem valor na vida, é o dinheiro. Pode se ser bonito, inteligente, trabalhador… Mas, se não tiver dinheiro, posição social, não se é nada!

Dizia o meu pai, sofrendo. Naquela época, eu, menino, escutava-o. E me prometia de que, um dia, seria rico, com posição social – o que seria isso? – tornar-me-ia igual ao doutor Maciel, que sendo rico, era respeitado por todos.

- De que me valeu ter sido trabalhador, procurar andar sempre na linha, ser honesto? O que fiz? O que a minha família tem?

Minha mãe então tentava vencer-lhe o pessimismo:

- Tem paciência, Oscar. Todos passam por crises, principalmente agora, com essa mudança de governo.

Com a voz alterada pela bebida e contrariedade, ele retrucava:

- É tão fácil se dizer: “Tenha paciência!” Acontece que estou desempregado, nervoso.

Compreensiva, ela nada mais dizia e, com as lágrimas nas faces morenas e percebendo-me:

- Meu filho, vá brincar na calçada.

Atendia-lhe. Na rua, outra vez me prometia de que, quando homem, um dia, seria rico.

3

Essas cenas – passe o tempo que passar – a gente não às esquece, de repente, elas retornam, para nos fazer novamente sofrer.

Hoje, aos cinqüenta e quatro anos, o rosto largo marcado por rugas, a cabeça grisalha, gordo, continuo pensativo. Contudo, realista. Ou melhor, calculista, como já me definiram.

Possuo dinheiro, posição social – hoje sei o que isso significa – e, à semelhança do doutor Maciel, sou respeitado, e invejado. Respeitado principalmente pelas funcionárias da minha indústria, entre as quais, escolho para amantes.

Toda vez que me embriago curto o passado, como se o recordando, sentisse-me realizado. Contudo, não o sou? O que desejo não consigo? Dinheiro, mulheres, status?

Tenho de me levantar desta cama e retornar à vida de senhor casado, e industrial. Ao meu lado, está a jovem, que ressona adormecida. Exausta pela noite pecaminosa que desfrutamos após o jantar no restaurante recém-inaugurado à beira-mar, ponto de encontro dos agraciados pela vida. O rosto afilado, sereno. Os cabelos negros, longos. Tão bonita!

Entendo-a: sai comigo porque sou o patrão. Teme perder o emprego, com o qual se mantém e também sustenta o pai paraplégico e a mãe sempre adoentada.

Em troca da colocação, presentes, e dinheiro recebido como se tivesse feito horas extras, prostitui-se. Porém, reflito: quem neste mundo, também não se vende? Sim, todos temos um preço. Assim é que funciona…

Ela, de repente desperta:

- Acordado, meu gordinho?

Então, alisando-lhe o braço longo, de pele aveludada, respondo, sorrindo:

- Acordei agorinha.

Feminina, ela então vem para cima de mim:

- Não queres não, meu gordinho “fofura?”.

- Claro que quero.

Aí, com os braços curtos e grossos, envolvo-lhe as costas, trazendo-a.

Dando gritinhos, ela se entrega vencida.

4

“Meu gordinho fofura”, ele acreditava que eu lhe era sincera? Hoje, que me acho vivida, sei que não acreditava. Contudo, como era vaidoso, intimamente, desejava acreditar, autopromover-se diante da funcionária graciosa, e amante.

Havia instantes nos quais me perguntava: Até quando me manteria vivendo daquela maneira? Por que não lutava para sair da lama que me aprisionava? Contudo, tentara novo emprego e não o conseguira… Então, enquanto a nova opção pela sobrevivência – e dos meus pais – não surgia, continuava sendo amante do homem baixo, gordo, repelente.

Portanto, a cada “transa amorosa”, depois de satisfazer-lhe as taras, sentia-me violentada e, chorava baixinho, humilhada.

Numa dessas vezes, ele indagou:

- Por que você está sempre chorando? Algum problema, “gata?”.

Baixando a voz, prosseguiu falando:

- Vá, desembuche com o seu “gordinho”. Você sabe que pode contar comigo.

Entregue ao que sentia, mal pude responder:

- Nada não.

- E, por que chora?

- Nada.

- Está bem, você não quer dizer. Mas, se acalme.

Ergueu-se. Com a vista embaçada pelas lágrimas, outra vez o analisei. Branco, baixo, entroncado, o rosto largo, de papada, a cabeleira cheia, grisalha, os braços curtos, cheios. A barriga grande. As perninhas… Mesmo sofrendo, sorri, ridicularizando-o.

Como se notasse ser observado, ele de repente se virou e, mantendo o sorriso, voltou a falar:

- Essa minha cabeça! “Gata”, você irá pra outra seção. Foi promovida. Ganhará mais. Não me olhe assim: você é inteligente, e competente, merece. Mas, está tarde, se apresse. Vamos indo.

À semelhança de um animal ferido, com vagar, ergui-me. Enxuguei as faces e, logo estávamos no automóvel.

Ligando o veículo, me fitou, com ar vitorioso. Provavelmente, sentindo-se realizado na vida.

Fugi o rosto, e fitei minhas mãos morenas, de dedos longos.

O carro partiu em velocidade.

5

O sarará contratou o meu “serviço”. Como sempre, perguntei-lhe somente o necessário sobre quem mandaria deste para o outro mundo.

Em minha profissão, a discrição é muito importante. O que realmente me interessa é receber pelo que executo. E, como de praxe, recebi a metade, e a outra, a receberia depois de concluído o “serviço”.

Pondo o pacote na mesa, ao centro da sala, ele se dirigindo à porta, falou:

- Aguardo notícias.

- Você as terá. Fique “frio”.

Segurando o trinco, ele voltando-se:

- Faça o “serviço” e será recompensado. O patrão sabe reconhecer e gratificar. Ciao!

Saiu. Fechei a porta. Contei o dinheiro, certificando-me. Depois, assoviando, satisfeito, o guardei no cofre, de onde retirei a arma, a qual com vagar comecei a limpar.

Amanhã, me acharia no restaurante, com disfarce, olhando o edifício onde reside o senhor “encomendado”.

Lá me encontraria, analisando tudo, em detalhes, pois sou profissional. Tomando uísque com lagostas, esperaria o instante exato para entrar em ação, mesmo que, para isso, levasse dias.

Polia a arma, que, recebendo a claridade do teto, libertava estranhos reflexos.

6

Foi assim: depois que pagou a conta, ele se encaminhou ao automóvel, ali estacionado no meio-fio e, dentro deste, fez os disparos quando o “coroa” – que segundo comentários, era um rico industrial – saiu do carro.

Depois, ele fugiu no veículo, em velocidade. Então, como sempre acontece, de repente, apareceram os curiosos, que formaram o círculo em torno do caído, que aos poucos ia morrendo.

Também curioso, avizinhei-me. Contudo, de súbito, refletindo melhor, temendo mais tarde, servir como testemunha, envolver-me com problemas, retrocedi ao restaurante.

Sim, nossa vida é repleta de desagradáveis surpresas, e temos de saber nos defender nessa selva traiçoeira.

