Category: Eu a Crônica

E se tudo fosse ao contrário? – J. Carino

Por Carino, 14 de outubro de 2009 0:07

E se tudo fosse ao contrário?
E se este teclado onde escrevo a crônica me escrevesse? O que, e como, diria de mim, vingando as horas e horas em que o fustigo sem dó, buscando a palavra justa e a frase perfeita?
E se este copo me bebesse? Seria eu um conteúdo líquido palatável, ou lhe daria uma ressaca daquelas, fazendo-o jurar que não beberia mais?
E se o automóvel nos guiasse? Dirigiria ele por outros caminhos, ao léu, fugindo espavorido para lugares amplos, por estradas desimpedidas, cruzando paisagens verdejantes, bem diferentes dos enfumaçados engarrafamentos em que o metemos?
E se os celulares telefonassem quem fala neles? Sua vingança provavelmente seria falar só coisas profundas e importantes, com voz pausada e frases pensadas, longe das bobagens, maledicências, inutilidades, intrigas e falsidades para as quais são muito utilizados.
E se os alimentos nos comessem? Será que o fariam com vagar e consciência do que estivessem ingerindo, ao contrário desse engolir de fast food, que faz da alimentação apenas uma obrigação em meio à correria do cotidiano?
E se os cães passeassem seus donos? Será que os arrastariam pelas coleiras insensivelmente, os censurariam por latir, por atender ao cio ou por tentarem pura e simplesmente ser felizes como animais? Será que os vestiriam ridiculamente com roupinhas para cães, e conversariam com eles, como se eles fossem um receptáculo obrigatório, inteligente e paciente, para suas mazelas de gente?
E se nós acordássemos os despertadores? Será que eles acordariam de péssimo humor e ficariam com vontade de nos quebrar a cara pela interrupção daquele sonho maravilhoso que jamais teriam outra vez?
E se as ruas, avenidas e estradas nos andassem? Será que elas nos caminhariam assim automaticamente, sem perceber que ao caminhar construímos os caminhos, e os fazemos maus ou bons?
E se as flores nos florescessem, como seria? Será que elas sentiriam em nós algum perfume e ficariam pasmas diante de nossas cores? Ou será que só veriam em nós negrume e espinhos?
E se os pássaros nos cantassem e se, para conseguir isso, nos mantivessem no cativeiro de gaiolas diminutas, sem que pudéssemos ouvir nosso canto ecoando na amplidão dos campos, entre as árvores, com a cumplicidade do murmurejar dos riachos?
E se as camas nos dormissem, suportando a agitação de nossas insônias, como seria isso?
E se os instrumentos nos tocassem? Que aconteceria se descobrissem nossa desafinação na vida, nosso som abafado, nossos timbres fracos?
E se os livros nos lessem, como nos decifrariam?
E se as palavras nos falassem, seríamos poesia ou linguajar grosseiro?
E se a chuva nos chovesse, encontraria ela, em nós, as gotas das lágrimas e as nuvens de preocupação? Será que haveria ao fundo raios e trovões nos tornando assustadores?
E se tudo fosse exatamente assim, ao contrário, isso poderia ser o certo?

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O telemarketing e eu – J. Carino

Por Carino, 13 de outubro de 2009 0:10

Hannah Arendt, a grande filósofa alemã, discutindo as relações entre as esferas de vida privada e pública, demonstrou o quanto o âmbito da vida privada foi invadido pela esfera pública. Os gregos e romanos, ensina, delimitavam muito bem a diferença entre a vida pública, ou seja, aquela dos negócios públicos, onde se discutem as questões que interessam a todos, e a esfera privada, íntima, dos assuntos particulares. A vida privada era preservada dessa invasão por parte da esfera pública. Nesta, cada um agia, abertamente e em conjunto com os demais, em favor da cidade, ou seja, agia como “cidadão”. Já a vida privada, que cuidava dos negócios de interesse do âmbito restrito da vida da família, ou da vida pessoal mais íntima, devia ser preservada a qualquer preço.

Um dos preços que se teve de pagar pela modernidade foi justamente este: a invasão da vida privada pela vida pública.

Podemos afirmar que em nossos dias essa invasão atingiu um paroxismo. Praticamente não existe vida privada.

Deixando a filosofia política de lado, podemos dar um exemplo comezinho: o telemarketing, essa praga da propaganda para venda direta, que assalta os telefones de qualquer um em qualquer dia e a qualquer hora.

