Category: José de Barros

Mato ou Morro – José de Barros

Por Gutierritos-SP, 9 de julho de 2010 6:46

Foi em 1924. As coisas não começaram bem na Primei­ra República e não terminaram melhor. E os moti­vos? Basta um pouco da Sociologia de Vilfredo Pareto – Estrutura e Dinâmica do Sistema Social, para se ter uma noção de como acontecem os conflitos das elites.

O governo de Artur Bernardes iniciou-se em 1922, num momento de agitações sociais, conspirações e rebe­liões nos estados. A rebelião de São Paulo foi a mais gra­ve. Em julho de 1924 houve uma contra o governo federal, comandada pelo General Isidoro Dias Lopes. Outros polí­ticos e militares aderiram ao General e no dia 5 de julho a revolução estava declarada, já nas ruas.

O General Isidoro aparecia como o salvador da humanidade. Nas ruas, nos trabalhos, o povo dizia: “O Isidoro vem aí!”

A simpatia popular pelos soldados revoltosos era grande. Nas avenidas Paulista, Brigadeiro Luiz Antô­nio, nas ruas Consolação, Liberdade, Vergueiro, onde os revolucionários cavaram as suas trincheiras, neles rece­biam o seu “rancho” oferecido pelos moradores daqueles logradouros.

Nas estações da Estrada de Ferro Central do Bra­sil, onde parasse um trem, transportando soldados lega­listas, estes eram convidados pelo povo a aderir à revolução e a colocar-se contra a Federação.

São Paulo foi bombardeada e os revolucionários abandonaram a luta e retiraram-se pela Estrada de Ferro Sorocabana, dispersando-se uma parte deles. Outros ingres­saram na Coluna Prestes, que fazia “turismo” pelo Brasil.

No meio de tudo isso, de Torrinha, um ilustre cida­dão, genro do Coronel Bento Lacerda, a título de piada, telegrafou ao General Isidoro, ocupante então do Palácio dos Campos Elíseos, participando ao comandante revolto­so que em Torrinha havia um contingente de quatrocentos voluntários, já prontos para engajarem-se nas fileiras re­volucionárias. Não tardou muito, uma noite chegou à esta­ção da Paulista um trem especial para transportar a São Paulo o dito contingente. O próprio General veio pessoal­mente para receber os seus novos simpatizantes.

Mas onde estavam eles, quem eram, onde mo­ravam ?!

Foram os oficiais subalternos do General bater à porta da residência do Delegado de Polícia e o obrigaram a ir à estação àquelas horas e dar explicações pessoalmente. O Delegado era o sr. Matheus Amalfi que, naturalmente, de nada sabia. Foi uma piada de mau gosto. Uma séria brincadeira feita pelo sr. Renato Toledo César.

Com a presença de jagunços e soldados andando pelas ruas, ao amanhecer do dia, batendo nas portas das residências, pedindo o que comer e procurando voluntá­rios, o pânico espalhou-se pela cidade. Com ele, as corre­rias dos moços que se escondiam no “mato do turco” e outros que fugiam pela estrada velha de São Pedro. Con­tam também que, alguns soldados revoltosos, aproveita­ram a oportunidade para desertar, tendo alguns deles, na fuga, enroscado a roupa no arame da cerca e pediam pelo amor de Deus para soltá-los.

Esse episódio deu margem a que Cornélio Pires, humorista da época, fizesse humorismo gravando-o em discos:

“Se o Zidoro vortá eu vô, Mato ou Morro!

Eh! Se ele vortá? Se ele vortá eu corro pro mato!”

Mal havia terminado o susto, pouco tempo depois o Presidente Washington Luiz foi deposto do governo pela revolução de 1930. Aqueles que o elegeram, vendo-o der­rotado, passaram a amar e a adorar a figura do novo pre­sidente Getúlio Vargas, o “pai dos pobres”.

Getúlio adotou uma política que espoliava São Paulo, ferindo os brios do povo paulista.

A reação contra Vargas não tardou. A princípio foi de forma latente, depois tomou vulto, estruturou-se e o obje­tivo foi definido. Manifestações de civismo e de desagrado estouraram em São Paulo, Minas, Rio Grande do Sul e Mato Grosso.

