Category: Augusto Vilaça

Olha o aviãozinho… – Augusto Vilaça

Por Augusto Vilaça, 5 de julho de 2010 3:00

olha-o-aviaozinho

Quem pensava que a crônica desta semana seria sobre a Copa do Mundo e o fiasco de nossa seleção, “gorou o ovo*”… em primeiro lugar porque tenho certeza de que o assunto já está sendo mais do que esgotado por outras pessoas e eu correria o risco de cair na mesmice e escrever um texto batido e repetitivo, e, em segundo, pelo fato de que os Argentinos também foram eliminados na mesma fase e com um placar bem mais vergonhoso do que o nosso, assim não teremos que aguentar os “hermanos” capitaneados por Maradona cheios de si por terem conquistado a Copa do Mundo, o que não seria nada fácil.
Se não fosse o suficiente, por tabela ainda nós nos livramos do risco de vê-lo nu perambulando por Buenos Aires. Só fico com pena do Paraguai também ter caído fora, porque a nudez da Larissa Riquelme seria bem mais agradável aos olhos do que a do técnico argentino, que mais parece um cruzamento do Tatu da Ilha da Fantasia com um Che Guevara sem pescoço.
Mas vamos deixar a Copa pra lá, tenho coisas mais importantes com o que me preocupar no momento, e uma delas é aproveitar as férias escolares para mudar os hábitos alimentares de meus dois filhos pequenos.
Não é novidade para ninguém que criança não combina com frutas e verduras. Aquele garoto da propaganda que pede pra mãe comprar brócolis é apenas ficção. Por outro lado, também não é novidade que as fibras, vitaminas e tudo o mais devem estar presentes em nossa pirâmide alimentar. Tá, eu sei, você sabe, o pediatra sabe, mas quem consegue convencer os pequenos disso?
Outra coisa que pesa em nosso desfavor são os mimos excessivos dos avós e da babá: biscoitos, salgadinhos e comidinhas atendendo ao gosto do freguês, já que tanto eu quanto a minha esposa trabalhamos o dia todo e nem sempre estamos por perto na hora da refeição, e quando isso acontece, somos sempre os chatos da história. Aí já viu, com um placar injusto, são 5 contra 2, decidimos agir antes que fosse tarde demais. Já era a hora de introduzir efetivamente os vegetais na dieta da nossa prole, e eu confesso: achei que seria bem mais fácil.
Começamos a peleja com as frutas, a primeira foi o mamão. Escolhemos o final de semana, já que nem eu nem ela iríamos trabalhar e teríamos toda a manhã para atingir o nosso objetivo que era fazer com que cada um dos nossos dois filhos comesse meia fatia de mamão Havaí.
O drama foi grande: choro, ânsia de vômito, reclamação, várias idas ao banheiro para fazer xixi e inúmeros copos d’água, e olhe que tanto eu quanto minha esposa também comemos da mesma fruta, afinal acreditávamos que seria bem mais fácil convencer pelo exemplo. Depois de várias broncas, lágrimas, argumentações e muita paciência, a missão foi cumprida. Tudo bem que a operação teve início no café da manhã e só terminou perto da hora do almoço, mas o primeiro passo foi dado, no dia seguinte tentaríamos o segundo.
Mudamos fruta, mas o dramalhão foi o mesmo. Outra vez um desjejum que durou das 08 da manhã até quase o meio-dia, só para comerem uma banana cada. A minha sogra acompanhava a cena com os olhos marejados, contudo se manteve firme e não cedeu às chantagens emocionais dos pequenos.
Dia seguinte, nada mudou: salada de frutas e outra batalha… mas, aos trancos e barrancos, a coisa tá andando e estamos esperançosos de que conseguiremos vencer a guerra. O grande desafio agora parece ser convencer a “avozada” de que precisam jogar do nosso lado, mas vou usar todos os argumentos possíveia para lembrar à minha mãe de que eu cresci forte e saudável porque, quando eu era pequeno, nunca dei trabalho para comer. Não posso adiar a conversa, tô indo almoçar lá na casa dos meus pais e tratarei do assunto na mesa. Como toda mãe, eu sei que ela vai entender, ela faz tudo pra me agradar, hoje, por exemplo, vai ter a comida que eu mais gosto: macarrão, purê e carne moída, com molho de tomate peneirado e sem verduras. O quê? Exemplo? Isso eu deixo para quando estiver na frente deles, até porque já comi a minha cota de vegetais durante a infância. No mais, é “faça o que eu digo, não faça o que eu faço” e pronto.
Com carinho,
Gus
Recife-PE, 05/07/10

* Gorou o ovo – sinônimo de erro, falha ou frustração. Expressão muito usada em jogos de esconde-esconde quando a pessoa que procura perde a partida ao dizer o nome errado de um dos procurados, todos os participantes gritam: “- Gorou o ovo”.

