Bodas de Prata
“Cíntia e Sílvia convidam para a comemoração das Bodas de Prata de seus pais Ana e Carlos, a realizar-se no dia 15 de maio, às 21:00, no Ana Buffet.” Foi assim o convite. Parentes. Amigos. Encontros. Reencontros. Sorrisos. Abraços. Uma grande festa. Quantas pessoas presentes? Mais de duzentas. Trabalho impecável de Cíntia e Sílvia na esmerada organização: decoração, comidas, bebidas, música, dança.
Enquanto se dá a festa, Ana permite que seus pensamentos vagueiem. Vinte e cinco anos de vida em comum. Ana e Carlos. A maior parte de toda a sua vida. Duas filhas. Tarefas múltiplas de esposa, mãe, dona de casa, profissional bem sucedida. O marido, carinhoso com as filhas. No entanto, sem planos em comum com a família. Homem de corpo presente. No casamento, ela havia lançado todos os sonhos de adolescente, todos os devaneios de mulher romântica. Hoje, além do contrato oficial, resta pouco diálogo. Falam-se das finanças, de assuntos triviais.
Marido e mulher por vinte e cinco anos. Vinte e cinco anos ao lado de um homem do qual ela mal sabia, mesmo sendo proprietária de um bufê distinguido na cidade pelo serviço de boa qualidade, se ele gostava de arroz com feijão ou se preferia de iguarias. Se ele gostava da comida quente ou da comida fria. Não falavam de si mesmos. E ela não conseguia se lembrar em que ponto da vida haviam perdido o hábito de se expressarem os sentimentos. Ou. Teriam feito isso alguma vez?
*****
Final de festa. Despedidas. Abraços. Votos de mais vinte e cinco anos de felicidade. Felicidade. Felicidade!… Um enorme brilhante no dedo. Presente do Carlos. Escolha da Sílvia. Coisa mais sem importância_ pensava Ana. Homem que trabalha com números, visando lucros, eliminando desperdícios… Será que nem imagina que, para amimar sua mulher, bastante seria oferecer-lhe flores, dizer-lhe que continua tão bonita como quando a conhecera no tempo de namoro. Mesmo que não pense dessa maneira… (Homem de negócios usa tanto de dissimulação!) Umas poucas flores, beijos e carinhos fora da cama. Disponibilidade para ouvir o que a mulher quer lhe dizer sobre si mesma. Um caminhar juntos. Um pôr-do-sol assistido abraçados. Coisas que proporcionam prazer enorme a uma mulher. Coisas que, em tempos de namoro e noivado, ele foi capaz de fazer muito bem… Havia uma mulher a conquistar. Época em que ele não possuía dinheiro para lhe presentear com aquele anel de enorme brilhante e com o qual ela nunca havia sonhado.
Com o pensamento cada vez mais distante daquele salão iluminado, florido, cheio de música e de gente, Ana mantinha no rosto um forçado sorriso. Os amigos haviam sido bem recebidos, com certeza, embora, por sugestão de Carlos, a organização da festa tivesse ficado por conta das filhas. A organização do Ana Buffet cuidara dos arranjos finais.
Despediam-se os últimos convidados. Alguns totalmente embriagados. Outros ligeiramente alterados. Alguns poucos saíam sóbrios. Despediam-se as filhas, cada uma para a própria vida. Não haviam desejado trabalhar com a mãe no bufê. O marido, bêbado como no final de todas as festas, já havia se retirado. Precisava dormir. Naquela noite, a desculpa para se recolher antes da saída dos últimos convidados havia sido a viagem programada para o dia seguinte. Uma viagem de comemoração aos vinte e cinco anos de casamento. Viagem que ela, em sigilo, decidira fazer sem a companhia do marido.