Em 23 de maio de 1932 iniciou-se o movimento constitucionalista. São Paulo partiria para uma revolu­ção contra o governo federal.

O estado foi dividido em regiões revolucionárias. Torrinha pertencia à nona região, com sede em Jaú, e o chefe do Movimento Torrinhense era o dr. Raul Lacerda.

O plano para o levante armado foi elaborado pelo Coronel Euclides Figueiredo. Todos os chefes revolucio­nários deveriam ocupar os meios de comunicações e trans­portes, para que no dia “D” fossem desencadeadas as ações armadas em todo o estado. No comando das tropas estava o General Bertholdo Klinger.

o General Isidoro foi auxiliado pelo General Jú­lio Salgado no comando das ações de combates. O dia “D” foi marcado: nove de julho.

Todavia, São Paulo foi traído pelos seus aliados. Ficou só, combatendo contra o resto do Brasil de Vargas.

Por maiores que fossem os esforços, o entusiasmo e o civismo dos paulistas, não era possível sustentar qua­tro frentes de combates sangrentos. Os ânimos enfraque­ceram, a máquina de propaganda de Getúlio acusava os paulistas de separatistas. Em 30 de setembro, o General Klinger pede a cessação do conflito. A 3 de outubro teve de capitular. Todos os chefes revolucionários dos escalões superiores foram presos, outros deportados, exilados no exterior.

A bordo do navio-presídio onde se encontravam presos os chefes paulistas o coronel Euclides Figueiredo escreveu a Getúlio Vargas, chamando sobre si toda a res­ponsabilidade pelo levante, isentando de qualquer culpa todos os seus companheiros.

Como em outras cidades do estado, na pequena, mas grande Torrinha, todos se uniram num só ideal: lu­tar por São Paulo, libertar o Brasil da tirania de Getúlio Vargas, dando à nação uma Constituição. Organizou-se a campanha do “Ouro para o bem de São Paulo”, a coleta de ferro-velho, de roupas, alimen­tos e dinheiro para as famílias dos combatentes.

No Grupo Escolar, os alunos, na medida de suas possibilidades, também davam as suas contribuições. Na velha igreja matriz, realizavam-se ofícios religiosos para os nossos moços que estavam nas linhas de combate.

Ao redor do antigo coreto, a criançada toda da ci­dade aglomerava-se para ouvir inflamados discursos, embora não entendesse nada daquilo que falavam os ora­dores. Nossa banda, Lira Torrinhense, executava como­ventes hinos pátrios.

Muitas sessões cívicas foram realizadas no salão da Sociedade Italiana; e foi numa dessas que Dinah Mar­quês, filha do farmacêutico e músico Durval Marques, cantou a canção de Ary Kerner “Serra da Mantiqueira” acompanhada por três jovens que se iniciavam na músi­ca. Eram eles Nêgo Bortolai – Luiz, Bibe Vicentini, e Zeca Dias Ferreira.

Crianças, moços ou idosos, comunicavam o seu patriotismo cobrindo a cabeça com um gorro-sem-pala ou “bibi”, tendo num lado a bandeira brasileira e do ou­tro a bandeira das treze listas, com a palavra: constitu­cionalista.

De Torrinha, além dos soldados da Força Públi­ca – eram dois sem divisas e um cabo chamado Álvaro – formaram junto às fileiras constitucionalistas, como voluntários, Francisco do Carmo, Elias Cury, Antônio Melges, Antônio Tota – este era pintor de paredes – e um moço que morava no Hotel Perlatti, cujo nome era Armando.

Antônio Melges trabalhava na fábrica de fogos e residia na rua Senador, bem de frente à casa do sr. Vicen­te Mancini. Melges não voltou, morreu em combate, dei­xando cinco filhos, todos menores. De Armandinho ninguém mais teve notícias.

Outros, ainda que fardados, não saíram de Torri­nha, abrigaram-se em fazendas ou em sítios de conheci­dos e, depois, disseram que ficaram entrincheirados em Aparecida.

