Category: Edgard Santos

A verdade sobre o sono – Edgard Santos

Por Edgard Santos, 26 de julho de 2010 19:26

É verdade que dormir bem faz muito bem à saúde, mas, o que é dormir mal? Considera-se poucas horas de sono um fator prejudicial. Desconhecem muitos quão longe da verdade está este pensamento. Não é uma questão de exceções à regra os grandes nomes da história que tinham, e ainda têm por hábito dormir cinco, quatro e até três horas de sono, tal foi o caso de Thomas Edison. Este homem passou dos oitenta anos de idade em perfeitas condições de saúde e legou à humanidade infinito cabedal de utilidades que fazem hoje a diferença em nossas vidas. O grande empecilho ao desenvolvimento do homem chama-se senso comum. Ele atrapalha até nas mínimas coisas porque deixa, no rastro das nossas atividades a dúvida, o medo e nos priva da iniciativa quando pensamos em não aderir a ele.
Dormir é para os fracos, dormir demais faz mal, sono bom é sono profundo são ditos populares que não escondem a verdade, mas que, pe las razões já citadas, quase não são praticados. Poder-se-ia encher livros e manuais com conselhos, advertências e dicas sobre o sono, mas, em minha opinião e baseado em minhas experiências (toda verdade baseia-se em experiências próprias) pode-se tudo resumir numa única e simples frase: dorme as horas de sono que te farão satisfeito. Todavia, o entendimento sem prática torna-se nulo e a coragem faz parte da prática; isto não é mais do que uma tentativa de mudança em busca da vida plena, da qual depende a saúde e a longevidade, o contrário do que se costuma pensar. Novamente o senso comum nos privando de viver como se deve a nossa vida. Somos seres sujeitos a fases, as quais, se analisadas com fé e sem precipitações, só tendem a nos levar ao crescimento. Assim também é o sono: se você estiver crescendo você vai dormir menos, não importa quantas horas de sono já vinha dormindo. Somos seres espirituais e não físicos. O sono é para o corpo o que p ara o espírito é a oração: um bálsamo reparador e revigorante, mas não é a quantidade que vai fazer a diferença.
Há casos e casos, mas também uma regra básica para tudo isso: o pensamento. Somos o que acreditamos. A influência externa tende a nos privar da iniciativa. Não esqueçamos que vivemos num mundo eivado de interesses; precisamos ter opinião própria e ditarmos a nossa própria vida sem nos deixar influenciar. Isto também diz respeito a calmantes para o sono em forma de barbitúricos, beberagens ou outras apelações. O grande obstáculo é achar-se que vai ficar doente porque se dormiu pouco. Exclui-se aqui os casos patológicos, passivos de um acompanhamento. As nossas rugas, o envelhecimento, vêm nas horas de sono; as olheiras vêm nas horas de sono ou na falta dele. Isto prova que o homem é, de fato, um ser que nasceu para a atividade e não para se preocupar. Se você acordou no meio da noite, quem sabe não foi porque já cumpriu as horas de sono necessárias a um novo dia, repleto de realizações? A vida é um dom maravilhoso outorgado por Deus; há tanto por fazer neste mundo! Será que temos que passar fora dela um terço do nosso curto tempo? Tenho a certeza que não; e tenho em Thomas Edison, e outros grandes, a garantia das minhas convicções.
Esforça-se a ciência no sentido de nos proporcionar uma vida melhor e mais produtiva. No entanto, mesmo ela, muda suas opiniões de tempos em tempos. Por quê? Penso que a explicação a isto está no fato de ser a verdade imutável e é função da ciência, assim como o é de cada um, individualmente, buscar a verdade. Sendo a busca o caminho, torna-se a mudança o objetivo. Já disse alguém, e bem o fez, que “O maior sinal de insanidade no ser humano é querer resultados diferentes e continuar agindo do mesmo jeito”. Exemplo: se estou dormindo oito horas por noite e minha vida não muda, por que não passo a dormir sete horas para ve r o que acontece? Penso que o segredo – se é que existem segredos quando se refere ao progresso – está na mudança pessoal, no pagar para ver. É o ser humano uma criatura de adaptações. Não podemos ser sujeitos ao que diz, ao que pensa ou ao que divulga a maioria, pois nem sempre a maioria está com a razão. Prova disso são os realmente vitoriosos que estão do outro lado, apreciando, com visão ampliada, o cenário que se encontra a sua frente e abaixo deles e, quando não são egoístas ou faltos de amor, tornam-se professores na escola da vida.
Se formos atentos ao que se passa no reino animal perceberemos que seus hábitos estão perfeitamente sincronizados com a natureza que lhes criou: comem quando têm fome e relaxam quando se sentem cansados; reconstituem-se pelo instinto e pela sabedoria, não se submetem a imposições criadas por um padrão social, por que assim tem que ser. Não estou dizendo que devemos nos desviar das regras e sermos rebel des, mas, escolhermos um padrão de vida e a ele nos adaptarmos e não cedermos, indiferentes, a um padrão pré estabelecido. Isto não diz respeito apenas ao sono, mas a todo e qualquer comportamento relativo à saúde, principalmente.
Tendo sido o ser humano criado para a atividade mais do que para o repouso, porque é espírito e espírito não precisa de sono, chegaremos à conclusão de que o sono exagerado pode enfraquecer em vez de restaurar nossas vidas. Mas, por que digo isso? O que vem a ser o sono exagerado? Muitos, ou quase todos, pensam que o cansaço que sentimos pela manhã tem a ver com o sono mal dormido, mas quase nunca é assim. Sabemos de máquinas que, quando estão desligadas, consomem muito mais energia do que em pleno processo de funcionamento; com o corpo humano não vem a ser diferente. Embora não sejamos máquinas temos, enquanto matéria, um mecanismo físico indispensável ao desempenho de nossa missão. Da mesma forma que um apar elho consome energia aceso, mas não desligado, assim somos nós. Se ficamos na cama sem sono, mas sem qualquer espécie de atividade, estaremos nos desgastando e isso refletir-se-á no nosso dia péssimo. Não podemos nos perder em pensamentos ao perdermos o sono, pois isto é prejudicial. A preocupação vem a ser um dos maiores obstáculos a nossa felicidade, se não o principal deles. É muito melhor e muito mais producente lermos na cama ou ocuparmos a mente com uma atividade sadia até que o sono volte ou mesmo levantarmos e começarmos a trabalhar; e não é um pouco de cansaço que vai nos deixar doentes ou mal humorados. Nosso corpo sabe o que é melhor para ele e, certamente, auto recuperar-se-á no devido tempo, reativando as horas de sono que lhe são necessárias.
Não é tão prejudicial a falta de sono quanto a preocupação em relação a ela. Um breve cochilo durante o dia ou uma sessão de relaxamento, como faziam Edison, Churchill, entre tant os outros, são tão ou mais revigorantes do que uma noite de sono mal dormida. A famosa cesta, não de duas ou três horas, o que seria perda de tempo, mas, de quarenta minutinhos, ou até vinte, pode fazer a diferença entre um dia feliz ou devastador da nossa criatividade. O ser humano, e eu me incluo entre eles, porquanto me encontro longe da perfeição, tem por hábito a mesmice, porém um esforço para sair dela vale a pena, em nome da saúde e da felicidade. Vão alegar falta de tempo. Mas, qualquer período dedicado ao refazimento das nossas energias é um bom uso do tempo, para não termos que encontrar tempo no leito de um hospital. A causa da insônia encontra-se no egocentrismo. Se, ao invés de nos preocuparmos, girando os pensamentos em torno de nós mesmos, procurarmos sair de cena e, como faz uma criança, ficarmos fora de nós, imaginando uma cena de praia, pessoas na rua ou uma ave no céu, por exemplo, ficaremos surpresos com a rapidez com que vamos pegar no sono. É claro que uma xícara de chá ou um copo morno de leite também ajudam, e muito. Bom sono e belos sonhos.

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A causa da velhice – Edgard Santos

Por Edgard Santos, 24 de julho de 2010 0:03

A frase pode parecer estranha, mas, como tudo na vida tem uma causa, a velhice não foge à regra. Podemos ser jovens eternamente sem termos que recorrer a cosméticos deformadores ou quaisquer outros tipos de elixires milagrosos propalados pela mídia interesseira. Envelhecer é algo anormal como anormal é ficar doente ou ser infeliz. É só uma questão de análise ou de busca, muito mais do que de crença ou convencimento; senão, vejamos: quem gosta de ter em casa um sapato velho, uma roupa velha ou um alimento estragado? Sim, porque, uma vez envelhecidos, perderam as suas funções ou assim vê o senso comum. Compartilhar a presença ou fazer uso de um desses causa mal estar ou má impressão, pois não é da natureza do ser h umano aceitar engodos.

No entanto, não sendo alimentos e nem sapatos, estamos, de antemão, fora da comparação usual a respeito do que seja envelhecer. Isto porque possuímos, além do corpo, um espírito e, além deste, uma mente inteligente, que nos foi dada por Deus, com objetivos que vão além da compreensão do homem. Prova a ciência que não utilizamos mais do que 25% de nossa capacidade mental; isto merece ser pensado. Se ao menos tentássemos ultrapassar esse limite, bem outra seria a nossa existência. Levar uma vida que valha a pena ser vivida, eis o objetivo primordial de aqui nos encontrarmos. Não há idade para o desenvolvimento do ser humano; só é velho quem velho se vê. A idade cronológica é apenas uma demonstração de que adqui rimos experiência, vivemos experiências e que estamos apenas iniciando. Mas, o que vem a ser o “ser jovem”? Jovem é quem jovem se vê. Se a mente reflete no corpo, a forma que vejo em mim mesmo é a que vai valer para a minha vida. Temos células que se renovam, ingerimos alimentos que nos metabolizam por dentro e por fora; por que então teríamos que envelhecer? È porque nos vemos velhos e acabados com o passar dos anos. Tudo vem na medida do reconhecimento e quando me olho no espelho meu corpo reflete aquilo que penso de mim. Logo, como disse, a questão é de busca, mais do que de convencimento.

Se possuo uma mente, então por que não usá-la para o meu aperfeiçoamento? Penso que seria este o ponto de partida. Jovens velhos e velhos jovens, o mundo está cheio deles; isto prova que a velhice não é existência real. Aprender idiomas em idade avançada, fazer uma faculdade, viver rodeado pelas crianças, são atitudes que nos fazem retroceder em anos, o que vai refletir na aparência, o que vai aumentar pela vida o gosto e fazer dispensar, para rejuvenescer, tudo o que não seja o auto aperfeiçoamento.

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Deus existe? – Edgard Santos

Por Edgard Santos, 23 de julho de 2010 16:01

Penso que não há, entre todos os seres humanos, aquele que, uma vez ao menos em sua vida, não tenha levantado a si próprio essa questão. Da mesma forma que há os devotos, convictos da existência de Deus, há igualmente, os convictos da não existência de Deus; este anseio tende a nos acompanhar vida afora. Penso mesmo que viver não seja outra coisa além de buscar esta verdade, como, morrer é concretizar essa busca. Fala-se em fé, mas o que será ela? Poderia encher de pontos de interrogação estas linhas, pois, como ser humano, também sou atacado por dúvidas, pois são estas a chance para o crescimento quando desencadeiam a busca; assim deveria ser com todos.

Explicar Deus, convencer sobre a Sua existência é simples perda de tempo. “Na casa do Pai há inúmeras moradas”. Esta frase bíblica pode querer indicar a verdadeira compreensão a respeito de Deus. Quanto mais alto elevarmos o pensamento neste processo de busca de Deus, mais clara irá ficando a nossa compreensão quanto a sua influência em nossas vidas; novamente uma questão de fé. Fé, Deus e religião se interpenetram, mas podem, indubitavelmente, se tornar independentes. Prova disso são os grandes homens, vitoriosos em suas áreas, que as utilizaram independentemente. Nota-se, porém, aí, que a religião está no topo, pois é a única que não sobrevive por ela mesma. Desconheço uma religião que não fale de Deus e d e fé. Contudo, é necessário ter uma religião para se conhecer Deus? Ou, ainda, é necessário morrer para encontrá-lo? Creio que não. Penso que uma vida plena, baseada na correção e que deixa frutos, é um exemplo de crença em Deus. A religião nos ensina este caminho, mas podem existir outros meios. Impor verdades, dogmas e opiniões próprias não condiz com os ensinamentos de uma religião verdadeira. A religião que quer atrair não impõe as suas verdades, mas procura mostrá-las através do exemplo de seus dirigentes, do crescimento de seus adeptos e dos resultados concretos das suas ações em prol da sociedade.

A fé é um instrumento poderosíssimo na busca de Deus; ela nos traz a certeza do milagre que é nada mais do que a constatação de algo que, na nossa maneira limitada de ver as coisas, julgávamos impossível. Não deixa de ser, pois, o milagre, um resultado direto do ponto de vista do apreciador. Analisado fria e desapegadamente, ele não existe, pois, para Deus, nada é impossível. Sendo Deus a perfeição e, crendo ou não n’Ele, suas obras já estão concluídas e as coisas boas para nós já estão programadas por Ele. Portanto, é uma questão de Sintonia com o poder maior. Tal sintonia se efetua através da mente, dos pensamentos positivos, selecionados, do querer melhorar. Esta vontade. Esta vontade interior não é acio nada pela fé, mas a ação que a desenvolve. Não se crê em Deus da boca para fora. A constatação de Sua existência vem pela nossa transformação interior, através da qual passamos a ter a convicção de que, de fato, nos mínimos detalhes, Ele age em nossas vidas. Fé se cultiva; pela prática: da oração, das boas leituras, da meditação em Deus ou no seu legado. Não importa; se tudo é criação de Deus, crer n’Ele é crer na própria vida, é acreditar que há uma razão de estarmos vivos neste momento e que precisamos fazer aquele algo que faz diferenciar o medíocre do realizador o qual, no lugar de se perder em dúvidas, ergue as mangas e contribui para a sociedade em que vive.