Augusto Vilaça tem 34 anos e é brasileiro de nascimento, pernambucano de registro, sertanejo de coração, policial por vocação, honesto por convicção, cozinheiro por enxerimento e escritor por falta do que fazer. Querem mais?
Todas as segundas com uma novidade no Blog As Crônicas do Gus: http://cronicasdogus.com

Bookmark e Compartilhe

Um mundaréu de água – Augusto Vilaça

Por Augusto Vilaça, 28 de junho de 2010 16:27

Não sou muito bom pra escrever textos sérios, mas o assunto de hoje não tem nada de engraçado: as enchentes do nordeste.
Mesmo com um destaque menor do que o problema representa, quem lê jornais e revistas, vê TV ou, pelo menos, conversa com alguém, já deve ter ouvido falar do que aconteceu na zona da mata entre os estados de Pernambuco e Alagoas, devido às chuvas que assolaram por aquelas bandas nos últimos dias.
Eu estive lá e, literalmente, enfiei o pé na lama. A situação é crítica, quase caótica. Lama, sujeira, destroços por todos os lados. É quase impossível passar por uma rua sem ter que desviar de sofás, colchões, armários, eletrodomésticos e restos de alimentos, tudo destruído, sujo, inservível, e com um mal cheiro, que começa a ficar insuportável.
Para quem vê ao vivo, a cena é bem pior do que pela televisão, e isso quando resolvem fazer alguma inserção da tragédia na mídia, afinal disputar espaço na TV com a Copa do Mundo não é pra qualquer desastrezinho que resolve acontecer.
Mas também, que azar dessa enchente, né? Foi acontecer logo em dia de jogo de futebol, quando os gigantes da propaganda mundial já compraram e pagaram pelos preciosos minutos televisivos e não é só porque uma ou outra cidade do nordeste ficou debaixo d’água que eles iriam abrir mão disso. Nem a tenebrosa música do “Plantão Globo”, o que só trazia má notícia para a audiência, foi tocada uma vezinha sequer.
Sorte mesmo teve a final do Big Brother ou o desastre do Haiti, não tiveram com quem disputar espaço e a audiência foi fenomenal. Mas, como eu disse, o assessor de imprensa do temporal e suas consequências falhou ao programar a data para acontecer e, com isso, o destaque em cima da tragédia ficou prejudicado. São Pedro precisa rever isso!
Ontem, no Fantástico, de todos os blocos do programa (seis, se não me engano), apenas um, digo, meio, foi dedicado ao problema, com vários especialistas, que não se entendiam, tentando explicar o porquê das cheias. Mostrar mesmo a situação e a necessidade de ajuda, quase nada. Para piorar, ainda apresentaram a degradação humana com pessoas que, sorridentes, catavam coisas na lama (roupas, comida etc…) que, palavras do próprio repórter, seriam “verdadeiros tesouros”. Brincadeira!?
Em minha opinião, é preciso ter critério antes de exibir cenas fortes, de desgraças, e sou radicalmente contrário a quem faz uma coisa dessas, tentando transformar tragédia em uma peça bufônica. E ainda que seja clichê dizermos que o povo brasileiro está acostumado a rir da própria desgraça, tudo tem limite.
Os desabrigados olham para o futuro sem muita esperança, não é fácil acreditar que tudo aquilo que conseguiram em toda uma vida de trabalho desapareceu, “por água a baixo”. A coisa é mesmo séria, o povo, nosso povo, precisa de ajuda, não de uma publicidade desumana que tenta minimizar o problema para não tirar o brilho da festa maior do futebol mundial.
Quem esteve em países devastados, como foi o meu caso, sabe que a reconstrução não é fácil nem rápida e muito esforço e boa vontade precisam ser empregados para que os resultados comecem a aparecer.
É tocar em frente, e, como verdadeiros brasileiros, não desistir nunca, mesmo quando acharmos que a culpa é nossa, como cantou o saudoso Luiz Gonzaga:

“Oh! Deus, perdoe este pobre coitado
Que de joelhos rezou um bocado
Pedindo pra chuva cair sem parar

Oh! Deus, será que o senhor se zangou
E só por isso o sol se arretirou
Fazendo cair toda chuva que há