Participaram ativamente do movimento constitu­cionalista, membros da comissão: Raul Lacerda, Aristi­des Bueno Teixeira, farmacêutico Durval Marques, José Vicente Costa, Nabor Marques de Souza, Antônio Amalfi e senhora, prof. Otílio Meira Lara e senhora, as professo­ras d. Lourdes Silveira, Eliza Salles Marins. Inúmeras senhoras e senhorinhas, entre elas a saudosa d. Elze Per­latti, que guardou maiores lembranças dos acontecimen­tos e mais informações deu ao pesquisador.

Publicado no livro “Minhas e Outras Memórias de Torrinha – José de Barros

Postado por Gutierritos

Dedico esta postagem aos soldados constitucionalistas de 1932 e em especial ao soldado Antonio Melges, morto em combate, no município de Aparecida do Norte, na luta pela Constituição Brasileira.

Antonio Melges é pai de Noemy Melges, mãe de minha querida esposa Cidinha. Ele está sendo hoje homenageado como um herói paulista, na cidade de Jaú pela Sociedade Veteranos de 32 – M.M.D.C.

Nove de Julho

Nove de Julho é a luz da Pátria,
Data imortal deste berço augusto,
Os bandeirantes denodados
Deste São Paulo vanguardeiro e justo

Nove de Julho é a glória do Brasil
Cantado por São Paulo
Sob um lindo céu de anil.

Nove de Julho é a luz da Pátria,
Data imortal deste berço augusto,
Os bandeirantes denodados
Deste São Paulo vanguardeiro e justo

Nove de Julho heróica é bela data
Marco inicial da jornada democrata
Piratininga terra do trabalho
Onde são reis, a enxada e o malho

Seu povo altivo vai espalhando
Amor pela Pátria e vai cantando
Solo querido, terra amorosa
Pátria de bravos, sempre formosa.

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O primeiro rádio – José de Barros

Por Gutierritos-SP, 27 de junho de 2010 18:54

AUTOR – JOSÉ DE BARROS

Era a maior casa daquele quarteirão, talvez até da cidade. Várias janelas para a rua Senador, duas garagens para autos ficavam nos extremos direito e esquerdo da mansão, uma de cada lado. À esquerda da porta de entrada ficava o escritório. À direita, uma rica e bem decorada sala de visitas com móveis de estilo, com uma janela para a rua. Era a residência do sr. Antônio Lância.

Foi lá, em 1932, que a maioria dos torrinhenses – os que moraram na “Calábria” – conheceram de perto um aparelho de rádio. Era, na época, um móvel luxuoso, uma radiovitrola G.E.

Às noites, era ligada pelo Umbelino ou pelo Nicolino. Logo uma turma de curiosos se aglomerava para ver e ouvir o “troço” que uma pessoa falava em São Paulo, no Rio de Janeiro – e até da Itália – e se ouvia em Torrinha!

Poucos entendiam o que estavam ouvindo. No meio de estática e chiado, às vezes algumas músicas de Vicente Celestino entusiasmavam a turma dos rádio-ouvintes. O resto da programação das emissoras existentes era só propaganda do Getúlio contra São Paulo e noticiário das rádios de São Paulo, exaltando a resistência das forças paulistas que lutavam em Itararé, na região norte e no túnel.

Depois, terminada a revolução, mesmo em meio à desorganização e à miséria em que se encontrava o estado de São Paulo, outras pessoas compraram os famosos “rádios de mesa”.

Eram aparelhos da G.E., Philco, e alguns Phillips.

As famílias reuniam-se na casa de algum vizinho que tinha rádio, para ouvir os programas do Nhô Totico, com seus famosos personagens “Chiquinha, Chicote e Chicórea” na Escolinha de Dona Olinda. Os programas musicais eram com Francisco Alves, Carmem Miranda e outros grandes artistas. Às 9 da noite, cada um pegava o

seu caminho e ia dormir.

- Ocê viu só que coisa? O home fala lá em São Paulo e a gente iscuita tudo aqui in Torrinha ô nos ôtro lugar!

- É… si meu patrão comprá um troço desse tô perdido…

- Pro caso do que, Zé?

