A televisão, esse poderoso veículo de comunicação em massa, há muito tempo vem rompendo os conceitos antes estabelecidos, abalando valores e tradições em diversos aspectos.
Os responsáveis por estas mudanças são os grandes fenômenos e campeões de audiência mundial, os reality shows, ou seja, os shows da realidade, programas criados pelos meios de comunicação como forma de entretenimento, mas que expõem o cotidiano e a vida das pessoas, confinadas em determinados espaços, onde são observadas 24 horas por dia por câmeras estrategicamente espalhadas pelos diversos ambientes, sendo as imagens transmitidas ininterruptamente, para os telespectadores.
Este modelo de programa tem alcançado altos índices de audiência e aumentado, consideravelmente, o faturamento das emissoras, por seu custo relativamente baixoem relação à produção de novelas e seriados. E, com o excelente retorno financeiro, tem sua permanência garantida nas grades das programações, gerando cada vez mais investimentos publicitários, além de ser um canal de exposição para os participantes.
A interpretação de realidade está sujeita ao campo dos conceitos e escolhas que consideramos como fato, ato ou possibilidade, adquiridos a partir de nossa consciência, desejo e conhecimento. O processo de construção da realidade é fundamentalmente social, onde a verdade é subjetiva e pode, às vezes, estar próxima da realidade, mas ela depende de situações, contextos e pensamentos, pois, o que observamos, está ligado às escolhas e a todo o conjunto, que são mais normas do que evidências.
Como os reality shows ressaltam momentos de alegria, conflito, dor, amizade, etc., estimulados pela convivência dos participantes, o telespectador, ao assistir a esse tipo de programa, se distancia de sua realidade. E, mesmo sabendo que, o que vai ver não tem nada a ver com ela, passa a perceber coisas que não vê normalmente no seu dia-a-dia, levando-o a construir outras concepções de vida e comportamento.
Esses programas não operam com o real, mas sim com o que pode se adequar ao mundo interior fictício (aquele que foi criado) e com o mundo exterior (composto pelos telespectadores). O reality show é uma realidade do cotidiano mostrada de forma editada e camuflada em técnicas de ficção, onde os produtores para chegarem a seus objetivos, trabalham com vários conceitos de dramaturgia. Por isso, no momento de escolher os participantes, eles optam por aqueles que têm maior potencial de conflito e interatividade.
Durante todo o programa, as expressões de poder, interesse, afeto e valores, bem diferenciadas entre os participantes, manifestam-se não somente no que eles dizem, mas através da postura, vestuário, expressões faciais, comportamento e histórias de vida desses.
Com isso, consegue-se transformar a espontaneidade das pessoas anônimas em produções artísticas; seus atos passam a se tornar espetáculos, onde a privacidade se choca com uma visibilidade real, permanente, consciente, insistente e direcionada.
Na verdade, os participantes se tornam verdadeiros atores, desempenhando papéis construídos de uma forma calculada e intencional. Em contrapartida, o preço que pagam por suas atuações e participações é bem real, seja ele positivo ou negativo, seja ganhando ou perdendo. Os reality shows, que são considerados jogos, operam sobre as noções do que é público e privado, sobre os indivíduos. Colocam em cheque princípios e valores morais e éticos, em função do lucro. Respondem ao desejo de audiência e estabelecem vínculos entre os participantes do programa e os telespectadores, transformando a relação entre o homem comum e a mídia. São, na verdade, grandes jogos de interesses. Dentre os vários motivos que atraem e levam as pessoas a se aventurarem nesse tipo de programa, mesmo correndo o risco de se tornarem ridículas, idiotizadas ou até promíscuas diante de milhões de telespectadores, podemos perceber:
1- No campo psicológico, temos o exibicionismo, ou seja, o desejo de se expor em público; o voyerismo, prazer em ser observado intencionalmente por outras pessoas e o desejo de quebrar tabus e criar polêmicas.
2 – No campo financeiro, temos a busca por prêmios milionários em dinheiro e bens, sorteados durante os programas. Há a oportunidade de seus atores tornarem-se pessoas famosas e reconhecidas pela sociedade, garantindo-lhes contratos milionários, para exposição de suas imagens em revistas, shows, entrevistas e até a conquista de empregos em novelas e programas, permanecendo na mídia. Mas, o que acontece na grande maioria das vezes, é uma exposição efêmera e passageira.
E o telespectador, quais são os motivos que o leva a assistir e participar dos reality shows, assim como adquirir cotas de transmissões em canais fechados?
Sabemos que a curiosidade é inerente ao ser humano, essa vontade de bisbilhotar a vida alheia, impulso esse que pode ser considerado como atitude inconveniente e até condenável. Há também aqueles que consideram uma boa oportunidade para observarem e analisarem o comportamento das pessoas, que se altera diante de diversas situações surgidas e criadas durante o programa. E por fim,
a vontade de interagir com o programa, interferindo e decidindo diretamente sobre o destino dos participantes.
Diante do exposto, não há como negar o papel social desempenhado por este tipo de programa, na sociedade contemporânea.
O reality show, por ser um estilo de programa que trabalha com a subjetividade das pessoas, faz uma verdadeira apologia à formação e padronização de modelos de beleza e estética, comportamento e mentes, submetendo-os às regras das tendências da moda, decoração e formas perfeitas de corpo e rosto. O que interfere diretamente sobre a satisfação dos desejos de consumo dos telespectadores, induzindo-os a optar por novos gostos, padrões, preferências e formas de ser.
Se, os reality shows são odiados e desprezados por muitos, também são vistos e apreciados por milhões de telespectadores, que participam ativamente com seus votos através de ligações telefônicas e internet. E há aqueles que acham que devam ser vistos com cautela, ou seja, estando cientes sobre as estratégias e os motivos interesseiros dos mesmos.