À força maior, que nos deu a vida, que age em nossos pensamentos e nos orienta, chamamos Deus. O fanatismo exacerba este poder, o que gera o medo e uma série de outros pensamentos conturbadores. Não importa a denominação que damos a Deus. A palavra Deus é um termo como o é Força Infinita, Poder Maior, Criador, Pai, Grande Natureza, isto é o que menos importa; tinha-se que criar um termo para designá-lo, pois tudo possui um nome e Deus não foge à regra. Os que se dizem materialistas alegam que Deus é criação do homem, quando é exatamente o contrário, ou seja: tudo é criação de Deus, inclusive os materialistas. Se analisarmos abstraidamente, não existem materialistas, mas discordantes. Eles não concordam e não aceitam o comércio em nome de Deus, a exploração em nome de Deus e a promessa de um reino dos céus após a morte do corpo físico e possuem toda razão. Se dizem ou pensam que nada mais existe após a morte do corpo físico é porque estão calcados em suas próprias experiências de vida; optaram por este caminho da não investigação. Mas, se praticam o bem já estão crendo em Deus, ou num Deus, não importa. Para eles isto é o mais importante, pois, cumprindo uma missão que os deixa felizes e à sociedade onde vivem, já deixaram de ser materialistas. Em resumo: crer em Deus é fazer o bem e viver uma vida que vale a pena ser vivida e não deixa arrependimentos, medo, dúvidas e outros sentimentos aniquiladores na hora da morte. Penso que quaisquer argumentos que se oponham a estes tendem a cair no terreno do sectário ou do fanatismo, causa real de muitos, se não de todos os problemas do mundo, embora não me considere, em hipótese alguma, dono da verdade.

“Buscai a Verdade e a Verdade vos libertará”, já dizia o Mestre Jesus Cristo. Mas, o que vem a ser a Verdade? Penso que está nas coisas simples da vida: no sorriso puro e meigo de uma criança está a Verdade. No cair de uma folha e no abrir de uma pétala também está a Verdade. É fácil viver a vida. Muito bom é acordar, respirar o ar da manhã e saborear um delicioso café junto às pessoas queridas. A paz de espírito começa a ser perturbada quando olhamos a nossa volta e, levados pela ilusão, passamos achar que o outro se encontra em melhor situação que a nossa e está plantada a origem de todo mal. Se queremos ser prósperos, que trabalhemos bastante, comparando-nos a nós mesmos. Se estivermos crescendo e convictos, não importa o vizinho, que, do alto de sua glória ou de sua insatisfação, está nos observando, também.

Viver as pequenas coisas da vida e encontrar a felicidade; esta forma de viver não é tão difícil se pararmos para pensar que a vida é feita de momentos. De quando abrimos os olhos ao acordar até voltarmos para a cama são momentos que vivemos. Observemos as crianças, temos muito que aprender com elas. é claro que crescemos e os problemas começam a nos solicitar a atenção para serem solucionados e não para nos tirar o sono; á assim na escola, deveria ser assim na vida. Nunca soube que um problema de matemática tivesse tirado o sono de alguém. Isto é evidente porque só pode ser resolvido enquanto está a nossa frente. O problema – e aí arranjamos mais um problema – é que o man temos em nossa mente, tirando o nosso sossego, o nosso sono, a nossa felicidade. No final, atribuímos a Deus o insucesso porque não entregamos a Ele a solução, achando que nossa força seria suficiente e a preocupação é o que resta, outro veneno a nos corroer.

Agnóstico é o que não acredita em Deus. É aquele que diz, por exemplo, que Deus não criaria este mundo repleto de tragédias e sofrimento. Mas, aí é que está o x da questão: DEUS NÃO CRIOU ESTE MUNDO REPLETO DE SOFRIMENTO. E não é difícil se chegar a essa conclusão. Estamos embotados pela idéia do pecado capital cometido por Adão e Eva nos primórdios da humanidade e trazemos, até os dias de hoje, este carma negativo em nosso subconsciente. Quando entendermos que o mundo criado por Deus é paradisíaco, perfeito, onde abunda a fartura, a saúde e toda forma de felicidade, teremos entrado em sintonia com o mundo original, isento de toda imperfeição. Da mesma forma que o mundo original, contido no primeiro capitulo do Gênesis é o pensamento de Deus, também o nosso mundo é resultado do nosso pensamento. Logo, sintonizando-nos com o bem, este será o nosso mundo, sintonizando com o mal, este passará a se manifestar a nossa volta, pois tudo é produto de nossa mente; conclui-se daí que os maiores inimigos encontram-se dentro da nossa própria mente, quando atormentada pela ilusão.

Aquele que se diz ateu atribui a fé ou a religiosidade a um produto do cérebro, do intelecto humano, capaz de organizar, selecionar e engendrar soluções para tudo a vida. Sem dúvida que sim. A única diferença diz respeito exatamente àquilo que mais necessitamos: visão de vida, orientação para as situações diárias, verdadeira entrega e confiança nos resultados, principalmente confiança nos resultados. Vão alegar que tudo isto é uma questão mental, que pode ser obtido sem que haja, necessariamente uma crença em Deus. De fato é verdade, mas a grande diferença vem exatamente daí: neste confiar excessivo, no poder material sem um auxílio invisível, vindo das profundezas do nosso ser, onde Deus se encontra. Isto não é para os fracos, como muitos costumam admitir, mas para os que desejam um resultado concreto, que não deixa sombra de dúvida.

Quando assistimos a inúmeros casos de desvio moral, conduta imprópria no que diz respeito à cidadania, ficamos perplexos diante do poder limitado daqueles que tem como função exterminar ou mesmo amenizar o caos que vemos imposto. É muito difícil combater a criminalidade; diria que ela sempre vai existir pelo simples fato de haver evoluídos e involuídos. Mas, esta não é a questão central, mas sim como acabar com ela ou mesmo amenizá-la. Parece ironia, mas os países que, com menos frequência, recorrem à repressão violenta nos casos de crime são os que obtém maior sucesso no controle deles, como são os que apresentam as menores taxas de desobediência à lei. Quem pode garantir não haver, inserida desta forma difer enciada de lidar com os menos evoluídos, uma interação telepática, coletivamente falando, no sentido da colaboração mútua? Os crimes horrendos, como assassinatos, estupros e outros precisam ser punidos exemplarmente, mas, falo, sobretudo, de uma forma de prevenção. É estranho como discutem, debatem idéias e soluções sem mencionarem Deus e sua interferência infalível; temem, por certo, a crítica de estarem anuindo-se a religiões ou desvirtuando a moral. Mas, falar em Deus não é, necessariamente, falar em religião. É preciso desvincular uma coisa da outra. A imprensa teme o confronto, o que não há razão de ser, pois que não existe confronto onde há Deus verdadeiro. Penso que está aí a solução dos crimes: fazer ver ao delinquente que Deus existe; que suas ações passam despercebidas aos olhos humanos, mas não aos olhos de Deus. Mudando-se o enfoque, mudar-se-ia toda uma sociedade, pois não passaria ela de uma reunião de homens , o que de fato é, mas, de homens, agora, convictos da ação de Deus.

Da mesma forma, proteger-se contra a ação o mal, imbuído de todo o aparato material, mas esquecendo-se da proteção de Deus é auto fragilizar-se, pois não há garantia de uma proteção verdadeira. Nem todos o carros blindados do mundo, todas as armas ou todas as grades, por mais fortes e poderosos que sejam, nunca serão garantia de uma proteção verdadeira. Tudo parte da mente. Se pensamos no mal, esperamos pelo mal e o tememos ele estará sempre a nossa volta. É preciso retornar à terra da tranquilidade. Se o inimigo está dentro de mim, é ele que preciso combater em primeiro lugar. Ter o foco em Deus, na sua proteção durante as vinte e quatro horas do meu dia vai me livrar de todo o mal, de todo acidente e de toda e qualquer perseguição. Se queremos um mundo paradisíaco, que o plantemos primeiramente em nosso interior e, como reflexo desta forma de ver a vida, tê-lo-ei também ao redor de mim. Parece simples e realmente é se nos acostumarmos a isto. Está provado pela ciência que os maiores fatores de higiene mental são a religião e a oração. Quem faz, de um ou de outro, parte da vida e os pratica sempre, com amor e sinceridade, terá um destino de luz e de bênçãos.

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Uma viagem – Edgard Santos

Por Edgard Santos, 8 de julho de 2010 18:36

Acho que nunca antes na vida senti os efeitos de um cansaço de verdade como o que me tem abatido nos últimos dias. Contudo, sinto agora um pouco de alívio e um frescor revigorante que vem das águas do rio. É uma sensação diferente viajar de barco e, quando a maioria dos passageiros não fala a nossa língua, o conforto aumenta, pois dedicamos os momentos da viagem a nós mesmos; criamos assim nossa ponte entre o passado que tentamos esquecer para que não interfira num futuro incerto, mas pelo qual optamos, atendendo a um apelo que vem do fundo da alma. Sou professora recém formada e, optando pelo nordeste para exercer minha vocação, deixei para trás um salário estável, junto àqueles que amo, para ir a busca de um trabalho vocacional em lugares aonde mal chega a civilização, mas onde existem almas ávidas de conhecimento e de uma oportunidade.

A mistura de brasileiros e gringos chega a ser engraçada. As interjeições acentuadas e o tamanho do sorriso nos dão a medida de sua satisfação. Eu mesma, ao ver saltar na água um enorme boto, passo a ser um deles. Acostumada às grandes cidades, com suas selvas de pedra, admiro-me com o verde da mata tão intenso e tão próximo da minha visão. O ruído contínuo do motor parece ser o único som a quebrar aquela paz natural. Também não me canso, como eles, de andar de um lado para outro a procura de um melhor ângulo. As mulheres sentem o rigor do clima e põem-se à vontade; não se constrangem em imitar as brasileiras que já diminuem as peças à medida que o calor aumenta. Espelham-se nas garçonetes de sorriso largo e chapéus com fitas. Que enfiam as b andejas entre os grupos que se aninham no convés em animadas conversações; não sei como conseguem equilibrar as latas de refrigerantes e os copos transbordantes de caipirinha. A pele bem morena a exibir saúde, os shorts muito curtos, uma peça de maiô cobrindo os seios e sandálias floridas; enchem de vida o ambiente.

Encostamos-nos a uma vila de pescadores para o almoço. Já do ancoradouro úmido e balouçante avisto, ao final de uma trilha florida, ladeada de cerca viva, carregada de trepadeiras e enormes fileiras de mesas forradas de branco e as cadeiras de palha em volta, tudo sobre o chão de mármore da varanda em plano elevado. A cobertura de toldo azul protege do sol forte que faz a essa hora. Subo os degraus e me aconchego a uma das mesas. Enquanto espero, alheia ao vozerio, aprecio o ambiente. A área é desmatada. Ruas de terra se estendem ao longe e, até onde alcança a vista, casinhas baixas, quadradas, de telhados amarelos, dão ao cenário um toque de monotonia. Carroças cruzam-se umas com as outras, deixando no ar rastros de poeira branca. Há um entra e sai na p eixaria em frente, de homens transportando sobre suas cabeças pesados isopores, repletos de iguarias. Enquanto estes trabalham e garantem o seu sustento, outros deixam o tempo passar, sentados, na birosca ao lado. Uns jogam a purrinha, enquanto esvaziam de seus canecos de vidro a cerveja espumante. Outros assistem à sinuca e os mais velhos reúnem-se às mesas num bate papo informal, pitando o cachimbo ou mastigando o fumo. Vez ou outra riem um sorriso sem dentes.

Como, absorta em meus pensamentos, embarcando no lusco fusco do restaurante, sem muito me importar com os inúmeros sons à volta de mim. Não compartilho momentaneamente da animação porque penso no que me espera ao fim da minha viagem. A pobreza e a simplicidade têm feito parte do meu roteiro nas últimas regiões por que tenho passado. A contemplação do belo e o contato com a magia da natureza incólume e em muitos casos intocável é o que têm atraído esses turistas sedentos de um turismo ecológico. Conversam com entusiasmo em grupos de cinco a seis pessoas em cada mesa. Os rostos vermelhos das mulheres demonstram satisfação e elas riem e se deixam contagiar pela felicidade de seus homens.

Saímos para um passeio a fim de completar os minutos livres que nos restavam. A rua principal, cheia de lojas, deve ser um chamariz para quem chega de fora. Camisas com motivos de pássaros da região, botas de caminhada, apetrechos de pescaria enchem as vitrines; cartazes anunciam descontos. A população não é pequena no lugarejo. Este pequeno centro comercial azafama e, para caminhar, temos que fazê-lo com atenção porque, mais do que pedestres, são as bicicletas que dominam os espaços num vaivém incessante. O som de suas campainhas é o alerta a nos fazer desviar o passo para o canto da calçada estreita para lhes dar passagem na rua ou pular para a rua a fim de lhes deixar livre a calçada. Assim, ganhar o interior de uma loja é a melhor saída. Foi o qu e me levou para dentro de uma relojoaria. As vitrines laterais expunham prateleiras repletas de objetos interessantes; dir-se-ia um paraíso de colecionadores. Eram relógios de todos os tamanhos e modelos, todos protegidos por campânulas de vidro sobrepujando plaquetinhas retangulares cor de prata, contendo informações da peça.

Ao fundo da loja, atrás do pequeno balcão, uma jovem, numa espécie de túnica branca e folgada, atende alguns fregueses, abrindo e fechando estojos, exibindo modelos que eles avaliam com o olhar ou experimentam em seus próprios pulsos. Por trás, através do amplo vidro, a visão da oficina, com suas mesas repletas de instrumentos próprios da profissão. Sentado a uma delas, um senhor de idade, envolto no reparo de um maquinário, como se mais nada no mundo lhe importasse naquele momento a não ser a peça que o intriga. É um antigo relógio do qual se destaca, em sua totalidade, o interior, com molas, eixos e outras partes totalmente desnudas. As mãos firmes do velho manipulam com calma e habilidade a diminuta chave de fenda. Muito sério e compenetrado, a peq uena lupa cuneiforme presa à vista direita movimenta-se quase que imperceptivelmente para cima e para baixo ao ritmo de sua respiração. O calor intenso do ambiente fá-lo perspirar e o foco da luminária, pouco acima de sua cabeça, destaca gotículas de suor de sua testa, onde se grudam alguns fios de sua cabeleira branca.

