Hannah Arendt, a grande filósofa alemã, discutindo as relações entre as esferas de vida privada e pública, demonstrou o quanto o âmbito da vida privada foi invadido pela esfera pública. Os gregos e romanos, ensina, delimitavam muito bem a diferença entre a vida pública, ou seja, aquela dos negócios públicos, onde se discutem as questões que interessam a todos, e a esfera privada, íntima, dos assuntos particulares. A vida privada era preservada dessa invasão por parte da esfera pública. Nesta, cada um agia, abertamente e em conjunto com os demais, em favor da cidade, ou seja, agia como “cidadão”. Já a vida privada, que cuidava dos negócios de interesse do âmbito restrito da vida da família, ou da vida pessoal mais íntima, devia ser preservada a qualquer preço.
Um dos preços que se teve de pagar pela modernidade foi justamente este: a invasão da vida privada pela vida pública.
Podemos afirmar que em nossos dias essa invasão atingiu um paroxismo. Praticamente não existe vida privada.
Deixando a filosofia política de lado, podemos dar um exemplo comezinho: o telemarketing, essa praga da propaganda para venda direta, que assalta os telefones de qualquer um em qualquer dia e a qualquer hora.
Reclamar não adianta; enfurecer-se, muito menos. Por isso, só nos resta tentar criar defesas, que pelo menos atenuem essa praga invasora, na hora em que as malditas ligações nos atingem.
Tenho meu método, que – combinado com o de amigos abrigados na mesma trincheira defensiva – partilho com vocês.
Eu mesmo nunca atendo essas ligações. No momento mesmo em que percebo tratar-se do famigerado telemarketing, mudo a voz e me transformo num personagem, que passa a atender o chamado. Eis alguns desses personagens.
O gago. Neste caso, é já começar com “Po-po-po-po-is na-na-na-não”. E seguir assim em todas as respostas. A operadora ou o operador do outro lado da linha vai deixar você em paz rapidinho.
Outro personagem bom fica reservado para quando o operador de telemarketing é homem. Aí, entra em cena o velho pederasta. Com aquela voz arrastada de um “velho de guerra” em dar em cima de rapazotes: “Oi, meu querido… Mas que voz sensual você tem… Produto? Ah, o produto que desejo é você, meu bem… Você tem namorada?” E a coisa segue por aí. O cara vai desligar logo. Bom, este personagem só envolve um risco, o do operador também ser adepto do homossexualismo… Aí, ao invés de resolver um problema, você pode ficar com dois.
A velhinha surda é ótima. Com sua voz melosa e com jeito de quem está sempre mastigando as palavras junto com a dentadura, ela diz: “Banco? Que banco? Bando da pracinha”. Ou confundir propositadamente os sons das palavras: “Segurar” em lugar de “celular”; “Fedorento” ao invés de “financiamento”. A operadora vai agüentar muito pouco tempo falando com essa simpática velhinha surda como uma porta.
Falando em velhinhos, gosto muito também do caseiro velho. Explico. Você atende e o operador quer falar com o dono da casa. Aí, você responde com voz arrastada de velho empregado: “Ah, minha filha, o patrão e a patroa viajaram. Eles vivem viajando. Mas, pra pagar a gente é um inferno… Eu sou aposentado e doente. Veja, minha filha, tenho reumatismo, sou diabético e tomei um tombo e tive que operar a perna. Você pensa que eles ligaram? Que nada! Continuo trabalhando pra burro, carregando peso, capinando o jardim… E sinto muita dor…” E você continua desfilando um rosário de dores, mazelas e amarguras. Duvido se a operadora não vai desligar num instante.
Todos nós temos cá dentro uma Dercy Gonçalves, não é mesmo. Pois então aproveite e atenda com a personagem de uma velha bem desbocada. A cada pergunta, um palavrão bem encaixado contra a falta de grana, contra a falta de tempo, contra seu patrão, contra seus filhos. Isso tudo tendo o cuidado de mostrar ao operador do outro lado da linha que não é a ele que você está xingando. O sujeito vai ficar constrangidíssimo e você vai se livrar rápido de mais uma ligação indesejada.
Para afungentar com rapidez o operador, recomendo o eco. Funciona assim: tudo o que ele ou ela disser, você repete: “Alô, quem fala?”. Você repete no mesmo tom: “Alô, quem fala?”. “Está me ouvindo”, diz a voz. “Está me ouvindo”, repete você. Num instante você vai se ver livre.
Tem muitos outros personagens. Um rico e esnobe que passa grosseiramente a ligação para o mordomo atender; uma mulher que mal fala o português e que, apesar disso, tenta entender a proposta que está sendo feita; o garotão que aproveita para dar uma cantada gentil na operadora… Ah, e o garotinho insuportável, com voz de geniozinho, que se recusa a chamar a mãe e tenta dar a entender que sabe do que se trata e pode ele mesmo resolver tudo.
Recursos mais extremos são as longas viagens e a morte. Tenho mandado meus filhos e minha mulher para o Japão com certa freqüência: “Ah, lamento, mas meu filho não vai poder atender e aproveitar essa oferta. Ele foi estudar no Japão…”. E a definitiva e fúnebre opção é reservada a operadores de telemarketing muito chatos, desses que sei que ligarão novamente tentando me achar: depois que a vozinha metálica da operadora diz meu nome e pergunta se estou, falo com voz compungida: “Lamento, mas ele morreu no mês passado”.
Cabe observar que ajo assim como repúdio à invasão de minha privacidade, mas que isso não diminui meu respeito e admiração por aqueles que, movidos pela necessidade de trabalhar, são obrigados a exercer essa função lamentável. Aliás, só não perdôo o operador ou a operadora que insiste em vestir a camisa da sua empresa mesmo percebendo que será inútil. Esses podem, muitas vezes, conhecer minha veemência, contundência e revolta contra essa praga do telemarketing.
Também respeito, claro, aqueles cujo modo de ser é retratado nos personagens que criei.
E você, caro leitor, que personagens usa quando essas ligações invadem sua vida?