Category: J. Carino

A feira encarcerada – J. Carino

Por J. Carino, 28 de agosto de 2010 0:22

As feiras livres são um universo à parte. Elas carregam, com fidelidade, muitas das tradições que, desde a Idade Média, configuram as transações comerciais. O que têm de bom e de mau está ali sempre: contatos humanos em torno das mercadorias; venda de produtos frescos; lugar onde produtores podem entregar, expor e vender seus produtos diretamente aos consumidores; cheiros e sujeiras; alaridos matutinos que perturbam a vida de moradores nos locais onde se realizam…

A cidade do Rio de Janeiro sempre foi, como sabemos, o centro cultural do Brasil. E, desde a vinda da família real, adaptou sua vida como um burgo colonial no qual os serviços prestados, sobretudo pelos escravos, espalhavam-se pelos quatro cantos. Transitavam por praças, ruas, becos, vielas desde os dejetos recolhidos até os quitutes mais saborosos. E talvez cidade nenhuma do mundo tenha tido tão sonoros e criativos pregões cantados por vendedores mil, os ancestrais dos nossos ambulantes.

Quando, com o decorrer dos séculos, a cidade foi se urbanizando e as coisas melhorando, nasceram as feiras livres.

Espalhadas pelos bairros, as feiras fixaram essas transações comerciais em lugares, dias e horários determinados. E se entranharam por completo na vida dos bairros e de seus moradores.

Quem viveu o Rio de ontem sabe como as feiras livres marcaram nossas vidas, com seu barulho desde a madrugada, os feirantes quase amigos íntimos de seus compradores, a gritaria dos barraqueiros, primeiro com o sotaque português, depois com a fala cantada nordestina.

O cheiro das frutas, o colorido das mercadorias, os sacos de cereais dobrados até a metade, expondo os grãos que eram vendidos a granel; a barraca de peixe, com o odor impregnando a feira toda; os queijos e doces; o mar verdejante de alfaces, couves, brócolis, chicória, agrião; as linguiças e toucinho mexendo com nossas papilas gustativas…

Ah, e o genuíno e inigualável pastel de feira? Frito na hora, lançava seu cheiro de gordura pelo ar na feira inteira, nas ruas em volta, no bairro, no mundo, na alma da gente.

Avançada a manhã, o início da tarde via o desmonte das barracas. Caminhões conseguiam, incrivelmente, equilibrar uma pilha de tabuleiros. E a feira se ia, deixando na rua muito trabalho para o pessoal do lixo.

A feira livre ainda está aí; resiste, mas se modernizou bastante, já tendo até carros frigoríficos e balcões refrigerados. Além das inevitáveis transformações, um inimigo talvez impossível de vencer veio se chegando e chegou para ficar: os “hortifruti”.

Essas redes de lojas são, para mim, feiras encarceradas. Seu ambiente é asséptico; a arrumação da mercadoria, impecável; a reposição, constante, recolhendo-se a todo instante aquelas frutas, verduras e legumes que, em tempos idos, faziam a festa de quem esperava a “hora da xepa”.

O silêncio impera de tal forma que os consumidores chegam a falar sussurrando, como se estivessem prestando reverência ao deus do consumo organizado, que estende seu reino ao armazém, que virou supermercado, à farmácia que se transformou em drogaria, aos restaurantes que se transmudaram em vendedores de comida a quilo. Esse silêncio só é quebrado pela música ambiente, que enfia por nossos ouvidos adentro uma tal “world music” aquela coisa estereotipada que ninguém sabe bem o que é.

Ah, que saudade devem ter os legumes, frutas e verduras da liberdade, do barulho e até da falta de higiene das velhas feiras. Lá estão eles, arrumadinhos e brilhantes sob luzes fortes, sem o vento, sem a poeira – mercadoria bonita mas que parece triste.

Fico imaginando: será que um dia não aparecerá um menino levado que roubará uma tangerina, um cacho de uvas, uma banana madurinha e sairá correndo com o empregado inutilmente em seu encalço?