Bem que eu desconfiava do sujeito calmo, bem vestido que se sentando à mesa na entrada do restaurante, acompanhava com discrição, o movimento do edifício à esquina.

Ele aguardava o instante propício para agir. Matar…

De repente, ouço:

- Garçom!

Alguém me chama. Desperto à realidade, encaminho-me à mesa, na entrada do recinto, na qual se encontra o homem bem vestido.

Na esquina, o edifício mais uma vez se ilumina.

- Às ordens.

- Um uísque e um pratinho com lagostas grelhadas.

- Pois não.

Ele – parece-me – estuda o prédio.

Encaminhando-me à janelinha, inesperadamente me indago:

- Será que… Tudo irá recomeçar?

Na pequena abertura, o rosto gordo espera-me, sorrindo. Então, como na vez anterior, faço o mesmo pedido.

Recife, 21/10/2004.

(*) Lu Dias BH disse:
Paulo Valença O escritor dos contos curtos.
Você é o escritor de seu tempo.

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A moça de ontem – Paulo Valença

Por Paulo Valença, 20 de julho de 2010 19:45

1

Passa pela casa branca, à esquina, com o portãozinho ao centro do muro baixo, o terraço, a janela ao lado e com a moça varrendo este cabisbaixa, o cabelo preto em rabo-de-cavalo, o rosto afilado, os braços longos movendo devagar a vassoura. E ele sente o bem-estar que o invade sempre que a vê. Uma “onda” positiva domina-o.

- É o amor…

Diz baixinho, gracejando, definindo-se. Ah, se tivesse a chance de uma aproximação! Apressa-se.

O sol recém-nascido brilha nos telhados das residências às laterais. Aos poucos a rua adquire o movimento de mais um dia, com os pedestres indo para o trabalho, os carros, motos e bicicletas cruzando-a. Dobra a esquina. Adiante à direita, está à portaria da indústria da qual é funcionário. Grupo de homens, mulheres, adolescentes também vai chegando. Coletivos estacionam defronte da indústria, e novos trabalhadores descem, encaminhando-se a portaria. Há quanto tempo presencia essa cena? E até quando…

- Bom dia, Ivan.

Volta-se e, reconhecendo o negro Luis mecânico:

- Bom dia. Tudo bem?

O outro se põe ao seu lado e fitando-o:

- Mais ou menos… A turma tá falando numa greve pra gente pegar aumento.

Ele, então perplexo:

- Mas, a empresa não avisou ao sindicato que aguardasse mais um pouco?

Luis retruca:

- Cara, de promessa ninguém vive. As coisas tão muito caras e a gente já esperou muito…

- Sei, sei. Mas, Luiz o negócio de greve é muito perigoso, é faca com dois gumes, tanto dá como tira!

Adentram na portaria.

- Bom dia.

- Bom dia, Ivan.

- Bom dia.

- Bom dia, Luis.

Carimbam os cartões e pondo-os no quadro ao lado do relógio, descem os degraus que os conduz ao oitão largo e às respectivas seções.

À frente, os operários caminham apressados, calados, responsáveis. Integrados a mais um dia de trabalho, suor, o ganha-pão de luta.

O sol cintila no trator amarelo, estacionado próximo à montanha de bagaço-de-cana, matéria principal na confecção do papel ondulado.

Sobre este, o operador testa o motor e logo, manobrará com habilidade o veículo, recolhendo o bagaço e pondo sobre a “montanha” da matéria-prima. Tudo vai se reentregando à rotina nervosa da vida da empresa, na marcha natural de sempre.

- Sempre.

Adentra no salão com máquinas e funcionários nas diversas funções de impressores, costureiras, condutores de carrinhos-de-mão, varredores, e os chefes fiscalizando-os, orientando-os.

- Bora com isso Pretinho.

Grita o encarregado Raimundo. Mulato, grande, musculoso. E o operário humilde se apressa em recolher as caixas da esteira e as colocar ao pé da máquina, para outro funcionário a conduzir no carrinho às costureiras.

- Pra trabalhar não, mas para pedir aumento…

Cruza o salão. Então a imagem da moça branca, esguia, bonita lhe chega. Será que ela tem namorado, é casada? Ah, precisa saber. Quem pode prever o dia seguinte? Quem…

- Bom dia Ivan.

- Bom dia, Jason.

Lado a lado entram na seção, seguidos pelo ritmo nervoso, cadenciado das máquinas.

2

Soube pelo vizinho da casa branca:

- Parece que ela tem um “caso” com um homem casado.

Perplexo, inquire:

- Casado?

O velho sorri, e malicioso:

- Casado. O cara só aparece nos finais de semana, num carrão cinza, importado.

Tenta então fugir do assunto, para não se denunciar, não mostrar a frustração ante a revelação:

- Pois é… Mas, a inflação está voltando. O pessoal da fábrica anda falando numa greve.

- Essa pessoal não pensa, vai pela cabeça do sindicato e depois fica por aí desempregados. Lascados!

Nada responde. Aquiescendo. Então a moça é amasiada com o sujeito rico, que a visita nos fins de semana…

- Vou indo.

- Vai lá, Ivan. Bom trabalho.

Afasta-se, sem se voltar para trás, fugindo da imagem da jovem quer agora cabisbaixa, varre a frente da residência, alheia ao mundo, ao que desperta, apenas contida em si mesma.

3

Não, não quer olhar. Precisa se conter. Ser forte. Não lhe há mais chance. A realidade acabou sua intenção, o desejo. O sonho de uma aproximação e depois…

Apressa-se, fitando os outros trabalhadores que caminham à frente, a moto que se aproxima. Barulhenta. Veloz. E, de repente, tem a sensação de que está sendo acompanhado pelos olhos grandes, negros e, sem mais se conter, volta-se. E vê. Debruçada sobre o portãozinho, a moça o segue, disfarçadamente. Com o coração aos pulos e dominado pela antiga sensação de quando a enxerga sorri e caminha, outra vez com a atenção voltada aos operários que se movem em sentido da empresa.

Há sim, a esperança…

4

Manhã.

Por que a moça não está no terraço, varrendo-o? Por que a casa está fechada? Que terá acontecido?

- Besteira minha. Depois eu descobrirei.

Frustrado, com o vazio no peito, se afasta. Algo aconteceu… Contudo, que direito tem ele de interferir na vida da moça? Mas…

- Deixa pra lá!

Dobra a esquina. A portaria. Os operários entrando. Os carros que passam. O sol que esquenta. A sirene apita estridente, convocando o operariado para o novo expediente. Tudo numa repetição sem graça. Sem a espera da concretização do sonho, tudo se converte agora nesse vazio.

- Bom dia.

- Bom dia, Ivan.

Pensativo, carimba o cartão.

5

O vizinho da casa branca, outra vez diz o que sabe:

- A casa aí tá desocupada. A mulher bonita, parece, foi morar com o ricaço na praia de Maria Farinha.

Ele aquiesce nervoso:

- Sim, sim.

- Mas, assim é a vida. Cada um “na sua”. A menina sabe o que quer.

