Filhos noturnos – Paulo Valença
1
O Seu Toinho da barraca tudo sabe do que ocorre aqui no morro “Planeta dos macacos”. Conhece todos os moradores, inclusive, como cada um se conduz perante a própria vida.
Sorrindo, se “gaba” disso para o negro Josuel que debruçado no balcão baixo, de madeira, encardido pelo tempo, escuta-o.
-É isso aí cara. O que se passa por aqui, eu sei. Sou observador… O rapazinho daquela casa ali na esquina, o filho de D. Marietinha, a viúva, é “maconheiro”. Avisa à mãe de que vai pra a escola, mas vai é se drogar nas praças. A coitada de D. Marietinha: viúva, operária da fábrica de papel e com uma cruz dessas!
O outro nada responde. Escuta interessado e toma a bebida de um gole rápido.
O barraqueiro continua falando:
- A morena alta, magrinha, bonita, que mora aqui defronte, na casa azul é outra que tá dando preocupação aos pais, Seu Clóvis e D. Maria, sai com o namorado, o cara do carro cinza, importado, um ricaço e volta de madrugada… Nesses dias aparece de “barriga” ou o namorado não vem mais buscar ela.
Faz uma pausa e, comercial:
- Vai outra dose, Josuel?
Sem mesmo esperar a resposta do freguês segura a garrafa e despeja o líquido no copo fino sobre o balcão.
Então a mão grande segura o copo e leva-o aos lábios grossos, arroxeados, bebendo a aguardente num só gole.
- Eita gota serena!
O barraqueiro solta a gargalhada:
- Essa é da boa, cara!
Exclama à reclamação do Josuel, que aos poucos vai se tornando assíduo freguês. E retorna a falar:
- O vigia Severino, que mora ali em cima, naquela casa branca e que cuida da Praça no Cordeiro, é outro malandro: finge que trabalha, mas na verdade, fica é de “olho” nas residências dos ricos para depois “passar o serviço” à turma do assalto. Tudo combinado…
Josuel aí sorri e quebra o mutismo, pois ao se embriagar, solta a língua, expondo-se:
- Seu Toinho o senhor é mesmo um “xereteiro” de marca, sabe da vida de todos os moradores daqui.
- Ora, esse menino, é a vida que ensina a gente a ficar assim. Vai outra?
- Possa botar. Bem reforçada.
A garrafa despeja o líquido branco, forte. A mão segura o copo. Os lábios recebem a bebida. E com a flanela, Seu Toinho esfrega o balcão.
- Conheço tudo por aqui. A canalha toda.
O automóvel cinza estaciona defronte à residência azul. E a mocinha apressada deixando o terraço entra nesse, que parte macio, para aonde?
- A putinha saiu com o namorado…
- Eita língua ferina da peste!
O barraqueiro sorri e volta a esfregar o balcão manchado pelo uso de anos.
Fora, a noite amadurece indiferente, superior a tudo.
2
As motos estacionam na praça.
- A casa é aquela, com o velhote no terraço.
Então o sujeito alto, magro se volta e encarando o outro negro, baixo, forte, ordena:
- Vamos agir, irmão.
Lado a lado encaminham-se ao portão largo ao centro do muro defronte à residência. E o negro pressiona a “cigarra”, chamando.
- Quem é?
Indaga a voz da senhora que acaba de adentrar na varanda, inocente da maldade humana.
- Que é, o que deseja?
Na cadeira, o rosto do enfermo se volta e, como se entendesse o perigo que os ameaça, tenta falar, contudo, não consegue e emite os sons roucos, incompreensíveis.
- Já tou indo.
Outra vez fala a voz inocente.
Os assaltantes aguardam já impacientes, enquanto afastado, sentado num dos bancos da praça, o vigilante segue a cena. E o adolescente chega para se drogar.
O portão é aberto.
3
Ele está ali, na varanda, na cadeira de balanço.