Reclamar não adianta; enfurecer-se, muito menos. Por isso, só nos resta tentar criar defesas, que pelo menos atenuem essa praga invasora, na hora em que as malditas ligações nos atingem.

Tenho meu método, que – combinado com o de amigos abrigados na mesma trincheira defensiva – partilho com vocês.

Eu mesmo nunca atendo essas ligações. No momento mesmo em que percebo tratar-se do famigerado telemarketing, mudo a voz e me transformo num personagem, que passa a atender o chamado. Eis alguns desses personagens.

O gago. Neste caso, é já começar com “Po-po-po-po-is na-na-na-não”. E seguir assim em todas as respostas. A operadora ou o operador do outro lado da linha vai deixar você em paz rapidinho.

Outro personagem bom fica reservado para quando o operador de telemarketing é homem. Aí, entra em cena o velho pederasta. Com aquela voz arrastada de um “velho de guerra” em dar em cima de rapazotes: “Oi, meu querido… Mas que voz sensual você tem… Produto? Ah, o produto que desejo é você, meu bem… Você tem namorada?” E a coisa segue por aí. O cara vai desligar logo. Bom, este personagem só envolve um risco, o do operador também ser adepto do homossexualismo… Aí, ao invés de resolver um problema, você pode ficar com dois.

A velhinha surda é ótima. Com sua voz melosa e com jeito de quem está sempre mastigando as palavras junto com a dentadura, ela diz: “Banco? Que banco? Bando da pracinha”. Ou confundir propositadamente os sons das palavras: “Segurar” em lugar de “celular”; “Fedorento” ao invés de “financiamento”. A operadora vai agüentar muito pouco tempo falando com essa simpática velhinha surda como uma porta.

Falando em velhinhos, gosto muito também do caseiro velho. Explico. Você atende e o operador quer falar com o dono da casa. Aí, você responde com voz arrastada de velho empregado: “Ah, minha filha, o patrão e a patroa viajaram. Eles vivem viajando. Mas, pra pagar a gente é um inferno… Eu sou aposentado e doente. Veja, minha filha, tenho reumatismo, sou diabético e tomei um tombo e tive que operar a perna. Você pensa que eles ligaram? Que nada! Continuo trabalhando pra burro, carregando peso, capinando o jardim… E sinto muita dor…” E você continua desfilando um rosário de dores, mazelas e amarguras. Duvido se a operadora não vai desligar num instante.

Todos nós temos cá dentro uma Dercy Gonçalves, não é mesmo. Pois então aproveite e atenda com a personagem de uma velha bem desbocada. A cada pergunta, um palavrão bem encaixado contra a falta de grana, contra a falta de tempo, contra seu patrão, contra seus filhos. Isso tudo tendo o cuidado de mostrar ao operador do outro lado da linha que não é a ele que você está xingando. O sujeito vai ficar constrangidíssimo e você vai se livrar rápido de mais uma ligação indesejada.

Para afungentar com rapidez o operador, recomendo o eco. Funciona assim: tudo o que ele ou ela disser, você repete: “Alô, quem fala?”. Você repete no mesmo tom: “Alô, quem fala?”. “Está me ouvindo”, diz a voz. “Está me ouvindo”, repete você. Num instante você vai se ver livre.

Tem muitos outros personagens. Um rico e esnobe que passa grosseiramente a ligação para o mordomo atender; uma mulher que mal fala o português e que, apesar disso, tenta entender a proposta que está sendo feita; o garotão que aproveita para dar uma cantada gentil na operadora… Ah, e o garotinho insuportável, com voz de geniozinho, que se recusa a chamar a mãe e tenta dar a entender que sabe do que se trata e pode ele mesmo resolver tudo.

Recursos mais extremos são as longas viagens e a morte. Tenho mandado meus filhos e minha mulher para o Japão com certa freqüência: “Ah, lamento, mas meu filho não vai poder atender e aproveitar essa oferta. Ele foi estudar no Japão…”. E a definitiva e fúnebre opção é reservada a operadores de telemarketing muito chatos, desses que sei que ligarão novamente tentando me achar: depois que a vozinha metálica da operadora diz meu nome e pergunta se estou, falo com voz compungida: “Lamento, mas ele morreu no mês passado”.

