Category: Gutierritos-SP

O amor e o poeta – Gutierritos-SP

Por Gutierritos-SP, 25 de agosto de 2010 7:36

O amor não é simplesmente um sonho de um poeta.

Ele precisa ser autêntico, pois este é o instrumento da honestidade e certamente torna real o amor, sem o risco das ilusões que se desmancham ao longo do tempo. Aí o amor é verdadeiro, interminável!

Não existe o amar de mentirinha, só nas horas alegres e do dinheiro farto e fácil. O amor honesto enfrenta a miséria e as tristezas e tem as chaves do segredo da felicidade, deixando para trás todas as derrotas e as transforma em vitórias de vida, pois nele presente está inserida a união, que é eterna quando verdadeira e sincera.

O amor é o olhar juntos, com os mesmos ideais, com as virtudes aceitas com alegria, os erros compreendidos pelo perdão, o que o torna sublime, quase divino, ilimitado pela paixão.

Depois de uma vida, repleta de incomensuráveis problemas, de sofrimentos, de tempos de vacas magras, compartilhada, com momentos felizes e tristes, risos e lágrimas, você acaba por reconhecer no seu par aquele ser que desabrochou em você e, em você, aquele seu outro que lhe invadiu a alma e o coração.

E aí descobrimos que o amor, o verdadeiro amor, não é aquele lírico sonhado pelo poeta, mas o conquistado no dia a dia que nos transforma em um único ser, a alma gêmea, a viver, em comunhão no sofrimento e na alegria.

O amor sonhado pelo poeta não entende que a vida, aquele dom de Deus, está sujeita, a qualquer momento, a nos ser roubada, alterada, submetida aos padecimentos de uma pobreza imprevista, de uma doença que nos possa afligir, a desentendimento familiares, à morte de parentes e amigos, a tantas e tantas outras situações, que nos levam à amargura, à tristeza, à infelicidade.

Mas basta olhar ao lado e, ele, o amor de nossa vida, estará lá, partilhando a dor, com lágrimas nos olhos. O sonhador quer adormecer e sonhar com o amor, mas ele é apenas o poeta. Quem ama não precisa sonhar, tem ao seu lado o amor, este maravilhoso presente de Deus.

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A “Ave Maria” de Erotides de Campos – Gutierritos-SP

Por Gutierritos-SP, 23 de agosto de 2010 7:07

Em conversa com um grupo de músicos e cantores, mencionei a música Ave Maria, de autoria de Erotides de Campos.

Todos, infelizmente, desconheciam, até que cantarolei um pequeno trecho. E foi o suficiente para todos a lembrarem imediatamente, muito conhecida no meio artístico.

É maravilhosa, um deles afirmou.

E ai perguntei-lhes:

-Conhecem Erotides de Campos, que a compôs?

Viraram um para o outro, cochicharam e, por incrível que pareça, não sabiam. Desconheciam quem fora o autor desta composição, mas afirmaram, um deles, que ouviram a música na voz de Alvarenga e Ranchinho; outros mencionaram Francisco Alves e Sílvio Caldas.

Para mim, disse a todos eles, Sílvio Caldas foi o cantor que melhor interpretou essa Ave Maria e, na sua voz, todo o Brasil passou a cantá-la, com muita ternura e veneração.

Daí me interrogaram sobre Erotides de Campos. Quiseram conhecê-lo.

Não me fiz de rogado. Falei que ele fora um paulista, nascido em Cabreúva e criado em Piracicaba; um homem humilde, mas um gênio da música brasileira.

Ainda, na sua cidade natal revelou-se muito talentoso, a ponto de ser levado para São Paulo, por padres para estudar no Liceu Coração de Jesus.

Doente teve que retornar e foi residir com seus tios em Piracicaba, onde ingressou ainda menino em uma orquestra. Daí para frente, mesmo mudando e retornando a Piracicaba, trabalhando como professor, escreveu centenas e centenas de músicas, dobrados especialmente para bandas, canções, valsas e muitos outros tipos de música.

