Sobre Paulo Afonso Teixeira

Fotógrafo e webdesigner

Tudo dentro da normalidade – João Ubaldo Ribeiro

O comecinho de tarde anunciava mais calor, no famoso boteco leblonino Tio Sam. Ainda mais agora que uma porta do meio, dessas corrediças de ferro, quebrou e resolveu ficar permanentemente fechada, bloqueando a ventilação. Segundo a opinião geral, a situação deverá perdurar mais alguns meses, enquanto Chico, o filosófico português da Beira Alta que é dono do estabelecimento, resolve se vai consertá-la. Chico pauta sua conduta pelo que chama de Filosofia da Normalidade, segundo a qual ele é normal e tudo o que é diferente dele não é normal. Ele não me falou, mas tenho certeza de que está ponderando sobre se é normal querer a reabertura da porta. Além disso, os calorentos contam com os ventiladores da casa, embora se avolumem as queixas de que a aragem deles esquenta o chope nos copos.

— São uns anormais — rebate Chico. — Onde já se viu vento esquentar alguma coisa? O normal é o vento esfriar. O senhor já viu alguém soprar na xícara para esquentar o café? Se fosse assim, eu comprava um fole e economizava gás de cozinha. Mas minha cozinha, infelizmente, é normal.

E dessa forma, porta do meio fechada e ventiladores em ação, se iniciou o que prometia ser uma tarde modorrenta e vagarosa, posta em marcha aos poucos por uma discussão sobre o verdadeiro início do ano. Chegou-se à conclusão de que é necessário rever a antiga ideia de que o ano brasileiro só começa depois do carnaval. A convicção mais moderna é a que situa esse começo pouco depois da Semana Santa. Tanto assim, arguiram os defensores desta tese, que nada de fato está acontecendo depois deste último carnaval, nem parece que vai acontecer. E a única atividade intensa e séria em que a nacionalidade se envolve é o planejamento do feriadão da Semana Santa e a redação de um e-mail padrão, deixando tudo para depois dele.

— Os senhores mesmos me dão razão — disse Chico. — É isso mesmo. Só mando consertar essa porta depois da Semana Santa. Eu não tinha atinado direito, mas é o normal.

O ambiente se ressentia claramente da ausência do comandante Borges, que a essa altura já teria feito alguma denúncia inflamada, mas se animou um pouco diante da lembrança do feriadão. Com essa história de lei seca, manda a prudência antecipar as dificuldades. Geralmente um rapaz afável e sorridente, Dick Primavera, assim alcunhado por capitanear uma empresa de ar-condicionado que garante clima ameno a seus fregueses, levantou a voz para exprimir vibrante indignação. Esses caras em Brasília, ou onde lá seja que eles se escondem, fazem as coisas e não imaginam as consequências, quem quiser que se vire, depois que eles aprontam as besteiras deles.

— Não estou querendo me referir nem ao vinho do padre nem ao do rabino — disse ele. — Já estou até esperando o porta-voz de uma agência do governo aí dizer que, nesse caso, eles que tomem suco de uva, que é a mesma coisa e tem a vantagem de não conter álcool.

Nada de padre ou rabino, que podem apelar para seus pistolões lá em cima, mas o cidadão comum, que muito mal conta com um santo assoberbado por trabalho até o pescoço, entre novenas, despachos e todo tipo de prece e promessa. Imagine-se o jovem ali mesmo do Leblon, que se engraçasse com uma moça de Niterói. Como é que ele iria de lá para cá, sem beber nem um chopinho no sábado à noite? Amor impossível, tragédia de cinema mesmo, porque o namoro não ia suportar uma convivência completamente abstêmia, nem o bolso do cara ia aguentar pagar uma corrida de táxi interurbana toda hora. Quer dizer, discriminação, segregacionismo.