Cabe observar que ajo assim como repúdio à invasão de minha privacidade, mas que isso não diminui meu respeito e admiração por aqueles que, movidos pela necessidade de trabalhar, são obrigados a exercer essa função lamentável. Aliás, só não perdôo o operador ou a operadora que insiste em vestir a camisa da sua empresa mesmo percebendo que será inútil. Esses podem, muitas vezes, conhecer minha veemência, contundência e revolta contra essa praga do telemarketing.

Também respeito, claro, aqueles cujo modo de ser é retratado nos personagens que criei.

E você, caro leitor, que personagens usa quando essas ligações invadem sua vida?

 

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Na vitrine da vida – J. Carino

Por Carino, 12 de outubro de 2009 0:10

Somos cartazes ambulantes ou manequins exibidos na vitrine da vida. Duvidam, cara leitora ou leitor? Pois olhem a inscrição em suas camisetas.

Vivemos num mundo de exposição pública, sob os ditames da propaganda, disto não há dúvida. Nunca na história “ser” se confundiu tanto com “parecer”. E dentre essas formas de exposição, uma das mais interessantes de se observar é a dos letreiros que carregamos em nosso próprio corpo, transformando nossa vestimenta num eficaz suporte de divulgação de imagens, frases, fotografias – conteúdos sérios ou bobagens incríveis.

Há uma peculiaridade que merece atenção: o conteúdo das mensagens inscritas na roupa com muita freqüência não corresponde à figura de quem a veste. Gordos divulgam mensagens que clamam pela boa forma física; gente magérrima anuncia corpos musculosos; altos malham a altura e baixos, vice-versa. Conservadores empedernidos ostentam a famosa fotografia de Che, o herói de esquerda midiático; supostos esquerdistas, praticantes da fúria contra tudo que represente os EUA, estão circulam por aí com frases de apologia ao capitalismo, escritas na língua de Sheakspeare e de conteúdo que parece ter sido escrito em Wall Street.

Pior é que isso quase sempre acontece em função da simples ignorância do significado do letreiro que se carrega ao peito.

Dia desses, vi uma bela mocinha, com aparência de pessoa recatada, modos gentis, andar nada lascivo e sorriso tímido de quem tem caráter, preza, respeita e representa o que há de melhor na mulher. Pois bem, sua bonita camiseta, ornada com o desenho de flores primaveris, continha uma frase, em inglês, que anunciava quem a vestia como uma prostituta.

Já vi jovens sarados, de aparência, gestos e atitudes másculas, em meio a paquera que não parecia nada enganosa ou hipócrita, exibindo na roupa uma inscrição inegavelmente gay. Assim como vi, também, homossexuais declarados com roupas que serviam para divulgar frases homófobas.

Vi gente grossa exibindo versos com a incomparável suavidade de Cecília; via Quintana mal posto no peito de gente pernóstica; trechos de Nitzsche ostentados com comportados; fotos de Simone de Beauvoir na camiseta de mulheres submissas; artistas de TV reacionários na prática mostrando frase revolucionária de Bretch…

O que mais choca, no entanto, é ver a pobreza humilhada vestida com camisetas contendo palavras ou frases que exaltam a riqueza, o fausto, o consumo desenfreados.

Dias desses, vi a foto de um homem desdentado, num lixão. No meio das sobras da riqueza, da opulência, do desperdício, lia-se em sua camiseta: – Sorria, Deus te ama!

Sei que a comunicação reina, que a privacidade é invadida a cada passo por uma vida cada vez mais exposta; sei que somos imagens, num mundo de divulgação, antes de sermos gente com direito à proteção da vida privada, ao aconchego das sombras quando não estiver desejando a luz do mundo. Mas me parece patética essa ignorância que divulga o que não quer ou não conhece.

Somos e seremos mesmo, cada vez mais, cartazes ambulantes e manequins posicionados na vitrine da vida, cada vez menos opacos, cada vez mais iluminados de todos os ângulos, mais expostos, mais traspassados pela curiosidade que agride, pelo olhar impiedoso que investiga.

Que, pelo menos, possamos resistir um pouco à avassaladora força que nos lança num mundo comum de impiedosa homogeneização. O primeiro passo talvez possa ser representado por este ditado que ora parodio:

- Dize-me o que exibes na tua camiseta e te direi quem és!

 

 

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Escada rolante – J. Carino

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Por Carino, 11 de outubro de 2009 0:10

Acuado, um dos primeiros hominídeos corre e, de galho em galho, galga um lugar seguro sobre a árvore; ou galga, de pedra em pedra, um paredão íngreme para alcançar aquelas frutinhas saborosas lá no alto.