Podemos destacar, entre elas, Aí Cavaquinho, Palhaço, Alvorada de Lírios, Mensagem de Amor, Separação, Cantiga Serrana e a divina Ave Maria, que o Brasil todo conhece.

No entanto, ficaram muito surpresos quando lhes disse que essa Ave Maria fora interpretada por uma orquestra sinfônica e que era uma peça musical longa. Depois foi popularizada e, por isso, acabou sendo mantida parte dela, penso que por motivos comerciais, para, no seu tempo, ser cantada por grandes intérpretes de sua época.

Como é conhecido e considerado um grande músico atuante em Piracicaba, esta cidade do interior paulista homenageia-o, anualmente, com a Semana Erotides de Campos, um espetáculo cultural maravilhoso, relembrando suas músicas, que muito orgulha o seu povo e certamente toda a nação brasileira. E é imperdível a audição da orquestra sinfônica de Piracicaba apresentando a maravilhosa Ave Maria. Vale a pena. É emocionante:

Agora, veremos a interpretação de Francisco Alves, com letras e peça musical mais curta, para atender a popularização da música.

Querem saber mais sobre a vida deste extraordinário piracicabano, basta acessar esta página:

http://memorial-piracicaba.blogspot.com/2009/04/erotides-de-campos.html

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A nova ética dos tempos modernos – Gutierritos

Por Gutierritos-SP, 22 de agosto de 2010 2:08

Dia a dia, estupefatos, estamos vendo o desfilar da desonestidade. No seu lombo, carrega o enriquecimento de pessoas de má índole e ascensão delas, cada vez maior, ao poder e ao comando, tanto nos setores e atividades particulares e públicas.

Incrivelmente, essas pessoas que assim agem, desviadas da lei e dos bons costumes, são respeitadas e até homenageadas, pelo tamanho de sua conta bancária, pelo luxo de suas propriedades, pelo sucesso de suas empreitadas desonestas e pelo seu poder, que a fortuna roubada lhes trouxe, na sua atividade ilícita e aliada à corrupção, sem freios e, sob o aplauso daqueles que por eles são favorecidos.

Com imensa tristeza, lembro que somos remanescentes de um tempo bem diferente. No geral, acredito, que o ponto primacial daquela época estava baseada em duas virtudes: a humildade e o amor.

E essas virtudes somente existem na medida em que as praticamos, quando as ministramos e as cultivamos e as semeamos, delas fazendo nossos ensinamentos e exemplos, condutas de vida, que se frutificam em todos os corações, na aridez de valores humanos, que se encontra o mundo de hoje, um deserto sem Deus, mergulhada a humanidade no culto ao materialismo.

Com base nestes valores, a humildade e o amor, as demais estão neles imantados, agregados, unidos em torno delas, fazendo-nos fortes e valiosos, uma sociedade mais humana, menos violenta, menos cruel e, sobretudo, simples e feliz.

Recordo-me que meu primeiro emprego foi ocupar a função de contínuo de um estabelecimento de crédito. Um simples, mas honesto serviçal. Uma das coisas que eu tinha de fazer – isto aconteceu no final da década de cinquenta – era cobrar cheques da agência do banco onde trabalhava, junto às outras agências dos outros estabelecimentos bancários da mesma cidade, pois naquele tempo não havia serviço de compensação bancária local.

E eu me conduzia a pé, com uma maleta bem grande. Cobrava os cheques, a grande maioria deles tinham fundos, e voltava para minha agência, pelas ruas, com a maleta cheia de dinheiro. Sozinho e a pé, totalmente desprotegido, com aquela dinheirama toda.

Acreditam nisto? Mas isto é a pura verdade!

E éramos três contínuos, um em cada estabelecimento bancário. Nunca houve qualquer tentativa de marginais nos furtarem ou roubarem, ou qualquer prática de violência, mesmo todos sabendo que havia grandes somas em dinheiro em nossas maletas.

E nunca fomos tentados a fraudar nossos empregadores, fazendo nossos serviços com a maior dignidade, conscientes de que o trabalho e a honestidade eram a riqueza maior que deveríamos preservar.

Essa passagem é suficiente para mostrar como hoje a ética mudou e muito!