Mas, qual, não há meninos e, talvez, nem vida verdadeira haja nessa feira encarcerada.

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Estranhas tartarugas – J. Carino

Por J. Carino, 21 de agosto de 2010 0:20

A toda hora a televisão nos mostra agora umas estranhas tartarugas. E não é no Animal Planet não, caro leitor. Já me explico.

Grande parte do mundo político e considerável número de empresas chafurdam, de braços dados, no mar de lama da roubalheira nacional do dinheiro público. Sucedem-se as Operações: Furacão, Lacraia, Saia Justa, Anaconda, Sanguessuga, Navalha, Xeque-Mate… Cada vez que esses escândalos vêm à tona, a TV mostra as ações da Polícia Federal, quase sempre abrangendo vários estados, na captura dos investigados e no recolhimento de provas que os incriminam. Nesses momentos é que podemos ver as estranhas tartarugas.

Em muito boa hora, a lei garante aos suspeitos o benefício de não terem seus rostos mostrados. Então, vale tudo para não mostrar a cara.

A cena é sempre parecida. Os geralmente jovens agentes, rapazes e moças, musculosos eles, elegantes elas, em seus uniformes negros, cercam os detidos, cabendo a um dos policiais a condução do preso ou da presa pelo braço.

Eis aí as estranhas tartarugas. Para evitar que seus rostos sejam exibidos pela indiscrição das máquinas fotográficas e câmeras de televisão, os presos lançam mão de qualquer coisa que possa impedir que suas caras sejam vistas.

Casacos e paletós, cachecóis e mantas, cobertores e jornais… Qualquer anteparo serve, desde que as caras sejam protegidas, desde que se impeça que a opinião pública veja e grave o semblante daqueles que estão sob suspeição.

Os donos dessas caras transformam-se, assim, nas estranhas tartarugas. Quando vão sendo conduzidos e topam com os fotógrafos e cinegrafistas, enfiam suas cabeças debaixo de agasalhos, jornais, panos, o que lhes for dado pegar na hora em que são presos.

Muitas vezes, julgando-se já fora do alcance das máquinas e câmeras, os suspeitos relaxam e põem novamente suas cabeças para fora. Mas, nesse instante, um fotógrafo ou cinegrafista mais insistente, capta-lhes o rosto que, com freqüência para mim assustadora, exibe o sorriso da impunidade ou a carranca altaneira da arrogância.

Longe de nós, não é caro leitor, reclamar do amplo direito de defesa ou da execração pública antecipada. Mas, dadas as clamorosas evidências, do monte de gente apanhada com a boca na botija, diga lá se você já não teve vontade de estar ali por perto, na hora de uma dessas prisões, para arrancar um desses casacos, cobertores e jornais, e sair brandindo com ira cívica esse troféu, enquanto o ladrão do dinheiro público fica com sua cara desnudada perante os olhos da nação.

Tartarugas (as verdadeiras) me encantam. Sejam as grandes, com suas imponentes carapaças, sejam as pequeninas, que correm ainda desajeitadas pela areia logo depois da eclosão dos ovos, demandando o mar, na desesperada e nem sempre bem-sucedida luta pela sobrevivência.

Os olhos de pálpebras caídas das tartarugas me comovem, parecendo sempre conter um quê de tristeza ancestral. Seus pescoços enrugados me lembram a nobreza das rugas dos avós. Por isso, certamente, os seres humanos atribuem-lhes a imagem de sabedoria e, nas fábulas, de repositórios de verdade e integridade.

Nada mais distante disso que essas estranhas tartarugas que vemos agora na mídia. Na maioria esmagadora dos casos, seus pescoços saem de colarinhos brancos ou de golas de caros casacos femininos, lembrando-nos que a elegância das roupas não tem nada a ver com a elegância da honestidade e da integridade. E, ao encolherem seus pescoços, esses estranhos quelônios de duas pernas, buscam escapar à claridade da exibição de suas caras acanalhadas pelas maracutaias.