Pronto, caro leitor, aí estão os antecedentes dessa invenção genial que nos elevou, como indivíduos e como espécie, do rés do chão à altura: a escada.

Da rudimentar escada de paus trançados às sofisticadas estruturas de hoje, foi um longo caminho. Como outras maravilhosas invenções, de simplicidade funcional ou de sofisticação tecnológica, as escadas incorporaram-se para sempre ao cotidiano humano.

Essa trajetória desembocou nesse primor que não me canso de observar: a escada rolante.

Inventada no final do século XIX, a escada rolante é uma das corporificações da filosofia do menor esforço. Ou seja: além de nos elevar, também nos transporta sem que tenhamos que dar às pobres articulações dos joelhos o trabalho de subir os degraus. Quanta distância daquele esforço inaudito feito por nosso ancestral da escala evolutiva!

Quase contemporâneos das escadas rolantes, e antes delas, inventaram-se essas outras maravilhas do consumismo: os shoppings centers. Estes são, em verdade, o habitat natural das escadas rolantes. Embora ela seja encontrada em muitas outras construções, é no shopping que a escada rolante pontifica. Sem elas, esses modernos mercados de compra e venda verticais  praticamente não poderiam existir.

Escadas rolantes geralmente são imponentes. Seus degraus de aço, escamoteados, surgem diante de nossos pés como vindos das entranhas da terra. Pisando neles, nossos pés cessam sua faina permanente e nobre de nos carregar e conduzir. Daí em diante, na escada rolante, serão passageiros, como o resto de nosso corpo, que sobe ou desce lentamente, dando-nos a oportunidade de olhar em volta, inclusive para ver as lojas de outro ângulo – mais uma oportunidade de sermos seduzidos pelo consumo.

Há, no entanto, nesses mecanismos de elevação, nessas escadas tecnologicamente avançadas, algo de inquietante, e para muitos de assustador. Subir ou descer por nossas próprias pernas é natural, uma complementaridade, com mais esforço, do ato simples de caminhar. Mas, descer ou subir usando as escadas rolantes exige o embarque nelas, o que, no mínimo, pode preocupar a maioria das pessoas. Sobretudo àquelas mais simples, não habituadas a esses mecanismos.

Sempre observo essas pessoas hesitantes diante das escada rolantes. Elas exibem um jeito assustado, e ao mesmo tempo envergonhado. Algumas insistem por si e conseguem; outras acabam precisando de u´a mão amiga ou pelo menos de alguma palavra de incentivo. Muitas, no entanto, desistem e vão dar, muitas vezes, uma longa volta até encontrar um elevador que as salve de andar nessa geringonça que sobe e desce.

Além dos hesitantes, há também os idosos, de modo geral, e os portadores de necessidades especiais, todos confrontados com a dificuldade de utilizar essas escadas. Ah, e as crianças, esses dínamos da energia do futuro, atraidíssimas sempre pelas escadas rolantes, e com as quais todo o cuidado é pouco.

Lá estão elas, as escadas rolantes, cujos degraus, à distância, mergulhando e reaparecendo depois, me lembram uma grande e dócil serpente, com seus anéis de ferro, aço e borracha antiderrapante, poderoso e belo animal tecnológico, que nos leva, lentamente, em seu dorso, pelos caminhos do conforto ofertado pela modernidade.

 

 

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Os olhos não mentem jamais – J. Carino

Por Carino, 10 de outubro de 2009 0:10

Minha saudosa mãe gostava de repetir a frase que dá título a esta crônica. Nestes tempos de escândalos, mensalões e operações isto e aquilo, a frase parece mais verdadeira que nunca.

Vivemos os tempos da superexposição na mídia. De tudo temos fotos, filmes, vídeos; a TV, os jornais e revistas flagram e trazem ao conforto de nossa poltrona prisões, depoimentos e entrevistas de suspeitos e de criminosos. E, para mim, os olhos e olhares dessa gente desempenham um papel central e revelador.

Olhar nos olhos não é fácil. Que o digam os apaixonados deejando confessar sua paixão ou os meliantes que almejam esconder seus crimes e falcatruas.

Outra frase lapidar e igualmente verdadeira é: “Os olhos são o espelho da alma”. De fato, para alguém dedicado a observar, quem mente, dissimula, escamoteia demonstra uma falta de sintonia entre a alma que contém a verdade e as palavras que proferem a mentira. Os olhos, que devem estabelecer a sintonia entre uma coisa e outra, traem os propósitos escusos ocultos no discurso que falta à verdade.