Observou-se que já anunciaram que os futuros bafômetros detectarão o uso de maconha e de cocaína, sem dúvida um grande progresso. Mais adiante, a lei dará um passo à frente e fará detectar também o consumo de tabaco, a essa altura já proibido, a não ser dentro de câmaras individuais com filtros exaustores. Outras substâncias execráveis serão acrescentadas à lista e, finalmente, ninguém poderá tomar controladores do apetite, cheirar rapé, ingerir ansiolíticos, chupar bombons contendo aditivos ou corantes suspeitos, beber chás estimulantes ou calmantes e assim por diante. Claro que vai continuar a ser possível encher a cara, pegar o carro, matar quatro e aleijar onze, pagar fiança, responder em liberdade e ser condenado a seis anos em regime semiaberto, com soltura em dois anos, ou não ser nunca condenado a nada. E beber antes de atropelar é essencial, porque, se o atropelador estiver bêbedo, o homicídio é culposo, dá ainda menos dor de cabeça.

Daí a mais algum tempo, a tarde, já embalada, se completou. Apeando de sua bicicleta elétrica de última geração, o comandante Borges adentrou o recinto. Pena que não tivesse estado presente na hora, para dar sua contribuição ao debate sobre atropeladores, embora se saiba que provavelmente opinasse pela pena de morte para todos os implicados. O comandante tem ideias muito enfáticas e é a favor de tolerância zero para qualquer coisa.

— Vocês estão festejando? — disse ele, antes mesmo de sentar-se. — É o fim da miséria que vocês estão festejando? A miséria acabou! Vamos acrescentar um real à renda de todos os pobres e aí eles mudam de categoria estatística. Quer dizer, o sujeito continua passando fome e bebendo lama, lá no Nordeste, mas aí vai lá o funcionário e mostra a ele a estatística: “Olhe aqui, você não é mais miserável, deu no jornal.” Vocês sabem de que é que este país precisa? É de forca! Forca! Não é nem fuzilamento, é forca neles!

— Isso não é normal — disse Chico. — O normal é forca em nós. É melhor o senhor parar de dizer estas coisas, porque eles podem gostar da ideia.

Um dia na Ilha Grande, em Angra dos Reis

O nome já diz: Ilha Grande. Localizada no Estado do Rio de Janeiro, em Angra dos Reis, com 193 km², possui relevo acidentado e muito montanhoso. Na Ilha Grande encontramos o Pico da Pedra D’água, com 1031 metros de altitude e o Pico do Papagaio, com 982 metros.

Há muitas penínsulas e enseadas, tornando a ilha repleta de belíssimas praias, com águas esverdeadas e cristalinas. As praias voltadas para o oceano são mais agitadas, enquanto que as voltadas para a baía de Angra dos Reis, têm águas mais tranquilas.

A vegetação de Mata Atlântica é exuberante, além de haver muita vegetação de mangue e restinga.

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A Vila do Abraão, com 3000 habitantes, possui posto de saúde, escola primária, bombeiros, correios e polícia. É ligada com Angra dos Reis e Mangaratiba, no continente, por um serviço de barcas. Para quem quiser passar alguns dias na Ilha Grande, há grande oferta de pousadas, campings, bares, restaurantes e comércio para turistas.

Pesca e turismo são as principais atividades da ilha. O turista, em contato direto com a natureza, poderá fazer passeios de barco, banhar-se nas praias com águas calmas para mergulho em família ou, se preferir, frequentar praias destinadas à prática de esportes como o surfe. Há guias que acompanham o turista em trilhas ecológicas pela Mata Atlântica, além de algumas pontos com atrações históricas.

Dois parques dividem a Ilha Grande: Parque Estadual da Ilha Grande e Parque Marinho do Aventureiro. Há, também a Reserva Biológica das Praias do Sul, cujo acesso somente é permitido a pesquisadores e pessoas autorizadas pelo IBAMA. As áreas de proteção ambiental garantem a proteção da grande reserva de mata atlântica ainda existente lá e da vida marinha existente no entorno da ilha.

Um pedaço do paraíso

Manoel Rodrigues

É, sem dúvida, um programa não-atrativo para quem não gosta de paz, contato com a natureza, caminhada por areias e por trilhas, e mergulhos no mar ora verde, ora azul das praias que se sucedem. No entanto, para quem aprecia tudo isso, é uma experiência imperdível.

Pois não é que quatro felizardos (ou loucos) resolveram percorrer toda a extensão da Ilha Grande, na parte voltada para o continente, caminhando quase sessenta quilômetros em pouco mais de três dias, partindo da espetacular Gruta do Acaiá até ao Farol dos Castelhanos?