Confesso, caro leitor, meu desejo quase incontrolável de agir como um predador, pelos menos simbólico, dessas estranhas tartarugas. Mas reconheço, desencantado, que elas se escondem, não somente ocultando o rosto sob anteparos, mas também entrando em suas carapaças de impunidades, ainda mais inexpugnáveis quando significam a tal imunidade parlamentar.

Resta a esperança de que, um dia, essa espécie das estranhas tartarugas seja extinta, ficando apenas as tartarugas verdadeiras a nos lançar olhares belos e melancólicos.



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Um gato na chuva – J. Carino

Por J. Carino, 14 de agosto de 2010 0:17

Debrucei minha insônia na janela. A chuva fina, dessas chuvas macias, que umedecem a alma antes de molhar completamente a calçada, criava um inelutável cenário para a melancolia.

Então, vários andares abaixo, vi o gato.

Na noite úmida, era impossível ver com clareza a cor do gato. Era uniformemente negro? Havia intervalos de manchas cinzas em seu pêlo? Ou pedaços amarelecidos, em meio ao negro, nessa cor ambígua comum a gatos e cães vadios? Ou seria isso tudo reflexo dos carros que passavam ou dos tons e semitons que as luzes dos postes jogam sobre o espelho das águas nos dias de chuva?

Gatos, como se sabe, não gostam de água. Talvez os gatos de madame, trabalhados pelos pet shops, com seus pêlos penteados e cheirosos, a tolerem. Mas de jeito nenhum os gatos vagabundos, que na certa preferem as noites secas, calorentas, onde suas patas bem firmadas e focinhos de olfato aguçado podem levá-los a gatas disponíveis para a loucura de noites felinas.

Tinha porte, esse gato. Vi – ou imaginei ver, talvez influenciado pela fama dos gatos – um brilho reservado aos olhares penetrantes nos olhos grandes desse gato. Parado na calçada, seu pescoço retesado elevava sua cabeça de orelhas pontiagudas a boa altura para sua espécie.

A chuva fina, insistente, indiferente ao que imaginei ser o desejo de estio do gato, continuava a molhar tudo, das coisas aos, agora raros, veículos que passavam, as árvores, a calçada, as marquises, o asfalto…

O gato parecia absorto. Para mim estava, com certeza, inteiramente absorvido em seus pensamentos felinos, talvez antecipando momentos de prazer, ou pensando num leite morno que pode ter tido nos tempos em que gozava de companhia, afeto e atenção numa ninhada.

Dei-me conta de que pensava pelo gato. Loucura? Talvez. No entanto, quantos de nós já não se identificaram com essa liberdade felina, essa gatice inabordável, que faz dos gatos animais estranhos, quando medidos por nossa sabedoria, ou ignorância, humana?

Por um momento, identifiquei-me com aquele gato. E, estranhamente, pareceu-me que, numa girada de cabeça, o gato voltara seu olhar para cima, em minha direção, na direção daquele doido, que observava, lá de cima, do conforto da sala, sua existência felina lá na rua.

De onde viera esse gato? – perguntei-me sem almejar resposta. Talvez tal gato, cheguei a imaginar, nem tivesse existência real. Quem sabe não seria uma representação imaginada de liberdades noturnas e de arrogâncias altivas que todos os gatos parecem ter? Ou seria esse gato na chuva um símbolo daqueles azares que imputaram aos gatos, certamente aos pretos, mas por extensão a todos os gatos?

Pouco tempo ficou o gato exposto aos meus olhos e como objeto de minhas reflexões de noite de insônia. Logo seguiu, lento, ereto, em passo macio, pela calçada, perdendo-se na noite chuvosa.

Fiquei ali, na minha janela, pensando que todos nós precisamos tanto de noites chuvosas quanto de reflexões assim, haja gatos ou não. O gato – que nem tenho a certeza se existia de fato, pois podia ser uma visão pertencente às brumas de um cochilo à janela – serviu para que meus pensamentos voassem e o espírito se soltasse pelas sendas da imaginação, em busca de estrepolias, humanas mas como as dos felinos, e do amor à liberdade e à insubmissão que atribuímos a esses animais.