Senhor, eu pedi para o sol se esconder um tiquinho
Pedir pra chover, mas chover de mansinho
Pra ver se nascia uma planta no chão

Meu Deus, se eu não rezei direito
o Senhor me perdoe,
Eu acho que a culpa foi
Desse pobre que nem sabe fazer oração

Meu Deus, perdoe eu encher
os meus olhos de água
E ter-lhe pedido cheinho de mágoa
Pro sol inclemente se arretirar

Desculpe eu pedir a toda hora pra chegar o inverno
Desculpe eu pedir para acabar com o inferno
Que sempre queimou o meu Ceará”

O momento é de crise e muita gente precisa de ajuda, de abrigo, de donativos e de atenção, pois, por mais que a imprensa queira nos convencer do contrário, as enchentes foram (e estão sendo) um desastre muito maior do que a eliminação da Itália ou da França ainda na primeira fase da Copa do Mundo, podem acreditar!
Com carinho,

Gus

Recife-PE, 28/06/10

Augusto Vilaça tem 34 anos e é brasileiro de nascimento, pernambucano de registro, sertanejo de coração, policial por vocação, honesto por convicção, cozinheiro por enxerimento e escritor por falta do que fazer. Querem mais?
Todas as segundas com uma novidade no Blog As Crônicas do Gus: http://cronicasdogus.com

Bookmark e Compartilhe

Pra frente Brasil! – Augusto Vilaça

Por Augusto Vilaça, 21 de junho de 2010 7:03

O assunto da vez é a Copa do Mundo, não se fala mais de nada. Mesmo aqui em Pernambuco, um dos estados que, quando não sofre pela falta de chuvas, sofre com o excesso inesperado delas, como tem sido o caso nos últimos dias, a preocupação é uma só: “onde é que vamos assistir ao jogo da seleção?”.
Terça-feira passada, pra se ter ideia, o céu estava se desmanchando em água e ainda assim o povo lotava as arenas onde havia telões transmitindo o jogo ao vivo. Nem o temporal que caía foi capaz de convencer aquele mundaréu de gente de que a partida havia terminado e de que era hora de voltar pra casa, antes que os carros, motos e ônibus que os levaram até ali precisassem ser trocados por canoas, barcos e jet-skis na hora de voltar.
E no trabalho então? Qual é o chefe que, em sã consciência, ao menos cogita segurar seus funcionários na empresa, nos horários de jogos da seleção, trabalhando (ou mesmo fingindo)? Lá no meu trabalho já está definido que, quando os jogos forem à tarde (15h30), o expediente será encerrado às 14h00. Quem quiser que ache correto, mas eu acho isso um absurdo! Uma perfeita demonstração de falta de compromisso… Poxa! Todo mundo sabe que em dia de jogo da seleção o trânsito fica infernal, e saindo às duas da tarde, não dá para comprar a cerveja e ainda botar pra gelar a tempo para o espetáculo.
Se não bastasse a pausa “patriótica” no trabalho, alguns ainda precisam de um tempo após a partida para recuperar as faculdades mentais e o completo funcionamento cerebral. Deixa eu contar uma pra vocês: para os que não sabem, estamos construindo uma casa com financiamento da Caixa e, para a liberação das parcelas, um(a) fiscal precisa ir até a obra e ver como está o cumprimento do cronograma. Com mais de uma semana de antecedência, havíamos feito o agendamento da visita, que sempre ocorre pela manhã, para o dia 15. Na véspera, ligamos para confirmar e a fiscal disse que não poderia ir. Tá, entendível, ainda que a partida fosse só à tarde, era o Brasil em campo… aí perguntamos se ela iria, então, no dia seguinte, e a resposta foi que não seria possível, “por conta do jogo”. Agora, peraí… 36 horas depois!? Ou ela iria acompanhar a mais longa mesa redonda pós-jogo que eu já vi em toda a minha vida, ou já estava prevendo que entraria em coma alcoólico ou coisa do tipo.
Contudo, peço que não me entendam mal, não sou o tipo: “do contra”, comprei bandeira, camisa, boné e até aquele famoso álbum de figurinhas está quase completo. Só a tv de LCD é que tá esperando as promoções do final da Copa para ser comprada… é que eu sou brasileiro, mas não sou bobo.
E hoje foi dia, todo mundo vestindo verde-e-amarelo. Uns preferem ficar sozinhos, outros escolhem estar com amigos, nós rumamos para a casa de parentes, onde tinha cerveja gelada, cachaça de qualidade e comida de graça. Aí juntou a nossa animação com uma televisão de tela grande e a festa estava pronta. O chato foi só aguentar o Galvão Bueno narrando a partida e tagarelando sem parar, mas o time jogou bem e conseguiu reacender as nossas esperanças de que a Copa, para nós e todo o escrete canarinho, pode durar um pouquinho mais.
No final das contas, mesmo sendo duro de admitir, o Dunga está nos obrigando a engolir todas as excentricidades dele e, ainda que o meu ou o seu jogador preferido não tenha sido convocado, a coisa tá funcionando. Agora é só curar a ressaca, reabastecer a geladeira e que venham os gajos, ó pá!
Com carinho,
Gus
Recife-PE, 20/06/10

