Category: Crônicas com áudio

MAC – Do passado ao futuro numa viagem de beleza – J. Carino

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Por Carino, 3 de agosto de 2009 6:08

Lá está ele, belo, inusitado, diferente, para sempre incorporado à paisagem. O prédio do Museu de Arte Contemporânea, em Niterói, é assim: desperta amor, admiração, espanto – nunca indiferença.

É maravilhoso vê-lo nas manhãs em que o sol banha generosamente a Boa Viagem. Pousado no seu promontório, o museu destaca-se, em sua brancura imaculada, contra o pano de fundo em que a natureza – artista caprichosa, perfeccionista – exagerou na beleza, pintando a exuberância em verdes escuros de mata e azuis-esverdeados profundos de mar.

Porém, é igualmente maravilhoso olhá-lo à noite, em destaque contra o veludo negro da escuridão que cobre o mar e as montanhas, sobre o qual aparece apenas o colar de pérolas das luzes ao longe, que enfeita o colo vaidoso da madrugada. A alvura do museu transfigura-o, transformando-o quase numa visão sobrenatural que paira sobre a cidade e sobre o mundo. O espelho d’água no qual a base do museu repousa faz com que a iluminação, em profusão de cores, refletida na superfície branca, crie a impressão de que a magistral obra de arte arquitetônica flutua e tremula, ligeiramente, tornando a visão do MAC ainda mais misteriosa e encantadora.

Oscar Niemeyer não se cansa de afirmar sua dívida para com as curvas femininas, que sempre foram transpostas da sua imaginação para as obras arquitetônicas, suavizando e sensualizando a rudeza do concreto.

O MAC é uma prova inequívoca dessa paixão pelo curvilíneo vivida por nosso genial arquiteto. Lá estão – para quem tem olhos de ver com paixão -, na cúpula, na rampa de acesso, no corpo central de sustentação, as curvas de quadris, o arredondado de seios, o roliço de braços e coxas, o arrebitado de nádegas, o convexo de maçãs de rosto… Estão lá, enfim, as formas supremas e deliciosas do corpo da mulher.

O museu atrai chusmas de turistas. No meio de tardes que pareceriam destinadas à tranqüilidade, o silêncio é quebrado pelo vozerio de crianças. Elas saltam de ônibus de excursão e se lançam, com seu alarido, em direção à rampa do MAC, muitas vezes perseguidas por professoras preocupadas e atentas para que o entusiasmo não se transforme em algum acidente.

Mas qual, o museu recebe-as em suas entranhas, nas quais lhes oferece, generosamente, visões de beleza e de cultura inesquecíveis.

Lá dentro – sejam as crianças, seja qualquer um de nós – somos envolvidos numa atmosfera de reverência, enquanto percorremos rampas e salas, movidos pela curiosidade, pela ânsia de fruir o belo, pelo desejo de ver, sentir, saber.

Nesse templo da arte moderna, somos mobilizados e conquistados pelo inusitado das formas e das cores. Nossa sensibilidade é despertada pela iconoclastia da arte transgressora, inovadora, muitas vezes chocante. Somos arremessados sem dó para o novo, para o futuro.

Mas, nesse cadinho de surpresas artísticas que é o MAC, uma outra surpresa aguarda os mais atentos: olhando pelas janelas inclinadas, vemos logo ali adiante, a algumas centenas de metros, a Ilha da Boa Viagem, que nos contempla, com sua capelinha contemporânea do início de nossa colonização.

Do MAC, podemos olhar lá para baixo, para esse mar de incrível beleza, iridescente ao refletir a luz do sol, e para outras curvas: as das montanhas. É como se descobríssemos, de repente, a sintonia e a cumplicidade perfeitas entre as curvas de sensualidade feminina inventadas por Niemayer e uma sensualidade brejeira em curvas exibidas pela natureza.

Podemos também imaginar os tempo idos, em que índios vigorosos, vestidos apenas com a nudez da inocência e com sua nobre condição de guerreiros, remavam de volta da pesca para os braços de suas amadas.

Eis o milagre: nossa visita ao MAC nos envia, alternadamente, num átimo de segundo, do passado ao futuro, e vice-versa, deixando-nos gostosamente aturdidos com a beleza de nossa terra e a importância de nossa cultura e de nossa arte.