Dizem que gatos têm sete vidas. Não sei. O que sei é que nós temos muito mais de sete incertezas, sete noites de insônia ou sete pecados a expiar.

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Espelho, espelho meu… – J. Carino

Por J. Carino, 7 de agosto de 2010 0:10

Dos espelhos, a vaidade nos espreita. Basta um olhar e caímos no laço da autoapreciação. É rápido e fácil virarmos Dorian Gray. Depressa, já estamos fazendo a nós mesmos a pergunta da invejosa que odiava de Branca de Neve: “Espelho, espelho meu, haverá alguém mais lindo do que eu?”.

Essas reflexões me ocorrem a propósito das academias de ginástica, esses lugares onde se vai para modelar o corpo e atiçar o Narciso que cada um tem dentro de si.

Academias de ginástica são sempre as mesmas; só mudam de endereço e diferem na sofisticação dos ambientes e dos aparelhos. Os tipos que as freqüentam também pouco variam, mas formam uma galeria que é, ela mesma, um reflexo da vida moderna mostrado nos espelhos.

A moça linda tanto deseja esculpir o corpo como exibir-se, na sedução de suas curvas, caras e bocas e olhares constantes para os espelhos que lhes devolvem elogios em forma de imagens. Seu empenho em tornear músculos é menor que o desejo – inconsciente ou não – de mostrar-se em poses sensuais as partes do seu corpo com as quais encanta: os quadris, as nádegas, as coxas, os seios e tudo o que forma seu conjunto harmonioso de encantos físicos.

A moça feia exibe-se igualmente, sabendo que a feiúra, em suma, não existe; o que existe apenas é a incapacidade de conseguir transformar-se em mulher sedutora, mesmo quando o corpo é parco de recursos.

Por isso, aplicada, esforça-se, e termina conseguindo mostrar-se também provocadora. E isto acaba sendo verdade sempre, justificando o ditado de que “há sempre um chinelo velho para um pé cansado e doente”.

O jovem saradão esfalfa-se para transformar-se numa torneada massa de músculos que atraiam e prendam os olhares femininos. Enquanto sofre e bufa esticando tirantes e levantando pesos, também lança aos espelhos olhares narcísicos, enquanto sonha com a conquista de belas gatas.

Mas as academias abrigam ainda outros tipos cuja motivação pode não estar no culto puro e simples ao corpo perfeito. Assim é, por exemplo, a mulher que sonha em recuperar, pelo menos, aquelas formas de antes da gravidez, voltando a exibir as curvas escondidas debaixo de gordurinhas pela ação implacável dos hormônios na sacrossanta tarefa de gerar nova vida.

Há um novo tipo, cada vez mais numeroso, empurrado para as academias por seu médico, um algoz vestido de branco. É o homem estressado, vítima das correrias, da competição e das armadilhas, falsidades e traições imperantes nos ambientes de trabalho. Esses soldados do dia-a-dia da guerra pela sobrevivência, lutando na selva produtiva, quase sempre não conseguem esconder que ali estão a contragosto, confinados, fazendo movimentos repetitivos, quando gostariam de estar curtindo uma happy hour, em torno de uma tulipa de chope, em plena caçada às mulheres ou já gozando o prazer do sexo entre os lençóis de uma suíte de motel.

As academias abrigam também idosos e idosas desejosos de manter alguma coisa da antiga forma, ouvindo a voz do bom senso, que aconselha manter-se o corpo ativo como antídoto contra o tempo, em seu inevitável ataque a músculos, nervos e articulações.