Augusto Vilaça tem 34 anos e é brasileiro de nascimento, pernambucano de registro, sertanejo de coração, policial por vocação, honesto por convicção, cozinheiro por enxerimento e escritor por falta do que fazer. Querem mais?
Todas as segundas com uma novidade no Blog As Crônicas do Gus: http://cronicasdogus.com

Bookmark e Compartilhe

Menino com brinquedo novo – Augusto Vilaça

Por Augusto Vilaça, 15 de junho de 2010 7:19

 brinquedo

Tô que só menino: alegre com o brinquedo novo. Agora, fácil não foi… enfrentei um debate doméstico mais longo e acalorado do que aquelas discussões de emendas à Constituição no Congresso Federal, mas eu estava decidido, perseverei e defendi meu argumento até ouvir um sonoro: “- Você já é bem grandinho, faça o que achar melhor, eu não vou me meter!”. Mesmo com aquelas palavras ecoando em meu ouvido ainda hoje, fui lá e comprei a moto.
Eu juro que pensava que o pior já tinha passado, ledo engano. Cheguei a acreditar que o grande trabalho seria convencer lá em casa de que a moto seria a melhor e mais econômica opção para chegar ao trabalho no horário, mas isso foi apenas o primeiro passo, ainda faltava ser aprovado no cadastro do financiamento que, além dos usuais: “RG, CPF, comprovante de renda e residência”, pedia uma lista dos meus contatos no orkut, amigos bloqueados no MSN, atestado de vacina em dia, os cinquenta últimos tíquetes de estacionamento do shopping e mais dois quilos de alimentos não-perecíveis.
Mesmo apresentando tudo isso e contando com o nome limpo na praça, a primeira financeira reprovou o crédito alegando que eu não tinha telefone fixo instalado em meu nome, dá pra acreditar? Gente, eu quero a moto para passear e me deslocar, principalmente, de casa para o trabalho, não pra montar uma firma de entrega.
O fato é que “não” é “não” mesmo e ponto final, e na mesma ligação em que a vendedora da loja me informou da resposta inesperada, ela aproveitou para me perguntar se eu queria tentar o parcelamento por outro banco, que, coincidentemente, tinha taxas de juros mais altas. Sem outra alternativa, eu respondi: “é o jeito, né? Tenta aí…”. E assim, horas mais tarde, eu era o mais novo dono de um carnê com 36 prestações a vencer, digo, de uma moto novinha em folha.
No dia seguinte, uma quarta-feira, passei na concessionária para entregar os documentos que faltavam e assinar o contrato de financiamento. Como eu viajaria no dia seguinte e só voltaria no domingo, perguntei se a moto estaria pronta para ser retirada na segunda. “Sua moto estará pronta na sexta”, ela me disse, e eu acreditei…
Na segunda-feira, conforme combinado, todo serelepe, arrumei uma carona e fui buscar minha motoca. Pois é, quando eu digo que as coisas nunca acontecem da maneira mais fácil em minha vida, ninguém acredita. Porém, como vocês já devem ter desconfiado, a moto não estava pronta… “É que houve o feriado do corpus christi e não deu pra emplacar a moto…”
Eu fumacei de raiva. Gosto de planejar minhas coisas e detesto ter que mudar, ainda mais quando é por culpa dos outros. Minha semana estava toda planejada contando com a moto desde a quarta-feira, quando o crédito foi aprovado e toda burocracia resolvida. Ainda tentando me controlar e não desfiar um repertório de palavrões e xingamentos em 40 idiomas diferentes, que eu tive a oportunidade de aprender nesse um ano que passei fora, argumentei: “Veja bem, a quinta foi feriado, tudo bem, mas na sexta e no sábado o Detran receberia o emplacamento”. A vendedora, que já tinha conseguido a venda, foi seca e definitiva: “Não adianta! Não tem a menor possibilidade de a moto sair hoje, só amanhã!”
Nesse momento, meu orgulho tomou conta da razão e eu botei na cabeça de que tirava a moto dali, de qualquer jeito. Quando eu pensava no que fazer, veio um cidadão até mim, com todo aquele jeitão de gerente e perguntou: “Está tudo correndo bem? O senhor está sendo bem atendido?”, “Não está tudo correndo bem! E não estou sendo bem atendido!” eu respondi. Peguei o gancho e contei-lhe todo o meu drama, bem como a minha insatisfação pelo fato de que a vendedora sequer me ligou para avisar do problema antecipadamente.
Sugestões daqui e dali, chegamos a um acordo que, pela cara feia, não agradou à vendedora: a moto seria liberada sem a placa mesmo, só com a nota fiscal, a concessionária correria com o emplacamento e eu voltaria para pegar placa e documento no dia seguinte.
Meu brio estava salvo! Coloquei o capacete, passei a perna por cima da moto e saí, contente e realizado, de brinquedo novo. No outro dia, com a documentação toda regularizada, eu voltava a ser um motociclista e o Aratacas Motoclube dava sinais de que, finalmente, começava a deixar o papel.
Ah, e por falar no Motoclube, estão abertas as inscrições. A meta é de 5.000 sócios até o fim do mês, e por isso estamos praticando uma política de não-discriminação, sendo assim, basta trazer um panfleto de consórcio, uma foto sua ao lado de uma motocicleta legal ou até o telefone de um moto-taxista de confiança que você costuma usar e será muito bem vindo à nossa tribo.
Com carinho,
Gus
Recife-PE, 14/06/10