Os valores humanos são outros. Vale muito mais, para a sociedade em que vivemos, o que falo com amargura, ter um carro zero na garagem do que a honestidade, a honradez, a dignidade, o trabalho, o respeito às leis e à ordem, a amizade, a compaixão, a solidariedade, enfim a todos os valores humanos importantes, que nos davam a certeza de viver em paz e com muita alegria.

Vivemos hoje em uma sociedade em que o poder está em mãos facínoras, bandidas, malfeitoras, consequentemente a violência, a criminalidade e a corrupção estão crescendo assustadoradamente.

Vivemos em clima de medo que nos impede, inclusive, de sair, nas grandes cidades, nas ruas, pois há incerteza de voltarmos vivos aos nossos lares, vítimas de assaltos ou ciladas que a vida nos prepara a todos, sejamos ricos ou pobres.

Vivemos tempos que, incrédulos, diante da televisão, assistimos ao desfilar de fatos inacreditáveis, atitudes bárbaras e animalescas, atentados à vida em sociedade, aos nossos mais fundamentais direitos, a liberdade e a vida.

Vivemos tempos, em todo o mundo, que jamais sonhamos, nunca imaginamos, tragédias sem limites, incomensuráveis. talvez pela ausência de uma fértil capacidade de previsão… talvez, no entanto, iludidos e cegos pela nossa esperança na humanidade, naquele pensar em noites estreladas, sem lua, olhando para o infinito e acreditando que éramos privilegiados filhos de Deus!

Estamos longe, muito longe, da humildade e do amor!

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Culinária é também arte e cultura – Gutierritos-SP

Por Gutierritos-SP, 21 de agosto de 2010 7:27

A vez do Quibe Cru, do Quibe Frito e do Quibe Assado.

Como prometido, aqui estamos postando receitas de quibes.

Entretanto, para que possamos fazer o quibe frito, torna-se necessário aprender-se a fazer a massa, que é o quibe cru.

Então, vamos, primeiro ao quibe cru e depois ao frito e, aproveitando tudo isto, por que não aprendermos também a fazer o quibe assado?

LuDias, fica tranqüila, pois, afinal, o Salustiel está muito preocupado com as obras de sua empresa multinacional lá do outro lado do rio que não está prestando a atenção.

Então, com as observações do The Ghost e a superintendência da Cidinha, estão aí:

KIBE CRU

Ingredientes

1 kg de coxão mole limpo, cortado em pedaços.

2 cebolas grandes.

13 folhas de manjericão

3 xícaras rasas de trigo em grão

Pimenta síria,

Sal

1 colher ( de sobremesa) de gordura animal

3 brotos de hortelã.

Modo de Fazer:

Lavar o trigo e deixá-lo, por algumas horas, em uma vasilha d´água. Depois, retirar toda a água e deixá-lo apenas úmido. A carne deve ser limpa, não deixando nenhum vestígio de gordura e nem de nervos. Depois passar a carne na máquina de moer, junto com a cebola, o manjericão e a hortelã. Misture o trigo à carne moída com os ingredientes acima mencionados. E torne a passar, o trigo e carne já misturados, várias e várias vezes pela máquina de moer, até ter uma massa com ótima consistência. Depois amasse tudo numa tigela. Leve um pouco à geladeira. Após sirva acompanhada de recheio de carne, como o feito para o pastel, sem no entanto, azeitonas, acrescentando ainda hortelã e cebola, cortadas em pequenos pedaços.

KIBE FRITO

Ingredientes:

Um quilo de quibe cru.

Recheio de carne bem moída (de primeira, sem nervos e nem gordura), como o preparado para o pastel, sem no entanto, azeitonas, acrescentando ainda hortelã e cebola, cortadas em pequenos pedaços.