Existem ainda os que podem ser considerados “compulsivos de academia”. São aqueles e aquelas que não passam um dia sequer sem malhar, chegando alguns, muito radicais, a irem mais de uma vez por dia fazer sua malhação. Esses fazem da academia uma segunda casa, talvez um refúgio para sua solidão ou lenitivo para suas frustrações. Bem, melhor isso que uma baita depressão…

As máquinas de malhação das academias de ginástica são compostas por uma parafernália de tubos, correntes, pesos e contrapesos. Em volta da sala, essas máquinas de exercício têm sua imagem multiplicada nos espelhos, que multiplicam também os gestos e movimentos dos que se exercitam, refletindo muitas vezes as caretas de dor provocadas pelo esforço excessivo. Outras vezes, pode-se ver refletidos os sorrisos de satisfação quando a conquista de um corpo bem torneado parece alcançada, num músculo inflado aqui, numa curva mais acentuada ali ou numa flacidez de barriguinha vencida acolá.

Um último e indispensável componente das academias de ginástica é o fundo musical. Os corpos que malham têm seu movimento repetitivo ajustado ao ritmo de músicas que parecem ter sido compostas para isso. Em volume altíssimo, o som envolve a todos, fazendo a marcação das contrações e distensões, representando a trilha sonora desse culto ao corpo, que vem de tempos remotos na cultura ocidental, desde que os gregos conceberam e os romanos disseminaram a idéia de “mente sã em corpo são”.

Malhemos todos, pois, deixando na academia nossa cota de suor. Então talvez o espelho nos dê a resposta tão desejada.

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Livros, uma sedução – J. Carino

Por J. Carino, 31 de julho de 2010 0:10

Minha boa amiga me pergunta o que deve fazer para que seus filhos se interessem pelos livros e pela leitura. Pensando numa resposta, me veio à lembrança uma passagem do ótimo filme “O Silêncio dos Inocentes”. É aquela em que Hanibal Lector, o genial vilão, querendo dar uma pista sobre o assassino serial, diz: “Só cobiçamos o que podemos ver”.

Minha resposta à amiga foi: exponha ao máximo os livros em casa. Deixe que seus filhos os tenham sempre diante dos olhos, possam tocá-los, cheirá-los, até mordê-los, se forem crianças pequenas.

Em minha casa temos um hábito que não aconselho aos que gostam de ter tudo sempre arrumadinho, intocado, inacessível, sobretudo às crianças. Os livros pululam, e a gente os encontra nos lugares os mais improváveis.

Nas estantes, ordenados, enfileirados, catalogados, os livros impressionam, mas parecem inibir a todos os que não convivem com eles. Parecem sentinelas de uma cultura erudita. Parecem igualmente apenas instrumentos de pesquisa, que estão ali prontos para entrar em ação em prol do trabalho, da obrigação, de tarefas acadêmicas ou coisas que o valham.

Ora, livros não foram feitos apenas para servir a esse propósito. Além dessa finalidade, sem dúvida nobre, porém formal, livros devem conduzir ao prazer. E prazer e formalidade nunca se dão bem.

Livros devem seduzir. Do contrário, não cumprirão sua verdadeira missão, que é a de humanizar, em todos os sentidos: instruindo, informando, divertindo.

Livros precisam ser cobiçados. Para isso, têm não apenas de ser vistos, como disse o personagem do filme; é necessário também que estejam absolutamente acessíveis.

Tenho aqui um Machado, em volume de obras completas, que fica sempre na mesinha de centro da sala. Por isso, muitas vezes, a ironia do bruxo do Cosme Velho já alimentou muitas conversas com amigos que nos visitam.

Na cabeceira da cama, dócil, meiga, sonhadora, Cecília faz morada. E me socorre, generosa como em vida, quando a insônia bate forte.

Pesquisas inúteis nos dão conta de que passamos uma boa parte da vida no banheiro. Pois aí está um bom lugar para se ter uma boa pilha de livros. Quem sabe se assim, adolescentes onanistas não trocarão a necessária mas fugaz Playboy por alguma leitura igualmente erótica porém mais duradoura e densa?

Sherlock Holmes anda agora em nossa mesa da cozinha, por onde aliás passaram recentemente Aghata Christie e Dashiell Hammett. Que crimes andarão eles investigando entre café, leite, pães, manteiga e uma perigosa faca afiada?