Augusto Vilaça tem 34 anos e é brasileiro de nascimento, pernambucano de registro, sertanejo de coração, policial por vocação, honesto por convicção, cozinheiro por enxerimento e escritor por falta do que fazer. Querem mais?
Todas as segundas com uma novidade no Blog As Crônicas do Gus:
http://cronicasdogus.com

Bookmark e Compartilhe

Alguém segure esse avião! – Augusto Vilaça

Por Augusto Vilaça, 8 de junho de 2010 11:19

 

É como eu costumo dizer: se as coisas fossem fáceis em minha vida, não teria a menor graça, por outro lado, eu também não teria tanto assunto para escrever. Pois bem, dessa vez caso foi o casamento do meu primo, aquele que só toma Guaraná Antarctica.

Se o fato de ser meu primo casando não fosse suficiente, a doravante esposa também é minha prima (e dele, diga-se de passagem), além disso convidaram a minha filha para ser dama de honra, e a mim e a minha esposa para sermos padrinhos. Como vocês podem ver, não havia a menor chance de eu arrumar uma desculpa que colasse para não ir, já que o casamento seria em São Luiz do Maranhão, distante 1573 km do Recife.

A viagem era um gasto totalmente imprevisto, mas seria uma chance ímpar de revermos os parentes que moram longe, de nos empanturrarmos de comer caranguejo, e de matarmos as saudades do Guaraná Jesus, que só tem por aquelas bandas. Compramos as passagens, reservamos hotel e decretamos moratória em algumas contas pendentes para podermos ter algum dinheiro e cobrir os gastos por lá.

Como minha caçula seria a daminha, precisávamos chegar dois dias antes do casório, para os ajustes finais do vestido e os ensaios do evento. Sendo assim, na última quinta-feira, fechamos as malas, recolhemos documentos e passatempos para os dois pequenos (mp3, vídeo-games portáteis e figurinhas da copa, o que deixou a minha pochete – sim, eu uso pochete, e daí? – com quase 20kg) e fomos para o aeroporto.

Como o check-in havia sido feito pela internet, tínhamos o luxo de nos apresentar com menos antecedência ao balcão da empresa aérea. Quando lá chegamos, entreguei a documentação, coloquei as malas naquela esteira/balança, que teima em dizer que estamos com excesso de bagagem, e aqueles procedimentos de praxe… tudo corria bem, até que o atendente pediu: “os documentos das crianças, por favor”. Prontamente entreguei as cópias das certidões de nascimento e ele disse: “preciso das originais”… Sabe aquele momento em que você para, respira fundo, estufa o peito e diz: “FUDEU!”? Pronto, foi exatamente assim.