Modo de fazer:

Pegue um pouco de quibe cru e dê-lhe o formato de um ovo mais comprido. Perfure-o com o dedo e procure afinar ao máximo possível as paredes (esse é o grande segredo do bom produto ), sempre molhando o dedo na água, até atingir um formato ideal, com uma pequena entrada ou orifício na ponta, por onde você introduz o recheio acima referido. Umedeça novamente e feche o orifício apertando bem a ponta. Faça um por um. Depois, deixe-os secar por algumas horas. Após, utilize óleo de primeiro e sem ter sido reutilizado, levando-o em frigideira ao fogo até atingir a quentura necessária, passando a fritar os quibes, tomando o cuidado de não queimá-los. Um quibe bem preparado não perde o seu formato e nem permite a penetração do óleo em seu interior, encharcando-o. Após fritá-los, deixe-os secar, para servi-los quentinho.

KIBE ASSADO

Ingredientes:

1 kg de quibe cru

Recheio acima já ensinado

3 colheres de manteiga.

Modo de fazer:

Unte a assadeira com manteiga e forre com uma camada fina de quibe cru, alisando bem, molhando sempre a mão na água. Por cima, depois de amassar bem o quibe, coloque o recheio e cubra com uma camada grosa de massa de quibe. Ao todo, as camadas devem dar uns dois centímetros, alisando novamente com as mãos molhadas. Com a faca molhada, desenhe losangos, sem aprofundar o corte. Espalhe manteiga derretida e leve ao forno quente até dourar.

Bom apetite.

Agradeço ao Salustiel, ao The Ghost, a Cidinha pelas receitas.

E dedico ao Paulo e a todos os leitores e colaboradores do blog, principalmente à mineira LuDias, que nos trouxe a conhecer Salustiel. E à minha sorte, em me casar com a Cidinha.

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Culinária também é cultura – Gutierritos-SP

Por Gutierritos-SP, 20 de agosto de 2010 23:54

O espião “The Ghost” e a comida árabe de Salustiel

Episódio de hoje – Laban, a Coalhada Síria.

Conversei hoje novamente com The Ghost. Ele ficou todo animado em correr atrás do Salustiel para dele colher as receitas, mas disse que haveria grandes dificuldades, pois se recusava a ensinar. Afinal, era um segredo de grande valor.

Sabia que a única coisa que ele havia feito fora ensinar a Cidinha a fazer Laban (coalhada seca síria) para o Gutie. Mas era só. O resto era segredo de Estado. A final, estava lá em Manarairema fazendo o que?

No entanto, um espírito é invisível e começou a dar um de espião. Sem que Salustiel soubesse, passou a espiá-lo. Safadeza ou não, afinal, era para uma boa causa, pois iria trazer receitas para as Dicas do Timoneiro e, de quebra, ensinar a LuDias a fazer para o Sr. Moá e a Mamadi a coalhada seca de cada dia. Ah, pode dar um pouquinho para o Messias, quando voltar lá do Pará.

The Ghost, depois de um retorno ao passado, ano a ano, observando trabalhosamente o Salustiel, coisa que ele consegue fazer em segundos – não entendo isto – mas são coisas de fantasmas, de espíritos iluminados pela sabedoria secular, eis que The Ghost, The Best, veio e me trouxe varias receitas. A primeira, que ora exibo é a seguinte:

Laban – coalhada seca ( síria )

Ingredientes:

  • 1 litro e meio de leite.
  • 1 copo de coalho – pode ser também um copo de Danone natural.
  • 1 – sal ( pequeníssima quantidade, à gosto )
  • 1 litro óleo de oliva extra virgem de boa marca, para ser usado somente na quantidade necessária.
  • 1 pão ou pãezinhos ( meu gosto é pão de padre )

Observação: para maior quantidade, aumentar proporcionalmente os ingredientes.

Modo de fazer:

Esquentar o leite em uma panela ( 1 litro e meio ) até ficar morno.

Mexer bastante o copo de coalho até ficar bem amolecido.

Despejar o leite morno em uma tijela com tampa, de plástico de boa qualidade, e também o copo de coalho, já amolecido, no leite morno. A tijela deve ter o tamanho suficiente para conter todo o produto. E ficar mexendo até diluir bastante o coalho leite.

Tampar a tijela e deixá-la guardada em ambiente fresco ( longe do sol ) até noutro dia.

Depois levá-la à geladeira e deixá-la gelar até a coalhada endurecer.

