Camila e os Anandas – Lu Dias
Nenhuma das personagens da novela “Caminhos das Índias” tem sido mais risível do que a ingênua Camila, ao ter que enfrentar a arrogância dos Anandas, que se esquivam de tratá-la como um membro da família.
A pobre brasileirinha, que olhava a vida com tanta ingenuidade, foi longe demais, buscar sarna para coçar, ao se casar com o indiano hinduísta Ravi. Fato que passou a dar à trama um sabor especial, com as gafes cometidas pela pequena, diante de tanta “tradição”. Are Baba!
Camila ainda não tomou consciência do cinismo com que é tratada. Pensa que a paixão tem o poder de sanar tudo, como num passe de mágica. Bastando que vista um sári e se entregue aos beijos envolventes do meigo Ravi, que tudo tenta amenizar, na tentativa de ajudá-la a se adaptar no seu novo ninho.
Apesar de todo o seu frescor juvenil, a nossa Camilinha vai se encaminhando para o fastio, a depressão, a passividade, a exaustão psíquica e a falta de ânimo, para lidar com sua nova família. Começa a ficar enclausurada dentro da casa das mil e uma danças, apesar de faminta por amor e acolhimento.
Esperamos que ela encontre, no desespero e no niilismo em que está sendo encaixotada, forças para rechaçá-los. E que não aceite viver condenada ao ultraje que lhe impingem. Não permitindo que a doçura de sua voz, o brilho de seus olhos, a frescura de sua pele e os delicados ângulos de seu corpo abatam-se, diante da estupidez humana.
Na família Ananda, todos se sentem superiores ao novo membro da casa. A humilhação é escrachada e cruel, despida de qualquer fagulha de paciência ou generosidade. As diferenças são jogadas à mesa, brutalmente. É o ressentimento pelo fato de a “firanghi estrangeira” ter tornado a família impura, com sua presença, levando-a ao escárnio das outras famílias da casta. Ulucapatá!
Só falta à pequena, ser excluída de sentar-se no sofá e ser obrigada a comer com utensílios separados. Vive em meio ao orgulho e à repulsa daqueles que se sentem especiais, sob os olhos dos seus trezentos milhões de deuses. Subsiste em meio a um bando de corvos crocitando, para que erre sempre, de modo a tornar a distância entre ela e o marido, dócil e submisso, cada vez maior.
São comuns, na Índia, histórias sobre a maldade das sogras para com as noras. Contam que uma nora atormentada, espezinhada pela mãe de seu marido, transforma-se numa sogra pior ainda, quando chega a sua vez, como uma espécie de maldição. Vixe Maria!
E, o fato de as mulheres terem que morar com a família do marido, torna-as presas fáceis dessas megeras. É preciso respeitar todos os costumes da casa, ou seja, da sogra. A obediência cega e irracional, que os filhos devem aos pais, deixa suas mulheres fragilizadas e impotentes, diante das injustiças perpetradas contra elas.
No caso da Camila, sua sogra Indira é uma boa mulher, fugindo à regra da casta. Contudo, a avó do marido é uma naja, implicante e fomentadora de discórdia, ainda que tenha um passado, que não condiz com as tradições de sua casta.
A brasileirinha pensou que estava casando com o Ravi, quando na verdade casava-se com toda a família do moçoilo. Agora, não está dando conta de atravessar o fosso que separa seus mundos: Ocidente x Oriente.
Esperemos para ver, como se sairá dessa, a nossa irmã de pátria… risos.
Se Dante achava que era o amor, que movia o sol e as estrelas, isso não acontece no mundo das chamadas tradições, pois elas são bem mais imperiosas do que esse.
O amor, nas bandas de lá, não passa de um mero complemento, totalmente desnecessário, mas o dote… Baguan Keliê!
Namastê!
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Já pensou, Lu, se aquela avó rancorosa e sofrida aceitasse um abraço carinhoso da Camila e contasse para ela as histórias da família, das tradições, de tudo que sabe, com afeto? Como seriam ambas felizes? Eu conheço pessoas que se recusam felicidade, mas igual aos indianos, é difícil imaginar. A Camila é uma rosinha cheirosa e feliz que entrou naquela família para dar leveza, humor, risadas. Eles não a merecem e vão acabar ficando sem ela. Eles é o bobão do marido dela, menino fundamentalista. Outro dia fui contar histórias de família para meus netos e fiquei me lembrando da Camila. Ô dó!
Hila Flávia respondeu:
junho 15th, 2009 at 10:43
Hoje eu tô que tô: corrija por favor: Eles e o bobão do marido dela. E não É. Obrigada.
lu dias respondeu:
junho 15th, 2009 at 11:30
@Hila Flávia,
Hila
Corrigir adonde?