Muitos preferem comparar o prédio do museu a um disco voador. É possível igualmente incorporar essa visão, imaginando o MAC como uma nave, vinda dos espaços siderais e pousando suavemente nesse lugar de raríssima beleza. Com isso, seres extraterrestres, viajando centenas de anos-luz, teriam vindo contemplar a exuberância da terra brasileira. Eles trariam, no interior de sua nave – o museu – as obras de arte moderna, como um recado de carinho e respeito enviado pelo futuro a Niterói e ao Brasil.

 

Fonte: Alma Carioca – Niterói

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Tarde cinzenta – J. Carino

Por Carino, 3 de julho de 2009 6:32

tarde cinzenta

A tarde de inverno é perfeita. O tempo nublado acinzenta tudo. Mesmo os mais empedernidos cultores da agitação, do barulho, das cores, hoje se rendem a uma certa passividade e melancolia. Os espíritos ensimesmados reinam; os ativos pagam tributo à reflexão. Sem o sol, que provoca a rudeza dos contrastes, tudo é sutil, tudo é suave.

Tardes assim nos reconciliam com o efêmero. Longe das certezas substanciais, ficamos flutuando entre as névoas da dúvida. A superficialidade, que aparentemente plenifica, dissolve-se; acabamos ancorados no porto das insatisfações. E, ao invés de nos perenizarmos como singularidade, desejamos subsumir na névoa… como a montanha e a tarde.

A vida sempre pára numa tarde assim. É como se tudo congelasse. Moléculas, músculos, máquinas e espíritos interrompem seu furor produtivo e se rendem, estáticos, à magia da tarde cinzenta.

Numa tarde assim, não há senão uma coisa a fazer: contemplar. O espírito, carregando consigo um corpo por vezes contrariado, aquieta-se e divaga; torna-se receptivo a tudo: aos mínimos sons, às réstias de luz que atravessam a névoa, ao lento e pesado progresso que tudo conduz para o fim do dia, para o mergulho nas brumas da noite. As narinas absorvem com prazer um odor que parece carregado de umidade; a pele sente o toque enérgico do frio. O langor impõe-se e comanda esse estar-no-mundo como que suspenso por um tênue fio que nos liga, timidamente, à vida ativa.

Nas tardes cinzentas o coração balança entre a paz e a inquietação, porque a calma e o silêncio inquietam. O azáfama anestesia; o não-fazer deixa o espírito alerta – como um nervo exposto a qualquer acontecer.

Não há jamais nada de espetacular nas tardes cinzentas, a não ser o espetáculo da própria tarde. E este é grandiosamente simples: ar friorento, claridade difusa que se perde no cinza, contemplação, inatividade e o contraditório do espírito aguçado e acuado por esse acontecer minimalista da vida.

Na tarde fria e cinzenta, corpos se rendem ao aconchego de roupas macias ou de braços macios em abraços suaves. Somente olhares e corações conservam o fogo das paixões. As vozes agudas e imperativas transformam-se em sons baixos, quase guturais, que muitas vezes convertem-se em sussurros, como temendo quebrar a magia da tarde.

Não nos iludamos com as aparências: não há necessariamente tristeza nas tardes cinzentas. Mas também não existe aquela alegria inconseqüente dos dias cálidos e dourados pelo sol. Existe, sim, um equilíbrio perfeito, numa eqüidistância entre o tédio e a euforia, fazendo-nos caminhar sobre um tênue fio distendido entre o amargor e a satisfação, entre o entusiasmo e o tédio. Tudo isso, porém, só se mostra aqui e ali, em meio à bruma difusa, ao cinza que permeia tudo.

Uma simples tarde cinzenta pode parar o mundo, pode deter a vida. Somente por um instante. Mas talvez apenas nos corações sensíveis.

 

Ouça “Tarde cinzenta” na voz do autor, J. Carino:

 

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Sobrevoo – J. Carino

Por Carino, 25 de junho de 2009 13:04

 
Ouça Sobrevoo na voz do autor:

 

 

Olho do alto a grande cidade. Essa imensa maquete nem parece prenhe de vida. A esta distância, em sobrevôo, não me chegam as verdadeiras proporções das coisas: ruídos, cheiros, texturas não existem.

Demiurgo, posso criar minha própria cidade imaginária.

Desenho ruas com caprichosas sinuosidades de rios: nada me impõe as angulosidades funcionais.

Crio praças, muitas praças – círculos para encontros, espaços para o povo.