A atendente, com cativante sorriso, após despachar os fregueses, deixou o balcão e veio ao meu encontro. Eu não pretendia comprar um relógio, mas não precisei dizer isto a ela; abordou-me com tão grande naturalidade que me fez sentir muito à vontade. Em dado momento, ao ficar sabedora do motivo da minha viagem e, principalmente, do meu destino, fez um gesto de admiração, arregalando os grandes olhos negros e correu para onde antes estava. Ali, bateu com as pontas dos dedos no vidro que nos separava do interior da oficina; com a mão, chamou o velho que já parara o que vinha fazendo.

– Adivinha, vovô! Ela está indo para Borba. Ela é professora, vovô, e está indo para Borba!

O pobre homem ficou vermelho e, por algum tempo, imóvel, olhando-me dos pés à cabeça, enquanto, em minha mente, os pensamentos eram muitos ao mesmo tempo. Passado o efeito do choque, ele abriu um sorriso, carente de alguns dentes e precipitou-se a ser amável comigo, convidando-me para a sua sala de trabalho; ofereceu-me uma cadeira e eu fiquei sabendo em detalhes a razão de sua grande surpresa e amabilidade. Deixei que falasse, sem coragem de interrompê-lo, tais eram sua alegria e entusiasmo. Ao fim de algum tempo, mostrando-se satisfeito consigo mesmo, ele voltou a fixar nos meus os seus grandes olhos; depois, disse:

– Então é isso, mocinha. Não sei se conseguirei o perdão de Jovelina, depois de tudo que a fiz sofrer. – Um ar de tristeza pairava agora em seu semblante.

– É uma situação bastante complicada, senhor Anselmo. Já imaginou o quanto ela pode estar sofrendo naquele fim de mundo? Não houve nenhuma forma de comunicação nesses quase oito anos de afastamento?

– Nenhuma. Já soube do seu paradeiro por um irmão que andou por lá há alguns anos. Reconheço que foi traição o que fiz. Mas, não sou feliz com a outra; se ao menos ela me desse uma chance… Sequer responde às minhas cartas.

Saí dali com uma carta e um presente para Jovelina. Passei o restante da minha viagem preparando-me em espírito para a nova vida que começaria a levar em Borba. Vez ou outra, vinham-me ao pensamento as lamúrias do senhor Anselmo e a alegria de sua neta, esperançosa de uma solução feliz para este caso de amor. Fora o velho pego nas garras da ilusão ao trocar a companheira de anos e uma relação matrimonial estável por uma aventura ao lado de outra mulher com a metade de sua idade; chorava agora a dor do arrependimento e do passo mal dado. Quanto a mim, precisei ficar em Manaus a espera de uma vaga em outra embarcação para a cidadezinha de Borba, meu destino final. Na manhã do terceiro dia, quando, finalmente, consegui a passagem, já havia conhecido muitos lugares interessantes e pitorescos. O hotel onde me havia hospedado ficava muito próximo de um ancoradouro e, nas minhas idas e vindas em lanchas voadoras para pequenos passeios que adorei fazer, acabei conhecendo alguém especial.

II

Era comum encontra-lo todo fim de tarde por aquelas bandas. Sempre no mesmo local, à beira do cais, com as pernas dentro d’água, apreciando a calma do rio e o movimento suave das embarcações. A orla era repleta de lanchas para turistas, botes equipados para pesca e uma quantidade enorme de barcos de passageiros de dois ou três andares, alguns totalmente lotados, iniciando suas partidas. Quis conhecê-lo desta vez. Enquanto dele me aproximava ia imaginando o que estaria passando na cabeça deste menino cujos pensamentos pareciam ir bem longe, a quilômetros de distância. Portanto, ali estava ele. Entre nós, a estreita ruazinha e seu burburinho de todas as manhãs.

Na mesa do pequeno café tinha eu em mãos o jornal, mas não o lia, pois pensava em Vitor. Olhei a passagem e confirmei o horário: quase duas horas ainda separavam-me da minha partida. Via-se de tudo naquele pedacinho de rua que conduzia à pequena ponte de madeira que se ligava à estação portuária: mulheres sustentando enormes barrigas à beira do parto de um ou acolhendo ali dentro, no mínimo, gêmeos e, ainda, como se não bastasse, conduzindo pela mão e colo mais um punhado deles. Homens em cômicos chapéus de palha e ridículas calças brancas na altura de suas canelas, exibindo rostos vermelhos, castigados pelo sol de suas lavouras. Jovens casais enamorados, desfilando o pobre vestuário, o mau trato dos cabelos, dos dentes, em dissonância com a felici dade de estarem juntos; riam às gargalhadas, compartilhando o amor. À medida que se escoavam da manhã calorosa os minutos, crescia o movimento sobre a ponte. Balouçando à deriva, a espera de suas partidas, as generosas embarcações que a tudo e a todos acolhia: esteiras de dormir, redes pesadas e coloridas, rádios, cadeiras de praia, lanternas, fogareiros, secadores de cabelo, animais de estimação, ventiladores, bolas, televisores portáteis, torradeiras e o que se puder imaginar de necessário e útil a uma viagem de dias.

A rampa de descida reverbera ao som trepidante das pisadelas da massa que, aos poucos, vai lotando o saguão de espera. É, na verdade, um amplo compartimento, suficientemente arejado para acolher centenas de viajantes que ali se aglomeram. A cada vinte minutos um apito agudo e prolongado anuncia uma nova partida. O auto-falante dá a conhecer o destino da viagem e o local rapidamente se esvazia para dar lugar ao tropel seguinte e a mesma cena se repete. Seria assim durante toda a manhã e, com menor intensidade, no restante do dia. Também eu, por enquanto, espectadora atenta e curiosa, faria, dentro em pouco, parte daquele cenário, para mim, inusitado, mas tão presente na rotina daquela população.

– Não sabia que gostava de se levantar tão cedo. – Percebi, quando disse estas palavras, olhando por cima da cabeça de Vítor, que esboçara um sorriso antes de se voltar para mim seu rosto jovem e bronzeado. Ato contínuo levantou-se, mas tão atabalhoadamente que salpicou as pernas da bermuda branca que eu usava; teria agora que permanecer um pouco mais por ali, à beira do rio, até que a brisa fria me viesse ao auxílio e me devolvesse a devida aparência. Falando em aparência, a de Vítor não era das melhores. Estava abatido de rosto e tinha olheiras. Calculei que estivesse faminto e não me enganei, pois, devorava agora a refeição matinal à minha frente no mesmo café. Confessou-me o que me partiu o coração.

– Por que na rua? Não é lugar para se dormir, muito menos para viver. Há quanto tempo se encontra nessa situação?

Levantou as duas mãozinhas, mostrando-me sete dedos, o que me deixou ainda mais triste. A alegria de conhecer Vítor, diante daquela situação tão infeliz, e do que fiquei sabendo em seguida, desvaneceu-se completamente. Eram seus pais duas das vítimas fatais do terrível naufrágio, ocorrido há alguns dias nas águas do Tocantins e que fiquei sabedor através da imprensa do Rio de Janeiro; foi tão grande o choque que lhe lavara a voz. Vagava agora nas ruas como um cão sem dono. Muito pouco sabia eu sobre sua família. Que era filho único eu sabia; que amava os pais mais do que tudo neste mundo tornou-se ainda mais evidente para mim após a constatação daquele seu estado em que a voz emudecida, as lágrimas rolando na face e o estado de abandono enterneciam- me vorazmente.

Na tentativa de amenizar uma dor tão profunda, desviei para cenários mais alegres o foco de nossa conversa. Era-me penoso, entretanto, disfarçar meu sentimento. Levaria para a minhas longas horas de viagem um espírito contagiado pelo choque daquelas constatações; precisava fazer alguma coisa. Após brincar um pouco e extrair alguns risos tão comuns a um menino de 12 anos, indaguei de seus parentes. Certamente teria tios, primos ou avós dispostos a acolhê-lo. Não é uma grande cidade; é impossível que sua história não tenha levantado comoção suficiente para impedir-se um descaminhamento e o desperdício de mais esta existência. Vítor era na verdade um desses pequeninos entregues ao descaso da sociedade. No seu caso, tornava-se a situação mais séria e revoltante, posto ter sido o produto de uma inexorável fatalidade.

Em pouco mais de trinta minutos com Vítor o que consegui captar e assimilar de seu limitado poder de comunicação deixou-me uma certeza: em nome de uma vida que viceja e clama por desenvolvimento, eu precisava fazer alguma coisa.

Segundo minhas conclusões, os parentes que lhe restaram ali naquela cidade não teriam a mínima condição de cuidar de sua criação. Era um casal de tios cuja vida encontrava-se abaixo da precariedade. Alcoólatras, com uma penca de filhos miseráveis, viram em Vítor nada além de uma boca a mais; afeto e cuidado estariam, portanto, descartados.

Três dias foram o suficiente para a percepção inteligente do menino prever o mais infeliz dos destinos e fugir com a roupa do corpo. Não falhara a sua intuição, pois que não foi procurado; quem sabe, um alívio para o casal e umas peças de roupa a mais para os outros, vítimas da imprudência.

A manhã avançava. A série de nimbos, que muito cedo predispunha um dia chuvoso, dissipou-se por completo, deixando muito claro o firmamento; o sol voltou a se abrir. Esta sensação de bem estar e de conforto, própria dos dias de verão, transparecente no brilho e na frescura das águas, na agitação dos pássaros e no verdor das folhas, predominava em quase todas as fisionomias que por nós desfilavam. As crianças iam presas pelas mãos dos seus responsáveis porque havia o risco de se perderem no meio da multidão, mas expressavam em saltinhos, gritos de alegria e outros gestos toda a felicidade do momento. Vítor parecia contagiar-se nesta onda de alegria. Deixou num instante para trás o desânimo e a tristeza como se algo houvesse tocado o seu espírito. Ab riu um largo sorriso, apontando para a estação. No prato ainda restava um pedaço do bolo de chocolate que vinha comendo e a caneca de leite estava abaixo da metade. Eu tentava interpretar o gesto de Vítor, mas não vi nada nem ninguém que o corroborasse. Contudo, uma idéia surgiu em minha mente, o que poderia representar uma solução ideal para alguém nas condições dele e, para mim, talvez, uma aventura ou, mais do que isso, um gesto de amor capaz de transformar uma vida; duas vidas, melhor dizendo. Sem ponderar as consequências nem os possíveis entraves, virei-me para Vítor e perguntei:

– Gostaria de viajar naquele barco?

Ele abriu, pela primeira vez, um largo sorriso e só então pude perceber como eram alvos e bonitos os seus dentes. A cor morena de Vítor era bastante acentuada e os traços um forte indicador de uma descendência de índio, com olhos arredondados, de grandes cílios e uma cabeleira negra cobrindo quase toda a testa. Intuí seu gesto como sendo um “sim” e olhei o relógio. Quarenta minutos era o tempo que me restava para incluir Vítor como passageiro em meu barco. Como desconfiava, não foi possível. Mas não desisti. Concordaram em transferir minha passagem para outra embarcação com destino a Borba e, para nossa sorte, para o dia seguinte, pois Vítor estaria comigo. Teríamos, então, um dia inteiro para nos prepararmos, ou antes, ao menino, falto de roupas e de brinquedos.

Era uma sensação muito agradável poder olhar aquele rostinho transformado agora junto a mim dentro do barco; um pouco de atenção, um tratamento amoroso fazem realmente uma grande diferença para alguém na situação de Vítor, valem até mais do que a vestimenta que está usando, dando-lhe um aspecto totalmente renovado. Ficaram para trás as unhas sujas dos pés e das mãos, a fisionomia triste e as olheiras da véspera. Deixei que escolhesse as peças ao seu próprio gosto, emitindo algumas opiniões. Caía-lhe bem o bermudão branco até os joelhos, a camiseta amarela e o belo par de tênis com travas. Quanto a mim não senti o cansaço e nem o tédio da viagem, pois tive em Vítor o meu passatempo.

As cidades ribeirinhas assemelham-se em muitas coisas; possuem o lugar comum da paz silenciosa própria das regiões florestais. Observam de longe a nossa chegada e nos recepcionam a seu modo. As aves que adejam ao redor dos galhos floridos das árvores, os sons indecifráveis dos animais vindos do interior da mata: o pica-pau construindo o seu ninho, a galhardia dos alegres macacos, representam o abraço de boas vindas ao recém chegado sem, no entanto, quebrar essa paz intrinsecamente imperturbável. Somados à quietude das primeiras horas matinais que nos viram chegar, trazidos por uma lancha de aluguel, estavam os meus anseios e, junto a eles, uma ponta de medo e angústia. Algumas mulheres, à beira d’água, lavavam peças de roupas que iam retirando de tinas a rredondadas. Crianças seminuas corriam na terra úmida, no meio de porcos e marrecos que entravam e saíam pelo espaço aberto em uma longa cerca de troncos aramados. Além desta, o enorme quintal de uma propriedade rústica com horta, poço artesiano e duas pequenas casas de um lado e do outro. No fundo, um pomar e, atrás de tudo, a imensidão da floresta. A casa principal, no centro e em último plano, dominava a paisagem por causa do seu tamanho. Era, na verdade, a escola onde eu iria trabalhar. Construção simples, de dois andares, mas bem estruturada, mantida pela prefeitura local.

Já esperada, fui recebida na ampla varanda por uma senhora simpática de pele muito branca e cabelos cor de prata que, sorridente, estendeu-me a mão, apresentando-se como a diretora.

– Estávamos ansiosos por sua chegada; importa-se em começar amanhã mesmo os trabalhos?

– É claro que não, mas por que a urgência?

Sei como é penoso tocar um trabalho de educação deixado por outra pessoa e em local e condições totalmente desconhecidos. Ainda bem que teria pela frente toda uma noite de sono e, se possível, aquele dia também. Ela pareceu ler em minha fisionomia e na de Vítor que, ainda de mãos dadas comigo, não deixava de encará-la; sem perder o sorriso, falou:

– É por causa de um pequeno contratempo. Estamos em semana de provas e o serviço aumentou um pouco nestes dias; sem contar com o afastamento de uma das professoras.

– Está doente?

– Sim… Ou melhor… Não sabemos ao certo. É você quem a está substituindo, só que precisamos dela por mais algum tempo até colocarmos em dia o serviço; é questão de semanas. Ela não quer vir. Na verdade, já está aposentada há algum tempo. Alega problemas.