O olhar dos políticos e empresário pilhados nas ações corruptas e corruptoras é implacavelmente revelador. É um olhar que se desvia, que se mantém baixo, e mesmo quando seu portador tenta manter a firmeza para tornar a mentira convincente, deixa entrever a falsidade que se procura esconder.

Políticos, que são mentirosos contumazes (e uma coisa, infelizmente é quase sinônimo da outra) parecem crentes na sua imensa capacidade de mentir e enganar. Mas, lá está o olhar – repare, caro leitor – a traí-los inapelavelmente. Os olhos movimentam-se de forma estranha; seu brilho é diferente, ou muitas vezes nem existe, revelando um olhar opaco que parece estar contemplando a mentira interior de seu dono, enquanto tenta passar aos interlocutores uma “verdade” mentirosa.

Concordo com a genial filósofa Hannah Arendt quando afirma serem bem diferentes a “opinião” usada em política da “verdade” almejada (embora jamais alcançável) pela ciência ou pela filosofia. Porém, há limites para o grau de desfaçatez com que políticos e criminosos manipulam as opiniões e tentam impingir mentiras como verdades. A opinião transforma-se então em simples e deslavada mentira, indigna de uma política que, se existir, poderá ser escrita com “p” maiúsculo.

Para perceber tanto esses olhares que desejam esconder a falsidade quanto os que expressam verdades, não se depende tanto quanto se pensa de capacidade intelectiva; basta ter a capacidade de sentir. Por isso, pessoas inteiramente desprovidas de cultura livresca também detectam – talvez até com mais certeza e propriedade – nos olhares a exibição de mentiras impossíveis de disfarçar. E se tais pessoas acabam, por exemplo, votando e renovando o mandato de tais crápulas é menos porque “acreditam” do que por que são confrontados com necessidades materiais básicas que os políticos mentirosos acabam por garantir, enquanto salvaguardam, prioritariamente, seus próprios ganhos e seu poder.

Olhe, prezado leitor, os olhos das crianças. Eis aí um olhar inequivocamente cristalino. Esse olhar se mostra mesmo quando as crianças, que também exercitam com freqüência a mentira, tentam nos convencer de que não se trata de inverdades.

Compare agora, leitor, um olhar infantil desses com a forma de olhar dos criminosos de toda ordem a que me referi antes. Observem e vejam como os olhos não mentem jamais.

Da próxima vez que TV, fotografias ou vídeos mostrarem os mentirosos em ação, repare no olhar dessa gente, caro leitor. Os olhos, como reflexos da alma, revelam, para além da camada superficial física do olho – do globo ocular, da íris, da retina – um brilho de mentira e uma aura de desfaçatez, impossíveis de ocultar inteiramente da observação mais atenta, mais cuidadosa.

Tente, prezado leitor, desconectar esse olhar das palavras que são proferidas pelo mentiroso. A falta de sintonia – sem trocadilho – salta aos olhos.

 

 

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Marcas da vida – J. Carino

Por Carino, 9 de outubro de 2009 0:10

Não sei se o leitor sabe o que é um leilão residencial. Trata-se daquela modalidade de leilão feita quando alguma família resolve leiloar seus bens, inclusive a casa onde reside. E funciona assim: o pessoal do leiloeiro cataloga cuidadosamente tudo na residência. Cada objeto é numerado e um catálogo é produzido, descrevendo-lhe as características, indicando-lhe as qualidades e também, quando é o caso, apontando-lhe os defeitos. Entre estes, por exemplo, a quase imperceptível rachadura numa peça de porcelana, que é eufemisticamente denominada “fio de cabelo”.

Em seguida, a casa é aberta à visitação para exposição das peças aos interessados. Nesta fase, a intimidade da família é devassada. O que era um espaço privado transforma-se num espaço público em relação aos potenciais compradores.

Geralmente, leilões assim são promovidos pelos herdeiros após a morte dos donos da casa. Porém, cada vez mais freqüentemente, as dificuldades estão levando as pessoas a essa solução mesmo em vida. Em alguns poucos casos, esse para mim tão cruel “desnudamento” chega a se dar na presença de um idoso ou de uma idosa, que ainda colabora, enaltecendo o que está sendo leiloado.