Então, prático, se reentrega à realidade:

- Quer entrar um pouquinho, Ivan? Tenho de fazer um servicinho…

- Não, seu Durval. Obrigado. Até.

- Até esse menino. Vai com Deus!

A moça bonita partiu. E sentirá a falta da imagem que lhe despertava a “energia positiva”, a sensação boa que lhe aquecia o coração, enchendo-o da esperança de uma amizade…

- Assim é a vida.

6

- Que moça interessante essa da casa branca!

A exclamação do enfermo no leito, com os olhos fixos no forro do quarto.

No sofá vizinho ao leito, a jovem fitando a senhora ao lado fala:

- Papai está delirando.

A outra com a atenção ao idoso, aquiesce:

- É filha, delirando. Deve ser os remédios que ele está tomando.

A porta do ambiente então se abre e a enfermeira amulatada entra sorrindo:

- Bom dia.

- Bom dia.

Responde a jovem, enquanto a senhora permanece calada, com a atenção no marido.

- Parece que papai está vendo coisas, delirando…

A funcionária do hospital concorda:

- São efeitos dos comprimidos que seu pai está tomando.

Avizinha-se do leito e se voltando:

- Vocês me dêm licença, por um instante, que preciso ficar com o seu Ivan.

As duas se erguem e devagarzinho se retiram do quarto.

Fora, na sala de espera, achegam-se a janela aberta, que mostra os edifícios altos, com o céu azul, as nuvens brancas, o sol que esquenta e embaixo, a avenida com os veículos e pedestres pequeninos, como se fossem de brinquedos.

- Nunca pensei que um dia veria o papai canceroso, se acabando numa cama!

Silencia, os olhos nublados pelas lágrimas.

- Também nunca pensei nisso, Solange. Mas é a vida, minha filha.

Os carros e pedestres de brinquedos vão passando embaixo, sob a luz do sol mais quente e que tudo envolve sob o comando de uma Grande Força. Sim, à janela os rostos das mulheres tentam se prender ao que presenciam como fuga a cruel realidade, enquanto entre ambas, paira o doloroso silêncio.

(*) Lu Dias BH disse:
Paulo Valença O escritor dos contos curtos
Você é o escritor de seu tempo.

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O aviso da partida – Paulo Valença

Por Paulo Valença, 14 de julho de 2010 12:28

Dois dias depois ao parar no sinal, Isaias é assaltado e ao tentar avançar o carro, na busca de fugir dos três adolescentes é então atingido na cabeça e no peito pelos disparos da arma de um desses, vindo a falecer, mesmo antes de ser conduzido ao hospital próximo.

Perplexa com a notícia, trêmula, Graciete então se lembra de que nos últimos encontros entre ela e Isaias para jantar e depois curtirem o amor no motel, ele dizia estar saudosista, com se estivesse se despedindo.

- Se despedindo…

A mão de longos dedos então buscando o lenço na bolsa enxuga as faces e os olhos nublados pelo choro da saudade e do entendimento tardio da verdade, cruel verdade.

Lembra-se.

O pai se acordava de madrugada.

Com os passos duros cortava o corredor, a sala conjugada, adentrava no banheiro, onde lavava o rosto, escovava os dentes e retrocedendo a sala, sentava-se a mesa, aguardando a refeição.

A mãe já então estava na cozinha, atrás da casa, fritando ovos, enquanto a água fervia com o café.

- Tá quase pronto, José.

O sorriso no rosto magro, moreno, de aquiescência e a voz grossa:

- Tudo bem, Maria.

Mesmo deitado, parecia-lhe vê a cena. Depois, as passadas novamente cruzavam o corredor, a outra sala e deixavam a casa. No silêncio do dia que despontava, escutava bem o ploc-ploc cadenciado dos pés descendo a rua estreita.

Ficava também ouvindo novos sons dentro das últimas trevas da madrugada. Outros passos. Vozes. Risadas. Um cachorro latindo num quintal circunvizinho. O dia aos poucos nascendo.

Logo, comia o pão com manteiga e café.

- Meu filho se cuide para não chegar atrasado na escola.

- Sim mamãe.

Obediente. Respeitoso. Apressava-se.

Hoje… Por que a repentina recordação? Dirige. Ultimamente, está assim saudoso. Sintoma da idade, essas lembranças?

- Bem provável.

Sorri, ante a conclusão e acelera, aproveitando o tráfego descongestionado.

O sol recém-nascido banha as residências nas laterais, com pedestres apressados nas calçadas. Aos poucos, carros e motos em número maior circularão aqui na Avenida Hildebrando Vasconcelos, na marcha natural do novo dia.

Tudo passou. Está “maduro” casado. Sem filhos. A mulher numa cadeira de rodas. Desfigurada pela obesidade que a domina ante a acomodação do corpo de pouco movimento. O pai ainda está vivo. Calado, aliás, sempre foi de pouco falar. Contido em si mesmo. Isolando-se de tudo. A mãe tristonha, magra, movendo-se devagarzinho, a voz trêmula.

- Nunca mais apareceu, meu filho…

- É a luta mamãe. Como está a senhora e papai?

- Tá tudo bem, com as cabeças nos lugares!

O sorriso dos lábios finos. O brilho nos olhos de repente outros, como renascidos.

- Senta aí meu filho.

Obedece. E o pai aonde está? Indaga:

- Cadê papai?

- Foi dá umas voltinhas por aí. È o novo hábito dele agora, sair de tardezinha.

- Entendo.

Meu Deus como tudo se transforma. Como o tempo passa ligeiro! Saber que foi menino, que despertava com os passos duros do pai, se preparando para sair, ir trabalhar. Os sons da rua defronte…

- E a Luzia como está?

- Naquilo mesmo, com a mocinha, a Irene, cuidando dela… É a gente tem que se resignar.

O silêncio da compreensão, onde as palavras são desnecessárias. Os rostos que não se encaram.

O tempo que corre, indiferente a tudo.

O portão largo. Buzina, anunciando-se.

O vigilante saindo da portaria abre-o.

- Bom dia, Seu Isaias.

- Bom dia, Tonho. Tudo bem por aqui?

- Tá, tudo OK, chefe.

O carro transpõe o portão, ante o olhar do funcionário humilde, contido na função de zelar, servir os superiores.

Adiante, o veículo pára no estacionamento destinado aos diretores e chefes de seções da grande empresa.

O vigilante pensativo retrocede a portaria.

- Hoje estive pensando…

A jovem morena, esguia, bonita, fita-o, em silêncio. Ele continua falando:

- Lembrando-me do tempo de menino, quando acordava com o meu pai se preparando para o trabalho. Seus passos fortes pelo corredor. Minha mãe à beira-do-fogão, cuidando do café…

Pausa. A moça entende-o. Nos últimos dias, o Isaias está com essas recordações. É o mal da idade…

Sorri, com a conclusão.

- Sorrindo de quê, Graciete?

- Nada não. Pode continuar falando, me desculpe.

