Mato ou Morro – José de Barros
Foi em 1924. As coisas não começaram bem na Primeira República e não terminaram melhor. E os motivos? Basta um pouco da Sociologia de Vilfredo Pareto – Estrutura e Dinâmica do Sistema Social, para se ter uma noção de como acontecem os conflitos das elites.
O governo de Artur Bernardes iniciou-se em 1922, num momento de agitações sociais, conspirações e rebeliões nos estados. A rebelião de São Paulo foi a mais grave. Em julho de 1924 houve uma contra o governo federal, comandada pelo General Isidoro Dias Lopes. Outros políticos e militares aderiram ao General e no dia 5 de julho a revolução estava declarada, já nas ruas.
O General Isidoro aparecia como o salvador da humanidade. Nas ruas, nos trabalhos, o povo dizia: “O Isidoro vem aí!”
A simpatia popular pelos soldados revoltosos era grande. Nas avenidas Paulista, Brigadeiro Luiz Antônio, nas ruas Consolação, Liberdade, Vergueiro, onde os revolucionários cavaram as suas trincheiras, neles recebiam o seu “rancho” oferecido pelos moradores daqueles logradouros.
Nas estações da Estrada de Ferro Central do Brasil, onde parasse um trem, transportando soldados legalistas, estes eram convidados pelo povo a aderir à revolução e a colocar-se contra a Federação.
São Paulo foi bombardeada e os revolucionários abandonaram a luta e retiraram-se pela Estrada de Ferro Sorocabana, dispersando-se uma parte deles. Outros ingressaram na Coluna Prestes, que fazia “turismo” pelo Brasil.
No meio de tudo isso, de Torrinha, um ilustre cidadão, genro do Coronel Bento Lacerda, a título de piada, telegrafou ao General Isidoro, ocupante então do Palácio dos Campos Elíseos, participando ao comandante revoltoso que em Torrinha havia um contingente de quatrocentos voluntários, já prontos para engajarem-se nas fileiras revolucionárias. Não tardou muito, uma noite chegou à estação da Paulista um trem especial para transportar a São Paulo o dito contingente. O próprio General veio pessoalmente para receber os seus novos simpatizantes.
Mas onde estavam eles, quem eram, onde moravam ?!
Foram os oficiais subalternos do General bater à porta da residência do Delegado de Polícia e o obrigaram a ir à estação àquelas horas e dar explicações pessoalmente. O Delegado era o sr. Matheus Amalfi que, naturalmente, de nada sabia. Foi uma piada de mau gosto. Uma séria brincadeira feita pelo sr. Renato Toledo César.
Com a presença de jagunços e soldados andando pelas ruas, ao amanhecer do dia, batendo nas portas das residências, pedindo o que comer e procurando voluntários, o pânico espalhou-se pela cidade. Com ele, as correrias dos moços que se escondiam no “mato do turco” e outros que fugiam pela estrada velha de São Pedro. Contam também que, alguns soldados revoltosos, aproveitaram a oportunidade para desertar, tendo alguns deles, na fuga, enroscado a roupa no arame da cerca e pediam pelo amor de Deus para soltá-los.
Esse episódio deu margem a que Cornélio Pires, humorista da época, fizesse humorismo gravando-o em discos:
“Se o Zidoro vortá eu vô, Mato ou Morro!
Eh! Se ele vortá? Se ele vortá eu corro pro mato!”
Mal havia terminado o susto, pouco tempo depois o Presidente Washington Luiz foi deposto do governo pela revolução de 1930. Aqueles que o elegeram, vendo-o derrotado, passaram a amar e a adorar a figura do novo presidente Getúlio Vargas, o “pai dos pobres”.
Getúlio adotou uma política que espoliava São Paulo, ferindo os brios do povo paulista.
A reação contra Vargas não tardou. A princípio foi de forma latente, depois tomou vulto, estruturou-se e o objetivo foi definido. Manifestações de civismo e de desagrado estouraram em São Paulo, Minas, Rio Grande do Sul e Mato Grosso.
Em 23 de maio de 1932 iniciou-se o movimento constitucionalista. São Paulo partiria para uma revolução contra o governo federal.
O estado foi dividido em regiões revolucionárias. Torrinha pertencia à nona região, com sede em Jaú, e o chefe do Movimento Torrinhense era o dr. Raul Lacerda.
O plano para o levante armado foi elaborado pelo Coronel Euclides Figueiredo. Todos os chefes revolucionários deveriam ocupar os meios de comunicações e transportes, para que no dia “D” fossem desencadeadas as ações armadas em todo o estado. No comando das tropas estava o General Bertholdo Klinger.
o General Isidoro foi auxiliado pelo General Júlio Salgado no comando das ações de combates. O dia “D” foi marcado: nove de julho.
Todavia, São Paulo foi traído pelos seus aliados. Ficou só, combatendo contra o resto do Brasil de Vargas.