Percorrer uma residência em tais circunstâncias me causa constrangimento e, geralmente, tristeza. Ali estão objetos colecionados durante uma vida inteira. E a própria casa dá a medida do que eram e o que faziam aquelas pessoas. Muitas vezes é um apartamento imenso, um espaço antes ocupado pelo fausto, pela riqueza. É muito comum ver a divisão “classista”: uma área nobre, lugar dos donos da casa, e uma área destinada aos empregados. Certas residências têm cozinhas maiores que a área inteira de um apartamento comprado hoje a duras penas pela classe média: dispensa imensa; lavanderia colossal; vários quartos para empregados domésticos, para motoristas e para um mordomo, e por aí vai.

Tudo está ali, diante dos nossos olhos, exposto ao toma lá, dá cá mais elementar da troca financeira. Quem ontem teve tudo, hoje precisa de quase tudo, sujeitando-se a vender sua vida passada traduzida em seu lar com os objetos que o compõem.

Quando percorro um espaço assim, no caso de donos já falecidos, parece-me que sinto a presença deles. Quase posso vê-los aqui ao observar um quadro na parede. Quando o compraram? Por que o fizeram? De que gostavam nessa obra?

Aquela vetusta mesa de jacarandá, que tipo de refeições foram feitas nela? De que se falou? Quem se sentava nas belas cadeiras em torno dela? Quantas ceias de Natal aconteceram aí? Quanto aniversários foram aí comemorados? Mas também a quantas desavenças familiares esse mobiliário assistiu, e a quantos riscos o cristal grossíssimo sobre o tampo da mesa foi exposto por socos dos mais exaltados?

Aquele relógio de pêndulo na parede, disciplinado mecanismo, alheio à duração da vida das pessoas – tão breve, tão fugaz -, continua com seu tique-taque implacável, marcando a passagem do tempo.

As molduras de retratos, com finos entalhes na madeira nobre circundada de prata, que fotografias terão contido? Em alguns casos, os donos da casa lá estão também retratados em pinturas. Seu olhar altivo ainda se mantém, vindo do tempo em que mandavam, influenciavam, eram respeitados e talvez reverenciados – no tempo em que tinham fortuna e poder…

Algumas vezes, nos imensos armários dos quartos, ainda se podem ver os vestidos e as casacas. Em que festas terão vestido seus donos?

As malas de viagem também levam a pensar: onde terá ido essa gente? Que paisagens essas pessoas terão visto, que países e cidades terão visitado, em que hotéis terão se hospedado?

Uma coisa me comove em particular. Freqüentemente, essas residências têm um ou mais daqueles bonitos sofás antigos, imensos, cujo couro resiste bravamente à passagem do tempo. Meu olhar se detém nas almofadas. Quase sempre, numa ponta desses sofás, ou mesmo numa poltrona menor, a almofada do assento guarda, para sempre, uma depressão, uma parte mais afundada. Este é o indício de que ali, exatamente naquele lugar, o corpo de alguém se sentava. Era seu lugar preferido. O cantinho da dona da casa, para ver TV ou tricotar; ou o lugar, onde o dono da casa, enérgico, empreendedor, dinâmico, muitas vezes poderoso, na dimensão pública, escolhia para seu descanso, para ler os jornais, para usufruir sua vida privada, ao abrigo do mundo lá de fora.

O prosaico dessas depressões nas almofadas guarda, portanto, indeléveis, marcas da vida. Uma vida física que, quase sempre, já se foi, mas que ao mesmo tempo permanece ali, revelando-se em sua crueza e mostrando postumamente os que deixaram essas marcas.

Em momentos assim, gosto de pensar o quanto são importantes as marcas que deixamos pela vida. Não somente marcas como essas, físicas, mas especialmente as marcas simbólicas que retratarão o que fomos. Marcas na memória de nossos filhos, parentes, amigos, colegas, empregados; marcas nos textos que deixamos, nos ouvidos que nos ouviram, nos corpos que nos tocaram…

Cuidemos das marcas que deixamos. E regojizemo-nos por podermos deixar tais marcas. Pois triste demais é não deixá-las, mergulhando sem rastros no esquecimento.

 

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Encontro canino – J. Carino

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Por Carino, 8 de outubro de 2009 0:10

Para a amiga Hélida

Tarde calma. Rua tranqüila. Da minha esquerda, veio vindo o cão. Andava como todo vira-latas: rápido, a passo firme, como se soubesse inequivocamente para onde ia. Olhos vivos, cabeça movendo-se em todas as direções, focinho empinado, perscrutando tudo, para detectar perigos e buscar aventuras.