*****
Ana passou o resto da noite acordada. Ansiedade. Angústia. Medo. Solidão? Que sentimento esteve a lhe atrapalhar o sono, ela não sabia. Faltava pouco para as seis da manhã. Tudo havia sido devidamente preparado para a viagem do casal. Os funcionários do bufê estavam com as devidas obrigações agendadas. Os empregados da casa já haviam recebido todas as recomendações. As filhas não iriam ao aeroporto. Tinham trabalho importante naquele dia. Seu embarque estava marcado para as nove horas. Disso, somente ela e a gerente da agência de viagem sabiam. Quando Carlos recebeu as passagens de uma funcionária da agência, Ana sentiu um calafrio. Haviam combinado que as passagens ser-lhe-iam entregues pessoalmente. E a moça entregou – as ao Carlos! Entretanto, ele recebeu o envelope com as passagens e, sem abri-lo, pediu-lhe para verificar se os dados estavam corretos. Sutilmente, Ana colocou o envelope na bolsa, dizendo estar de saída. Na volta, iria conferi-las com calma e ligaria para a agência, no caso de alguma dúvida. Carlos saiu, como de hábito, sem se despedir. E, depois não lhe perguntou a respeito das passagens. Sentiu-se aliviada. Seu plano não havia sido descoberto.
O voo para Los Ângeles estava marcado para as doze horas. Os empregados não estariam em casa naquela manhã. Carlos dormiria até as nove. Nesse momento, ela já teria embarcado. Sem o marido. Uma viagem para Los Ângeles seria mais proveitosa_ foi o que havia dito Carlos. Há muita coisa a se fazer por lá. Contratos novos. Poderiam se divertir também. Trabalho e diversão.
No caminho para o aeroporto, Ana perambula pelos anos todos de seu casamento. Os últimos acontecimentos. A festa. Sempre havia sonhado com uma festa a dois. Um simples estar juntos. Uma viagem pelos próprios corpos, quem sabe, um revolver de vulcões aparentemente adormecidos. Havia acontecido uma festa suntuosa, cheia de gente. Do modo que Carlos queria, pois precisava convidar muita gente: amigos, fornecedores, clientes, parentes. O relacionamento do casal, visto por pessoas de fora, parecia com tudo aquilo que muitos sonhavam. Sempre juntos em encontros sociais. As filhas, já formadas, mesmo longe de receitas de pratos finos e sobremesas requintadas, cada uma tinha seu trabalho, cada uma tinha sua casa. Carlos vivia do trabalho para a casa. Costumava passar treze, quatorze horas dentro da empresa, quando não estava participando de cursos ou viajando pelo exterior para fechar contratos importantes. Nenhuma dificuldade de ordem financeira os perturbava há anos.
O que Ana sentia intensamente era falta de seu homem. De braços ao redor de seus ombros. De beijo dado de supetão. Talvez estivesse atrás de seus sonhos de adolescente… Apesar do êxito profissional, de dona de casa e de mãe. Aquele seu marido mais parecia um pedaço de pau quando tentava abraçá-lo. Um corpo duro, que não reagia, que não fazia o menor gesto ao receber um abraço. Pouco após o casamento, já havia ido a paixão, o namoro, a ternura, o carinho, a cumplicidade …
Por ora, o que ela queria era dar um tempo. Sair da vida de Carlos. Sentir como seria viver sozinha. Paris, Roma, Grécia. Era o seu roteiro. Dois meses de viagem. Alheio a vida da casa, Carlos nem havia desconfiado da arrumação de malas de maneira não costumeira, da excessiva tensão demonstrada pela mulher naqueles últimos dias. Quando partisse no voo das nove horas para Paris, Carlos estaria acabando de despertar. Tinha passagem marcada para Los Ângeles. Muita a coisa a fazer por lá. Contratos. Negócios. Trabalho e lazer. Enquanto ele estivesse trabalhando, Ana poderia passear sozinha pela cidade.
Ficou a imaginar como seria a reação do marido ao encontrar a carta que ela havia lhe deixado. Havia escrito no envelope: “Carlos, para ler durante a viagem.” Ele iria colocá-la no bolso do paletó. Sem a menor curiosidade. Bem provável que ele percebesse que a mulher não estava junto dele somente quando estivesse dentro do avião.
Vinte e cinco anos!
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