– Entendo.

– Quando se trata de direitos a coisa tende a ser a mesma em nosso país, não importa onde se trabalha. Nunca a soube reclamando sobre este aspecto; é a mesma desde que começou conosco há quase cinco anos, todos gostam de Jovelina.

A menção deste nome chamou-me a atenção e despertou minha curiosidade.

– A senhora disse que ela se chama Jovelina e está com vocês há quase cinco anos? – perguntei.

– Quatro anos e oito meses, para ser mais exata; lembro que veio para começar em agosto. Dá-me a impressão que a conhece, ou será que me engano?

– Sim… Quer dizer… Não a conheço. Mas, conheci alguém de sua relação. Quer dizer, de uma Jovelina, cujas informações coincidem com o que está me dizendo e que se encontra aqui em Borba.

– Então estamos falando da mesma pessoa, pode ter certeza. Borba é uma cidade muito pequena para este tipo de coincidência. Em todo caso, não quer conhecê-la? – está bem próxima de nós – disse, apontando para uma das casinhas em uma das laterais do terreno.

Era mesmo muito pequena, uma varandinha simples, mas que deixava transparecer um cuidado e preocupação pelas coisas da natureza. Algumas samambaias pendiam do alto em xaxins a se balançar em correntinhas prateadas. O murinho era ornado de pequenos vasos com flores e, no pequeno espaço do jardim que havia em frente, espécies rasteiras e multicores sobressaíam em meio à rica verdura do gramado e contornavam os arbustos e os pés de ervas. Sem esperar por minha resposta ela se adiantou, fazendo sinal para que eu a seguisse. Atravessamos o portãozinho de madeira e penetramos na varandinha.

– Espere um pouco, por favor, enquanto falo com ela. – Sentei-me em uma das cadeiras ao redor de uma mesinha de vime e aguardei. Antes, porém, que a diretora encostasse a mão na maçaneta da porta, esta foi aberta por dentro e uma mulher apareceu. Aparentava não ter mais do que sessenta anos, era de uma forte cor morena, estatura média e tinha um corpo robusto. Em poucos minutos de conversa, sentadas à mesa, obtive minhas primeiras impressões de Jovelina, a mesma que não saiu da lembrança do velho relojoeiro. Alegando compromissos, deixou-nos a sós a diretora e eu pude conhecer um pouco mais desta mulher. Sua simpatia cativou-me por completo. Outra característica que apreciei foi o seu poder de decisão. Parecia realmente saber o que queria da vida. Quan to ao trabalho na escola, estava terminado; agradeceu-me por substituí-la e prometeu-me passar o serviço. Passados trinta minutos de uma conversa bastante agradável decidi-me, por fim, relatar o encontro que tive com seu ex-companheiro. Uma total transformação operou-se em sua fisionomia que demonstrou uma seriedade desconcertante; ficou lívida, encarando-me algum tempo e sem dizer palavras. Tive que quebrar o longo silêncio.

– O senhor Anselmo me pareceu uma pessoa bastante solitária; confessou-me que a ama e está sofrendo.

Sua expressão agora se fechou, revelando ódio; um ódio incontido, guardado há anos; deixara este passado reprimido nalgum canto da alma e agora a simples menção despertara um sentimento reprimido.

– Espere, tenho algo para a senhora. Não me demoro.

Ao deixar a varanda, Vítor, que estivera no pátio, brincando com outras crianças, ao ver-me, correu em minha direção, mas estancou ao ver Jovelina. De olhinhos arregalados, a boca escancarada num enorme sorriso, encheu-me de surpresa e alegria quando gritou:

– Vovó!

E disparou novamente invadindo a varanda e atirando-se nos braços da mulher. Jovelina recebia, retribuindo os beijos da criança que parecia não se conter de felicidade.

– Minha vovó! Minha querida vovó! Quanta saudade.

Minha felicidade não era menor do que a deles ao ver a alegria da mulher e ouvir pela primeira vez a voz de Vítor. A fim de não interromper aquele momento afastei-me para buscar o que tinha para Jovelina, mas ao retornar, nova surpresa havia ocorrido: o menino falava com a avó e ela tentava de fato lhe responder, mas tudo o que conseguia era articular sem, no entanto, conseguir emitir o som. Perdera a voz. Duas emoções em seguida fizeram-na emudecer. A princípio hesitei em lhe entregar a carta e o presente. Porém, ao mesmo tempo pensei que poderia ajudá-la. Eram complicados os seus sentimentos. Fui em frente.

Ao tomar nas mãos o estojo contendo um lindo relógio e ver a caligrafia no sobrescrito do envelope, duas lágrimas rolaram sobre sua face envelhecida. O que faria de sua vida daquele dia em diante é um eterno mistério.

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Romance de ficção científica – conto sinopse – Edgard Santos

Por Edgard Santos, 29 de junho de 2010 19:08

– Onde estou?

– Não reconhece? Este é o seu quarto. Sou eu, meu amor: Janet. Seja bem vindo!

Duas grossas lágrimas saltaram dos olhos de Janet ao pronunciar estas palavras. Pela primeira vez, após trinta anos de total inconsciência, Peter abrira os olhos e sua voz era ouvida. Isto merece uma explicação. E não será uma explicação simples, melhor dizendo: não será simples o seu entendimento. Pela lógica dos fatos, trinta anos são capazes de mexer com a vida, em todos os sentidos porque significa transformação, mas não no caso de Peter. Quis ele, levado, menos pela curiosidade do que pela ânsia de por em prática suas múltiplas teorias, provar ao meio científico a possibilidade de se deslocar em outras dimensões sem o uso do corpo físico. Peter aceitara este desafio mesmo ciente das dificuldades que teria que enfrentar. Primeiramente, as que diziam respeito a sua integridade física, para, depois, ter que provar à comunidade científica da qual fazia parte que dera certo sua experiência.

Cálculos matemáticos meticulosos, noites insones e um bocado de investimento financeiro. Foram estes os principais esforços a que se entregou durante anos. Deles logrou êxito por que eram os que dependiam de si, diretamente. O fator tempo, este sim, deveria representar uma incógnita e, sem sombra de dúvida, o seu maior obstáculo. Graduado em física quântica, aos vinte e dois anos de idade, passou a dedicar ao aprofundamento dessa ciência quase todas as horas do seu dia. É certo que a intuição cruzou, não raro, o caminho de suas investigações; teve, contudo, resultados práticos que o animaram vezes sem conta. Quando se sentiu convicto, iniciou a parte prática de seus estudos. Constituiu, a primeira fase, de inúmeras e cada vez mais prolongadas experiências de viagens fora do corpo. Tinha, nessa ocasião, trinta anos incompletos e já era casado. Janet, a esposa, embora um tanto cética e cheia de medos, não deixava de incentivá-lo. Em uma dessas viagens, reconheceu, ou melhor, intuiu Peter o ambiente no qual iria vivenciar as situações e se ligar às pessoas que iriam alterar todo o rumo de sua vida. Quanto ao ambiente, sua descrição e disciplina eram, na verdade, impossível, visto não se enquadrar em nada que costumeiramente faz parte de nossas concepções.

Para começar, não havia construções. Melhor dizendo, elas existiam, mas apenas dentro da mente de cada ser. Quer isso dizer que surgiam e desapareciam de acordo com a vontade do interessado. O mesmo se pode dizer dos seres com que Peter precisou se defrontar em suas viagens. Neste caso, porém, a mudança era unilateral: cada ser possuía a capacidade de se transformar, independente da vontade do outro.

Foram essas sensações, transformadas em visões cada vez mais nítidas, que deram a Peter o ânimo necessário para perseverar em suas experiências, pois se certificou de estar no caminho certo.

– Isto pode ter sido apenas um sonho. Quem pode garantir que este mundo e essas criaturas existam realmente? Você esteve ausente, fora de sua consciência, por menos de uma hora. Como pode ter visto tanta coisa e passado por tantas experiências?

Por mais que Janet se esforçasse em auxiliá-lo, se mostrava ainda cética e insegura.

– Isto prova a minha teoria, meu amor. Todo sonho é linear e a mente não consegue aprisioná-lo por muito tempo. Acabamos esquecendo ou mantemos, quando muito, detalhes vagos e imprecisos. Eu, porém, consigo me lembrar de cada detalhe de minhas experiências futuras.

– Eu compreendo. Mas, por mais sinceras e verídicas que sejam as suas teses, como pretende provar isto na prática se, como você diz, tudo se passa em outro plano?

– Esta é a parte mais difícil do meu trabalho. Pelo fato de ser eu um cientista, tudo que pretendo mostrar virá confirmado e provado através das vias exclusivamente científicas. As viagens fora do corpo a que tenho me submetido podem ser comprovadas, também cientificamente. Prepare-se, portanto, para grandes surpresas. O que tenho visto é inenarrável por meio de simples palavras. Não sei se compreenderia, estou quase certo que não.

– Tente, pelo menos. – Janet esboçou um sorriso meigo, porém ansioso. Suas faces rosadas e seus grandes olhos castanhos afoguearam-se e ela não pôde evitar a pergunta:

– Por que não me ensina a fazer essas viagens? Deve ser mesmo fascinante conforme diz; e não acha que eu poderia ser útil em situações futuras?

– Não tenho dúvidas que sim, mas não me peça isso agora. Estou no começo das experiências e ainda desconheço os riscos, se é que eles existem. Meu treinamento tem sido longo e penoso. Vamos ver o que acontece.

Peter necessitava de dias entre uma experiência e outra a fim de se refazer por inteiro, física e mentalmente, do estresse que envolvia os seus esforços. O próximo passo o levaria a tentar uma forma de contato com as criaturas que pressentira na última viagem que fizera. Orientou a esposa acerca dos cuidados que deveria ter enquanto estivesse ausente, cuidados com as prováveis reações físicas e psíquicas; sobretudo, que o não despertasse no meio da experiência. Tão convicto era Peter acerca deste pormenor que deixava a cargo e à disposição de Janet toda uma gama de instrumentos necessários à reversão de uma eventual parada cardíaca, caso isso viesse a ocorrer, mas esta possibilidade era por demais remota, embora não deixasse de ser considerada.

As primeiras idéias de Peter quando apresentadas ao meio científico tiveram, de um modo geral, boa aceitação e mínimas foras as críticas. Usou como base a visão relativista de Einstein, em que o velho espaço de três dimensões tem de ser substituído por um novo espaço-tempo, de quatro dimensões. O tempo passava assim a ser concebido como uma quarta dimensão; isto foi fundamental e necessário para a construção da teoria da relatividade geral e a subsequente revolução promovida por ela. Neste caso a gravitação entre os corpos deixa de ser vista como uma força física para ser considerada uma propriedade geométrica do espaço-tempo.

Peter, no entanto, foi ainda mais longe quando tentou demonstrar que, se o espaço-tempo, postulado por Einstein, fosse acrescido de uma quinta dimensão, então, usando-se as próprias teorias da relatividade, mostra-se que os fenômenos eletromagnéticos podem ser interpretados como tendo origem geométrica. Em outras palavras, o campo eletromagnético, a semelhança do campo gravitacional, também é geometrizável. O grande problema para ele era fazer com que fosse aceita a existência de uma dimensão que não se via, que não se detectava experimentalmente. A quinta dimensão seria uma dimensão, por assim dizer, escondida. E foi este obstáculo que fez Peter entrar de corpo e alma no estudo das viagens astrais.

Como já tivera, pelo menos para ele, uma comprovação dos efeitos de uma provável ida a uma dimensão extra, sentia agora redobrado ânimo para avançar um pouco mais. O quarto em que estava fora preparado para esta finalidade: era suficientemente arejado, sem muitos móveis e objetos além de uma cama, um armário para os apetrechos diretamente ligados à experiência e duas cadeiras de estofo azulado. O ambiente era calmo, as cores amenas e relaxantes. Não era o quarto onde dormia o casal. Peter preferiu que assim fosse para que seus momentos de desligamento do eu físico se dissociasse por completo das horas de sono, inconscientes e reparadoras. A permanência de Janet ao seu lado deveria ser minimamente possível, resumindo-se a visitas temporárias com avaliação rápida e precisa do seu esta do geral.

A quarta dimensão é a duração do tempo. É a linha que leva cada ser quadrimensional, como nós, do começo ao fim da existência. Não percebemos esta dimensão, por isso não podemos avançar ou retornar no tempo para ver nossos eus passados e futuros. Este é, porém, o conceito da física baseado em estudos e pesquisas que estacionaram em um determinado ponto. Estudando-se o átomo, outras forças que agem dentro dele foram descobertas. É sempre assim: A super visão de Peter e sua determinação em ver cada vez mais a frente do seu tempo é facilmente explicável. O que sabe hoje a ciência e tudo o mais que vier a descobrir no futuro nunca passarão de confirmação daquilo que sempre foi e sempre será a verdade. Um fato nunca deixará de sê-lo em função de uma opinião científica.

O trabalho dos grandes homens resume-se em corroborar a realidade e a investigação é, sem dúvida, o melhor caminho.

A teoria das supercordas – a noção de que as partículas que compõe o Universo poderiam ter a forma de cordas vibrantes, com cada vibração dando as características da partícula – fez os físicos desconfiarem que, a partir dessa premissa, fosse possível descrever todos os componentes da natureza numa única teoria, mas só se o Cosmos possuísse nada menos que 26 dimensões.

O deslocamento de Peter para um mundo cuja realidade seria inconcebível aos nossos padrões humanos dava-se cada vez mais nítido e carregado de detalhes. Estes impressionavam a Janet não menos que a si mesmo. Trazia ele para a esposa e para o enriquecimento dos seus relatórios, pormenores incríveis, dificilmente associáveis ao tipo de vida que estamos acostumado em nosso plano de três dimensões. A partir do quarto mês desta prática a convicção de Peter só fazia aumentar. Por esta época, graduou-se em mecânica quântica, somando esta faculdade à de física, sua grande paixão e formação aos vinte e três anos de idade. Através de teses e monografias expusera pontos de vista causadores de espanto e admiração. Seus cálculos eram precisos e despertaram interesse no meio científico. A s experiências astrais eram, todavia, um segredo entre ele e a esposa apenas. Somente falaria delas quando oferecessem base científica as suas descobertas.