Magro, a cabeça branca, os braços compridos, as mãos secas, de unhas arroxeadas, a vista na praça defronte. Assemelha-se a imagem da angústia, de uma dor sem tamanho, pois não fala, apenas emite uns sons incompreensíveis, tudo em conseqüência de derrame recente. Em que pensará, assim sem se mover, dentro de uma tristeza que comove?
Na sala vizinha, a mulher idosa, sua esposa, analisa-o, pensativa. Quem lhe diria que numa hora futura, à tardinha, vertia o Dário desse jeito, um morto – vivo? Como a vida nos maltrata, como o futuro nos trai…
- Mamãe?
Ela se volta, despertando ao presente e, fitando a moça que se parece com o pai – o rosto comprido, os traços corretos, os cabelos lisos, os gestos nervosos de quando ele andava, movendo-se – inquire:
-Que é, filha?
A moça ocupa o sofá defronte e sorrindo, desejando mostrar naturalidade:
- A senhora aí quietinha, calada… Pensando no papai?
A mulher fugindo a atenção à varanda, ao marido que lhe parece, agora cochila, com o rosto caído sobre o peito batido pela magreza, então responde:
- Estava, Ivete. O coitado do seu pai: naquela cadeira, mal se mexendo, sem falar…
Os olhos de repente se nublam e chora baixinho, se libertando.
A filha entende-a e deixa-a chorar. Chorando, desabafa o que sente, liberta a voz do que a sufoca.
Calada, respeita o choro baixinho, do desabafo.
Na praça as luzes dos postes que a contorna, se acendem, no anúncio do nascimento de mais uma noite.
Então se erguendo a moça se avizinha à mãe e lhe afaga a cabeça alva, de cabelos finos, ondulados, num gesto de carinho. E quebra o mutismo:
- Mamãe a gente tem de se conformar. Deus saber o que faz…
A idosa nada responde e chora.
4
Na praça, o adolescente chega e senta-se no banco próximo ao balanço e, abrindo a bolsa presa ao ombro esquerdo pela correia, retira o cigarro comprido e fechando a bolsa, busca o isqueiro no bolso da calça e acende-o. Fuma. Tragando a erva forte.
Novo trago, que o faz sorrir, embalado na ilusão do bem-estar que se lhe apossa do corpo, vencendo-o.
Sozinho na praça se volta a si mesmo.
Na varanda, do primeiro andar, da residência defronte, o velho na cadeira de balanço, tudo segue?
- Que nada! O “coroa” é doente, tá “noutra!”.
Sorri ante o desabafo, que lhe justifica o que faz. Da avenida próxima, chegam os sons dos veículos cruzando-a, mas é como se tudo fosse num outro mundo, num outro mundo…
Novo sorriso. Outro trago. E o idoso deixa a cadeira. Devagarzinho, amparado no braço da mulher que se move com cautela, medindo os passos.
- O “coroa” saiu. Deve ir jantar.
O guarda estaciona a bicicleta e… Vem para cá? Ergue-se e em passos rápidos abandona a praça, temendo um provável aborrecimento.
O guarda com o olhar analítico acompanha a figura magra do adolescente movendo-se com rapidez. E reflete. O “viciado” estava ali, se “drogando”. Deve ter “queimado” a aula, para se entregar ao vício. Mas, cada um com a própria vida… E foge a atenção à varanda defronte, no primeiro andar da residência murada, de portão ao centro.
O doutor Dário deve estar jantando ou no quarto, o terraço está vazio… Um homem rico e de repente, com o derrame, se encontra sem falar! Mas… O casal jovem chega no automóvel cinza, que estaciona à esquerda, no meio-fio da praça.
- Os safadinhos…
Dentro do veículo o casal se entrega às carícias, protegido pelo vidro fumê, dos olhares indiscretos.
Como se nada percebesse, o vigilante se move, contornando a praça, no fingimento de que a protege, enquanto a noite amadurece na marcha de sempre.
Na varanda, a cadeira vazia se assemelha à tristeza de uma aflitiva interrogação.
Lu Dias BH disse:
Paulo Valença O escritor dos contos curtos
Você é o escritor de seu tempo.