Semeio verdes generosamente: tapetes e mais tapetes de grama; árvores grandes e pequenas, antecipando-as pejadas de flores e frutas, pouso certo dos passarinhos.

Construo prédios, uns grandes outros pequenos. Neles, sem pressão e azáfama, há gente que faz coisas não esperadas: recita poesia pelas salas; dança pelos corredores; faz dos elevadores câmaras de eco ideais para os assovios…

Ergo casas pequenas em terrenos grandes, cercando-as de jardins. Trepadeiras firmam-se nos beirais e sobem aos telhados; samambaias curiosas se metem pelas janelas, num doce voyeurismo em verde; flores saturam o interior das moradas com infinitas variedades de perfumes.

Ao invés de veículos que atravancam, há gente nas ruas; gente que passeia com total liberdade. Há crianças despreocupadas brincando sob as árvores. Ninguém se sufoca nas casas sob o jugo hipnótico da parafernália eletrônica.

Daqui de cima, em meu sobrevôo, não distingo o que dizem, mas sei que se conversa muito nesta minha cidade imaginária. Fala-se livremente: de amor, de solidariedade, de cooperação. As palavras são as únicas armas — para convencer, nunca para impor, humilhar, ordenar. Ri-se muito; o humor perpassa os contatos humanos, dando à vida um sabor inigualável.

Ah, como se canta nessa cidade! Melodias e harmonias embalam o cotidiano. Cantos singulares e cantos conjuntos fazem-se ouvir todo o tempo; todos amam a música que, em seu milagre sonoro, suaviza o viver e destrói a rudeza, penetrando pelos ouvidos e chegando às almas.

Ama-se total e exuberantemente nessa cidade: do amor carnal, físico, sensual, ao amor platônico, tímido ou incapaz de declarar-se. Mãos, lábios, corpos inteiros aproximam-se, tocam-se, entrelaçam-se.

Labora-se muito na minha cidade imaginária. Trabalho e lazer são quase indistinguíveis, dado que cada um faz o que lhe cabe com prazer, exercitando, de modo feliz, um labutar que resulta no benefício de todos.

Daqui desta altura, posso sentir a paz que reina em minha cidade. Uma paz que penetra em tudo, que a tudo e a todos envolve. Pacíficos são os objetivos, os empreendimentos e os modos suaves embora determinados de alcançá-los. Não há guerras em andamento ou em perspectiva: sejam as grandes carnificinas que lançam a raça humana no lodaçal da indignidade, sejam as pequeninas guerras do dia a dia – as disputas miúdas pelo poder, os embates para sobrepujar o outro, os duelos de prestígio, as brigas em torno de questiúnculas que tanto tempo roubam à possibilidade da vivência plena da vida.

Sobrevôo minha cidade. É linda, me faz feliz e… melancólico, por sabê-la tão bela; por vê-la como um fruto perfeito da engenharia imaginária de que nosso espírito é capaz; por contemplá-la em sua singeleza e felicidade; mas igualmente por sabê-la utópica e irrealizável.

Realizador fracassado diante da impraticabilidade do que foi concebido, sinto-me, porém, eufórico com a dimensão poética de meu sonho. Lanço mais um olhar à minha querida cidade, lá embaixo. Cubro-a de nuvens brancas, com as quais desenho caprichosamente carneirinhos, buquês de intensa alvura, flocos de brancura imaculada e outras formas comuns ou estranhas, ao sabor de meu delírio.

Sigo voando, célere, pelo céu quase absurdamente azul, em cujo horizonte vislumbro a vermelhidão de um intenso pôr-de-sol. Quem sabe, lá longe, no infinito, existirá, nalgum lugar, nalgum tempo, uma cidade assim!

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Soneto internético – J. Carino

Por Carino, 15 de junho de 2009 17:35

Hoje não há mais penas que rangem
sobre a brancura completa do papel.
Dedos poéticos hoje se constrangem
digitando versos por aí, ao léu.

Internéticas musas sensuais
as infovias percorrem sem cessar.
São musas puras, porém virtuais,
que a fronte do poeta vêm beijar.

Se tudo em volta é tecnologia,
se é micro, chip, o que tem valor,
o que conta inda hoje é a poesia,

é a paixão que mantém seu esplendor,
o que nos resta em nosso dia-a-dia
é o velho sentimento que se chama Amor.