Após, colocá-la em coador, como o do café, e deixar todo o soro do leite sair, no vasilhame como aquele que colhe o café, até o último pingo, de forma que a coalhada fique bastante seca, como se fosse um queijo amolecido, mas bem compacto.

Colocar o óleo de oliva extra-virgem em um pote de vidro transparente, até uma altura que possa caber todo a coalhada.

Salgar a gosto ( pouco sal ) a massa da coalhada e fazer bolinhos de coalhada e colocá-los, com cuidado, no vidro com o óleo, tomando a cautela para não os estourar.

No outro dia, servir, tirando, cada vez que quiser, uma ou duas bolas de coalhada seca, que vem molhada com o óleo, contrastando com o óleo. Depois é só passar nos pedaços de pão e se servir.

A coalhada seca, quem quiser, poderá ser servida antes de fazer as bolas, como se fosse um creme, dependendo do gosto de cada um. E se quiser, se gostar, adicionar no prato um pouco de óleo de oliva extra-virgem..

Ah,não se esqueçam: comam acompanhado de um cafezinho quente e cheiroso, com o gosto do café do vô da LuDias. Bom apetite.

Amanhã ou depois, será a vez do kibe frito, que será ensinado escondido do Salustiel (se ele souber nem sei o que me acontecerá). Por favor, não contem para o Salustiel. LuDias, de um jeito. Desde já agradeço.

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O mendigo, a torre e a noite – Gutierritos-SP

Por Gutierritos-SP, 16 de agosto de 2010 6:03

Era um mendigo como muitos há no mundo.
Todos o conheciam.
Vivia da caridade do povo daquela cidade.
Era velhinho e cego.
Guiava-se apenas pela mão protetora de Deus.
Não tinha ninguém mais no mundo…
Ninguém!

A Torre enfeitava a Igreja Matriz.
Era alta, de construção forte, bonita.
Ricamente ornamentada.
Alguns milhões a construíram.
Nela, os sinos dobravam, emotivos,
Na alegria, na tristeza, na oração.
Que esplendor!
Que magnitude!
Que maravilha!
O orgulho da cidade!

A noite era fria!
O frio era cortante e dolorido.
Que inverno rigoroso o daquele ano!
Geara.
A grama do jardim
De verde se branquejara.
Uma noite gelada.
Fria!

Naquela noite,
O mendigo,
Que era cego e velho,
Que todos conheciam,
Que vivia da caridade do povo,
Sofreu com o frio da noite,
E nos degraus da escada da Matriz,
Bem na frente da imponente torre,
O mendigo morreu de frio,
Escutando o alegre badalar dos sinos,
No alvorecer!

Poesia escrita aos 17 anos de idade

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A crise econômica mundial – Gutierritos-SP

Por Gutierritos-SP, 12 de agosto de 2010 4:00

NAPOLEÃO E DESIRÉE

Estava sentando no banco da praça, esperando a Cidinha fazer suas compras e lendo notícias sobre a crise econômica mundial, quando ele novamente se aproximou, acompanhado de sua fiel Desirée.

E era ele mesmo – aquele que dizia ser Napoleão Bonaparte – pois veio quase marchando, todo fardado e olhando fixo para o jornal que eu estava lendo e foi logo me dizendo:

- Notei que estás lendo sobre a crise financeira mundial. Ela é pura conseqüência do liberalismo!

- Está bem, outro dia falaste sobre isto, mas o que tem a ver com a crise? Explica-me!

- É Gutie, a crise, que hoje abala o mundo, é fruto do neoliberalismo, que não deixou os países fiscalizarem e intervirem no sistema financeiro mundial. E deu no que deu..

- Mas como no Brasil ela foi mais frágil?

- Por vários fatores o Brasil escapou de um caos. Todavia, foi o escândalo do PROER que praticamente nos salvou.

- Escândalo do PROER?

- Ele aconteceu no governo passado, lembras-te? Pois bem: embora o PROER tenha sido muito lesivo ao País, causando graves prejuízos aos cofres públicos, abriu nossos olhos.

- Explica melhor.