Maravilha mesmo. Bem, nem tudo são flores. Não dá pra ignorar que, nesse trajeto, há várias pequenas subidas para subir e várias pequenas descidas para descer; nada assustador, porém. É verdade, ainda, que nas muitas praias do caminho, as pessoas podem se defrontar, como nós, com diversos pinguins mortos, sendo devorados por urubus famintos. Mas, com certeza, essa mortandade por nós percebida não foi causada pelas águas ou ares da ilha; deve ter sido motivada pelas mudanças climáticas da Terra, ou por causa da poluição, ou por escassez das suas alimentações essenciais, ou pode ter acontecido sem razão específica, simplesmente os ciclos de vida desses animais extinguiram-se, e eles preferiram morrer na ilha para encurtar o tempo de viagem para o paraíso.

Imprevistos podem acontecer, como, por exemplo, ocorreu conosco, os quatro loucos acima mencionados. Por um desencontro de comunicação, a única pousada programada e o jantar encomendado não estavam disponíveis em nossa chegada, ao anoitecer, na Praia de Matariz. Contudo, foi inesquecível ver esse acontecimento aparentemente dramático ter se transformado numa ocorrência insólita: o dono do bar, no qual depois jantaríamos, buscou o responsável pela pousada, e essa pessoa trouxe-nos as chaves de dois quartos, indo depois embora, deixando-nos como únicos hóspedes e, ao mesmo tempo, como guardiões do local, até a manhã do dia seguinte!

Além disso, devido ao excesso de vontade, pequenas loucuras podem ser cometidas, como termos caminhado quatro horas sob chuva, no trajeto Praia de Abraão/Farol dos Castelhanos, metade desse tempo debaixo de um temporal, com chuvas e trovoadas. E, lá chegando, termos invadido o espaço militar, de entrada proibida para estranhos, somente para olhar de perto o bonito farol construído no ano de 1900 e, depois, sermos surpreendidos pelo guarda de plantão, o qual só não nos deu voz de prisão por ter ficado condoído de nosso estado: cansados, encharcados e enlameados. Boníssimo soldado, aliás! Além de não nos prender, ainda ofereceu água para bebermos e liberou-nos em seguida; é verdade que sob o seguinte comentário, murmurado entre os dentes:

- Eu, hein, que sujeitos estranhos! Caminhar várias horas sob um aguaceiro desses, com tantas mulheres boas no pedaço!

Como um dos quatro felizardos, guardei na memória alguns locais visitados e momentos especiais vividos. Permanecem nela a Gruta do Acaiá já citada, com sua fenda de águas luminosas, a Praia de Ubatubinha, que deveria ter seu nome mudado para Praia Bela, a Freguesia de Santana, com uma igreja singela bem antiga e palmeiras imponentes, a Lagoa Verde, com águas dessa cor e transparentes, nas quais peixes rodeiam as pessoas em busca de alimentos gratuitos, mal acostumados por turistas inconsequentes… E, sobretudo, não me esqueço da Praia do Funil.

A Praia do Funil não é linda e é bem pequena, a menor da ilha, com dez metros de comprimento, outros tantos de largura, de margem a margem; nenhum morador vive em seu entorno. Estranhamente, no entanto, adentrando em terra, lá se vê um campo de futebol de tamanho quase oficial, com grama bem aparada, provavelmente para entreter os habitantes adultos dos lugarejos vizinhos e, aproveitando a sua largura, um outro campo bem menor, provavelmente destinado aos guris daquela região.

Olhando essa praia, fiquei conjeturando que ela não deve ter qualquer valor turístico, nem deve ser notada pelos forasteiros navegando apressados. E, divagando tolamente, concluí que as águas que lá chegam devem ser as enjeitadas, águas lentas, empurradas para os cantos pelas mais rápidas, na disputa pela abertura de passagem para prosseguimento de suas viagens. E, como continuação das divagações sem nexo, fiquei imaginando que a chance de uma garrafa com uma mensagem aportar em suas areias deve ser bem menor do que a probabilidade de se ganhar seis vezes consecutivas na loteria da Sena. No entanto, apesar dessa falta de destaque, ela me marcou positivamente, pois foi nela que topei com um lagarto de grande porte, meio gorducho, como se tivesse acabado de comer uma pequena cobra distraída. Foi ali também que avistei um tié-sangue, pássaro raro de se ver, voando de árvore em árvore, livre como devem ser todos os seres, coberto com penas de um vermelho muito vivo, um vermelho quase tão bonito como o da bandeira da pátria onde nasci, um tom mais bonito que a cor da camisa do América, outrora o segundo clube preferido dos torcedores cariocas.