- Eu estou ficando saudosista, como se estivesse me despedindo, tivesse recebendo um aviso…

A mão de longos dedos aí pousa no dorso da outra, em gesto de solidariedade, força para livrá-lo do pessimismo. E afagando-a, sente-a fria, trêmula.

- Isaias esquece o passado. Deixa de besteiras. “Bola pra frente”, pensa positivo, homem!

Ele lhe sorri, agradecido às palavras solidárias e, reagindo, livrando-se do passado:

- Peço outra dose?

- Pede.

O braço se ergue e a mão acena ao garçom, chamando-o.

- Pois é, morena bonita, vamos jantar e em seguida…

- Nos amar!

Sorriem coniventes, envolvidos pelo laço da amizade.

Dois dias depois…

(*) Lu Dias BH disse:
Paulo Valença O escritor dos contos curtos.
Você é o escritor de seu tempo.

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As conquistas – Paulo Valença

Por Paulo Valença, 11 de julho de 2010 12:44

Comecei a minha vida de trabalhador aqui na indústria, como apanhador de bagaço de cana e, conduzindo-o na carroça para a montanha de bagaço fora do galpão, com máquinas e operários, envergando-me de lado, com o seu peso, servia de mangação:

- Cuidado pra não cair de banda.

- Já tomasse café hoje, “Macaxeira?”.

Era assim tratado por ser branco. Ainda hoje, basta me concentrar, ouço aqueles gracejos:

- Vamos com isso, “Macaxeira!”.

Virava a carroça e concluída a tarefa, ocupava-me noutras: varrer o salão, ajudar os impressores, empurrar carrinhos com caixas, transmitir recados… Fazia de tudo. Entretanto, inteligente, aspirava ser alguém. A própria dor alimenta os sonhos. Quanto tempo nessa rotina medíocre?

Em casa, minha mãe se compadecia de ver-me chegar calado, exausto do trabalho.

- Meu filho, procure ser gente. Você não tem as noites livres? Então, estude, faça um curso, se profissionalize.

Entendendo-a, fitava-a, sensibilizado.

Meu pai – introvertido, preso ao seu mundo íntimo – não ligava à família.

- O seu pai vive mais para si. Pouco se importa com a família.

Depois, suspirando baixinho, concluía:

- Como me enganei com esse homem… Ah, se eu adivinhasse!

O pai terminando a refeição erguia-se e, encarando-me:

- O rapazinho aí é acomodado, nunca passará de um operário.

Mamãe olhava-o, numa recriminação. Apressado, deixando a salinha, ele ganhava a rua, onde à esquina, aguardaria o ônibus que o transportaria ao trabalho, na cidade. Era mecânico de carros.

Com a marmita em um saco plástico, despedia-me de mamãe:

- Até mais tarde, mamãe.

- Até, filho. Vai com Deus!

Depois, comecei a estudar. E, um dia, o encarregado da seção, me falou:

- Você está estudando, sabe fazer anotações, e vou pedir aos “homens” para que seja o meu auxiliar.

Perplexo, contido à perplexidade, mal lhe pude agradecer:

- Obrigado, seu Melo.

- De nada, meu rapaz. Volte pra o serviço.

Ligeiro retornei ao pé da impressora, na confecção das caixas que desciam na esteira.

Ao saber da promoção, mamãe sorriu feliz:

- Graças a Deus! Filho se dedique à nova função, porque ali mesmo, na fábrica, você tem chances de crescer.

Numa manhã, fui chamado ao departamento de pessoal:

- José, você ficará no lugar do seu chefe, que foi dispensado da firma.

Agradecido, sorri. E, refletindo, devagar retornei à seção. Nova promoção: encarregado de turma. Sim, com sacrifícios, aos poucos, me elevava na companhia, na vida. Contudo, sabia “haver muito chão à frente”. Mas, outra vez sorri vitorioso.

Com o decorrer dos anos fui mudando de setor para setor, na ordem hierárquica de empresa.

Então, em meio à reunião com a diretoria, um dos acionistas fitando-me, anunciou, sorrindo:

- José, de hoje em diante, você é o novo diretor de produção. Você é merecedor. Parabéns!

A mão bem cuidada em minha direção. Apertei-a, com força.

Mamãe então estava velha, magra, sombra do que fora. Papai também se achava deformado pelo tempo: magro, a cabeça branca, o rosto mais comprido, o nariz crescido, a boca num traço fino, com os lábios. Os olhos fitando-me, na admiração silenciosa.

Agora, solteiro não pretendo casar-me, ou me prender a alguém, que, como é natural, me dará filhos e com esses, surgirão os problemas. Não, egoisticamente, pretendo manter-me sozinho. Senhor dos meus atos. E, com tantas mulheres soltas, na facilidade que o mundo atual nos oferece… Encontro-me por experiência, prático, realista.

A dor nos educa, faz-nos ver a verdadeira face da vida.

- É isso aí, seu José.

Gracejo, no recente hábito de falar sozinho. Fechando a porta, adentro no galpão com máquinas e operários em suas diversas funções. Quanta vez passei por aqui, na ida e vinda dos expedientes?

- Bom dia, seu José.

- Bom dia, Joel. Tudo certinho?

O homem sorri grato à atenção do superior.

-Tudo certo, seu José.

Cruzo o salão barulhento. Adiante desse ambiente, encontra-se a montanha formada por bagaço de cana. Quanta carroça despejei em montanhas idênticas? Sim, em cada recanto desta fábrica, há pedaços meus. Minha vida se formou aqui.

Um dos encarregados se aproxima. Paro, esperando-o.

Ele avizinhando-se:

- Bom dia, seu José.

- Bom dia, Tião.

Prático, ele vai direto ao assunto:

- A turma da noite anda pedindo aumento.

Reflito. Ele espera. Respondo:

- Vá “empurrando com a barriga” esse problema, que eu falarei com a diretoria, para ver o que se pode fazer. Até, Tião.

- Até, seu José. Obrigado!

Adianto-me. As mudanças da vida: a gente se inicia, luta, cresce, e vence…

- Parece que quando se vem ao mundo, já se vem com tudo traçado.

Dizia mamãe e, como sempre, papai retrucava:

- Então, Deus é padrasto: enquanto para uns tudo; para outros, nada!

Mamãe calava, evitando, como em vezes anteriores, a discussão.

Meus velhos: doentes, à espera do adeus final.

Adentro no carro e, desejando apenas limitar-me ao presente, dirijo em sentido da praia de Boa Viagem, onde a morena Cileide aguarda-me.

- Cileide…

Novamente falo baixinho, no hábito de dar voz ao que penso. O carro distancia-se nas horas avançadas. Sim, “ralei” muito e, agora, mereço viver. Viver, pois, o amanhã é incerto.

Ligo o som e, ouvindo a música antiga, romântica, sigo ao encontro da recente conquista.

Assim funciona a vida: uma conquista após a outra.

- As conquistas.

Recife, 16/10/2004.

Lu Dias BH disse:
Paulo Valença, O escritor dos contos curtos.
Você é o escritor de seu tempo.

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O chamado da ausência – Paulo Valença

Por Paulo Valença, 9 de julho de 2010 18:25

O pai:

- Filho, vamos dar um “giro” por aí.