- Durante o período de hiperinflação no Brasil, os bancos promoveram desvios monetários, que eram acobertados pela inflação, pois a desvalorização da moeda era tão célere que não se conseguia fiscalizá-los. Eles especularam demais, com títulos da dívida pública do Brasil, deixando de financiar a produção.

- E daí?

- Com o advento do plano real, muitos dos balanços bancários, sem o auxílio inflacionário, acabaram no vermelho, mostrando debilidade financeira. Houve o perigo do sistema bancário entrar em colapso e falir, provocando a perda da poupança do povo brasileiro. E aí criaram o PROER, o Programa de Estímulo à Restruturação e ao Fortalecimento do Sistema Financeiro Nacional.

- Que nome complicado!

- Através deste plano, o governo emprestou cerca de trinta bilhões de reais aos bancos, com títulos a serem pagos a longo prazo, amenizando a crise, de forma que a quebradeira deles e de nossa economia foi evitada, com o dinheiro do povo.

- É sempre o povo que leva no lombo. Mas qual é a ligação disto com o Brasil não ter tido grandes problemas na crise atual ?

- Gutie, seja inteligente. É que, desde aquele tempo, houve a percepção de que era importante que o sistema financeiro fosse fiscalizado, controlado, evitando-se o crescimento do crédito sem condições de adimplência, similarmente à principal causa desta crise, que ainda se alastra e dinamitou economias no mundo todo e, aparentemente controlada, ainda irá trazer muitos problemas para o mundo.

- Entendi. Certamente concorreu para isto a economia globalizada?

- Estás ficando mais esperto, Gutie. A crise mundial apenas nos afetou por tabela, face à globalização. Mas estávamos preparados pela lição que tivemos pelos fatos que antecederam a criação do PROER.

- E aí passamos a fiscalizar os bancos ?

- É isto mesmo. Fiscalizados e controlados, os nossos bancos não se aventuraram como os europeus e asiáticos e não aplicaram o dinheiro brasileiro no “buraco sem fundos” dos bancos americanos.

- Então foi isto que aconteceu no mundo: faltou fiscalização no sistema bancário?

- De fato, os bancos americanos vendiam títulos, com grande lucratividade, baseados em empréstimos, a maioria hipotecas de imóveis financiados artificialmente.

- Artificialmente?

- Sim, era muito fácil adquirir imóveis nos EEUU, pois não se olhava o perfil de quem estava comprando, mas o valor do imóvel, que garantia a dívida.

- Então qualquer um comprava imóvel por lá?

- Perfeitamente E não precisava, como no Brasil, provar sua renda, sua condição para adimplir a dívida e até ser o comprador uma pessoa direita, um bom pagador. Aqui, como todos sabem, não é só o valor do imóvel que é considerado garantia, mas também, as condições financeiras e pessoas de quem se está comprado. Isto se obteve com a fiscalização. Lá, no Tio Sam, podia até ser um malandro e não ter renda, mas o empréstimo era feito, com grande lucratividade.

- Mas se o comprador não tinha dinheiro, como é que pagava ?

- Muitos tinham bons rendimentos e pagavam o empréstimo, mas uma boa parcela não. Como havia muita procura, em virtude do crédito fácil, os imóveis valorizavam demais e os inadimplentes vendiam-nos até com lucro.

- E como o sistema quebrou?

- A valorização dos imóveis chegou ao teto máximo. Nenhum imóvel mais se valorizou. E a inadimplência começou a bater nas portas dos bancos. Com o sistema hipotecário, os bancos ficavam com as moradias, que passavam a ser oferecidas.

- A lei da oferta e da procura se inverteu? É isto ?

- Sim. Começaram a oferecer muito mais moradias e mansões matando de vez a procura. Os inadimplentes não conseguiam mais vender com lucro e perderam as casas para os bancos, que não mais as conseguiam vender. E aí veio o pior.

- O pior?

- Para suportar a expansão do crédito, os bancos americanos emprestavam de bancos europeus e asiáticos, cegos pelos grandes lucros, sem analisarem que o crédito nos EEUU havia crescido muito além da imaginação.

- Quanto?