Um dia desses, descobri que Guimarães Rosa andava, talvez perdido, nas veredas do corredor!

Há algum tempo, observei uma artimanha de Platão: estava bem ao lado da TV, em cima do controle remoto. Na certa, tentava substituir pelas profundas indagações socráticas as baboseiras generalizadas que a televisão tenta nos impingir.

Fernando Pessoa no lavabo; Paulo Mendes Campos na entrada do apartamento, sobre o aparador, montando guarda, com sua genialidade de cronista; Dickens e Tolstoi estavam outro dia, lado a lado, sobre o parapeito da janela. Nelson Rodrigues – imaginem – eu pilhei num lugar bem adequado: num banquinho, na entrada… do quarto de empregada!

Tempos atrás, Melville, em seu “Moby Dick”, foi parar sobre a pia da cozinha. Bem, talvez faça sentido, baleia, água, mar…

Penso que livros devem ser conservados, para que durem e cumpram seu destino: servir ao máximo possível de leitores. Possuí-los egoisticamente não me parece condizente com isso. Assim, uma vez lidos, e se não são imprescindíveis para um trabalho continuado, devem ser passados adiante. Deste modo, transformam-se em novos para quem for lê-los; abrirão caminhos para outras pessoas; iluminarão vidas.

Conservá-los não impede, por exemplo, que se lhes escreva nas margens, um exercício de parceria que certamente agrada a qualquer autor.

Livro é, para mim, sacrossanto por seu conteúdo, sua magia, sua insubstituível finalidade. Mas não é um ícone sagrado. Numa espécie de humildade superior, um livro se presta até a tarefas prosaicas. Agora mesmo, Euclides da Cunha, com seu “Os Sertões”, de linguagem arrevesada e conteúdo tão fundamental para se entender o Brasil, está aqui, servindo de suporte ao laptop em que escrevo esta crônica. E nem por isto perdeu sua sedução!

Não sei se nossa experiência aqui de casa com os livros servirá à minha amiga e a outras pessoas. Muitos são essencialmente refratários a eles, e só lerão pela vida afora o estritamente necessário. O que sei é que livros devem se converter numa sedução necessária, o que me parece mais verdadeiro ainda quando se trata de crianças. Quanto mais cedo se é seduzido, mais tempo se tem, ao longo da vida, para vivenciar o mundo maravilhoso da leitura.

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Nostalgia dos quintais – J. Carino

Por J. Carino, 24 de julho de 2010 0:10

Tenho em meu peito a nostalgia dos quintais.

Não falo de quintais grandes, como os das chácaras, mas sobretudo dos pequeninos, aqueles espaços diminutos e cobertos de céu, o pouco-muito de amplidão que as casas suburbanas podem oferecer; quintal visto por um olhar de criança, lançado de um ponto bem próximo do chão; um olhar que ainda não chegou lá em cima, na altura responsável, prática e complexa dos adultos, mas que tem a complexidade da imaginação; um olhar que é cúmplice das pequenas coisas – das pequenas flores, dos insetos diminutos, de tudo que é miúdo.

Um quintal pode ter um muro, antes pintado do branco imaculado da cal, depois aos poucos transformada num creme pela ação implacável do sol e da chuva. Muro que apresenta, aqui e ali, trechos derrubados ou buracos providenciais para uso dos gatos, pequenos cachorros, lagartixas ou pequenas e inofensivas cobras.
Esse muro deve ter penduradas aquelas latas cortadas, depois abertas em forma de pequenas jardineiras – obra do carinho botânico de mães e avós.

Tal “jardim suspenso” precisa oferecer sua festa diária de luz e cor, quando as plantinhas e flores recebem o beijo de bom-dia do sol.

Um quintal deve ter capim, com suas moitas viçosas e irregulares, não com a homogeneidade bem-comportada da grama de jardins chiques.