- Proque eu xingo e falo mar dele tudo o dia… e da muié dele, nem si fala…

Postado por GUTIERRITOS

Para ilustrar o lindo texto de José de Barros, posto uma das músicas cantadas por Vicente Celestino, muito ouvida no Rádio, naquela época: Luar do Sertão, a obra prima maravilhosa, de autoria de Catulo da Paixão Cearense.

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Corpus Christi – José de Barros

Por Gutierritos-SP, 1 de junho de 2010 6:51

AUTOR – JOSÉ DE BARROS

Aquela seria a sua última ceia junto dos apóstolos. Jesus sabia que era chegada a sua hora. Dentro de pouco tempo seria entregue para sofrer a sua paixão.

Caminhavam todos em silêncio. Havia tristeza entre os apóstolos. Um deles notou que estavam sendo seguidos até a sala onde fariam a refeição. Já era a hora crepuscular. As trevas da noite não tardariam.

Cada um sentou-se em seu lugar, à esquerda e à direita do Mestre, que sabia o que pensavam eles naquele momento.

Todos comiam a Páscoa. O céu já estava escuro. Um servo acendeu as lamparinas de azeite e, enquanto comiam, Jesus tomou o pão, abençoou e o partiu e deu aos seus discípulos, dizendo: – “Tomai e comei. Isto é meu corpo que é dado por vós; fazei isto em memória de mim“.

“Do mesmo modo, tomou o cálice em suas mãos e deu graças, e disse-lhes: – ‘Este é o meu sangue que será derramado por muitos em remissão aos pecados. É o sangue da nova aliança. Em verdade, eu vos digo que não bebereis do fruto da videira até aquele dia em que beberei de novo no Reino de Deus’. Todos beberam dele” (Marcos 14, 22 a 25).

Seus companheiros, a princípio, não o entenderam. Só mais tarde o fizeram. Todavia, até hoje uma grande parte da humanidade ainda não entende o significado daquele gesto. Nesse dia, em todas as cidades do mundo cristão, católico, há comemorações com suntuosas procissões; ruas decoradas, multicoloridas, calçadas lavadas, tudo feito com amor e carinho, sem ostentação do status econômico-social.

Já pela manhã, havia pessoas com picaretas ou enxadões às mãos, cavando um buraco na terra dura da rua, onde seriam colocados arcos de bambus e bandeirinhas de papéis coloridos. Moradores, com baldes de água ou com mangueiras de borracha para suavizar a poeira, molhavam as ruas por onde passaria o cortejo. Nas janelas havia vasos com flores e folhagens sobre toalhas brancas, rendadas; quadros ou imagens de santos de sua devoção expressavam simbolicamente a fé.

Quatro altares eram erguidos com todo o capricho. A procissão parava e, após as orações e cantos litúrgicos, o padre dava a bênção do Santíssimo Sacramento.

Estas solenidades religiosas não reuniam o mesmo número de pessoas como as do padroeiro da cidade ou do mês de Maria. Era esse dia considerado “Dia Santo de Guarda”. Mas poucas pessoas da zona rural compareciam. O comércio trabalhava até a hora do almoço e depois fechava as portas, de forma que só os moradores da cidade e as irmandades religiosas formavam o cortejo.

Esta festa do Corpo de Cristo era celebrada na primeira quinta-feira depois do domingo da Santíssima Trindade. Relembra e comemora a instituição da Sagrada Eucaristia. Foi oficializada pela Igreja no século XIII, no ano de 1264.

Tomás de Aquino foi um fervoroso defensor dessa comemoração. Foi, todavia, uma festa da aristocracia nos países ibéricos. Os portugueses foram os introdutores das procissões de Corpus Christi no Brasil, iniciando o costume de enfeitar as ruas.

Há cidades onde as ruas passam por verdadeiras transformações no seu visual. Os moradores planejam e executam verdadeiras obras de arte, usando serragem colorida de várias cores, pó de café usado, pó de mármore, desenhando tapetes com flores. Todavia, esta forma de “agradar” a Cristo está se tornando, em alguns lugares, algo competitivo entre os moradores. É bom lembrar que não foi isso o que Cristo pediu à humanidade!