A acuidade mental de Peter, conseguida pela prática e pela perseverança em suas viagens, começou a ampliar a visão dos ambientes que visitava. É sabido, por experiência individual, que a percepção espiritual do ser torna-se mais nítida na medida do equilíbrio e diminuição de suas preferências físicas grosseiras e Peter vinha há meses tentando se melhorar neste sentido. Abandonara as carnes vermelhas, o fumo e entregara-se a exercícios concentrados de respiração. Sentia-se muito mais leve, receptivo. Nas duas últimas viagens já pudera distinguir melhor, um do outro, os seres que via. Sua vontade mais controlada permitia-lhe manter por muito mais tempo a imagem original de cada ser antes que esta se transformasse, causando-lhe confusão mental. Comprovou aí Peter o grande papel da mente na comunicação interpessoal.

Como na quarta dimensão, a cada momento uma série de variáveis define o que seremos no instante seguinte, a versão que fica (o eu normal) é apenas uma entre infinitas que poderiam rolar. É uma sequência de personagens que podem ser assumidos por nós ao longo de uma existência. Partindo deste entendimento, concluiu Peter ser a quinta dimensão nada mais que o conjunto de todas essas versões.

Viu-se, em dado instante, sobre imensa plataforma que lhe pareceu líquida ou, mais precisamente, um espelho d’água de impressionante beleza. Os seres iam e vinham, desfilando a frente do corpo astral de Peter. As imagens dos seres variavam em concordância com o estado mental do cientista. Via-os agora como seres angelicais, de asas multicoloridas, hora como feras diabólicas, de enormes orelhas, rostos avermelhados e com chifres. Ciente de ser puramente mental a sua experiência, Peter buscava o autocontrole. “Preciso me concentrar e ver realmente o que quero e preciso, a bem das minhas pesquisas”. A este pensamento a situação se alterava e o ambiente também. Aos poucos ia o cientista adequando o meio a sua vontade; trouxe um rio de águas calmas e cristalinas e, para baixo de si, um tapete de grama ensolarada de uma manhã de primavera. Sentiu com isto um estado de relaxamento jamais experimentado. Não quis acreditar, mas ouviu que uma voz a ele se dirigia.

– Não vou dar a você permissão de conhecer minha aparência original. Diria que é melhor deste jeito. Parabenizo a sua inteligência e a coragem, principalmente. Este é apenas o seu primeiro passo no universo multidimensional.

– Em que dimensão me encontro? – quis saber Peter. – A conversa, situada no reino do pensamento, fluía com a rapidez de um raio. Em poucos minutos de tempo cronológico, conheceu Peter aspectos da física referentes a anos de estudo em universidades convencionais. Estava de todo fascinado, mas, uma onda, de modo incontrolável, começou a querer dominar o todo do seu ser. Dominado por esta onda de negatividade, não só a aparência da criatura tornava-se cada vez mais horripilante, como também, na mente de Peter um som macabro e cavernoso torturava-o sem cessar.

– Está diante de seres que não conhecem barreiras de tempo ou de espaço. Pela sua pergunta deduzo que pertença a um estado ou mundo limitado por dimensões. Sua mente parece grosseira e a sintonia que emite parece carregada de energia inferior. Todavia, isto é consequência da sua falta de adaptação a este plano. Diga-me agora a qual dessas formas corporais você pertence.

Dizendo isto, iniciou o ser uma séria de transformações, cada uma apresentando níveis distintos de vibrações. Desfilaram diante da visão astral de Peter formas inimagináveis a nossa humana e limitada de concepção. Colocar em palavras, então, é tarefa muito mais difícil. Poderia dizer que o ser mudava o seu aspecto como faz a superfície de um lago que, afetada pelas diferentes refrações da luz ao longo do dia, passa de turva a cristalina, mostra-se densa e compacta num determinado momento para se purificar no momento seguinte; matizes surgem, desaparecem para novamente surgirem de forma distinta, confundindo a visão, hora acalmando, hora deixando leve impressão de mal estar. Talvez pareça grosseira e insuficiente a comparação, mas não há nada no universo tridimensional que possa se assemelhar ao que testemunhava a visão astral de Peter.

A série quase interminável de identidades astrais só fazia acender em Peter a convicção da existência de inúmeros planos de existência, tendo tudo a ver com os diferentes níveis de frequência mental do indivíduo.

– Por favor, pare! Não consigo acompanhar a sua evolução – exprimiu-se desta forma Peter quando percebeu sua limitação.

– Qual a sua forma? Surja para mim, então – disse o ser.

– Não sei como poderia fazê-lo. Não pertenço a este plano.

Isto não faz sentido. Se pode se comunicar comigo certamente este plano também pertence a você.

– Tenho um corpo físico, constituído de matéria que deixei repousando na Terra.

Um intervalo um pouco maior do que o normal entre este diálogo chegou a preocupar o cientista, mas logo a voz se fez ouvir novamente.

– Então é mesmo um estado grosseiro, matéria orgânica perecível, nada mais do que um envoltório. Livre-se disso imediatamente.

Só então percebera Peter que, tão rápido como um raio, estivera o ser no plano de três dimensões. Conforme instruções, Janet deixara-o envolto em sua experiência, só reaparecendo no quarto duas horas mais tarde. Um grito de terror foi sua primeira reação ao ver o estado do esposo.

– Peter! Peter! Fale comigo. Você está bem?

Estava lívido, totalmente paralisado e sem sinais de respiração. Mais do que depressa, iniciou o procedimento de trazer o marido á consciência, embora contrariando as orientações dele.

No plano astral mental a situação não era de menor tranquilidade.

– O que fez? Sinto que algo não está bem …

– Simplesmente desprendi-o do seu corpo físico. Não precisa mais dele; bem-vindo à quinta dimensão.

– Não posso! Não posso!

– Peter! Peter! Você está bem?

Peter abraçou a mulher, tateando-lhe em seguida os braços e o rosto como a se certificar de sua presença. As cores lhe voltaram às faces, juntamente com um grande alívio. A concentração de glicose que Janet lhe aplicou nas veias fez com que reagisse à perturbação causada pelos pensamentos de medo, o único obstáculo a um bom progresso nas viagens astrais.

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O Ataque das Abelhas – Epílogo – Edgard Santos

Por Edgard Santos, 24 de junho de 2010 17:36

“No vôo nupcial destaca-se o mais ligeiro e o mais destemido zangão; entre muitos que não tiveram a mesma “sorte”, ele conseguirá fecundar a rainha a não menos que onze metros do solo, dando a ela a suprema felicidade de gerar em seu ventre os milhares de ovos que irão formar a futura colméia. Satisfeito e orgulhoso da missão cumprida, morreu o macho glorioso. Dias depois a colônia se estabelece. Não sei o que houve ao certo, mas imagino ter havido neste dia uma luta furiosa entre abelhas rainhas na disputa pela soberania de uma mesma colméia e isto multiplicado a tal ponto que se instalou o caos dentro da circunscrição do apiário.
“O zumbido, de alguma forma, assustou os animais até o momento em que um deles, alvoroçado, afastou-se da área circunscrita pelo canil. A corrente que o prendia partiu-se acidentalmente e ele pulou a cerca. Parecia endiabrado e seus uivos ensurdecedores foram a causa de sua morte. Os sons, agudos, principalmente, são o principal chamariz à abelhas propensas a um ataque. Foi o que aconteceu neste caso. Elas principiavam a atravessar da área do apiário para o terreno aberto da fazenda. O animal vinha em disparada e aí se deu o encontro. Em fração de segundos, a nuvem escura desceu inteira e abateu-se sobre o cão. Não mais se distinguia o corpo que, assustadoramente enegrecido, ainda num esforço inútil, avançou alguns metros e caiu fulminado.
“Era uma cena de fazer tremer os fios de cabelo tal o espanto e comoção que causava. Em muito pouco tempo o ar tornou-se pesado, as folhas das bananeiras que protegiam o apiário davam a prova da devastação que estava prestes a ocorrer. Os insetos que não voavam agarraram-se a tudo que encontravam pelo caminho.
“Eram tantas e em tão grande fúria q ue a nuvem, enorme a princípio, descontrolou-se, gerando então enxames incontáveis, dissipando-se para todos os lados. Como não podia deixar de ser, os cães foram os primeiros a serem atingidos. Dos três cavalos que possuíamos, dois, embora várias vezes picados, conseguiram, em disparada impressionante, sair do alcance delas, mas o potro de Gracinda, minha filha, não teve a mesma sorte, muito menos a agilidade dos outros e morreu terrivelmente. As primeiras horas de uma manhã de sábado testemunharam este massacre e estávamos todos dentro de casa sentados à mesa do café quando veio de Gracinda o alarme. Seu potrinho querido vacilava a poucos metros de nossa janela e, atrás dele, endiabradas, as abelhas. Formavam uma comprida e espessa linha que, em linha reta, visava o alvo, certas de alcançá-lo. Quando isto se deu, já estávamos na varanda e minha principal preocupação era conter minha filha. Estava desesperada ante a visão do animalzinho. Quando ele foi ao chão, abatido pelas centenas de ferroadas, tive que cair sobre ela impedindo-a de saltar sobre o pequeno muro e ganhar o lado de fora. Fiz com que nos precipitássemos o quanto antes de volta ao interior da casa a fim de evitar o pior, pois o ambiente configurava-se a imagem do próprio inferno. Mal entramos vimo-nos acompanhados de um punhado delas; haviam penetrado na casa antes que pudéssemos impedir a invasão.
– Verifique imediatamente cada cômodo da casa e feche todas as entradas e saídas – disse a Nilma.
“Arrependi-me mais tarde de não ter tomado para mim a responsabilidade de fazer o que ordenara a Nilma. Tê-la-ia ainda a meu lado se não tivesse sido tão idiota. Enquanto me ocupava em acalmar minha filha, não dei pela sua demora. Somente mais tarde, através do exame cadavérico ficou comprovada à enorme susceptibilidade de seu organismo à picadas de abelha. Bastaram algumas dezenas para que um choque anafilático acel erasse a sua morte. Encontrei-a sem sentidos sobre a cama de um dos quartos. Vesti, mais do que apressado, meu paramento de apicultor e saí desesperado e em prantos em nossa caminhonete. Debalde foram os esforços da equipe médica. Nilma faleceria horas mais tarde fazendo de mim o mais infeliz dos mortais.
“Narro agora a você as últimas horas que aqui passei antes de estar fora uma noite inteira velando o corpo de minha mulher, dando-lhe o adeus final.
“Os primeiros raios de sol começaram timidamente a banhar a minha propriedade. Por todos os lados, as marcas da passagem das abelhas e os efeitos da destruição que elas causaram. A superfície do lago, de ponta a ponta, expunha restos de asas, ferrões e muitos, mas muitos, insetos sem vida. Alguns animais foram abatidos na água após tentativa desesperada de se livrarem da morte. Dois dos meus melhores cavalos lá estavam, os mesmos que eu vira horas antes em fuga desesperada. Havia tam bém um cão, duas cabras e até coelhos. Soube então do que acontecera ao Altamiro. Os outros empregados da fazenda seguiram à risca as minhas orientações e advertências no caso de um ataque e pensaram duas vezes antes de tentar enfrentá-las ou mesmo impedir a proliferação dos enxames. Mantiveram-se em suas casas e sequer envolveram-se na luta entre elas e os animais, somente o fazendo para socorrer o pobre Altamiro que pagou caro por sua inépcia. Finalmente, para não assustá-lo, quero dizer que a situação hoje é bem outra. Considero o que houve uma fatalidade somada a minha pouca experiência. Prova disto é que já lá se vão anos e nunca mais houve o menor acidente. Mas, tudo tem um preço, como deve ter visto pela modernidade das construções, o que nos deixou verdadeiramente protegidos. Aliás, precisamos conversar melhor sobre o preço. Quanto foi mesmo que pedi pela propriedade?
Fingi que não ouvira a pergunta e desconversei. No caminho de volta ia eu pensando na possibilidade de fechar o negócio que me parecia ainda excelente. Mas, confesso que a história não me saía da mente. Deu-me vinte e quatro horas para me decidir, do contrário, outro pretendente tomar-me-ia o lugar. Só me resta então uma boa noite de sono e acordar com a decisão tomada e sem arrependimento.