Virei pra ele e tentei argumentar, disse que não levávamos as originais com medo de perder ou estragar nas malas, que éramos os dois pais etc…, mas nem isso, e nem mesmo os dois pequenos chamando “painho e mainha” para cima e para baixo, foi capaz de o convencer. Ele ainda perguntou se a viagem era de ida-e-volta, o que eu confirmei, com um certo ar de esperança, contudo ele disse que precisava consultar o supervisor. Poucos minutos depois chegou uma figura baixinha (nada contra, mas acho que o exemplar da história tinha algum complexo com isso), com ar de enfezado, cara enjoada e ar de poucos amigos. Olhou para nós com desdém e sequer quis ouvir nossa história, falou que era impossível embarcarmos com cópias dos documentos e, diante da nossa argumentação de que morávamos longe e tudo o mais, nos deu um conselho: “acho bom irem logo àquele outro balcão para remarcarem as passagens para amanhã, pois hoje vocês não embarcam”.

A vontade era de encher aquele indivíduo de cascudos. Ele parecia o tipo de pessoa que se seduz pelo poder que acha que tem. Nos barrar e impedir que viajássemos deveria ser a coisa mais excitante naquele trabalho em anos de monotonia e, enquanto fazia isso, seus olhos brilhavam de satisfação. Como sou brasileiro e não desisto nunca, argumentei mais um pouco e ele, ainda tentando me olhar por sobre os ombros, falou: “ainda que eu o liberasse, haveria outra conferência no embarque e o senhor seria barrado novamente”.

Não faltava mais nada para o colapso. Minha esposa, que já estava nervosa, entrou em desespero, teve febre, frio, dor de barriga, dor de cabeça e, quase chorando, começou a contabilizar o prejuízo e a se preocupar com o fato de que não chegaríamos a tempo da prova do vestido e dos ensaios. Eu, tentando manter o controle, pensava em saídas mirabolantes, mas nenhuma que efetivamente fosse funcionar.

Quando tudo parecia perdido, lembrei-me de que havíamos chegado ao aeroporto com o carro de um colega do trabalho (o que é assunto para outra conversa, senão eu perco o raciocínio), de modo que deixamos o nosso na casa dos pais da minha esposa. Com o tempo avançando contra nós, decidimos pedir ajuda ao meu sogro, para que pegasse nosso carro e voasse da Várzea ao Aeroporto em 10min (quem é do Recife sabe que não é nada fácil).

Olha, parece que baixou o espírito do Michael Schumacker no coroa, o cara andou mais do que um fórmula 1 e, no apagar das luzes, conseguiu nos entregar os documentos e, por via das dúvidas, trouxe tudo que encontrou referente aos meninos: passaportes, certidões de nascimento, cpf, cartão de vacinas e boletim escolar. Finalizamos o check-in e corremos para o portão de embarque.

Na hora em que íamos acessar o pontilhão para entrar no avião, quem estava lá para a “segunda conferência”? O tampinha lá de baixo, que, ao nos ver, coincidentemente atendeu um telefonema que não tocou e ficou de costas para nós. Como agora era a minha vez de tripudiar, antes de entregar os documentos à moça que fazia a conferência, pedia a ela que perguntasse ao colega qual documento ele preferia: passaporte diplomático, certidão de nascimento… ele ficasse à vontade, todos ali eram originais. Ele nem teve a coragem de responder.

Ainda fiquei com vontade de virar para ele e dizer: “espero que um dia, o senhor ou algum parente seu precisem da polícia, para eu ter o prazer de retribuir o favor”, mas minha esposa me conteve, e me fez ver que sou maior do que isso (e bem maior do que ele, a bem da verdade).

Foi por muito pouco, contudo embarcamos e, numa viagem regada a refrigerante e barrinhas de cereal, conseguimos chegar ao destino como planejado. Já lá na “Ilha do Amor”, as situações pitorescas não nos deixaram em paz, mas isso eu conto depois, agora tenho que trabalhar.

Com carinho,

Gus

Recife-PE, 08/06/10

 

P.S.: antes de reclamarem de que a crônica deveria ter saído ontem, culpem a GOL, foi o avião que atrasou…

 

 

Augusto Vilaça tem 33 anos e é brasileiro de nascimento, pernambucano de registro, sertanejo de coração, policial por vocação, honesto por convicção, cozinheiro por enxerimento e escritor por falta do que fazer. Querem mais?
Todas as segundas com uma novidade no Blog Notícias de Muito Longe: http://cronicasdogus.com

Bookmark e Compartilhe

Maldita virose – Augusto Vilaça

Por Augusto Vilaça, 31 de maio de 2010 7:06

virose

Ai, ai, ai! Dói tudo: a cabeça, o corpo e, pra completar, ainda tem aquela disenteria básica. É a típica situação em que tudo é ruim e nada presta, não dá vontade de fazer coisa alguma e a cabeça lateja mais do que o couro de um tambor do Olodum. O diagnóstico não poderia ser mais simples: Virose. Nem me lembrava de que essa desgraçada existia, mas foi só pisar de volta no Brasil e uma delas já me fez de vítima.

