Por Felipe Balotin
Bom dia, amigos do Blog ALMA CARIOCA – LITERATURA
Venho, aqui, em total agradecimento a este querido Blog. Paulo Afonso pelo apoio em colocar os textos, que não se compara aos textos “profissionais”, mas que eu espero tenha trazido algo de interessante. Lu Dias, querida tia – que ainda não conheço -, por todo o carinho que sempre demonstrou virtualmente. Aos leitores que fizeram em dar sequência com a idéia de escrever ao Blog. E principalmente a minha maior inspiração, ídolo e também fã, dona Jozyh.
Hoje é só um agradecimento. Mas eu gostaria que fosse da maneira mais efusiva possível. Por isso pensei em escrever um resumo deste meu ano. Como me despedindo do Blog ou melhor, me despedindo como um zimbabuano do Blog.
Madrugadas atrás estive fazendo um resumo do meu ano, somente rascunhos, para uma apresentação no meu clube do Rotary, que me apadrinhou na magnífica jornada. Agora, 5 horas da manhã, após horas na internet conversando com amigos dos quais estive longe, e mais uma hora para a leitura antes de dormir, percebi que não conseguiria fazer o que deveria estar fazendo a, no mínimo, 6 horas atrás…
Também separei fotos para esta apresentação. O que era para ser somente algumas fotos, melhores momentos, conseguiu se resumir em 150. Sem dúvida o ano mais rico da minha vida, em meio a toda pobreza. Me pego pensando nele a todo o momento. Mas diferente do que imaginara, não falo sobre isso com tal frequência. Digo que minha mãe, coruja que só ela, fala do meu ano melhor que eu. Mas ela tem o que eu lhe passo de informações, então vamos a elas.
No dia 17 de fevereiro de dois mil e oito eu deixava Foz do Iguaçu e toda a minha família no Brasil. Partia em direção ao Zimbabwe. (que então era Zimbábue para mim.) Sim, foi difícil sair de casa. Nunca tive problemas em viajar sozinho, com o colégio ou com o time de futebol, mas dessa vez era um ano. Sem intervalo ou tempo técnico. No aeroporto eu chorava pela primeira vez, mas com a certeza de ter a passagem de volta marcada.
Apesar de ter a primeira semana banhada a lagrimas, logo me apaixonei pelo lugar. Morando na capital, Harare, com população de dois milhões de pessoas sempre crescendo. A primeira família foi excelente, pais jovens e uma irmã que eu nunca tinha tido. (Kumbirai, por quem eu já tinha me apaixona ao ver em uma foto recebida duas semanas antes). Na primeira semana fui a um supermercado – bem, talvez só mercado, não muito super – com os Guzha’s. Na ocasião me assustei ao ver os preços em milhões, variando de um a cem… Meu cérebro pedia ajuda do indicador para contar os zeros nas etiquetas. Também queria desesperadamente descobrir como processar tais números com apenas uma olhada. Meu pai havia dito que me acostumaria.
A primeira vez que troquei dólares americanos, no mercado negro, pois o câmbio era dezenas de vezes maior, um deles comprava 23 milhões de dólares zimbabuanos. Já me considerava um quase-bilionário, pois troquei US$30 para uma viagem e, após algumas ligações para conseguir a melhor taxa, tinha mais de meio milhão de dólares. (No plural, pois era mais de 60 notas.) E o câmbio subia, porque a inflação subia, porque a qualidade do governo continuava a mesma. E por isso não posso fazer um bom resumo sem falar de história.
Zimbabwe não é um país pobre da África, mas considerado um país intermediário. No passado, quando colônia britânica, era uma das potências. O dólar zimbabuano era tão forte quando o dólar americano. Há dez anos a educação também estava no topo do continente. Em 1980 o país conseguiu sua independência, liderada pelo coronel que então virou primeiro ministro, Robert Gabriel Mugabe. Que na época era um herói, mas com o passar dos anos provou ser o oposto. Entre os fatores que causaram a queda, não só da opinião pública, mas de todo um país, foi a Land Reform, uma espécie de reforma agrária. Ele expulsou os fazendeiros brancos de suas terras produtivas, dando esta terra aos veteranos da guerra de independência, que aclamavam por um pagamento pelo esforço feito duas décadas antes; e as terras que produziam para todo o país, e também para exportação – inclusive para a problemática África do Sul -, logo foram saqueadas e deixadas de lado. Terras férteis viraram matas.
Ao mesmo tempo em que me acostumava com os zeros da moeda, aprendia mais sobre o Zim, e me encantava mais com ele. Na terceira semana fui conhecer as famosas Victoria Falls (Cataratas Vitória) com minha família. Cartão postal do país, na divisa com Zâmbia. Quedas muito diferentes das “minhas” (Cataratas do Iguaçu), mas também de uma beleza única. (Qual acho mais bonita? Considerando meu patriotismo, que cresceu morando fora – e ser “nativo” de Foz do Iguaçu – as do Paraná são mais belas. Somente um quilômetro de vantagem. Não pude ir às conhecidas piscinas que se formam na beirada das quedas, pois isso é no lado de Zâmbia. Fico na perplexidade ao ver as pessoas lá, a menos de cem metros de mim. E a menos de 1 metro da queda. Mas o que eu mais queria eu consegui, o Bungi Jump. Apesar da reprovação da família no Brasil, eu não poderia dizer não. (Não mesmo, todos os Guzha’s pularam, menos a Kumbi.)
Minha escola lá eu nunca gostei muito. Não que eu não goste de estudar, mas concordava com meu conselheiro, era um intercambio cultural, muito mais relacionado ao país e suas pessoas, do que ao colégio em si. O sistema do país é britânico, todas as escolas eram integrais, com treinos dos esportes da temporada, aulas de instrumentos musicais, menos a minha. Consegui, com qualidade boa no chute, jogar Rugby e, tocando violão, entrar numa banda de Jazz em outro colégio que me recebeu bem. Até tentei trocar, mas não deu. E com isso o colégio me baniu de atividades extras. Paciência, eu não era aluno mesmo.