Cada um com suas dores – Jovimari Balotin
Viver é doído. Triste constatação, mas real e verdadeira. E com tão fortes aflições presentes no mundo, vou me acostumando. E me acostumando vou tentando descobrir uma forma de proteção. E penso, aceito e também sofro em dizer “cada um com suas dores”, mas é a única forma que encontro para seguir forte em meio a pequenas e grandes fraquezas, minhas e de tantos.
Sinto que me acostumo com inúmeras dores em minha volta e fico triste, mesmo sabendo que apenas sou mais uma nesta estrada de múltiplas facetas.
Há tristeza em me acostumar com o pedinte que me emocionava ao dizer em agradecimento, uma poesia simples, mas cheia de ternura. Há tristeza em me acostumar a ouvir os lamentos de amigos com dores da alma, do coração, da solidão. Há tristeza em me acostumar com ausências de importantes amores, de queridos amigos, de inesquecíveis paixões, de eternas lembranças. Há tristeza em me acostumar a não ter lágrimas na calada do abandono. Há tristeza em não doar aconchego num momento de carência. Há tristeza em sentir o incômodo silêncio e o seu barulho ensurdecedor, e nada fazer.
Os dias se consagram na pureza de cada manhã, mas logo acompanha o caminhar. E cada passo leva à direções indefinidas, mas impostas. Sigo meu destino. Ou ele me segue? O sofrimento do próximo, fica mais próximo. Está em mim.
Ouso imaginar palavras de conforto. Até as pronuncio, discreta em meu mundo. Reflito, procuro consolo no outro, e então, sou capaz de sugerir, de insistir, de persistir. Mas nada é capaz de mudar aquele pequeno universo, repleto de vozes internas e traumas marcantes. Eles não me ouvem, eles não se ouvem. É mais fácil apenas continuar. Renovar nem sempre traz conforto inicial. Há o medo que apavora, me mascara, que impede.
Não posso ajudar. De coração atado a fios invisíveis, perco meu sono, que tanto me alivia, e escrevo o que não digo. Escrevo na procura do som que a minha voz não emite. Eu quero, na verdade, encontrar nem que seja um murmúrio, mas que tenha intensidade suficiente e uma possibilidade clara que acalme, que alivie, que traga mudança, esperança, vida.
Confusa, cansada, deixo que meus sussurros me calem.
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Jovi querida,
Belíssimo texto! Mas de um sofrimento grande. Ainda bem que os dias vão passando e a gente vai se curando de alguma forma. E neste ‘up & down’ de sentimentos conseguimos sarar algumas feridas e tamponar outras. Grande beijo. Ana
Jovimari respondeu:
março 13th, 2010 at 18:00
@Ana Lucia, Isso mesmo, Ana.
O dia de amanhã traz a esperança… o sofrimento não é fixo e nem definido ou definitivo.
Beijo!
Jovimari,
Muito sentido este teu texto.
Contas de verdade como a gente se sente em muitos momentos desta nossa vidinha que só podemos mesmo é ir levando. Como diz Aninha, “conseguimos sarar algumas feridas e tamponar outras”.
Gostei muito
Bjo
Deia
Jovimari respondeu:
março 13th, 2010 at 18:02
@Haydée, Sabemos o caminho… algumas vezes mudamos a rota e conseguimos ajudar ou ser ajudado… mas na maioria das vezes, as dores são egoístas…
Beijo!
JOVIMARI
Sinto no texto que a tua alma fala e mostra o que sentes diante de um mundo repleto de tragédias, desencontros, sofrimentos.
Mas temos que ter esperança.
E sempre que algum destes sentimentos destes me envolvem, reflito muito sobre a vida de meus familiares, de meus amigos e até daqueles que não tenho nenhuma simpatia.
E encontro sempre em algum lugar, mesmo escondido, lindos sentimentos e ideais e aí me detenho, afasto os maus sentimentos e volto à alegria.
Daqui, sem te conhecer, sei que possues sentimentos nobres e maravilhosos, que mostrastes ao longo dos seus textos e até comentários, onde projetastes o que tua alma e teu coração pensam e sentem.
Ao exteriorizar seus pensamentos, trouxeste-nos a esperança, pois sei que existem muitos que comungam destes teus ideais maravihosos.
abraços.
Jovimari respondeu:
março 13th, 2010 at 18:05
@gutierritos, Isso mesmo, Gutie…
É a impossibilidade de ajudar que incomoda. E a frequente insatisfação de pessoas que se entristecem e sofrem e não se ajudam ou não conseguem sair do cinza dos dias.
Beijo!
Oi, Jovi
Estou terminando minha visita diária ao Blog de uma forma que não esperava. Seu texto, extremamente belo (aliás, sua característica), chega a doer de tanta melancolia e impotência.
Mas que demonstra, ainda bem, uma alma generosa e inconformada.
Esse texto é para ser arquivado.
Abraços
Manoel
Jovimari respondeu:
março 13th, 2010 at 18:13
@manoel rodrigues, É Manoel… as palavras foram “saltando” de meus pensamentos.
Eu escrevi porque eu havia conversado sobre essas dores tão comuns em pessoas conhecidas, parece que as angústias estão tomando lugar de alegrias e normalidades.
E foi mesmo a minha impotência que me incomodou profundamente, mas eu estou bem. Meus momentos de angústias são passageiros e não me paralizam e nem me cegam, pelo menos não totalmente…
e talvez por isso minha vontade de ajudar torna-se ainda maior.
Beijo!
Seu texto é característico do momento de mudanças que estamos vivendo. Não dá mais para ficar parado, apenas assistindo as coisas acontecerem. É hora de decidir de que lado estamos. E você já decidiu, ao optar pelo próximo. Parabéns!