Ouça Soneto Internético na voz do autor:

 

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Declaração (ou “Pelo avesso”) – J. Carino

Por Carino, 7 de junho de 2009 15:26

Saibam todos: nunca mais vou cair na armadilha do lusco-fusco da tarde, que umedece olhos e amolece corações. Doravante, serei surdo aos ruídos carinhosos que enchem sutilmente de sons os momentos da morte relutante do dia: um cão que ladra; um trem que apita inconcebivelmente; um galo traidor que desloca seu ofício para longe da madrugada; uma freiada de carro contrariada num sinal luminoso; a música de um rádio derramando-se através da janela carcomida e mal pintada da casa velha e mal conservada; o som de sinfonia desconcertante das goteiras depois da pancada de chuva.

Anotem: jamais ficarei novamente à mercê dessa beleza insinuante contida na tarde suburbana. Dessa usina submersa de poesia, que induz pobres almas sensíveis a mergulhar no sonho, a construir inúteis poemas; que faz com que tímidos apaixonados se transformem em escandalosos menestréis.

Registrem: recuso-me a ver o belo que há na saída barulhenta dos jovens da escola; na caminhada aparentemente tranqüila dos operários que deixam a fábrica, felizes na ignorância dos explorados; no passo cadenciado, bamboleante e sedutor das jovenzinhas em flor, expectantes e ansiosas, envolvidas no jogo da sedução.

Declaro-me rompido com essas coisas simples e vitais: com os últimos raios de sol coados através das folhas das mangueiras de quintal; com o arco-íris das roupas rotas penduradas nos varais; com o arrulho de rolinhas nos infindáveis telhados que parecem um mar cor-de-telhas, ondeando por sobre casas simples; com a gota de orvalho que rola, lentamente, na folha de capim, até despencar e explodir contra a terra ensombranda do jardim, num suicídio em líquido e luz.

Renego os belos quadros, que são armadilhas coloridas para os olhos, mentes, corações – janelas traiçoeiras voltadas para a beleza, para o inusitado ou simplesmente para o chocante ou o enigmático; e os livros, essas profundidades abissais habilmente disfarçadas em páginas entre capas – mundos sedutores, irresistíveis, desafiantes, provocadores, intrigantes.

Repudio a poesia, fugindo espavorido dos cânticos de amor, das odes grandiloqüentes, dos sonetos redondos e apaixonantes, das rimas e dos versos livres, e até de assustadoras demonstrações de aguda sensibilidade vazadas em versos de pé-quebrado.

Rechaço a música. Nunca mais me deixarei enlevar por sons maviosos ou entusiasmar por estridentes fanfarras. Não me atravessarão os ouvidos nem me falarão ao coração: as imensas sinfônicas ou filarmônicas; as modestas bandinhas com suas retretas em coretos de pracinhas em cidades interioranas; ou solitários solistas nas ruas e praças, armando impunemente suas armadilhas sonoras para transeuntes apressados que carregam ouvidos moucos e almas impressionáveis.

Declaro tudo isso peremptória e solenemente. A tudo isso que foi declarado rechaço, repudio, renego. Mas, sobretudo, declaro-me inimigo, desafeto, rompido com quem quer que seja capaz de acreditar que há um pingo sequer de verdade nesta declaração.

Ouça “Declaração” ou “Pelo Avesso” na voz do autor.

 

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Crônica veloz – J. Carino

Por Carino, 30 de maio de 2009 18:17

Desejo que esta crônica seja rápida, célere como um bólido de Fórmula Um correndo nas quebradas de uma noite metafórica, onde há que desviar, com perícia, de vírgulas mal postas, de pontos mal colocados.

Ou, melhor ainda, veloz como um corcel marrom-claro galopando, com altivez, na manhã ensolarada, pela campina verdejante coalhada de adjetivos pomposos, substantivos mais do que concretos e advérbios bem proverbiais.

Rápida como um pensar vertiginoso, que se comporte qual um menino ágil e sadio na brincadeira de pique-esconde: um pensar que não se deixe agarrar pelas metáforas pastosas nem pelas analogias pegajosas.

Uma crônica veloz que fale de sensações e sentimentos vividos com rapidez: a lambida no sorvete; a ardência da pequena queimadura; o tropeção quase, quase tombo; o adeusinho ao conhecido muito chato; a corrida de taxi com um motorista loucão; aquele beijo roubado; aquela transa tão fugaz quanto inesquecível…

Rapidez: como no revirar de olhos da menina sedutora; como nos dedos impressionantemente rápidos do prestidigitador; como nos pés com asas de um corredor; como no choro brevíssimo e sem lágrimas da criança esperta, logo contentada pelo presente que queria.