Como já estamos tão integradas ao tema, faço leitura dinâmica.
Não capto erros de gramática.
Are baba, dona virtuose.
Beijos,
lu
lu dias respondeu:
junho 15th, 2009 at 11:28
@Hila Flávia,
Hila
Também penso como você.
Li que o carinho do toque só é dado às filhas, principalmente, durante a infância.
Depois que crescem, só existem os cumprimentos à distância.
Mas aquele marido é um babaca mesmo.
Sinto raiva de tanta submissão.
Tomara que ela dê um chute no traseiro dos Anandas.
Dizem que, depois de descobrir que é um dalit (concebido fora do casamento), o Ananda mudará totalmente a maneira de ser.
Beijos,
lu
Paulo, meu doce anjo
Vai ser possível recuperar, também, os comentários?
Tomara que sim!
Não queria estar na sua pele.
Esse novo programa é um ulucapatá.
Beijos,
lu
Lu querida,
Dá vontade da gente sair cuspindo abelha em cima daquele povaréu todo. Coitada da Camila! Tenho a impressão que o amor vai virar fumaça. beijo. Ana
Lu Dias BH respondeu:
junho 15th, 2009 at 19:46
@Ana Lucia Timotheo da Costa,
Aninha
Muito barraco ainda vai rolar ali.
A Camilinha está mexendo nas tradições.
Enquanto o Ravi balança a cabeça feito uma lagartixa.
Está hilário.
Are Baba!
Beijos,
lu
Comentári salvo… da TT
Lu,
é bom saber da história da GP através de seus “recortes”.
Quando li o título deste artigo achei estranho Ananda no plural. Agora sei que é sobrenome de uma família da ficção do folhetim.
Como Ananda, em sânscrito, quer dizer FELIZ ( sei porque tenho uma amiga com este nome), essa tal família Anandas, ganhou um sobrenome que não condiz com feliz> Será que a Camila pensava que estava entrando na felicidade?
Namastê!!!!!!
TT
Katia
Orgulha-me, ter leitoras como você, que faz uma verdadeira análise do que lê.
O meu texto fica muito enriquecido, pois mostram prismas que, até então, eu não tinha percebido.
Amiguinha, quando a minha mãe era viva, gostava muito de novelas.
Ela sempre dizia, que apesar de a novela parecer ficção, no fundo era um retrato da realidade, na maioria das partes.
Casos de Camila acontecem pelo mundo afora.
A juventude tira de nós essa maturidade que nos chega com os anos.
Não analisamos a vida nos seus pormenores.
Nossos sonhos ultrapassam a realidade.
A Camila é uma dessas mentes fantasiosas, que acreditam que o mundo é bom e que tudo se arruma com o tempo.
Acho o seu papel importante, dentro do enredo, como forma de alertar outras garotas, inclusive aquelas que vão para lá como “modelos”, conforme alerta Sandra Bose em seu blog (veja a minha resposta ao Gutie).
Também não gosto do excesso de coincidências vistas nas novelas.
Aquilo mexe com o meu único neurônio.
Mas, como diz meu marido, é preciso ver uma novela, como se fosse uma história em quadrinhos.
A novela está na alma do povo brasileiro.
E, queiram ou não, é uma forma de cultura, de lazer, que descansa as pessoas depois de um dia tenso de trabalho.
Acho legar ouvir as pessoas discutindo os personagens em todos os lugares, como se fizessem parte da vida delas.
Depois passa… e vem outra.
Não é que a novela deturpe tudo… risos.
Mas sim, é que as cabecinhas aluadas não dão conto de discernir entre ficçao e realidade.
Se a novela tratasse apenas da vida dos dalits, ninguém a veria, pois no íntimo estamos procurando algo que minimize a nossa realidade crua.
Uma pesquisa mostra, que durante os períodos mais críticos do país (acidente aéreo, por exemplo), o acesso às novelas dobra.
É a busca por uma escapatória do sofrimento.
Também estou curiosa com o que a GP fará com a sua legião de personagens.
HAHAHAHAHAHAHAHHAHAHAHAHAHAAHA
Vai ter que queimar os miolos.
Alongue sempre, pois gosto muito dos seus sábios comentários.
Você é muito importante no debate dos meus textos.
Não me deixe!
Beijos,
lu
Querida amiga, não sei se leu meu comentário acerca do seu texto acima referido, como não o vejo, mas caso não tenha lido eu tento escrever tudo de novo. Bjo.
Lu Dias BH respondeu:
junho 15th, 2009 at 22:23
@Cila Caeiro,
Cila
Houve um problema com o blog, ao ser implantado um sistema novo, de modoo que tudo que foi escrito depois do dia 10, virou éter.
Gostaria que repetisse o comentário.
Aguardando!
Beijos,
lu