* * *

Publicado no livro “Minhas e Outras Memórias de Torrinha

Postado por Gutierritos/SP

Para melhor comprender o sentimento religioso, tão bem narrado no texto, que ainda perdura, um vídeo da procissão de Corpus Christi em Piquete SP, com a música Eu Sou o Pão do Céu, cantada pelo padre Marcelo Rossi:

http://www.youtube.com/watch?v=RAu_GwKMVzQ

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Brinquedos de rodas – José de Barros

Por Gutierritos-SP, 9 de maio de 2010 23:44

Autor: José de Barros

Para Virgínia de Barros (Bisica)

Torrinha

Torrinha

Esta rua guarda as lembranças do passado. Nesta rua corriam aqueles meninos que brincavam de esconde-esconde; que davam cambalhotas nos montes de areia branca. Outros meninos formavam um pequeno grupo, sentados ao chão, para contar histórias de lobisomem, de bruxas maldosas, de fadas encantadoras que protegiam as crianças boas. De velhas feiticeiras que estavam a serviço do mal. Havia também aqueles meninos que rodavam piões, outros que subiam nos postes da iluminação.

Nesta rua brincavam de roda aquelas meninas que nela moravam; assim como na de baixo, na de cima, e nas do outro quarteirão. Meninas loirinhas, moreninhas e pretinhas; eram todas meninas que brincavam juntas. Meninas pequenas, meninas grandes, meninas-moças.

Nesta rua, estão adormecidas as coisas de antigamente. Elas estão nas tábuas das velhas portas, nos telhados enegrecidos pelo tempo, nos postes de iluminação que viram os anos passarem e as crianças crescerem.

Despertam lembranças apagadas! Reminiscências do pretérito longínquo! De tantos rostos angelicais, botões de rosas que se abririam para receber o frescor do orvalho das manhãs de primavera.

Vamos formar outras rodas de ciranda, vamos todos outra vez cirandar… dar a meia volta…

“Olha os três cavaleiros, todos os três com os chapéus nas mãos. Teresinha de Jesus, levanta-te, o que é feito da Margarida? Ela está no castelo! Vamos tirá-la de lá, do alto da torre, tirando uma pedra, outra pedra, poucas pedras só não chegam.”

“Olha aquela mocinha que vem de tão longe à procura de uma agulha que perdeu.”

Se esta rua fosse minha, eu chamava todas aquelas meninas e meninos para juntos, outra vez, revivermos os brinquedos de roda. “A nossa linda roda (…), a nossa é mais bonita, o que se vai fazer?”

E você senhora viúva, ainda quer ou não quer mais se casar com o filho do Conde? Vê a senhora dona Sancha com o rosto coberto de ouro e prata? Descubra-o e mostre a sua linda face!

Chegavam mais meninas, a roda aumentava e, como uma revoada de pássaros sobre a serenidade de um lago, corriam, cantavam, brincavam alegres.

As famílias sentavam nas soleiras das portas, outras em cadeiras sobre a calçada, para ver seus filhos brincarem.

- Vamos brincar de passar anel?

- Vamos, respondiam Marina, Teresinha e outras.

- Em que mãos está o anel, Marina?

- Está nas mãos da Julieta, respondia Dirce.

- Errou. Quantos bolos dou a ela, Julieta?

- Dê cinco bolos, respondia Julieta.

O anel era colocado nas mãos de uma das meninas que o escondia. Aquela que fosse chamada teria de adivinhar com quem estava. Se a resposta fosse errada, tomaria tantos bolos – tapas nas mãos – quantos a outra menina mandasse como castigo pelo erro.

A Ritinha com a Mariana, despetalando uma branca margarida, sob a luz fraca do poste da rua: – Bem-me-quer, mal-me-quer… bem-me-quer…

Francisquinho, Tonico, Aldo e Zéca batiam uma peteca feita com palhas de milho.

- Vamos pular corda, Heloísa?

- Agora não, Cida – respondia – Estou cansada!

Na outra calçada, quatro ou cinco garotas brincavam formando outro grupo:

- Balança caixão…

- Balança você, dá um tapa nas costas e vá se

esconder.

- “Lá vem o Juca, de pernas tortas, dançando valsa, com a Maricota. A canoa virou, por deixarem ela virar, foi por causa do Alcides que não soube remar.”