Um quintal pode ter uma parte em que o recolhimento das águas da chuva forma poças, verdadeiros lagos idílicos onde navegam as poderosas frotas de barcos de papel comandadas por crianças sonhadoras.

Um quintal tem que ter suas formigas de vários tipos e tamanhos, mas todas empenhadas em sua faina incansável de transportar folhinhas, pequenos galhos, partes de outros insetos. E borboletas, que esvoacem no início da manhã e no lusco-fusco do fim do dia.

Um quintal precisa ter suas flores. Não aquelas flores sofisticadas, resultados do empenho dos geneticistas e do abrigo das estufas, mas flores simples, como pequenas margaridas brancas ou amarelas; ou onze-horas orgulhosas de seus vermelhos e grenás berrantes; ou aquelas florezinhas que, de tão humildes, não têm nome, como as que se oferecem nas hastes do capim; ou flores modestas de plantinhas indistintas que brotam no meio do mato, mas que se apresentam como sofisticadas obras de arte da natureza, desde que haja olhos atentos capazes de vê-las assim.

Um quintal deve ter pelo menos uma árvore – uma mangueira, uma goiabeira, um pé de cajá… Essa árvore, além de oferecer seus frutos, cujo gosto permanecerá a vida inteira na boca de quem os comer, formando uma indelével e deliciosa memória gustativa, será também uma ligação entre o nível do chão e as paragens do céu; será igualmente o perigoso (segundo os adultos) lugar dos exercícios que transformam meninos e meninas em hábeis símios humanos, possibilitando ágeis escaladas, incríveis contorções e miradas ao longe, o que nenhum aparelho de academia ou brinquedo de parquinho jamais oferecerá.

Um quintal desses pode ter, lá no fundo, um pequeno galinheiro, construído de forma tosca com tábuas irregulares. É nele que crescerão aqueles pintinhos de feira, cujo amarelo-ouro e piar triste tornam irresistível a compra na feira depois dos pedidos insistentes de crianças encantadas.

Esse galinheiro acabará tendo algumas galinhas modestamente poedeiras, e um galo velho e irascível, capaz de bicar dedinhos esquecidos nos buracos das telas. Galinheiro que poderá transformar-se, para as crianças, no inevitável primeiro confronto com a finitude, quando doenças comuns dizimam aves, belas e vigorosas, ontem em seus puleiros, hoje caídas no chão com a implacável rigidez da morte.

Um quintal pode ter seu quartinho de guardar bagulhos, antro de segredos para crianças curiosas. Aí estarão as ferramentas raramente utilizadas pelos pais inábeis mas que alguma vez se julgaram grandes marceneiros, eletricistas, mecânicos, pintores de parede…

O chão do quintal costuma oferecer aos pés vários tipos de terra: a preta adubada, o barro que agarra valentemente nos sapatos, a areia que serve para ser transportada nos caminhõezinhos dos meninos. E pedras, cinzentas, amarelas, esverdeadas – grandes, médias e pequenas, mas todas capazes de caber nas mãos ou nas atiradeiras de crianças mais levadas.

Esse chão é também um cemitério onde jazem semi-enterrados pedaços daquele cavalo feito com cabo de vassoura; braços e pernas amputados de bonecas no auge do entusiasmo das brincadeiras; rodinhas que pertenceram outrora a valentes jipes ou a sofisticados cadillacs de plástico; bolas de gude que já deram ao seu possuidor grandes vitórias no jogo de búlica…

Um quintal poderá ser também um refúgio para a criança magoadíssima com as palmadas ou a surra que levou, e que imagina que seu mundo acabou num momento assim, sem saber que, em quintais, mundos começam e se fortalecem para toda a vida futura, na qual provavelmente surgirão mais becos sem saída que a doçura e a esperança dos quintais.

Um quintal é um mundo. Infelizmente, um mundo inexistente para as crianças de hoje, às quais restam, quando muito, os espaços planejados e quase asséptico dos condomínios, ou o melancólico confinamento dos play-grounds.

Tive mais de um quintal assim, caro leitor. Deles tenho hoje uma doce nostalgia. E você, teve seu quintal?