Rapidíssima crônica, como as sinapses eletrônicas no interior dos computadores; e como as ultra-rápidas mensagens por elas possibilitadas, substituindo a lentidão das cartas, mas impedindo o muitas vezes necessário arrependimento que, simplesmente, as convertia em papel picado.

Crônica célere como as máquinas que produzem muito, excessivamente até, para um lucro que beneficia tão poucos.

Rapidez como a de um flash que consagra a nova beldade e condena ao ostracismo e ao desespero a bela de ontem.

Seja rápida esta crônica, para não dar tempo de pensar na loucura da rapidez que nos envolve, desenraíza e transporta para o não-sei-onde nas asas velozes do não-sei-o-quê.

Crônica para ser lida rapidamente, sem sentir o amargor, a ironia, os subterfúgios, os engodos contidos nas frases e palavras, que só podemos descobrir quando as desnudamos com calma, com a impiedosa vagareza de quem pára, reflete e… compreende.

Rapidíssima crônica seja esta, como os astros velozes na imensidão silenciosa do espaço infinito; como as aceleradíssimas partículas atômicas e sub-atômicas – realidade veloz que contraria nossa enganosa visão de uma plácida permanência de todos os seres, de todas as coisas.

Velocíssima crônica, como as batidas descompassadas de um coração acelerado pela paixão e pelo desejo.

Crônica rápida, que acaba aqui, neste átimo de segundo, que a-ce-le-ra-da-men-te já virou passado. Tudo assim, rápido, célere, apressado, na eterna vertigem do tempo corrido, sentido, vivido.

 

Ouça a crônica na voz do autor.

 

 

 

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Terra molhada – J. Carino

Por Carino, 22 de maio de 2009 18:58

Terra molhada

Incomparável. Nada existe como o cheiro da terra molhada pelos pingos da chuva num dia de verão. Nesses momentos, o sentido olfativo é uma bênção. Animais humanos, somos nesses instantes absolutamente telúricos, gostosamente imersos no cheiro que nos penetra.

Se andando na chuva, é possível sentir o toque sutil das pérolas cristalinas que tocam nosso corpo; se abrigados, sobrevém uma vontade irresistível de ver a chuva, que nos chama tamborilando na vidraça.

É gostoso contemplar a terra cálida, ainda nostálgica do sol, receber em seu seio, e absorver, as gotas frias de água que tombam do céu – canteiro molhado por um deus-jardineiro caprichoso.

Olhando com atenção a terra, é possível ver que, no contato com o solo, o líquido, sofrendo milagrosa metamorfose, transforma-se em nuvenzinhas brancas muito sutis, que escapam em direção ao céu, no eterno círculo onde nada se perde.

O ar, saturado do perfume inconfundível surgido da fusão de água e terra, fica gostoso de sorver. E parece que tudo esperava esse presente líquido-terroso: a superfície rugosa da madeira; as dobras elegantes dos tecidos; o pêlo sedoso dos animais; a superfície negra do asfalto aquecido; a rigidez do concreto; o cabelo brilhante das mulheres; a maciez do capim…

Há um limite para esse momento de pura magia. A chuva deve ser rápida, quase tanto quanto um beijo roubado. Durando demais, encharca tudo, entranha-se na terra, alaga, afoga – subjuga coisas e gente na umidade, parecendo tudo liquefazer: do barro antes orgulhoso de sua dureza à própria alma dos seres humanos, que parece mergulhar em tristeza ao mesmo tempo em que sente um mundo mergulhado em chuva.

Cessado o bombardeio dos cristais translúcidos – as gotas de chuva -, permanece, por um tempo nas narinas e mais tempo na memória, esse cheiro de terra molhada, esse odor inconfundível, essa fragrância única – perfume singular, aroma inigualável que parece, a cada vez, acumular-se em diminuta quantidade no frasco de nossa alma.

Passado o momento mágico, tudo em volta se modifica: o ar fica mais límpido; a nitidez com que podemos ver o mundo se acentua; as cores tornam-se vívidas, aguçando os contrastes entre tons antes apenas sutilmente divisados.

Pobres espectadores diante do milagre que se repete, nada há que fazer. Resta-nos apenas viver, e sair talvez assoviando uma canção…

 

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