Magro, da magreza oriunda da escassez permanente de comida, mas forte o suficiente para os confrontos freqüentes e inevitáveis com outros cães na luta pela sobrevivência.

De um branco sujo e com grandes manchas negras; rabo e orelhas curtas; mediano em tamanho – o paradigma de um vira-latas.

Da minha direita, elas vieram vindo, a cadela e sua dona, a mulher. Esta conversava com aquela, num desses monólogos absurdos, que se pretendem diálogos, praticados aí nas ruas por muita gente que passeia com seus cães pelas ruas da cidade.

A mulher, uma perua: com não menos que cinqüenta anos; cabelo de quem parece, a toda hora, ter saído do cabeleireiro; saia elegante e consideravelmente curta para sua idade, combinando com a blusa da moda, de mangas “morcego” e um ombro de fora; unhas longas e bem pintadas num vermelho vivo.

A cadela, de raça, não sei qual. Relativamente pequena, com o corpo perdido em meio à profusão de pelos; patas curtas e andar elegante, faceiro, se é possível atribuir faceirice aos animais.

Cadela branca, imaculadamente branca, dessas que parecem estar sempre saindo naquele momento da pet shop. E vestida. Isso. Sobre seu dorso, uma daquelas roupinhas para cães, com um corpete e um babado ridículo. Entre as orelhas, o indefectível lacinho cor-de-rosa.

Ao ver o cão, foi visível o sobressalto da dona da cadela, que puxou instintivamente a bichinha pela coleira, como para livrá-la de um perigo terrível, maior, muito maior que um buraco na calçada ou a possibilidade de um atropelamento.

A cadelinha, porém, pareceu encantada. Sabe-se lá o que terá fantasiado em sua imaginação canina, sobre aquele cão que lhe pareceu tão belo e macho. Que promessas de amor e viralatices mil ele significaria, longe de sua vida asséptica e contida de apartamento. Quantas latas a virar, quantos cachorrinhos a gerar…

O vira-latas tudo indica também que encantou-se com aquela cadelinha tão pequena, tão cuidadinha. Seus olhos percorreram o corpinho da cadela, despindo-a dos adereços impostos por sua dona, e o cão a viu a seu lado, sujinha e feliz, a fuçar em latas de lixo, a percorrer ruas movimentadas cheia da adrenalina do perigo do trânsito, a andar e andar, em busca de comida e emoções.

E foram inevitáveis e fortes os latidos; e perigosa, porém compensadora a tentativa de aproximação, que permitiu aos dois animais o erotismo canino dos toques de focinho e das lambidas nos lugares certos.

Durou pouquíssimo esse encontro de paixão à primeira vista. Foi logo interrompido pelo olhar de pavor da dona da cadela, acompanhado de gritos estridentes que tentaram afugentar o fogoso amante em potencial, para ela uma ameaça à sua filhinha de quatro patas, tão frágil, tão arrumadinha e tão superior a esses cachorros vagabundos.

O cão parou. Pareceu-me, no meu devaneio, que ele compreendeu a situação muito mais do que aquela perua horrorosa. Seu olhar percorreu mais uma vez o corpo da cadelinha, enquanto esta fazia o mesmo com aquele cão tão tentador.

E, por um instante, aqueles olhares caninos se fixaram um no outro. Um momento só, mas capaz de resumir todos os desencontros amorosos, todos os amores frustrados, todas as paixões – humanas ou não humanas – exterminadas pela incompreensão, ao longo de todos os séculos.

Lentamente, o vira-latas deu meia volta e se foi, rumo a seu destino de liberdade e de emoções intensas. A cadelinha ficou cabisbaixa, com os olhinhos semi-cerrados, como se pretendesse fixar, para sempre, nas suas retinas caninas aquele encontro com a paixão conduzida maravilhosamente pelo instinto, antes de voltar ao seu cativeiro de luxo, à sua sina de bibelô de humanos.

A tarde continuou calma, a rua tranqüila. Mas eu consegui ouvir um latido vindo de alguma distância, que a bela cachorrinha só pode responder com um olhar para o final da rua e com o focinho ao ar, como se ainda pudesse sentir o cheiro da verdadeira vida.

 

 

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Os vizinhos, onde estão? – J. Carino

Por Carino, 7 de outubro de 2009 6:50

Onde estão os vizinhos? Não falo desses que, embora morando no mesmo prédio, ou às vezes no mesmo andar, são para nós na verdade ilustres desconhecidos. Falo dos verdadeiros vizinhos, aqueles do passado, que dignificavam o que chamamos convivência, o “viver com”.