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Uma flor na correnteza – J. Carino

Por J. Carino, 17 de julho de 2010 0:10

Chovia demais. Era uma segunda-feira que não combinava com o Rio, amada cidade de irresistível vocação para os belos dias de sol.

Foi aí que encontrei a flor.

Era uma margarida cor de ouro, como se significasse a preservação da luz solar em meio ao cinzento homogeneizador da chuva torrencial.

Vinha boiando na correnteza, qual um barco de alegria colorida, singrando o caudaloso rio rente ao meio-fio. Perfeição em forma e cor, sob medida para dissolver tristezas e banir melancolias.

Lá vinha a florzinha. De onde? Dalgum buquê de noiva? Ou de uma braçada de flores que fizera a felicidade de alguém, num aniversário, na reconciliação de namorados ou amantes, na homenagem prestada em alguma cerimônia religiosa ou profissional? Jamais poderei saber, caro leitor.

Foi inevitável: ao ver a flor na correnteza, lembrei-me dos barquinhos de papel de minha infância, também navegando nos rios criados pela chuva, que ainda correm na minha lembrança. Em dias assim, era impossível a liberdade das brincadeiras na rua; restava a contemplação do mundo pela janela, ou na beira da calçada, debaixo de uma marquise – tudo visto através da água caindo dos telhados e formando uma translúcida cortina.

Era então muito fácil singrar mares de poça ou os rios dos vãos das pedras, usando os barquinhos de papel – quase sempre feitos com folhas de cadernos, que cediam o espaço destinado à aprendizagem das palavras e números para a aquisição da inestimável sabedoria oferecida pela imaginação.

A florzinha, tão bela e delicada, flutuava lentamente. Por vezes, parava, momentaneamente presa numa pedra, soltando-se logo, como que inebriada na vertigem dessa viagem pelo aguaceiro.

Mesmo na ausência de sol, havia brilho naquelas pétalas – memória talvez de um imenso campo florido, ou talvez de um modesto jardim com apenas alguns pés de margarida.

Pareceu-me clara a mensagem de coragem existente na pequena flor. Era como se ela pudesse conduzir seu destino na loucura de uma viagem sem volta, no usufruto de uma correnteza de vida que ia para não se sabe aonde.

Eu acordara de mal comigo mesmo e com a vida, raivoso, quase colérico, por ter de sair num dia daqueles, para enfrentar problemas, fazer coisas desagradáveis, tentar resolver questões difíceis, tudo isso em meio à sensaboria do cotidiano.

Ao observar aquela linda flor, leve, solta, navegando graciosamente na água da chuva, esqueci-me de meus sapatos encharcados, de minha barra de calça incomodamente molhada, de meus problemas, de meu péssimo humor.

Senti-me um canalha, incapaz de reconhecer a simples dádiva de estar vivo e consciente. Então, fiquei feliz. Por tudo: pela beleza da flor, por minhas lembranças da infância ditosa, por tudo de bom que se pode ver e sentir na viagem da vida.

Experimentei, então, felicidade até por causa da chuva que caía. Era bonito de se ver o brilho que o dia cinzento ganhava no reflexo da água; os pingos – pérolas de cristal – caindo na calçada; a gente de cabelo molhado que passava; o reflexo das casas nas poças.

Acho que viver a vida é também isso: deixar-se levar pela correnteza vital, aceitando-a, com alegrias e prantos, dores e prazeres. É a possibilidade que temos de aceitar o que temos, e a de poder buscar o que não temos.

Obrigado, pequena flor, por esse encontro. Espero que, ao seguir na correnteza, você tenha alegrado muita gente, como me alegrou e me trouxe esperança.

Tomara podermos, sempre, sempre, ter olhos para ver coisas mágicas, como essa florzinha de amarelo-luz.
Oxalá possamos navegar pela vida com a coragem, beleza e capacidade de doar felicidade que pude ver nessa bela flor singrando um rio de imaginação na beira da calçada.

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