Pois é, desde ontem à noite que estou assim, e sei que nem adianta ir a hospitais e emergências, já que vou ouvir o mesmo blá-blá-blá de sempre: “é virose. Tá assolando por aí… repouse, tome paracetamol se tiver dor ou febre e beba bastante líquido”.

Nos últimos tempos, a gente só pega virose. Foi-se a época em que visitávamos um médico e saíamos de lá com uma parotidide, um amebíase, uma enxaqueca, uma artrite reumatóide, ou uma infecção por morbilivírus para tratar. Agora, não! Toda e qualquer doencinha é uma “virose”… Não sei como é que um doutor em medicina perde anos de sua vida, matando-se de estudar, decorando nomes estrambólicos e bulas de remédios, para olhar a cara de doente do seu paciente por poucos segundos e fazer uma declaração solene e lacônica como esta: “é só uma virose!”. Francamente…

Eu prefiro a opinião da minha vizinha, Dona Zeza, benzedeira das boas, que “tirou a medida” com uma linha de algodão do meu dedo anular até o cotovelo, tomando este tamanho, passou o fio na minha cintura e, como faltou um palmo, ela pode fazer o diagnóstico e disse que estou com “olhado e espinhela caída”. Imediatamente, ela me deu uns passes com rama de pé-de-pião, receitou chá de erva-cidreira três vezes ao dia e me mandou tomar garrafada de sete plantas por uma semana. Falem a verdade, não foi muito mais complexo, científico e explicativo do que ouvir apenas: virose?

Até a sabedoria popular está mais preparada para discutir sobre as viroses do que os profissionais da medicina. Em qualquer esquina você encontra pessoas que sabem exatamente o que você tem, qual o melhor tratamento, e ainda são mais específicas em suas anamneses do que os especialistas em saúde, pois além de dizerem que você tem uma infecção por vírus (basicamente o que toda virose é, segundo meu amigo Houaiss), eles ainda dão o nome da famigerada. Só refrescando a memória de todos, já tivemos surtos de gripes: “Tiazinha”, “plano Bresser”, “Mensalão”, “A indomada” entre outros… As nomenclaturas sempre têm a ver com algo de destaque no momento, e, acompanhando o raciocínio, minha única dúvida é saber se eu peguei a “gripe da Copa” ou a “influenza da eleição”.

O fato é que, seja no tratamento médico convencional ou no empírico, preciso apenas de um pouco de paciência para aguentar o mal estar por alguns dias, sabendo que em breve estarei pronto pra outra. No mais, é só seguir aqueles conselhos da minha avó: não sair no sereno, não deitar pra dormir com o cabelo molhado e nem comer comida remosa, que vou sarar rapidinho.

Agora, com a licença de vocês, preciso correr que a barriga tá me chamando ao banheiro e, quem já passou por isso sabe exatamente do que estou falando, qualquer segundo pode ser fatal.

Do Brasil, com carinho,

Gus

Recife-PE, 30/05/10

P.S.: se alguém estiver pensando em usar o banheiro depois de mim, eu aconselho aguardar alguns minutos para o “aroma” melhorar.

Augusto Vilaça tem 34 anos e é brasileiro de nascimento, pernambucano de registro, sertanejo de coração, policial por vocação, honesto por convicção, cozinheiro por enxerimento e escritor por falta do que fazer. Querem mais?

Todas as segundas com uma novidade no Blog As Crônicas do Gus: http://cronicasdogus.com

Bookmark e Compartilhe

O bom filho à casa torna – Augusto Vilaça

Por Augusto Vilaça, 24 de maio de 2010 12:20

poltrona

É aquela velha história: “o bom filho à casa torna” e, depois de 371 dias distante de casa, finalmente, voltei.

Muita gente pode dizer que um ano (e seis dias) passa rápido, mas pergunta lá em casa pra ver… A coisa pareceu uma eternidade. Não é fácil se aventurar sozinho em um país distante, recém-saído de um período de conflitos, com uma infraestrutura pra lá de precária e tão longe que, como já contei anteriormente, devido às 12 horas de diferença no fuso horário, fazia com que eu estivesse dormindo enquanto vocês almoçavam, e vice-versa.