Por maiores que fossem os esforços, o entusiasmo e o civismo dos paulistas, não era possível sustentar quatro frentes de combates sangrentos. Os ânimos enfraqueceram, a máquina de propaganda de Getúlio acusava os paulistas de separatistas. Em 30 de setembro, o General Klinger pede a cessação do conflito. A 3 de outubro teve de capitular. Todos os chefes revolucionários dos escalões superiores foram presos, outros deportados, exilados no exterior.
A bordo do navio-presídio onde se encontravam presos os chefes paulistas o coronel Euclides Figueiredo escreveu a Getúlio Vargas, chamando sobre si toda a responsabilidade pelo levante, isentando de qualquer culpa todos os seus companheiros.
Como em outras cidades do estado, na pequena, mas grande Torrinha, todos se uniram num só ideal: lutar por São Paulo, libertar o Brasil da tirania de Getúlio Vargas, dando à nação uma Constituição. Organizou-se a campanha do “Ouro para o bem de São Paulo”, a coleta de ferro-velho, de roupas, alimentos e dinheiro para as famílias dos combatentes.
No Grupo Escolar, os alunos, na medida de suas possibilidades, também davam as suas contribuições. Na velha igreja matriz, realizavam-se ofícios religiosos para os nossos moços que estavam nas linhas de combate.
Ao redor do antigo coreto, a criançada toda da cidade aglomerava-se para ouvir inflamados discursos, embora não entendesse nada daquilo que falavam os oradores. Nossa banda, Lira Torrinhense, executava comoventes hinos pátrios.
Muitas sessões cívicas foram realizadas no salão da Sociedade Italiana; e foi numa dessas que Dinah Marquês, filha do farmacêutico e músico Durval Marques, cantou a canção de Ary Kerner “Serra da Mantiqueira” acompanhada por três jovens que se iniciavam na música. Eram eles Nêgo Bortolai – Luiz, Bibe Vicentini, e Zeca Dias Ferreira.
Crianças, moços ou idosos, comunicavam o seu patriotismo cobrindo a cabeça com um gorro-sem-pala ou “bibi”, tendo num lado a bandeira brasileira e do outro a bandeira das treze listas, com a palavra: constitucionalista.
De Torrinha, além dos soldados da Força Pública – eram dois sem divisas e um cabo chamado Álvaro – formaram junto às fileiras constitucionalistas, como voluntários, Francisco do Carmo, Elias Cury, Antônio Melges, Antônio Tota – este era pintor de paredes – e um moço que morava no Hotel Perlatti, cujo nome era Armando.
Antônio Melges trabalhava na fábrica de fogos e residia na rua Senador, bem de frente à casa do sr. Vicente Mancini. Melges não voltou, morreu em combate, deixando cinco filhos, todos menores. De Armandinho ninguém mais teve notícias.
Outros, ainda que fardados, não saíram de Torrinha, abrigaram-se em fazendas ou em sítios de conhecidos e, depois, disseram que ficaram entrincheirados em Aparecida.
Participaram ativamente do movimento constitucionalista, membros da comissão: Raul Lacerda, Aristides Bueno Teixeira, farmacêutico Durval Marques, José Vicente Costa, Nabor Marques de Souza, Antônio Amalfi e senhora, prof. Otílio Meira Lara e senhora, as professoras d. Lourdes Silveira, Eliza Salles Marins. Inúmeras senhoras e senhorinhas, entre elas a saudosa d. Elze Perlatti, que guardou maiores lembranças dos acontecimentos e mais informações deu ao pesquisador.
Publicado no livro “Minhas e Outras Memórias de Torrinha – José de Barros”
Postado por Gutierritos
Dedico esta postagem aos soldados constitucionalistas de 1932 e em especial ao soldado Antonio Melges, morto em combate, no município de Aparecida do Norte, na luta pela Constituição Brasileira.
Antonio Melges é pai de Noemy Melges, mãe de minha querida esposa Cidinha. Ele está sendo hoje homenageado como um herói paulista, na cidade de Jaú pela Sociedade Veteranos de 32 – M.M.D.C.
Nove de Julho
Nove de Julho é a luz da Pátria,
Data imortal deste berço augusto,
Os bandeirantes denodados
Deste São Paulo vanguardeiro e justoNove de Julho é a glória do Brasil
Cantado por São Paulo
Sob um lindo céu de anil.Nove de Julho é a luz da Pátria,
Data imortal deste berço augusto,
Os bandeirantes denodados
Deste São Paulo vanguardeiro e justoNove de Julho heróica é bela data
Marco inicial da jornada democrata
Piratininga terra do trabalho
Onde são reis, a enxada e o malhoSeu povo altivo vai espalhando
Amor pela Pátria e vai cantando
Solo querido, terra amorosa
Pátria de bravos, sempre formosa.