Segurava-lhe a mão e despedia-se da mulher:

- Vamos ver o mundo.

Cabisbaixa, costurando, sua mãe:

- Vão com Deus.

Ele saía com o pai baixo, entroncado, moreno, e na calçada, percebia a rua sem carros e com poucos transeuntes.

- Que dia bonito!

Exclamava o pai, com o rosto largo sorrindo, e ele sentia a mão de dedos curtos apertando-lhe a mão pequena, de menino.

O céu azul, com nuvem. O sol esquentando. A cantiga distante do carro-de-bois. Afastavam-se.

- Bom dia, Joaquim.

O pai parava. O conhecido avizinhava-se, querendo conversar:

- Como está às coisas, Joaquim?

O pai:

- Dá pra se passar… Como Deus quer.

O homem sorria e, percebendo-o:

- Seu filho tá crescido. É o mais velho?

- É sim. Mas, me conta as novidades.

Mantendo-se sorrindo, o conhecido:

-Nenhuma. Também essa cidade é muito parada! Mas, vou indo, que tenho de fazer umas compras no armarinho de seu Costa.

Apertavam-se as mãos e seguiam em direções opostas.

Retirando a carteira de cigarros do bolso da camisa, o pai acendia um cigarro. Fumando, aligeirava-se.

- Vamos, filho.

Ele apressava-se, para acompanhar os passos largos.

- Saber que tudo que vemos, um dia, estará diferente, como se não tivesse existido…

Escutava, sem entender as palavras do pai, que, passando a mão pesada sobre sua cabeça, prosseguia falando:

- Você ainda é pequeno pra me entender. Um dia, entenderá.

Então, desviava o assunto:

- Vamos olhar o açude Velho?

Agora quem sorria era ele. O açude Velho, com o sangradouro, a água caindo no poço da “Negra”, embaixo. Os nadadores afoitos, mergulhando, em prova de coragem. As mulheres batendo roupas nas pedras à margem. A estrada larga ao lado, subindo, perdendo-se ente as cercas de avelós. O umbuzeiro adiante. Também ás margens do açude, outros banhistas, e pescadores com os anzóis. O canto ritmado, tristonho, da rolinha “caldo-de-feijão”. Sim, ele sorria, pois, gostava de ficar admirando o açude com o que o circulava.

- Vamos, pai.

Adentravam à esquerda, na rua estreita e, mais uma vez a mão segurou a sua. Quente. Protetora.

- Acho que, com essa seca se pronunciando, o movimento no açude deve ter caído muito.

Contudo, ele queria estar lá, presenciando o que gostava o que, no futuro, converter-se-ia em boa recordação. Cruzavam a praça deserta, mal cuidada, e com um jumento comendo o capim ressequido.

- O prefeito deveria cuidar melhor dessa praça. Quando querem se eleger, tudo promete. Depois…

Na calçada oposta, Lurdinha movia-se no gingar gracioso de mulher bonita.

- Bicha boa danada!

Exclamara o pai e, virando o rosto, sorrindo para ele:

- Um dia, filho, você também falará assim.

Lurdinha entrando no mercado de seu Ivaldo desapareceu. Eles passaram. Com discrição, o pai com os olhos procurava a morena entre os fregueses do estabelecimento.

- Tantos anos decorridos…

Ouvindo-o, a mulher foge a atenção da novela e virando-se:

- Falou Gustavo?

Erguendo-se do sofá, ele é lacônico:

- Nada não.

Ela retorna a atenção às cenas repetidas de outras estórias. Como se assistir ao que se viu? Ah quisera ser medíocre! Retira-se da sala.

Sair. Fugir do ambiente que o sufoca. Fugir de tudo: novela, a esposa disforme com a obesidade. Os filhos ausentes, vivendo o egoísmo da indiferença. À noite sem variação. O mundo repetindo-se… Até quando assim? Contudo, pior encontra-se o pai. Magro, sem se alimentar, doente. Muito doente. E dolorosamente lúcido:

- Estou muito doente. Não chego ao fim do ano.

Então, sua mãe prendendo o choro, de voz trêmula, busca lhe inspirar otimismo:

- Nada, Joaquim. Você está melhorando.

O pai aí sem a fitar e aos filhos em torno do leito:

- Só eu sei o que sinto.

Os olhares se cruzam. Comunicam-se. A mãe, de mão enrugada, com anéis, alisa a outra mão curta, amarelada, de dedos grossos e, na solidariedade do companheirismo de anos, mais uma vez mente:

- Isso é uma fase, Joaquim. Tenha fé em Deus, que é pai e não padrasto.

Depois, ele e os irmãos devagar abandonam o quarto e, sentada próxima à cama, a mãe com a mão pequena continua afagando a mão enferma.

No corredor, o irmão muito sério, fitando-o:

- Nosso pai está nos últimos dias…

- Sim, está.

Lacônico, como sempre, então responde:

- Assim é a realidade de todos nós.

A mulher percebe-o retornar com a roupa trocada:

- Vai visitar o seu Joaquim?

Ele em silêncio cruza a sala, abre a porta, encosta-a por fora e desaparece dos olhos inquiridores.

- Será que Gustavo tem outra mulher?

Na televisão o casal se beija com exagero. Nervosa, ela busca melhor posição no sofá. Se Gustavo tiver… Ah, eu vou descobrir!

No automóvel, ele reflete. A nossa vida de repente se altera: para melhor ou pior… Como imaginar que, na velhice, o pai se encontraria canceroso, acabando-se aos poucos, numa cama? O pai que costumava dizer: “Para o câncer, não tem cura”.

O carro ganha a avenida de pouco movimento devido às horas avançadas da noite. Tudo isso é cruel.

- Bastante doloroso.

Repete, em voz baixinha. Para onde ir? Mas, com o velho se finando… Como se divertir, fugir à realidade? Então decide, e dirige o veículo em sentido ao bairro no qual o pai mora. Sim, deve se manter fiel à dor sofrida pelo ancião. Deve-lhe, como filho, essa solidariedade.

A mão de dedos grossos. A segurança que estes lhe davam. A voz grossa: “Vamos dar um giro, filho?”. Depois eles caminhando na rua quieta, de só ainda morno. As cenas da cidadezinha… Com a mão nervosa retira o lenço do bolso e, passa-o nos olhos e faces, que queimam. Acelera ao encontro da ausência que se pronuncia da perda querida.

O automóvel veloz dispara.

Recife, 02 / 10 / 2002.

Lu Dias BH disse:

Paulo Valença O escritor dos contos curtos.

Você é o escritor de seu tempo.

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Quando morrem as ilusões – Paulo Valença

Por Paulo Valença, 6 de julho de 2010 18:02

1

- Até amanhã, D. Ana.

A mulher “madura” na cadeira de balanço se volta e sorrindo, responde:

- Até amanhã, Maria.

A empregada afasta-se devagar, em direção a porta ao lado, a qual a cruzando, desce os degraus no oitão.