Mas, como disse o Júlio César, que não é o goleiro da seleção do Dunga: “vim, vi e venci”, e, se não venci, ao menos empatei. O importante é que tenho a consciência de que dei o meu melhor e escrevi o meu nome na história de um país em reconstrução.

A experiência em si foi fantástica. Tive a oportunidade de conhecer pessoas de várias partes do mundo, suas línguas, diferentes culturas e costumes, religiões, crenças, vestuário, comidas e muitas outras coisas que, quando muito, eu via apenas no cinema.

No pouco tempo livre, além de escrever crônicas para o Blog, aproveitei para viajar a países que eu nunca havia pensado em ir, pedalei bastante, comecei a mergulhar e fiz alguns amigos. Ainda assim, sempre senti muita falta de tudo que deixei no Brasil quando parti.

Deixando tudo bem claro, e antes que me venham perguntar: sim, a experiência valeu a pena, mas nem voltei com uma promoção nos ombros e tampouco rico, ou seja, quem estiver pensando em pedir empréstimo, esqueça! Por outro lado, se tiver alguma grana sobrando e uma taxa de juros simpática para os amigos, meu telefone é o mesmo e eu prometo que pago em dia.

Voltando à conversa, a missão da ONU era um sonho que eu tinha desde os tempos de Academia e, enfim, consegui realizar. Quem acompanhava as minhas crônicas pôde ter ideia do que eu passava, do meu dia a dia, das cenas pitorescas do cotidiano e de tudo o mais que, no último dia 8 de maio, chegou ao fim.

A viagem de volta foi longa: 3 dias, 6 aeroportos, 5 aeronaves, 3 companhias aéreas e incontáveis passagens por aquelas esteiras, detetores e raios-X. Tudo estava correndo muito bem, em que pese o cansaço, até que chegamos a São Paulo… bom, como era de se esperar, estávamos voltando ao Brasil, após a missão no Timor Leste, e trazíamos as nossas armas, com toda a documentação que nos autorizou a sair do país com elas no ano passado e que, na minha lógica mais básica, nos justificaria e acobertaria a trazê-las de volta, certo? Errado! Os “atenciosíssimos” funcionários da Receita Federal (todos com aqueles distintivos de policial americano escrito: “CUSTOMS”), resolveram que, se podiam complicar, pra que ajudar? Pediram originais de documentos que só nos forneceram cópias e inventaram formulários e autorizações que nunca havíamos ouvido falar.

Aí, imaginem a cena: esgotados por toda a viagem, querendo ficar felizes por estar chegando em casa, e nos acontece uma dessas… o pior, mas que tenho que dizer, é que fomos muito melhor tratados lá fora, mesmo carregando armas na bagagem em países com histórico de ataques terroristas e tudo o mais.

Tentamos argumentar, mostramos os papéis que comprovavam que saímos com as armas, que as armas pertenciam aos nossos respectivos estados e até mesmo um comprovante da própria Receita Federal… nada os fez mudar de ideia.

Não vou mentir, a vontade era de xingar o imbecil e mandar ele enfiar as pistolas no… bom, onde ele achasse que coubessem. Os outros ainda quiseram ficar discutindo, mas eu os convenci de que o melhor era seguirmos o resto de nossa viagem e documentar tudo para resolver pelos canais oficiais, quem errou ou nos orientou mal, que assuma as suas falhas.

Particularmente, não via a hora de entrar no último avião daquela jornada, pois estava doido para abraçar a família e os amigos que eu sabia que me esperavam no Aeroporto Internacional Gilberto Freyre. Corria para o novo check-in e, faltando cinco minutos para a uma da manhã do dia 11 de maio de 2010, eu já estava abraçando meus filhos novamente.

No dia seguinte, botei o currículo debaixo do braço e fui ao Quartel do Comando Geral para “pedir emprego”, fui bem recebido e, na hora do almoço, estava numa mesa grande, rodeada de colegas de trabalho interessados em ouvir algumas histórias.

E é isso… estou tentando reencontrar à rotina de antes. A primeira barreira vencida foi a da diferença de horário, agora estou voltando a escrever meus textos e espero ainda contar com a paciência de vocês para lê-los. Novas viagens a trabalho? Segundo a chefe de administração doméstica: “nem tão cedo, mocinho… nem tão cedo…”.

Do Brasil, com carinho,

Gus

Recife-PE, 23/05/10

Bookmark e Compartilhe

Panorama Theme by Themocracy