- Pelo que li, muito maior do que o PIB americano!

- Como o povo americano iria pagar?

- Precisariam trabalhar anos a fios e não gastar mais nada só para pagar a dívida

- Meu Deus!

- Para se ter uma idéia, no Brasil o crédito ainda não chegou a 50% do PIB brasileiro.

- Então aqui estamos muito mais seguros.

- É isto. Os bancos brasileiros não se aventuraram, pois há controle por parte do Banco Central, impedindo transações de grande risco, mas isto não ocorreu na Europa e na Ásia.

- Faltou mesmo a fiscalização.

- Foi mais uma das conseqüências do neoliberalismo, que não admite a intromissão e fiscalização pelo Estado dos negócios bancários, que usaram e abusaram do crédito, que cresceu vertiginosamente.

- O neoliberalismo é contra qualquer intervenção do Estado nos negócios.

- Perfeitamente. E o crescimento do crédito elevou a produção e o consumo e com a euforia, também, imoderada e fantasiosamente, o preço dos produtos, principalmente de commodities, com base na lei da oferta e da procura.

- E o estado não percebia nada?

- Foi o que aconteceu. E quando a inadimplência chegou, os bancos foram à falência e o crédito praticamente acabou.

- E qual foi a saída?

- A mesma do nosso PROER: todos os governos, nos países afetados pela crise, em todo o mundo, emprestaram bilhões e bilhões aos bancos americanos, europeus e asiáticos ameaçados de falência, dando-lhes prazos, para evitar o caos total, amenizando a crise.

- Que barbaridade!

- Gutie, tudo isto é fruto de ambições desmedidas. Ratazanas por toda a parte. Um verdadeiro crime lesa pátria. No meu tempo, eu os guilhotinava todos.

- E eu acreditando ainda na honestidade.

- Agora estás vendo, não é Gutie. Pois bem, as conseqüências ficaram muito claras. Com os preços elevados, o crédito tornou-se muito difícil, a procura pela compra diminuiu, a oferta aumentou e estourou a crise, com a derrubada geral de preços e queda na produção em todo o mundo, seguida do desemprego e de grandes sofrimentos pela população.

- Meu Deus, o Napoleão virou economista ?!

- É Gutie, observo o mundo há mais de duzentos anos. Assim, penso que não podemos ter nem o céu nem o inferno. Tanto a livre iniciativa deve ter sua liberdade, mas o Estado tem que estar atuante e atento, controlando-a. A miséria é fruto da má distribuição de renda, amenizada atualmente por programas sociais, mas infelizmente ainda tímidos.

- Parece que sabes tudo!

- Gutie, leio muito e freqüento todos os sites que discutem economia. O mundo está se transformando muito rapidamente, mas muitas coisas são imutáveis.

- Imutáveis ?

- Sim, uma delas, por exemplo, é ambição. Ela é infinita e perene. Enquanto houver um ser humano, ela estará presente.

O corso olhou-me, de repente, e disse:

- Olha, já são 12:00 horas… O papo como sempre está muito bom, mas hoje estou com pressa. Tenho muitos compromissos e estou morrendo de fome. Vou passar, rapidamente, no La Casserole, aí pertinho, no Largo do Arouche e matar a vontade de comer um magret de pato ao molho de laranja. Mas estou em dúvida, talvez uma perna de cordeiro assada com feijões brancos. Sei lá?

Dizendo isto, levou a sua cachorrinha, a Desirée, ao colo e, acariciando-a, passou a cantar:

- Et si tu n’existais pás… dis-moi pourquoi j’existerais… pour traîner dans un monde sans toi…

Enquanto ele cantava, Desiree, a cachorrinha, toda feliz abanava o rabinho; depois o louco maravilhoso levantou-se do banco, olhou novamente para mim e me disse:

- À biêntôt!

E foi andando pela rua em frente; logo virou a esquina e desapareceu …

Ah, aproveitem a boa vontade do Paulo e ouçam a música que o Imperador cantava para Desirée, um sucesso dos anos 60, na voz de Joe Dassin:

ET SI TU N´EXISTAIS PAS

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