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O Ataque das Abelhas – (3) – Edgard Santos

Por Edgard Santos, 23 de junho de 2010 20:34

E quanto aos efeitos da ferroadas sobre o seu organismo? Creio que dezesseis é um número bastante alto; o senhor deve ter sofrido um bocado.
– Isto varia muito de uma pessoa para outra. É evidente que a dor e o desconforto beiram o insuportável. Cada um de nós apresenta um determinado nível de resistência em relação ao número de picadas. Pode-se morrer em questão de minutos depois de receber no corpo de dez a vinte ferroadas ou sobreviver sem sequelas mesmo com o corpo enegrecido por centenas de ferrões.
– Isto é surpreendente; chega a ser inacreditável.
– Mas não é. E Altamiro é uma prova viva.
– Quem é Altamiro?
– Um dos meus capatazes. Hoje já passa dos sessenta anos, mas contava mais de cinquenta quando ocorreu a grande catástrofe; já era portanto, um senhor de certa idade e eu o dei como morto ao constatar o estado em que ficou após as 367 picadas que sofreu.
– O senhor não pode estar falando sério – disse eu, totalmente bestificado.
– É a pura verdade. O senhor poderá inteirar-se do que aconteceu naquele verão pela boca do próprio Altamiro, caso isto o interesse. De minha parte, o que tenho a dizer é que o homem goza hoje de excelente saúde como se nada disso houvesse ocorrido com ele. Tínhamos um médico hospedado na fazenda e que lhe prestou os primeiros socorros, colocando-o fora de perigo. O comprometimento das funções renais é um dos fatores que podem levar à morte caso não haja um socorro imediato. A aplicação de um antiistamínico, a retirada de grande número de ferrões antes que boa parte do veneno fosse inoculado foram o que contribuiu, entre outros cuidados, para que não tivesse uma parada cardíaca, o que deixou abismada a equipe do hospital para onde o levamos em seguida.
– O senhor falou em catástrofe. Imagino que algo de muito ruim deva ter acontecido nesta fazenda para deixar o homem naquele estado, somente um enxame gigantesco e descontrolado o faria.
– E foi exatamente o que se deu. Quando adquirimos a propriedade, o mato era o grande hóspede. Havia umas poucas árvores de espécies desconhecidas para mim e que acabei sabendo, não eram rentáveis. A maioria, palmeiras produtoras de frutos não comestíveis, abundavam em áreas inapropriadas. Convenci-me de que algo deveria ser feito para alterar aquele cenário, já que não via utilidade naquele tipo de vegetação. As copas eram enormes, como a querer abraçar o céu com sua folhagem imponente. As rolinhas eram, de todos os outros pássaros, as mais beneficiadas. Faziam seus ninhos quase sempre no topo dos galhos mais elevados e eram tão bem construídos que nenhum vento os derrubava. Ao passear por ali não era raro dar com uma delas debicando os coquinhos que, por maduros demais, despencavam ao menor toque e vinham ao chão. Era assim: fruto para baixo, rolinha para cima, a transportar o pequeno estoque para a alimentação da prole. O chão vivia lotado, o auge da produção lançava para todos os lados os pequenos frutos; adubo futuro para o mato que crescia sem abundância.
“A natureza é a minha paixão, mas uma natureza bela, onde, através da interferência humana se possa unir dádiva e criatividade. Mandei devastar toda a área de mato e mantive as árvores. Minha intenção primordial era plantar coqueiros que me dessem sombra, água, não só fresca, como também de liciosa e salutar e, logicamente, um magnífico retorno financeiro. Dava inúmeras voltas pela fazenda todos os dias. Minhas manhãs gastava-as em caminhadas e conjecturas. À medida que a terra ia ganhando novo formato; que o mato, agora rasteiro, me fornecia uma nova visão do todo, dando vez às outras formas de vida que, antes ocultas, não vicejavam, meus pensamentos se aclaravam e me brotavam idéias. Nas minhas primeiras semanas, apreciava sem interesse a vegetação até porque não havia vegetação. Distraía-me da minha varanda com os sons diurnos, a começar pelos pássaros fazendo a festa e as rolinhas, sempre elas, enfileirando-se nos fios e ali ficando a maior parte do dia. Quando caía a chuva, fato frequente por estas bandas, a água descia em torrentes impetuosas e se acumulava em vasta área. A elevação do terreno por trás do que hoje constitui o lago punha em meu espírito uma nota de paz e de bem-aventurança. Somente a contemplação deste quadro e s eus efeitos teria sido o bastante para compensar o que investi; o lago que usufruímos hoje nasceu desta vontade de ampliar o que o Criador, em forma bruta e natural, nos tem concedido. Consegui transformar uma simples queda d’água num arrojo de construção que enche de prazer a todos que o apreciam.
“Mas me faltava algo, o que fazer para preencher esta minha sede de belo? como prover o chão que agora me pertencia de uma forma a me satisfazer o espírito sem menosprezar o bolso? Em minhas andanças, sentindo com intensidade o ar puríssimo a me encher de vida, olhando ao redor com o coração leve e desprendido, constatei a grandeza da primavera. Os arvoredos estavam de cara nova, vestidos de flores brancas, as pétalas dançando ao sabor do vento. A pequena alameda não me despertara interesse desde a minha chegada. Só então percebi o valor do tempo em nossas vidas. Por que não criar aqui um belo jardim? O terreno está limpo. O espaço é amplo e a terra é muito boa. Colocamos mãos à obra e em poucos meses tínhamos ali um dos locais mais aconchegantes de nossa fazenda. Finalizamos um cercado de girassóis; suas enormes pétalas arredondadas parecia querer saltar e nos cumprimentar quando nos aproximávamos. As margaridas e as dálias proliferavam com tal entusiasmo que, com frequência, eram por nós arrancadas para que seu crescimento acelerado não prejudicasse as demais. As rosas eram um espetáculo à parte, enchendo de admiração os olhos dos visitantes.
A polinização é, por assim dizer, o intercâmbio do amor entre uma flor e uma abelha. Esta procura o néctar que lhe mantém a vida e em troca, como agradecendo a permissão do encontro e do beijo, abençoa a outra, vivificando-a. Deste ato sublime resulta a continuidade da vida e somos nós os maiores beneficiados. Envergonho-me da raça humana, desmerecedora, a meu ver, desta graça tão antiga e natural e que agora escasseia, pois ameaçam tombar, sorumbáticos os seus doadores. Falo da depredação das matas e do avanço inexorável de nossas cidades. No Japão, não sei se sabe, desesperam-se os ecologistas com as ações inadvertidas do homem que vem poluindo os ares. Noticiou-se recentemente a necessidade de polinizar-se imensa região de forma artificial, flor a flor, pelo fato de terem desaparecido as abelhas, sensíveis aos desajustes ambientais.
“Nosso jardim se tornou famoso na vizinhança; consideravam-no o cartão postal da cidade. Nossa região é ponto turístico para estrangeiros. Petrópolis e Teresópolis oferecem atrações variadas para quem chega de fora. Itatiaia goza parte deste prestígio e fica muito a perder em belezas naturais e clima super saudável. Daí, não sei por que meios, o interesse pelo jardim crescia pouco a pouco. Passamos a fazer excursões, organizadas com guias, contratamos funcionários para a confecção dos arranjos. Não vou dizer que era uma ativid ade lucrativa, mas era, sim, antes de tudo, prazerosa. Todavia, isto não vem muito ao caso para o que quero narrar, mas foi preciso que eu o mencionasse a fim de que o senhor tenha conhecimento da origem dos fatos.
“Andar entre as leiras do meu jardim, apreciar sem medo algumas dezenas de abelhas passeando entre as tulipas, descendo sorrateiramente os bulbos dos copos de leite e ali ficarem a sugar o pólen, colher o néctar, constituía para mim um prazer inigualável. Elas só se tornam agressivas quando em processo de formação de suas colônias, quando constroem suas colméias; e quando qualquer aproximação inadvertida e negligente representa perigo.
“No jardim sentia-me à vontade; menos do que um mero espectador, um ávido pesquisador detalhista e curioso na medida em que, pacientemente, estudava, inteirando-me dos seus hábitos. Com uma câmera e uma máquina fotográfica, captei os detalhes que julguei os mais interessantes para o meu propósito.
“Depois de juntar análises de tudo que havia colhido e reestudar os apontamentos que fizera dei-me por satisfeito e passei à parte realmente prática. Deixara, com esta intenção, um pedaço afastado de terreno cuja extensão mostrou-se ideal à instalação do apiário, foi ali que passei os momentos mais agradáveis desde que vim para cá.
“Vou poupá-lo de detalhes referentes à minha atividade de apicultor. Quero acreditar que não desconheça as vantagens de se mexer com abelhas, elas são um mundo à parte de laboriosidade e organização. Poderia afirmar que proporcionei a elas um verdadeiro paraíso. Com a riqueza de variedades presentes no jardim, um número incontável de colméias e criadouros a lhes facilitar todo o processo de interatividade e de produção, tudo em uma mesma região, previamente trabalhada para este fim, a prosperidade seria uma questão de tempo para mim, posto que para elas já era um fato no tório e consumado. Empreguei boa parte de tudo que possuía em forma de capital e toquei o negócio cheio de esperança. Estava certo. Em questão de meses já era um produtor que podia enfrentar sem medo a concorrência. Foi quando se deu o primeiro acidente.

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O ataque das abelhas (2) – Edgard Santos

Por Edgard Santos, 22 de junho de 2010 17:16

“Surgiu, para os lados dos coqueirais, uma colméia. Com freqüência, o forte calor trazia-nos para a varanda à hora das refeições. Os doces eram, como ainda são, a paixão de Nilma e a alegria das nossas crianças. Passou a ser comum a presença de uma ou outra abelha volteando as travessas em busca do néctar, seu precioso alimento. Pareciam inofensivas, pousando solitariamente aqui e ali, mal dávamos por elas.

“Mas, ao avistarmos a colméia a reação foi bem outra. Estava no alto de uma palmeira e pude avaliar, pelo tamanho da casa e pela enorme quantidade delas, que se encontravam em pleno processo de produção do mel. Felizmente consegui mantê-las a certa distância e a tempo de me prevenir e a Nilma do perigo iminente. Costumávamos realizar esses passeios com as crianças e neste dia, pelo motivo que hora não me lembro, elas não puderam nos acompanhar.
“Calculei em centenas o número delas. Algumas davam voltas em torno da árvore, num movimento frenético, alvoroçadas, como a se precaverem contra um ataque externo. Minha principal preocupação era que sentissem nossa presença o que significaria um ataque. Uma que fosse, ao se afastar das demais e picar um de nós já seria o suficiente para deflagrar um ataque em massa, pois o hormônio desprendido é um sinal poderoso a atrair todo o bando. Meus temores se confirmaram quando senti, circulando em torno de nossas cabeças, algumas abelhas. Sabedor do risco de executar movimentos, o que pode torná-las ainda mais agressivas, preveni minha esposa:

– Não se mexa, por enquanto. Fiquemos exatamente na posição em que estamos.

– Mas, elas vão nos atacar! Precisamos fazer alguma coisa, estou com medo.

“Nilma era de uma palidez impressionante. Sentíamos o zumbid o dos insetos bem próximo de nossos ouvidos, o que aumentava ainda mais nossa agonia. Minha intuição alertava sobre a iminência de uma investida sem trégua, porque é sempre assim que acontece em se tratando de abelhas: são capazes de perseguir um intruso por até 400 metros e, como as cores escuras atraem-nas muito mais do que as claras, conclui que seria eu o mais visado, pois Nilma trajava bermuda branca e blusa azul clara, enquanto eu tinha vermelho na camisa e calça preta.

– Corra em direção à casa. Caso seja perseguida cubra imediatamente a cabeça, os olhos, principalmente. Use a própria blusa se for necessário, não se preocupe com o resto do corpo. Importante: corra em ziguezague, sempre em ziguezague. – Mal terminei estas palavras e ela disparou como se fugisse de uma avalanche.

“Quanto a mim, tratei também de correr, mas, em outra direção. Eu não me enganara: foi a mim que elas deram preferência e o fizeram com en tusiasmo. Logo às primeiras picadas no rosto, desfiz-me da camisa e me protegi. Mesmo trazendo por baixo uma camiseta senti as picadas, pois os seus ferrões não representam obstáculo. Mal via o caminho a minha frente, não ousava expor os olhos mais do que o tempo necessário para ganhar alguns passos. Fazia-o a intervalos regulares e com muita cautela; agia mais como um cego do que um ser humano normal. Uma ferroada na vista representa cegueira em quase cem por cento dos casos e este era o meu maior medo.

“Como corria em ziguezague por entre as árvores, a possibilidade de um choque a qualquer momento era outro fator que me preocupava. Sabia, porém, que o desespero e o descontrole eram inimigos tão poderosos quanto aqueles que me perseguiam. Este pensamento ajudava-me a manter a calma e buscar uma solução imediata.

“Embora conheçamos as saídas para tornarmos ínfimos os efeitos de um ataque de abelhas, não é nada fácil decidirmos qual deles vamos colocar em prática. Tudo acontece muito rapidamente, deixando-nos em tal estado de perturbação que se torna dificílimo concatenar as idéias no sentido da ação pronta e eficaz.

“Sendo assim, fiz a primeira coisa que me viera à mente, numa tentativa de me livrar o quanto antes daquela situação cruciante: como a casa estava distante e eu sabia que indo para lá estava pondo em risco minha família, posto que o ataque já fosse uma realidade, optei por uma saída não menos arriscada, mas com grandes chances de me sair bem: corri para o lago e mergulhei de cabeça. Este corpo roliço e bastante pesado que está vendo não existia naquela época. Embora não fosse magro, estava em ótima forma física e acho que foi o que me salvou. O lago não era próprio para uma prova de nado, outro fator que veio em meu auxílio. Nadando por baixo d’água procurava afastar-me o máximo, mas toda vez que vinha à tona lá estavam elas como se algo em mim as atraísse. Felizmente, consegui emergir bem próximo da margem oposta àquela em que mergulhara e esta foi a minha sorte, pois lá a vegetação era abundante e eu consegui ocultar-me quase que inteiramente sem precisar estar submerso. Para confundir definitivamente esses seres superdotados de sensibilidade que são as abelhas usei de uma estratégia que aprendi nos livros, mas ainda não havia colocado em prática; a bem da verdade, tudo que fiz neste dia para livrar-me de um ataque que em muitos casos se torna fatal – e acabou funcionando – eu aprendera nos estudos e nas pesquisas que fizera. Falo do feromônio que é desprendido do corpo da vítima no momento da primeira picada e emitido para o local do enxame como um sinal único: picar. Na mesma proporção, o hormônio liberado de uma vegetação densa que se agita inibe a ação do feromônio. Foi o que fiz ao chegar à outra margem: ocultei-me e pus-me a bracejar entre os arbustos aquáticos; deve ter sido o que evitou o pior. Quando tomei coragem e abri os olhos, pois já tinha a cabeça descoberta e nada sentia, não vi sinal delas; concluí então que havia vencido esta batalha. Mas isto, meu amigo, foi apenas uma pequena demonstração do que esses seres são capazes. Devo salientar que as abelhas que me atacaram não eram da mesma espécie das que habitam aquele apiário. Recebi ao todo dezesseis ferroadas, a maioria no peito e nas costas. Felizmente e pela minha cautela, só quatro foram no rosto. Constatei, pelo estudo que fiz em seguida do veneno, serem da espécie européia. As africanizadas, que são as que cultivo, são excelentes na produção mas, por outro lado, seu sinal de agressividade é incomparavelmente maior, por isso são temidas e respeitadas.