Distância com freqüência nada tem a ver com proximidade ou distanciamento físicos. Estar de fato perto é uma coisa misteriosa, e o estar longe também. Por isso, no campo, um vizinho podia estar a léguas de distância mas absolutamente próximo do coração, o lugar na gente onde a vizinhança pode se transformar em amizade.

Na cidade, vizinhos eram de porta com porta, ou de janela com janela. Essa proximidade forjou a imagem dos vizinhos bisbilhoteiros, aqueles que metiam o nariz na vida alheia, mas com uma recíproca verdadeira. 

Não obstante, a vizinhança criava, também, verdadeiras famílias ampliadas. Irmão, filhos e primos de uma família misturados com os das outras famílias, num amálgama fascinante. Isto fazia com que a partilha de felicidades, angústias, sonhos e realizações familiares se espalhassem, envolvendo também os vizinhos.

Vizinhos nos traziam exemplos. Encarnados nessa gente tão próxima, exemplos se transformavam em eficazes ensinamentos a seguir ou a evitar. “Aquele filho do vizinho que bebe, fujam dele!” “Vejam aquela filha da vizinha, que sirigaita!” “O filho da vizinha tem boas notas, e não esse boletim cheio de notas baixas de vocês!” E iam por aí os avisos e conselhos baseados nos vizinhos.

Vizinhos se integravam à nossa vida; passavam a fazer parte dela quase como íntimos. Casamentos, nascimentos, batizados e separações nos mobilizavam. Era muito comum que os vizinhos participassem mais desses acontecimentos que os parentes, geralmente morando mais distantes.

Quando aconteciam mudanças de vizinhos para outros bairros, era uma comoção, muitas vezes regada a lágrimas. Quase sempre, os vizinhos participavam desse bota-fora ajudando a carregar as tralhas dos que se mudavam. E era muito comum que lembranças fossem deixadas com os vizinhos. Vasos de plantas, por exemplo, em geral tinham esse destino, ficando os vizinhos incumbidos de manter vivos e viçosos aquele comigo-ninguém-pode, aquela samambaia, aquela espada-de-São-Jorge…

E, mesmo depois que se mudavam, os vizinhos continuavam presentes em nossa existência. As visitas, de parte a parte, aconteciam, muitas vezes anos a fio e, em casos extremos, por toda a vida.

Novos vizinhos, em geral, apesar de demonstrações superficiais de simpatia inicial, eram recebidos com certa desconfiança. Mas somente até que o conhecimento se aprofundasse e a integração se desse. Então, o ciclo do relacionamento com vizinhos recomeçava com os novos moradores.

Onde estão vizinhos assim hoje? Apesar da proximidade física – porque os novos apartamentos obrigam agora a uma convivência forçada em espaços diminutos – aquela proximidade física, e mesmo simbólica, do passado quase nunca se estabelece. Nossos vizinhos de porta não são de fato vizinhos, nem os de andar, muito menos os de prédio. Mesmo nas alamedas de condomínios – que de certo modo procuram substituir a convivência que havia nas ruas de bairros – não temos vizinhos. Toda essa gente, a quem cumprimentamos por obrigação, é de fato desconhecida; sua vida é opaca para nós, como somos indevassáveis para todos eles.

A pressa, a insegurança, ou o simples desinteresse, nos impedem de construir a vizinhança, como ela era realmente construída no passado, com os tijolos da amizade e a argamassa do interesse e das vidas que se entrelaçavam na real convivência humana, com suas alegrias, confianças e desconfianças, brigas, confraternizações, sofrimentos e felicidades partilhadas.

Para mim, os símbolos máximos da vizinhança ficaram sendo o ovo, o sal e o fermento. Entre vizinhos, era comum pegar um ovo com D. Fulana, emprestar um pouco de sal para D. Sicrana, ou garantir o fermento em cima da hora de alguma vizinha fazer o pão ou o bolo. E, quando os pratos ficavam prontos, aos vizinhos era garantida sua parte. Depois de provar, lá vinha a vizinha trazendo de volta o prato que levou o pedaço de bolo. Nele, uma gostosa fatia de pudim e muitos elogios, que encarnavam o verdadeiro espírito da vizinhança.

Onde se encontram vizinhos assim hoje em dia?

 

 

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