D. Ana reflete. Uma criatura já “madura”, gorda, precisando trabalhar como doméstica, enquanto ela, a patroa, fica aqui nessa varanda, cadenciando-se, com a atenção nos prédios defrontes ou à avenida lá embaixo, com os veículos cruzando-a… O mundo é mesmo desigual. Mas em tudo, há essa desigualdade, que, aliás, faz com que tudo ande, na rotina da sucessão… E lembra-se do pai, também numa cadeira, falando, no passado:

- Já pensou filha, se tudo fosse igual? O mundo pararia. Tem de existir as desigualdades, que causam o inconformismo, a luta para a pessoa se erguer, na tentativa de crescer, se equiparar aos que têm as coisas.

Silenciava. E logo, finalizava:

- É Deus sabe o que faz: a gente é que não se conforma com nada, o que, também é bom, pois os acomodados não crescem. Anulam-se.

Sorri ante a recordação do pai, com suas opiniões inteligentes de homem vivido, “calejado” pela existência. E tudo passou…

O portão é aberto e a figura de Maria transpondo-o, se perde de seus olhos com o portão novamente fechando-se. Até quando essa criatura continuará servindo-a? Um dia, como tudo na vida, Maria não mais lhe servirá e…

- Tolice se desejar ver o futuro. Como se isso nos fosse possível.

A noite cai e os edifícios têm as varandas iluminadas por luzes fluorescentes. Na avenida, os veículos também acendem os faróis. Buzinas pedem impacientes que o tráfego se descongestione, entretanto, a hora é do “pico”, quando há o retorno aos lares dos que trabalham e que são muitos! A brisa noturna acaricia o rosto da mulher que a recebendo, fecha os olhos, repousando. Ah, se pudesse ficar assim apenas consigo, ao carinho da brisa, não pensasse tanto, se limitasse apenas a viver, encarar o presente!

Sempre fora pensativa e com a idade, então se tornou mais. Cadencia-se. A essa hora onde está o marido, o José? Ultimamente ele tem chegado tarde, com a desculpa de que a indústria o prende em seus problemas. Mas, ela o conhece bem, ele está mentindo: José sempre foi “mulherengo”, entretanto, com a idade era para ele baixar o “fogo”, se conformar, aceitar a velhice que chega impiedosa, mas, também necessária.

- Um dia José se convencerá disso. O tempo tudo resolve.

Descerra os olhos e novamente estende a atenção as construções altas, imponentes, modernas. Quantas mulheres, à sua semelhança, estão agora esperando o esposo chegar do emprego, da indústria, do escritório?

- É isso aí, D. Ana.

Sorri, zombando-se e espera, enquanto a carícia do vento noturno lhe agasalha, na solidariedade de sempre, de todas as noites.

2

Dirigindo, o homem magro, “coroa”, vai pensativo. A mocinha no quarto faz “coisas” demais…

- Uma tremenda piranha!

Mas, não é de mulher assim que ele gosta? Então, por que reclamar, censurá-la? Afinal, hoje em dia o sexo é praticado sem limite e, quando se está num quarto de motel… Sim, os preconceitos não existem. E o casal apenas quer “curtir” nas mais diversas posições desejadas, essa é que é a realidade. O resto…

- Que se dane a falsa hipocrisia dos puritanos!

É um homem vivido, moderno, prático e assim o que lhe interessa é o que pretende, realiza. A gente chega ao ponto de ficar apenas consigo, no egoísmo natural de não se ter mais ilusões. A velhice nos torna insensíveis, terrivelmente práticos, como uns robôs.

- Uns robôs!

Repete-se. A Ana deve estar ali na varanda, esperando-o, como todas as noites. Por que Ana continua a mesma? Por que, com a idade, não se modificou, permanecendo a mesma de sempre?

O tráfego, devido à hora, descongestionado, facilita-o avançar o carro possante, brindado contra assaltos, na avenida larga. Corre, como se estivesse de chegar para aquietar o espírito da mulher que o aguarda.

Se tivessem tido filhos, Ana seria outra? Provavelmente. Mas, os filhos não vieram e estão cada vez mais entregues aos próprios mundos, ante a velhice que os domina. E ele, Dr. José, não aceitando essa realidade, busca nos “programas” com as jovens a fuga dessa inevitável, cruel, realidade?

- Quero é “curtir!”.

Sorri, enganando-se, fugindo à verdade, e avança com a noite egoisticamente no seu papel de tudo agasalhar.

3

Na cadeira, a mulher cochila. O carro se aproxima do edifício.

Reconhecendo-o, o vigilante na guarita, abre o portão e o veículo desce a rampa, em direção da garagem, no subsolo.

Consultando o relógio no pulso, o guarda vê os ponteiros marcar onze horas.

- O doutor hoje chegou mais cedo.

Então o colega ao lado:

- Cuide do “serviço”, cara. Deixa a vida desses ricaços. Fica na “tua!”.

Sorrindo, o vigilante outra vez aciona o botão. O portão é aberto, e novo inquilino passa, vencendo a rampa.

Silenciosos tornam a observar a avenida de resumidos automóveis e apressados transeuntes nas calçadas estreitas.

Lu Dias BH disse:
Paulo Valença O escritor dos contos curtos.
Você é o escritor de seu tempo.

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Convite ao pecado – Paulo Valença

Por Paulo Valença, 4 de julho de 2010 17:25

1

O mar próximo, com as ondas que chegam à praia para morrerem ao se dissolverem na areia escurecida pela pouca iluminação dos postes aqui e ali. Os coqueiros que agitam as folhas longas a brisa da noite que avança ao encontro da madrugada. Automóveis que aos poucos se resumem. Uma ou outra moto passando. Transeuntes em número reduzido apressados no receio de um repentino assalto… A figura da mulher esguia, nova, de calças compridas azuis, blusa amarela, bolsa presa ao ombro esquerdo, os cabelos negros, longos, estirados. O braço que se ergue e com a mão nervosa penteia os cabelos para traz, num gesto gracioso, feminino.

Parada ela espera o próximo “convite” de um desses motoristas de carros, para o “programa” amoroso. Busca então o cigarro na bolsa. Acende-o e traga, devagarzinho, curtindo-o.

Os edifícios altos, de varandas desertas, imponentes, modernos, bonitos estão do outro lado da pista que a separa deles. E os percebe oscilando de um para o outro lado, num jogo engraçada… Entende: é o efeito do cigarro forte que começa a dominá-la. Sim, por minutos a dominará, mas, logo retornará ao natural, então se sentirá leve, em paz com o mundo em volta.

- Em paz…

Diz baixinho, sorrindo, subjugada ao poder da droga. Traga outra vez. Aguarda. Tem de chegar a casa com a “grana”. O filho pequeno adoentado…

O automóvel cinza, possante, macio se avizinha. Será que?…

Indaga-se. Então o carro estaciona. O vidro fumê desce e a voz do rapaz a direção:

- Vamos dar um “giro” morena bonita?

Ela sorri, aquiescendo, e se encaminha à porta que aberta, aguarda-a. Adentra. Fecha a porta e o carro parte.

- Você sempre fica por aqui?

- Não, somente hoje é que vim.