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O ataque das abelhas (I) – Edgard Santos

Por Edgard Santos, 21 de junho de 2010 20:15

A proposta era irrecusável. Na verdade, tudo o que eu queria e que não saía do meu pensamento. O que, há anos, vinha economizando visava a realização desse sonho. Procurava, num esforço singular, não dar demonstração do meu entusiasmo ao reconhecer que a quantia pedida ia mesmo aquém do que realmente valia aquela propriedade. O homem parecia feliz e muito interessado em fechar comigo o negócio. Conversávamos há horas, já tendo percorrido, em quase toda sua extensão, e a pé, aquela magnífica fazenda. Andávamos agora a passos lentos, tirando proveito da longa e aconchegante sombra fornecida pela plantação de coqueiros no auge da produção. Ele era um senhor educado; a fala macia, a afabilidade nos gestos traíam a apar ência de quem era acostumado à vida no campo. Tinha, porém, uma robustez própria do fazendeiro, o olhar vivo e penetrante e uma cor de pele indiscutivelmente saudável, curtida no bucolismo.

– O senhor não vai se arrepender – me dizia, sempre com um sorriso – olhe para isso, é a perder de vista. Olhe aquele lago, veja a exuberância do pomar. Diga-me se já viu coisa igual.

Não era exatamente um pomar, mas uma plantação em série de variados tipos de frutas. Segundo me contou, foi sua atividade principal durante longos anos depois que se aposentou. Chegou a abastecer dezenas de entrepostos com o negócio das frutas. As laranjas, as bananas, os melões e abacaxis superavam as fazendas vizinhas em produção, superlotando os caminhões em épocas de colheita. Não faltava, nessas ocasiões, trabalho para quem desejasse um ganho a mais.

– Pode não ser a sua especialidade – continuou ele, – não era também a minha; não imaginava que mexer com a terra trar-me-ia tanto prazer. Quando vi que este prazer poderia me proporcionar também um bom dinheiro, arregacei as mangas e não mais parei a não ser quando outra atividade surgiu e me envolveu de tal forma que não tive tempo e nem interesse para dedicar-me a outra coisa.

Ele falava da apicultura. Numa área da fazenda, segundo me disse, criteriosamente selecionada e preparada, ficava o seu apiário. De onde estávamos podia-se avistar, além do lago, protegida por cercado natural, com bananeiras enfileiradas e entremeada de bambuzais, a vasta área. Em nosso passeio, havíamos passado ao longe e eu me lembro desde então a impressão que me ficara: a visão não alcançava o fim das colméias. Logicamente não podíamos entrar naquele terreno por estarmos desprotegidos, mas, confesso que minha enorme curiosidade em conhecer bem de perto um apiário e o ímpeto que me dominava eram incontidos e ele percebeu minha intenção, pois me preveniu:

– Se pretende fazer o que estou pensando, e estou certo de que é isso o que quer, deixe-me alertá-lo: jamais, por qualquer que seja a razão, penetre neste apiário sem a vestimenta adequada. As abelhas que lá vivem são da espécie africana, portanto as mais perigosas. São, por outro lado, as melhores em termos de produção e, se hoje sou um homem rico, agradeço, principalmente, a esta parte da minha fazenda, mas não esqueço os momentos por que passei. – Notei que seu rosto tomara uma expressão de horror, como se a simples recordação dos fatos o transformassem.

Já estávamos de volta à varanda principal, depois de uma visita longa e demorada aos recantos mais importantes da propriedade. Desfizemo-nos de nossas botas pesadas e cheias de lama e voltei a me sentir confortável ao calçar meus sapatos e sentar-me, o que há horas não fazia. Tínhamos ali, ao sabor de uma xícara de café, uma visão privilegiada do lago, com suas águas serenas a transmitir paz. Ao findar lentamente a luz do dia, os últimos vestígios de claridade permitiam ainda a visão do longo renque de árvores dominando a paisagem. Vendo o jeito entusiasmado com que eu contemplava aquilo tudo, ele, levando aos lábios a xícara, disse:

– Fantástico, não é mesmo? No entanto, não foi sempre assim. Muito daquilo que viu hoje é o resultado de uma transformação. O que eu queria, levado pela tristeza e abatido pelo desânimo, era abandonar tudo e voltar para a cidade e lá viver. Como não sou pessoa inclinada a uma vida inativa, o que fiz foi trabalhar a hipótese de adquirir na praia de alguma cidade do interior um bom lote de terra e levantar ali uma pousada para turistas ávidos de conhecer novos ares. Mas, graças à insistência de minha mulher e sua coragem, ficamos e reconstruímos passo a passo a nossa querida fazenda. Das construções que visitamos, boa parte delas não existia antes da tragédia.

– E foram as abelhas as responsáveis?

– Em parte, sim. Em parte. Posso dizer que foram as culpadas de tudo. A partir do seu ataque veio todo o resto. Mas, deixe-me contar como tudo aconteceu.

“Minhas intenções, ao adquirir este pedaço de terra, não eram diferentes das que o senhor acalenta: ter uma terceira idade caracterizada pelo sossego e ao mesmo tempo ganhar dinheiro com atividades que nos enchem de prazer e nos enriquecem a alma. O sonho de possuir um apiário sempre me fora presente ao espírito e as andanças pelo local no dia da negociação fortaleceram em mim esse acalanto. Quando vi a área coberta de densa mata, não tive dúvidas: seria aquele local. Tive que ser relutante aos pedidos de minha esposa para deixar de lado este projeto arriscado e fazer do local uma horta. Mas, eu estava decidido e já vinha me dedicando há semanas ao estudo desses fantásticos seres pequeninos.

Contudo, eram tantos os afazeres que necessitavam da minha atenção que me vi adiando a iniciativa; porém, os estudos não cessavam. Um acontecimento fortuito e muito bem vindo acabou por arrefecer a teimosia de minha mulher e, diria até, transformar sua posição de opositora a uma simpatizante da apicultura e minha maior auxiliar. A minha decisão de envolver-me no ramo das abelhas já era um fator decretado em meu íntimo e eu sabia que em algum momento conseguiria o apoio de Nilma. À revelia, já havia adquirido toda uma parafernália essencial à atividade e trazia-a escondida a espera do momento oportuno e este chegou.

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Surpresa amorosa – Edgard Santos

comentários Comentários desativados
Por Paulo Afonso, 10 de junho de 2010 0:20

Existem inúmeras e variadas formas de se contar uma história e esta que vou utilizar poderá parecer, à primeira vista, um tanto grotesca e superficial, mas não o é. E o leitor poderá assegurar-se disso se decidir-se a lê-la de forma abstraída, sem afetação; como se estivesse a passear os olhos sobre as linhas de uma correspondência rara, de alguém que há muito tempo não manda notícias. A fidelidade é muito discutível nos dias de hoje. Criou-se, em quase todas as mentes, a concepção, a meu ver, errônea, de que é infalível a traição; de que é impossível ou antiquado viver-se eternamente ao lado da mesma mulher e dedicar-se a ela, somente a ela, de corpo e alma, compartilhando exclusivamente com ela as palavras de amor, os segredos de alcova e os momentos de sexo. A facilidade com que se trai e o encobrimento do ato têm feito da rotina de inúmeros casais não mais do que um esforço para manter as aparências, um cumprimento dos ritos, um apego às formalidades impostas pelo padrão social.

Para Alberto, mulher é somente um objeto cuja utilidade não vai além de proporcionar prazer ao homem além de servi-lo em toda e qualquer situação; não via outra função no sexo feminino. Segundo o seu ponto de vista, as mulheres não têm inteligência, são sentimentais ao extremo e facilmente levadas pela perspicácia e pela sutileza do homem; este, sim, seria o sexo da força e da dominação. Dentre os colegas de repartição de Alberto, havia Sidney, que não aceitava como os outros tais opiniões machistas e vivia; a repreendê-lo com veemência.

– Você nunca esteve apaixonado, já se vê. No entanto, meu caro, nenhum homem será digno do amor verdadeiro de uma mulher se não tiver puro o seu coração. Digo a você, não há intuição mais acertada do que aquela que parte do coração feminino. Elas não vêem com os olhos, não pensam com a cabeça. Podemos, sim, enganá-Ias o quanto quisermos e elas farão vista grossa, sofrerão caladas e fingirão estar felizes ao nosso lado em nome de um compromisso religioso, para o bem dos filhos e de sua própria reputação. Mas, creia, nunca, mais serão as mesmas. E tolo e insensível é o homem que não percebe isso.

Você fala assim baseado em filosofia, meu caro Sidney, e não em experiência própria. Todas as mulheres são iguais no que se refere ao amor, não há diferença entre a branca, a negra, a madame da alta sociedade ou a pobretona: nunca resistem a uma boa cantada. Caem feito uma pena na lábia do homem que estiver disposto a conquistá-la; e não é preciso dinheiro nem aquele carro do ano, basta um pequeno entendimento da psicologia feminina.

– De onde foi você tirar essas idéias repletas de machismo e presunção, meu amigo?

– Não é machismo nem presunção. Eu, sim, falo de experiência própria baseado no muito que aprendi em minhas saídas noturnas em busca de mulheres. Elas não dizem “não” em hipótese alguma. É preciso ler em seus olhos, mergulhar na sua psicologia. Quando dizem “não” estão querendo dizer “talvez” ou um “quem sabe?”. Quando dizem “talvez” você pode considerar certa a conquista, pois isto significa “sim” para o amor. Esta frase me fez precaver-me contra aquelas que dizem “sim” no primeiro encontro. Estas eu deixo para aqueles que se dizem entendedores no assunto, mas, na verdade, nada sabem; pessoas como você, por exemplo.

– Aí é que você se engana, caro Alberto. Posso parecer a você um filósofo do amor, alguém que estudou o coração das mulheres através da literatura de ficção e aprendeu com as experiências dos apaixonados. Assim, estaria eu repleto de teorias, carregado de lições que a vida de terceiros me ensinou. Sem dúvida, passaria por um professor requisitado e merecedor de todo respeito, mas não é este o meu caso. Não sou um vendedor de experiências alheias, pois vivi as minhas próprias experiências e são essas que procuro passar aos que desejam me dar ouvidos.

– Marina não é a primeira mulher na minha vida, mas será, com toda a certeza, a última. Posso afirmar isto com toda a convicção da minha alma. Ao seu lado conheci o verdadeiro amor, mas não foi sempre assim e, se volto ao passado, é para extrair dele as lições que a vida me deixou; sinto-me hoje fortalecido contra as paixões do mundo que tanto fazem sofrer os incautos. Se quiser conhecer a minha decisão, ouça-me e depois diga se concorda ou não comigo.

“Gastei grande parte da minha juventude em flertes e badalações. Achava que entendia o coração feminino e, conquistar uma mulher era para mim tão fácil e natural quanto dirigir um automóvel. No começo dá aquele nervosismo e uma sensação de insegurança nos diz que não conseguiremos ir adiante. Contudo, ultrapassada essa fase sentimo-nos totalmente donos da situação e não há obstáculo insuperável É assim que me sentia em relação às mulheres e considerava incapazes e antiquados os amigos que viviam frequentando as boates noturnas, em busca de mulheres públicas. Como podiam pagar para fazerem sexo se existiam mulheres sedentas de carinho a espera de uma proposta um pouco mais ousada?

“Aos vinte e um anos eu já era uma pessoa independente e podia fazer da vida o que bem entendesse. Não exagero ao dizer que escolhia a mulher para sair. Possuía, num dos melhores recantos da cidade, um apartamento aconchegante, meu ninho de amor. Desfrutei ali momentos inesquecíveis, paixões avassaladoras. Mulheres deslumbrantes caíam apaixonadas após deixarem as suas marcas, seus cheiros e suas declarações amorosas em minha alcova. Ao relembrar tudo isso me bate a saudade de um relacionamento em especial; e é sobre ele que quero falar.

“Conheci-a na noite, mais especificamente, em uma festa de casamento que se estendeu muito além do horário habitual. Quando se encontravam os noivos longe, há quilômetros de distância, a caminho de sua lua de mel. Eu fora convidado por um amigo da família, meu colega de faculdade. Não me vi bem à vontade, senão muito depois da meia noite e de uns copos a mais de bebida. Um baile, iniciado para manter a animação dos convidados e dar fim ao excesso de comes e bebes, foi outra razão para prender-me ao local. Mas, o que eu queria mesmo e, por isso, não arredava pé, era aproximar-me de Dalva. Não havia jeito, estava sempre rodeada de pessoas interessantes como ela, e eu, um desconhecido, um quase intruso, não queria arriscar-me a uma gafe.

“Consegui finalmente alguns segundos de prosa. Éramos não mais do que uma dezena de convidados pelos cantos do salão, cada um procurando, a sua maneira, desacelerar para em seguida despedir-se e sair. Dalva sentara-se em uma das cadeiras ao lado do que fora, horas atrás, um enorme bolo de noivas, rodeado de guloseimas e não passava agora de bandejas e pratos vazios e espalhados de qualquer jeito. Em seu vestido branco de noite, cruzava as pernas morenas torneadas e distraía-se com um cigarro; parecia feliz e despreocupada. Não sei por que, mas tinha a impressão de que Dalva já sabia do meu interesse por ela e, por isso mesmo, ainda não se ausentara. Prova disso era sua permanência no local depois da saída de todos os seus amigos.

“Sempre tive como estratégia, ao interessar-me por uma mulher, não me aproximar dela até que a veja só e receptiva e, no caso de Dalva, estava ali o momento ideal. O que pareceu, à princípio, uma conquista fácil, uma a mais para a minha vasta coleção de mulheres, reverteu-se em árduo exercício; algo que nunca imaginara enfrentar, uma barreira quase intransponível cuja resistência me deixava ainda mais louco e apaixonado. Realmente embarquei na sua ardente simpatia. Sentei ao seu lado e pus em prática minha técnica, mas não precisei me esforçar, pois fui correspondido além do que esperava. Não vi o tempo passar naquela noite. O encanto de Dalva inebriou-me. Considerei certa a vitória final quando aceitou o meu convite para levá-la em casa em meu automóvel e exultei de alegria quand o, confessando-me morar sozinha, ofereceu-me um café quente e bem forte, preparado por ela, pois afastaria o sono e a ressaca de uma noite de excessos.

