Contrariando o pensamento de muita gente, o tempo da História não é apenas o passado, mas também o presente. Historiadores partem com frequência de “problemas” atuais em direção ao passado, seguindo pequenas pistas que resistiram a toda sorte de intempéries. Assim, ao se eleger “família” como o problema a ser estudado, parte-se das várias formas de organização social existentes no “agora” em direção às famílias que existiram no “antes”. Tal comparação, “agora/antes”, é bom que se diga, é a varinha de condão da História, como ensina Eric Hobsbawm.
Por outro lado, a Futurologia vai adiante, numa especulação minuciosa, cujo objetivo é bastante pretensioso: a previsão do futuro. Trata-se de prever o futuro a partir do presente, não de artes divinatórias ou de crendices. Futurólogos não jogam búzios nem carta de tarô. Não consultam oráculos nem mostram o texto de suas mãos a ciganas. Nada disso! São cientistas que trabalham com uma margem muito boa de segurança sobre, por exemplo, a evolução tecnológica. Tal segurança deve-se ao fato de se tratar de uma ciência que leva as tendências do presente em consideração.
Temos, então, que historiadores e futurólogos trabalham nas extremidades da corda invisível do tempo. Isso não quer dizer que não dialoguem. Ao contrário, encontram-se com muita frequência no ponto equidistante entre suas incertezas: o presente. É nesse tempo que buscam inspiração e trocam informações acerca das luzes que costumam lançar sobre o rio azeviche de seus ofícios.
Não é difícil observar que, excetuando-se um par de íris aqui, outro acolá, a maioria dos olhos está focada no presente. Com ou sem óculos a sociedade vê e vive o presente. Ele é, por assim dizer, o príncipe dos tempos. É no seu imenso principado que tudo se realiza. Da oficina das dores às fábricas das mais extravagantes alegrias, nele tudo é consertado, tudo é produzido. Mais claro que o sol sobre a linha do equador, o presente evidencia a existência. Evidenciará também o artista?
Depois de retirar o pijama onírico de seda chinesa ou de algodão com bolinha, enfeitar de café a asa dos pulmões, dançar com o mamão a música do mel das manhãs, quando abre o portão e ganha as ruas, com que tempo se veste o artista? Calçou o passado? Vestirá o futuro? Quem sabe só agora, no gerúndio das horas, ele esteja se trocando?…
É claro que todos nós, artistas e não – artistas, cada um a seu modo, circulamos livremente pela ordenança de nossos imperativos, pela realidade de nossos indicativos e pela possibilidade de nossos subjuntivos. Sabemos que o tempo não existe de per si. A filosofia nos ensina que o tempo é uma admirável invenção. Contudo, se a língua é o tecido estampado com que vestimos nossos pensamentos, a escolha dos verbos é o estilo consagrado de nossa distinção. E mais: é a nossa conjugação no mundo!
Júlio Verne optou por um futuro brilhante, prata e fogo sugerindo velocidade. Ernest Hemingway tinha predileção pelo presente tanto quanto Sebastião Salgado. O filólogo alemão Werner Jaeger, autor de “Paideia”, viu no passado um elegante “quíton”, túnica de linho com a qual percorria as ruas da polis, calçando quase sempre as sandálias aladas roubadas de Hermes. À sua maneira, Jaeger foi um pesquisador cuja arte consistia em interpretar minuciosamente, à luz da ciência, a Grécia antiga.
A julgar pela indumentária desses senhores, o artista, também ele um pesquisador, aparenta ter um guarda-roupa eclético. Abramos, por um momento, seu misterioso closet… Uau! Que bagunça! Vestidos de cambraia, saias drapejadas, slack, terno de linho, ceroulas, meias, calcinhas, sutiãs, gravatas, tamancos, botas, corpete, capacete, escudo, espada, sandálias, cachecol, chapéus, jóias e bijuterias! A função de cada objeto é esculpir o tempo do artista, formando em cada combinação diferente momentos de calçar e vestir novas realidades.
O artista veste muitos tempos, o que não implica necessariamente confusão ou disfarce. Ele precisa experimentar o novo, testar novas possibilidades de ser e estar no mundo. Quando o dia está amarrotado, ele “passa o tempo” que melhor satisfaça sua criatividade. Passa a ferro e água até que se estique diante de si a criação. Quando quer desenhar um futuro feliz para um passado triste, lança mão do futuro do pretérito. Esse tempo é muito estimulante à imaginação e oferece ao artista poderes divinos, como o de ressuscitar Shakespeare, lutar ao lado do rei Artur ou combater piratas no Atlântico Sul. Se tomássemos o futuro do pretérito por uma seda azul, costuraríamos o futuro por dentro do passado sempre que quiséssemos azulejar o sorriso de quem chorou. Além disso, não há melhor tempo para se pôr em curso ações irreais. De que outra forma manifestaríamos toda nossa polidez e elegância se não nos fosse permitido fazer uso das etiquetas do futuro do pretérito? De que maneira poderíamos, num ambiente onde não pudéssemos dizer tudo o que pensamos, espetar as farpas da nossa mais fina ironia em nossos desafetos?
Se tivéssemos assumido o futuro do pretérito como a fantasia de nossas vidas, na certa já teríamos reinventado nossos carnavais, aprimorando em tal tempo nossa arte. Recriar o futuro para um passado é, sem dúvida, uma postura criativa. Acontece que apenas a criação não justifica a vida. O que se pode fazer se apenas o presente é capaz de conjugar os secos e os molhados do amor? Sem o presente, seria impossível sorver o amor pelos cinco sentidos. Acreditaríamos num amor sem cheiro, gosto e calor? Amaríamos alguém que nos fosse invisível e silencioso? Decerto que não.
O coração é o estranho de cada um, quando ele se aproxima e quando ele vai embora. Por isso o chamam “selvagem”. Contudo, esse órgão agreste costuma ser gentil quando a concordância dos sentidos supera a discordância verbal. Pulsando devagar, os conflitos se dissipam e a paz se estabelece. Enamorados, os estranhos se apresentam e passam a bater juntos as palmas da intimidade.
O atelier da arte, por mais cigano que seja, está sempre dentro da vida, no presente. Mesmo que se gaste uma vida flanando pelos sóis poentes ou tateando céus que não amanheceram, apenas o amor pode situar o artista no tempo. É através do amor que se existe. E é este o tempo do artista.