- Entendo, morena bonita.

O automóvel avança, ganhando a avenida praticamente sem outros veículos e pedestres nas calçadas.

2

Dr. Oscar está no terraço e olhando para baixo, no oitão, e vendo o carro cinza do filho:

- O Júnior já chegou, o carro dele está ali.

Volta-se e fitando a esposa à frente, sentada na outra cadeira de balanço, inquire:

- Marluce que horas ele chegou?

Ela fugindo o rosto de lado, evitando-lhe o olhar crítico, que lhe denuncia a contrariedade:

- Chegou hoje de manhazinha. Não sei como você, Oscar, não ouviu a zoada do portão se abrindo e o carro parando.

Ele volta à atenção ao veículo:

- Ouvi não.

Suspira e torna a falar:

- Sei não… O Júnior não quer ter responsabilidade com nada. Não trabalha. Não tem gosto pelo estudo. Agora mesmo está sem freqüentar o colégio. O que será dele no futuro? Enquanto eu estiver vivo, que puder ampará-lo…

Silencia de repente, sentindo-se cansado. Fecha os olhos, repousa a cabeça no encosta da cadeira e balança-se devagarzinho, como se evitando ver o carro, não se lembrasse do filho e da contrariedade que esse lhe dá.

Marluce entende-o e calada, também se cadencia. Os filhos nos dar alegrias e preocupações. O Júnior criado com tudo que desejava (talvez esse tenha sido o erro maior da criação que teve) enxerga a vida de um ângulo diferente, onde tudo lhe é permitido, onde a luta pela subsistência não existe e só o seu egoísmo prevalece sobre tudo.

- Sobre tudo…

Repete, dando voz à conclusão angustiante e, nervosa, fita o marido, que agora está com a cabeça arreada sobre o tronco magro. Cochilando? Vendo-o assim abatido, o rosto castigado pela idade precoce, a cabeça grisalha, a respiração alta… Sensibiliza-se e com a vista embaçada ausenta-se da varanda, fugindo novamente dos olhos que exprimem a dor pela incerteza do futuro do filho, enquanto o sol indiscreto da manhã entrando na varanda chega às pernas do homem, que o recebe com indiferença.

3

O mar hoje à noite está nervoso e as ondas vêm morrer bem agitadas sobre a areia da praia deserta, mal iluminada por os postes aqui e ali. Os coqueiros recebendo a brisa do vento frio agitam as folhas numa cadência alta, de gemidos.

A mulher nova, esguia, à esquina do prédio fechado, espera. As calças azuis, a blusa amarela, a bolsa de correia presa ao ombro. E a mão que a abrindo, retira o cigarro… Os gestos e a cena repetida.

O automóvel preto se avizinha. Estaciona. A porta se abre e a indagação do seu condutor:

- Quer dá uma voltinha, beleza?

O sorriso. A aquiescência. A porta aberta. Ela entra. E o carro afasta-se ao encontro do pecado que os aguarda no motel circunvizinho.

O Gabrielsinho está tossindo muito, com febre, tem de levá-lo ao posto. A despesa com os remédios…

- Pensando na vida?

A voz grossa a desperta das reflexões.

- É, estava. Mas… Desculpe-me a pergunta: O senhor é casado, tem filhos?

A risada. E a resposta:

- Sou não, minha linda. E eu sou besta para assumir problemas?

- É, o senhor tem razão.

Silenciam. Ainda sorrindo, o homem “coroa” conduz o carro pela avenida agora deserta de outros veículos e sem nenhum pedestre caminhando apressado nas calçadas laterais. O que esse cara lhe pedirá no leito? O coração bate, aflito. E ela sente a mão pesada, grande, alisando-lhe a coxa.

Passiva, serva à profissão, não reage, enquanto a mão avança. Atrevida. Pecadora.

Lu Dias BH disse:
Paulo Valença O escritor dos contos curtos.
Você é o escritor de seu tempo.

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Tempo de menino – Paulo Valença

Por Paulo Valença, 3 de julho de 2010 16:41

Na quietude da rua, quando o pai despontava na esquina, devido às pisadas fortes, eles escutavam-no.

Então, ele, Sílvio dizia:

- Papai vem ali.

Ele e os irmãos paravam de brincar, um correndo atrás do outro e, entrando em casa, encaminhavam-se ao quarto, onde, vestindo os pijamas, se deitavam.

Ouviam quando o pai chegava:

- Os meninos já chegaram?

- Já estão deitados.

Fechando a janela e a porta, o pai cruzava o corredor, a sala seguinte, e na cozinha, mais uma vez trancava a porta. Depois, entrava no quarto conjugado ao dos filhos.

Antes de o sono os vencer, ouviam a conversa entre o pai e a mãe. Mas, com a parede limitando os dois ambientes, não conseguiam entender o que diziam.

O frio era grande, agasalhavam-se e adormeciam. Ao despertarem no dia seguinte, novamente escutavam os fortes passos no corredor, na sala de refeições, e na outra que dava para a rua.

Deixando o quarto, viam à cabeceira da mesa, o pai se alimentando. Na outra extremidade, a mãe também tomava o café e, percebendo-os:

- Lavem o rosto, escovem os dentes e venham para a mesa.

Obedeciam.

O galo cantava no quintal. Um cão ladrava distante, ou um carro de bois gemia com o peso da carga. E ainda tímido, o sol banhando a área ao lado da cozinha, adentrava na sala.

- Terminei. Vou para a fábrica.

- Que Deus lhe acompanhe, Otávio.

Calmo, o pai erguia-se e, logo abrindo a porta da frente, ganhava a rua. Já em pé, a mãe os servia:

- Quer leite, João?

- Quero.

- E vocês dois?

- Eu também quero mamãe.

Dizia Adalto, e ele, Sílvio:

- Quero não, mamãe.

- Sirvam-se do inhame, que eu vou buscar a carne.

Agora, o desabafo presente:

- Tanto tempo, disso!

- Falou Sílvio?

Fita a mulher. O rosto moreno meio-pálido. As rugas na testa, nos recantos dos olhos. Os vincos ao lado dos lábios finos. Os olhos com um brilho estranho. Os cabelos pintados. Os braços de carnes flácidas. Os seios grandes. As pernas muito grossas. O corpo volumoso… Impiedoso, o tempo a maltratou.

- Estava me lembrando do tempo de menino.

Ela sorrindo:

- Está ficando saudosista?

Sílvio sorri, sem lhe responder.

Então, analisa-se. Aos 43 anos ainda tem o corpo sem “barriga”, musculoso, o rosto de pele estirada, os cabelos negros. Em forma. Outro sorriso, em agradecimento ao tempo que o conserva. E, erguendo-se do sofá:

- Os meninos?

- O Sérgio foi para o curso de inglês, e a Cris está na academia.

-Tudo bem.

Ah, sua família não lhe causa problemas: pode se julgar um sujeito feliz.

A voz de Suely chama-o ao presente:

- Sílvio, você tem tido notícias do seu irmão, o João?

Impaciente, ele responde:

- Naquilo mesmo. Também o João não reage, fica esperando, acomoda-se!