“Não poderíamos ter passado momentos mais agradáveis. Parecíamos tão vivos e cheios de energia como se acabássemos de despertar de longa noite de sono e, no entanto, a manhã, quase finda, ainda nos via animados, interessados um pelo outro, esgotando assuntos. Mais de uma vez tentei aproximar meus lábios dos seus, com vagar, na lentidão do amor, embora buscasse o máximo de auto controle para não expressar minha fome de beijos, de afagos, de sexo. Certamente poria tudo a perder se agisse pelo instinto. Não sei se Dalva percebeu a minha intenção. No meu entendimento e baseado em minhas experiências anteriores, todas coroadas de êxito, eu estava na marca do pênalti, com a bola a minha frente e não havia goleiro, ou seja, nada que me impedisse a finalização do meu intento. Mas, Dalva rec usou o meu beijo. Esta primeira derrota não me abalou, mas vieram outras naquele e em outros dias e em outras visitas à casa de Dalva. Porém, namorávamos, no sentido tradicional do termo; e era isso mesmo: namorados que se beijavam, iam aos espetáculos e se despediam à noite; Dalva não me deixava dormir em sua casa. Meses assim se passaram até que não mais suportei e tomei uma decisão.

– O que quer de mim, afinal? – indaguei-a.

– Tenha um pouco de paciência, eu te peço. Não me sinto preparada, ainda.

– Você é virgem?

– Não, não é isso.

– Estou perdidamente apaixonado. O que está fazendo comigo? Não consigo aproximar-me de uma mulher e, no entanto, estou carente. Só posso dizer que seus beijos me enlouquecem. Não consigo… não consigo mais…

– Também sinto o mesmo. Amo você, acredite. É que…

– Como pode ser tão insensível, tão egoísta?

Dizendo estas palavras, corroído pela frustração de não ter Dalva em meus braços como mulher, por inteiro, da forma que todo homem apaixonado deseja, virei-lhe as costas e deixei-a, decidido para sempre, abandoná-Ia. Bati a porta atrás de mim abafando seus gritos e suas súplicas. Desci revoltado as escadas do prédio, ouvindo meu nome sendo clamado em desespero, mas não cedi. Durante dias, semanas, remoí aquela tarde de sábado em que saí da casa de Dalva resolvido a não vê-Ia jamais.

Segui a rotina de minha vida sem uma notícia, sem um telefonema sequer da mulher que eu amava, da minha ex-namorada. Por um lado, sofria a separação, lamentando a perda a que eu mesmo me impus. Mas, por outro lado, sentia alívio de uma tortura que estava me consumindo. O grande problema é que a experiência afetou meu jeito de ser. Se com Dalva e por causa dela, perdera o interesse por outras mulheres, como, se visse nisto uma prova cabal de amor e de fidelidade, agora, sem ela, meu, entusiasmo de antes, o Don Juan que havia em mim, desvaneceu-se de vez e eu entrei numa fase inédita da minha vida, que julgava ao ser humano, enquanto sexo masculino, totalmente impraticável. Mas soube, por experiência própria, ser perfeitamente possível tal estado. Sempre considerei a vida de alguns religiosos um exemplo de disciplina e renúncia aos prazeres mundanais. Mas, daí a dizer que eles passam pela vida completamente castos em relação às práticas sexuais vai um exagero que jamais me convenceu.

O mesmo já não acontece com as mulheres. É tão fácil e natural para elas absterem-se do sexo quanto de um tipo de alimento que, a conselho médico, teve que ser abolido. No meu caso particular, deveria amargar enorme sofrimento por ter sido a mudança radical e repentina e, se for levada em conta a vida que eu levava antes de conhecer Dalva, não passava uma semana sem conhecer uma ou duas mulheres, ou até mais. E de fato, à medida que o tempo passava, os efeitos da continência começaram a se tornar perceptíveis aos que conviviam comigo. Os que conheceram Dalva e que sabiam ser ela a razão da minha mudança enchiam-me de conselhos, pois, na opinião deles, uma mulher, por melhor que fosse, não vaIe tal sofrimento; havia outras, muitas outras, e eu esqueceria facilmente o passado se ao menos me desse uma chance.

Comecei a sair por insistência; era levado a festas, clubes e outros eventos e apresentado a mulheres, mas, como eu estava mudado! As pernas tremiam e a voz não saía e eu, tal qual um adolescente virgem, sem saber o que fazer, me via perdido e só. Tentaram o que eu abominava, mas que seria a solução para o meu caso: as prostitutas. Contudo, eu parecia um caso perdido. Compartilhava a companhia, o sorriso e as bebidas dessas mulheres, mas não passava disso: chegado o momento, eu falhava, melhor dizendo, sequer tentava dar início ao ato.

– Não sabemos mais o que fazer com você – foi o desabafo de um dos meus amigos. – No entanto, temos ainda a Tati, esta vai levá-lo à loucura, impossível resistir aos encantos desta mulher. Uma vez conhecendo-a não mais vai querer saber de outra.

– E quem é essa Tati, onde mora?

– Não sabemos onde mora, mas que importa isso? Sabemos onde trabalha e isto é mais do que suficiente. Foi o Farias quem me apresentou. Vivia me dizendo não haver mulher melhor para umas horas de cama do que a Tati. À princípio achava-o mentiroso, mas hoje concordo com ele: ela é mesmo de endoidecer.

A curiosidade, mais do que o desejo, me fez também conhecê-la, tal o entusiasmo dos meus amigos. Entramos na casa, havia pouco movimento, algumas meninas ali estavam reunidas no salão principal. Não vi nada de especial em nenhuma delas, mas Tati não estava presente.

– Farias chegou antes de nós e preparou o ambiente. – disse um dos meus amigos. – Pedimos a Tati que o recebesse de uma forma toda especial; já está em um quarto do segundo andar e o aguarda.

Não subi de imediato, precisava beber alguma coisa. Quase uma hora depois e leve pelas bebidas que me ofereceram, subi finalmente. E ali estava ela, bela, deslumbrante, nua, sobre um acolchoado azul e branco, a me sorrir, Tati, pseudônimo profissional de Dalva, a Dalva que eu sempre quis, tão difícil e misteriosa e, agora, disponível publicamente.

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O Roubo – Edgard Santos

Por Edgard Santos, 7 de junho de 2010 17:07

– Uma semana inteirinha sem um ganho, Russo. Coma bem devagar. Assim não! está sendo guloso.

O cão dava saltos cada vez maiores e Caveira, de propósito, erguia mais o braço, afastando dele o biscoito. Num desses saltos, o animal caiu de mau jeito no cimento da varanda. Deixou de lado a façanha e saiu gemendo para um canto. Entrou em sua casinha e deitou-se, olhando com olhos tristes para o dono.

– Viu o que dá ser guloso? – disse Caveira, alisando o animal. Tendo se abaixado, dava-lhe agora na boca o biscoito tão ansiado. – É preciso ir com calma, meu amiguinho. Se papai não faturar logo uma grana, você poderá perder uns quilinhos. Mas, por enquanto, ainda temos o suficiente. Toma, aproveite – virou parte da ração no prato e Russo pôs-se a comer, abanando de felicidade a cauda.

A joalheria era a duas quadras da estação do metrô. O plano já estava definido e autorizado pelo chefe do grupo. Vadico não iria admitir nenhuma espécie de falha. Tinha total confiança no desempenho de todos os seus homens. Há anos atuavam juntos e este seria um a mais dentre os muitos assaltos que fizeram. Caveira era o sexto elemento, o mais novato. Por ser esta a primeira participação, iria como motorista. Não entraria, portanto, na loja, mas seria o controlador do movimento, o agente da fuga. Há três meses, Tião morrera nas mãos de policiais que faziam uma ronda na área, sem suspeitarem que, próximo dali estava havendo um assalto a banco. Mas, descobriram ser roubado o carro em que Tião aguardava os comparsas. Este, precipitando-se, abriu fogo e acabou morrendo. Os tiros foram ouvid os dentro do banco, o que fez a quadrilha desistir do assalto e dispersar-se, tomando, cada um, destino ignorado.

Tião, juntamente com Calango, foram os únicos a caírem mortos durante uma investida. A quadrilha de nove elementos caíra para cinco porque outros dois foram eliminados, mas por ordem do próprio Vadico que não perdoou uma traição. Caveira só fora admitido porque cresceu com um deles, Nego, lá pelas bandas de São João da Barra e teve que vir às pressas integrar o grupo a tempo de tomar parte no assalto à joalheria. O apelido veio por conta da sua magreza. Quando falava, ofendia até o ar com sua voz de trovão, completamente desproporcional à compleição física. Era mesmo esquelético, alto, feito um varapau e parecia sacudir para todos os lados os ossos a caminhar.

Há dois dias do grande assalto, Caveira estava ansioso ao extremo. A falta de dinheiro vinha sendo uma constante ultimamente. A isso até conseguia se adaptar. Morava com Nego às expensas deste até que fizesse o primeiro ganho. O que o estava deixando maluco era a falta do pó. Como Nego não cheirava, não podia contar com ele. A maconha que dividiam não o deixava satisfeito. Ele saiu da varanda para se dirigir a Nego que estava na sala, em frente ao aparelho de tevê ligado.

– Vejo-o bastante agitado desde ontem, acho que já sei do que está precisando – disse o comparsa assim que viu Caveira passar por ele e atirar-se sobre a poltrona.

– Sei que não consigo te enganar; estou sem pó há três dias, desde que cheguei de São João. Se não cheirar esta noite vou ter um troço.

– Vou quebrar teu galho, em nome da nossa amizade e porque tu precisa tá ligado pro trabalho que temos daqui a três dias. Conheço um pessoal que vai trazer o pó ainda esta noite.

– Mas, não tenho a grana e nem você.

– Tô sabendo. Vou dizer: conheço umas vadias. Vamos encomendar uma noite daquelas, com muito amor, muita coca e, claro, um calote nas vagabundas.

Marcaram num hotel da Dutra e, conforme combinado, as duas apareceram; uma loura, outra morena e trouxeram a droga. Os quatro na mesma suíte entregaram-se sem limite a tudo que a carne pode exigir de prazer dos sentidos e de pecado. A morena, a mais esperta das duas, conseguira o pó; em dado momento da festa, soube ou intuiu a intenção dos rapazes. Sabia que estavam armados e que eram do bando de Vadico, portanto, reagir contra eles seria morte na certa. Para não ficarem totalmente em desvantagem sugeriu uma idéia que eles não desconfiaram. Aproveitando o estado de relaxação que sucede a atos entorpecentes, disse:

– Que tal terminarmos a noite com um ganho fenomenal?

– O que você sugere? Perguntou Nego, um tanto borracho.

– Muito simples: no silêncio da noite, um ataque repentino à recepção do hotel vai render uma graninha preta da féria de sexta-feira.

– E os seguranças? e a câmera? Não quero arriscar a sorte, temos um ganho certo na segunda à noite, grana pra lá de alta, pra deixar rico.

Mas, ela conseguiu convencê-los e eles agiram. A ação foi rápida e certeira. Sem muito barulho e sem muita demora. Um segurança rendido e desarmado e uma recepcionista amordaçada, após entregar dinheiro e alguns pertences. As duas não levaram o que haviam pedido, mas aceitaram a oferta sem muito reclamarem.

Caveira já não fazia lembrança de quanto tempo não botava a mão num dinheiro tão polpudo quanto este roubado ao motel. Mesmo depois de rachar pelo meio com Nego, sua parte era realmente grande. Foi mesmo um golpe de sorte até para as vadias e graças a elas, deveriam perder e acabaram ganhando também. E o assalto não poderia ter acontecido em momento mais apropriado, em que o segurança mal se mantinha acordado e toda a grana da noite e da tarde anterior encontrava-se na recepção para ser depositada horas mais tarde. Como era sábado, Caveira não via a hora de anoitecer para cair novamente na farra com as mesmas garotas e aprontar novamente o golpe em outro hotel.

Desta vez, não saiu, porém, conforme o planejado. Diria melhor, conforme o combinado, pois, se no assalto correu tudo bem, na hora da divisão da grana as meninas levaram a pior. Com o argumento de que o valor era muito inferior ao anterior, como realmente o era, tudo o que elas conseguiram não passou de um cala boca, uma consolação e olhe lá. Só que, o que eles não esperavam, aconteceu. Revoltadas, não perderam tempo em dizer a verdade quando foram reconhecidas e presas pela polícia horas depois do assalto. Entregaram os dois bandidos que passaram a ser caçados.

O primeiro encontro se deu na casa de Nego. Caveira não estava e essa foi sua sorte; Nego foi preso, sem opor resistência, menos de vinte e quatro horas para o grande assalto. Um homem a menos para Vadico. Precisou, então, refazer a estratégia. Uma reunião de urgência foi convocada para domingo à tarde em sua casa. Perguntado sobre a prisão de Nego, Caveira alegou total desconhecimento, mencionou na verdade o fator sorte que o fez passar aquela noite fora de casa e se livrar assim dos homens; é claro que ele nada mencionou sobre suas saídas com Nego e as meninas.

Há tanto tempo sem ver a cor do dinheiro e agora recheado de grana, pois a metade, que era de Nego passou a ser sua também, depois que encontrou-o no fundo de uma gaveta de seu quarto no dia seguinte ao assalto, Caveira não queria outra vida além de curtir noitadas repletas de prazer. Já há três dias não dormia, a não ser pelo dia, refestelado e satisfeito. A reunião no domingo à tarde foi para ele um sacrifício e tanto e acabou chegando a hora do assalto em péssimas condições.

Na madrugada de domingo para segunda lá estava ele, duas esquinas à frente, guardando a área, dentro do carro, enquanto a loja era arrombada e as jóias saqueadas. Qualquer anormalidade era só tocar o celular e os rapazes saberiam o que fazer para evitar suspeitas. Mas o sono traiu Caveira e tudo desmoronou. A polícia passou por ele e sequer foi percebida, posto que, cansado ao extremo, deitou-se no banco e ali ficou sem ter a mínima idéia do que ocorreria em seguida. O bando foi descoberto em flagrante delito. O tiroteio foi forte no meio da noite. Dois tombaram mortos no local, um entregou-se e Vadico, num golpe de sorte, escapou no meio da noite.

Caveira não perdeu tempo para saber o que estava se passando, mas imaginou. E não teve dúvidas: fugiu dali mesmo para não ser descoberto. Hoje, alguns anos depois do ocorrido, Caveira não sai de sua cidade. Continua bandido, mas muito desconfiado. Nego, na cadeia, lhe dá certa tranquilidade, mas Vadico, solto e revoltado, deve estar lhe tirando o sono da noite. Se já era caveira, pode estar, aos poucos, virando um esqueleto.

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