Foi lá nessa praia que, já cansado, depois de cinco horas ininterruptas de caminhada, tirei a mochila das costas e, usando-a como travesseiro, deitei-me para descansar, de barriga pra cima. Então, com os olhos bem abertos fitando o azul-celeste, comecei a sonhar com um graúdo sanduíche de mortadela e um refrigerante bem gelado, ambos materializados uma hora depois, numa vendinha da praia do Saco do Céu.

Rio Antigo – 02 – Rua do Cano

O caminho aberto para que um cano de pedra levasse para o mar as águas estagnadas da Lagoa de Santo Antônio, deu origem à “Rua do Cano”.

A “Rua do Cano” assim foi chamada até 1856, quando foi batizada como 7 de Setembro. Em 6 de setembro de 1906 o Prefeito Pereira Passos lá esteve, inaugurando o trecho que ia da Rua 1º de Março até a Av. Central. O fotógrafo Augusto Malta registrou o momento histórico.

Rua do Cano

Augusto Malta

Não se pode pensar em fotografias do “Rio Antigo” sem lembrar de Augusto Malta. A quantidade de imagens e o período fotografado são tão grandes que nos dão a impressão de que Augusto Malta poderia ter vivido uns duzentos anos. Impressão que fica mais evidente quando descobrimos que Malta só começou a fotografar aos 36 anos de idade.

Augusto César Malta de Campos nasceu em 14 de maio de 1864 em Mata Grande, Alagoas, e com 24 anos veio para o Rio de Janeiro, onde tentou várias profissões, todas sem sucesso. Só em 1900, já com 36 anos de idade, tornou-se fotógrafo amador, tendo sido apresentado ao Prefeito Pereira Passos que o convidou para ser o fotógrafo oficial da Prefeitura.

Malta documentou todas as atividades da prefeitura: inaugurações, posses, obras públicas, e mesmo cenas do dia-a-dia, tendo acumulado mais de 80 mil chapas fotográficas em mais ou menos 50 anos de profissão. Nenhum recanto do Rio antigo escapou de suas lentes: os quarteirões condenados, escolas, hospitais, prédios históricos, figuras importantes etc, tudo ficou registrado em seus negativos.

Foi Malta quem deu início à reportagem ilustrada sendo, talvez, o primeiro fotógrafo brasileiro a intuir a importância da fotografia como documento e veículo de comunicação com linguagem própria.

Malta aposentou-se como funcionário da Prefeitura, em 1936, depois de servir às administrações de Pereira Passos, Souza Aguiar, Carlos Sampaio, Prado Junior, Alaor Prata e Pedro Ernesto.

Mesmo aposentado, continuou fotografando por quase 20 anos todos os aspectos da vida cotidiana, inclusive o Carnaval, que ele registrou até meados da década de 40. Hoje se constitui no mais valioso documento de memória do que foi o carnaval carioca.

O trabalho do fotógrafo Augusto Malta é de grande importância para a memória histórica de nossa cidade. Malta foi o fotógrafo oficial da Prefeitura do Distrito Federal no governo Pereira Passos, justamente a época em que o Rio sofreu grandes transformações. Malta pode registrar esses momentos. Seu acervo é composto de 80.000 fotos, 2600 negativos de vidro e 40 negativos panorâmicos. A qualidade de seu trabalho é incontestável, mesmo considerando que, no início do século 20, a fotografia ainda engatinhava. Além de excelente fotógrafo Malta, sendo o fotógrafo oficial da Prefeitura, estava presente nas horas e lugares certos.

Isso fazia dele, também, como se já não bastasse, um excelente repórter fotográfico.

Augusto Malta morreu em 30 de junho de 1957, aos 93 anos. Era casado com a Sra. Celina Augusta Vercheuren com quem teve três filhos.