- Mas, o que ele pode fazer? Está precocemente velho…

- Que nada! Não existe idade para se ser homem.

Nervoso, ausenta-se da sala confortável. Com os olhos, a mulher fica seguindo-o cruzar a varanda, descer a escada em caracol, que se comunica com o restante do apartamento.

Reflete. É tão cômodo censurar os caídos, quando se está de cima. Sílvio tem o defeito de ser egoísta, sentir-se vencedor, radical.

É doloroso para alguém como o João, se tornar “dependente”… Se João fosse um homem malandro, mas, sempre o conheceu como um trabalhador.

- Vou sair Suely.

Diz o marido, na sala embaixo.

- Está bem, Sílvio.

O sol toma a varanda. E para evitar-lhe a entrada na sala, Suely levantando-se, corre a porta envidraçada.

- Bom, deixe-me ir saber como anda a cozinha.

Pesadona reabre a porta, e ruma à cozinha. Ultimamente, Sílvio tem saído muito. Está com nova amante? Ah envelhece e não se conforma com essas traições. Se não fossem os filhos…

Adentrando nervosa na cozinha, grita chamando:

- Maria? Onde está você? Responde criatura!

Lu Dias BH disse:
Paulo Valença O escritor dos contos curtos.
Você é o escritor de seu tempo.

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Procissão dos aflitos – Paulo Valença

Por Paulo Valença, 1 de julho de 2010 12:10

1

- Até à noite Dalva.

- Até, Zezinho. Se cuide!

Ele sorri e, sem se voltar:

- É o que mais faço…

A mulher no portãozinho da casinha fica seguindo-o com os olhos sensibilizados. O pobre do marido. Trabalhador, responsável e envelhece como operador de máquina, na fábrica de papel nas proximidades. Quanta vez já tentou fazê-lo despertar a realidade, mudar de emprego e, consequentemente, de vida? Zezinho é acomodado e… Com a idade “madura”, lhe parece, mais se entrega ao comodismo, numa resignação sem tamanho!

- Zezinho, homem de Deus, tenta outro emprego. Ali, você vai morrer como impressor ganhando pouco!

O marido sorri, como sempre, disfarçando-se, fugindo ao conselho:

- O problema Dalva é a idade: estou com 42 anos e nessa idade, para conseguir outra “colocação” não é fácil.

Aí ela discorda:

- Você se acomodou Zezinho. Os outros trabalhadores não conseguem outro emprego? Por que só você não vai conseguir? Lembre-se de que está ficando velho… A gente não sai dessa maldita pobreza.

Sem mais nada dizer, ele prefere o conveniente silêncio. Evita a discussão:

- Bom… Vou à luta. Até de noite.

- Vai com Deus.

A figura alta, magra, meio encurvada dobra a esquina no final da rua, desaparece de sua vista. O sol esquenta na manhãzinha. Fecha o portãozinho e encaminha-se ao terraço. Cuidar dos afazeres domésticos. Afinal, a vida continua. Nada pára, seguindo a determinação de uma grande Força.

Cruza o terraço, as duas salas conjugadas e, na cozinha à esquerda, acende o fogão. Hoje, irá fazer uma “arrumação” de feijoada… Sorri, antevendo a satisfação no rosto do Zezinho ao chegar à noite do trabalho e souber dessa Novidade.

Abe o refrigerador e retira o charque, o pé-de-porco, a lingüiça, o toucinho-fumê e, cantarolando (recurso usado para se desviar de quando contrariada) põe os ingredientes no caldeirão com água e pondo-o no fogão acende-o.

Ainda bem que não têm filhos: com a inflação crescendo… Sim, deve erguer as mãos ao céu e agradecer a Deus por ser somente ela e o marido…

De uma residência circunvizinha, a mãe grita, chamando a filha:

- Vivi venha pra casa, menina levada!

Pedestres passam na rua, conversando:

- Cara isso aqui já foi calmo. Agora faz até medo de se sair de casa.

- Isso é uma verdade.

As vozes distanciam-se à proporção que os passos levam os homens rua abaixo.

Dalva retorna a pensar no esposo. Tão legal se ele tivesse um emprego que lhe pagasse melhor! Como suas vidas seriam outras…

- Mas, vamos esperar. Nada como um dia atrás do outro e uma noite no meio.

Desliga o fogão e retira o caldeirão, pondo-o na mesa vizinha. Com um garfo, revira o seu conteúdo. Conferindo. Será que se esqueceu da costelinha – de – porco?

- Essa minha cabeça!

2

Bate o cartão e pondo-o no quadro ao lado de relógio – de – ponto, deixa a seção em passos rápidos. O sol está mais quente. A manhã se adianta. À frente homens e mulheres se movem em direção das respectivas seções. Há quanto tempo conhece essa procissão dos aflitos? Anos. Até quando a presenciará?

- Só Deus sabe.

Desabafa-se baixinho, para perplexidade da mocinha ao lado, que o encara sorrindo:

- Conheci um sujeito que começou assim e hoje tá na Tamarineira…

Zezinho sorri e se apressa, deixando-a para trás. Adentra na seção ao lado direito, com as máquinas funcionando e trabalhadores presos as suas funções. Mais um dia de trabalho…

- Seu Zezinho.

- Diga Oscar.

- O Dr. Da produção avisou que quando o senhor “largar”, vá falar com ele.

- Tudo bem.

Que desejará o diretor consigo? Quando o homem manda chamar um dos funcionários… Será? Não, não quer pensar nisso: ficar desempregado assim de repente… Mas, o sensato é esperar para saber o porquê dessa convocação. Então vestindo o macacão do trabalho, se reentrega ao comando da impressora.

No lado oposto da máquina, o ajudante fita-o, sentindo o coração apertar, prevendo o que sucederá ao chefe.

A máquina funciona, na cadência ritmada, repetitiva: plac, plac, plac.

Zezinho se sentando no banco prende a atenção ao mostrador luminoso, seguindo-lhe o apagar e acender das luzinhas. Zeloso do seu desempenho de operador profissional.

3

Chega a casa. Cruza o terraço, adentra na sala.

No sofá Dalva fita-o e vendo-lhe a fisionomia abatida, transfigurada… Entende. E aguarda pela voz que lhe comunique a triste notícia do desemprego. Então, o marido:

- Notícia ruim Dalva: saí no “corte” dessa semana.

Sem palavras a mulher continua encarando-o. E as lágrimas descem-lhe nas faces subitamente frias.

Sentando-se no sofá à frente, ele prossegue falando:

- Mas é assim mesmo a vida do trabalhador: quando menos se espera, vem a “rebordosa”!

Silencia. Contudo, retorna a falar, com a voz baixinha, magoada:

- “Deus proverá”.

“Deus proverá”, repete Dalva e, com as costas da mão enxuga as faces.

Em seu eterno egoísmo, a noite prossegue lá fora, enquanto o casal prende-se às próprias reflexões. Torturantes reflexões.

(*) Lu Dias BH disse:
Paulo Valença O escritor dos contos curtos.
Você é o escritor de seu tempo.

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