O grupo de meninos, já cansado de tanto correr, descia a rua para ir à estação da Paulista, ver o trem das oito passar… Dois apitos agudos da locomotiva a vapor; o trem partia deixando a estação, com a locomotiva golfando uma nuvem de fumaça, vapor d’água e um turbilhão de faíscas incandescentes, num esforço para vencer a longa subida, arrastando seis ou oito vagões iluminados, com passageiros olhando pelas janelas as últimas casas das ruas mal iluminadas.

Os meninos voltavam da estação.A roda acabava.

- Teresinha, entre,já é tarde – chamava a mãe. -Já vou, mamãe, é só acabar de pular esta “amarelinha” – respondia Teresinha.

- Luiza, já está na hora. Vamos?

- Corina, Rosinha, Ignês. Turma, “tchau”, até amanhã na escola! – despedia-se Luiza dos que ainda ficavam.

Desfaziam-se as rodas.Acabavam as brincadeiras daquela noite.

Hoje não há mais cirandas. As meninas cresceram, ficaram moças. Umas mudaram-se para outras plagas. Outras já não existem mais entre nós.

A cidadezinha toda era assim. Onde houvesse um grupo de meninos e meninas, lá se formava uma roda e todos cantavam e brincavam.

Os tempos mudaram, os homens e as mulheres também. Não se ouve mais aquele “homem com homem, mulher com mulher, faca sem ponta, galinha sem pé”!

Não tem mais brinquedos de roda. Silenciou a rua alegre, cheia de vidas, vidas cheias de esperanças, quem sabe se não? Assim era aquela rua.

- E o resto?

- O resto é uma imorredoura saudade, são recordações… O resto é silêncio e nada mais.


Publicado no livro “Minhas e Outras Memórias de Torrinha

Postado por GUTIERRITOS

Dedicado, pela Cidinha, à querida Cidoca de Barros Cury,esposa de José Cury.

O lindo texto de José de Barros nos traz de volta a infância de cada um de nós. Vale a pena conferir estes momentos, ouvindo algumas músicas nele referidas.

BRINQUEDOS DE RODA – H. Villa-Lobos, que também sofreu influência das cantigas e brinquedos de roda, trazia a criança, no seu coração e espírito, e nos fez esta linda peça musical, oriunda do folclore brasileiro.

SE ESTA RUA FOSSE MINHA – um arranjo de Alida Cuoco, por ela também instrumentada, e cantada com delicadeza, pelas lindas vozes de Líria Cravo, Sophie Kolk e Beto Olliveira, apropriada à beleza do texto de José de Barros.

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O mês de Maria – José de Barros

Por Gutierritos-SP, 2 de maio de 2010 21:27

Ao amigo Domingos Verderami

Maria

Maria

O mês de maio era o mais festivo do ano. Muitas flores, amenas tardes de outono, céu límpido sem as costumeiras nuvens de verão. O sol, pondo-se no horizonte róseo, dava destaque àqueles dias alegres.

Maio começava com a festa da Pia União das Filhas de Maria. Diariamente, às dezenove horas, congregados marianos, filhas de Maria e crianças vestidas de anjo, orientados pelo saudoso padre Nicanor Merino, professor Ismael Morato e Dona Rita Fonseca, formavam filas e, aos pares, entrando na igreja cantando hinos em exaltação à Santíssima Virgem Maria, depositavam no seu altar ramalhetes coloridos. Rezava-se o terço, cantava-se a ladainha a Nossa Senhora. Depois, era dada a bênção do Santíssimo Sacramento, com repiques de sinos e o espoucar de foguetes, gentilmente oferecidos pelo pirotécnico sr. Alberto Mancini.

Aos sábados e domingos havia quermesses com rifas, havia leilões com prendas oferecidas pelas famílias torrinhenses. Eram bolos, doces, frangos assados e outras ofertas que muito contribuíram para a construção da igreja matriz.

No último dia do mês o comércio fechava as portas depois do almoço.

À tarde, o povo aglomerava-se nas imediações da igreja para a esperada “procissão” da coroação que era formada defronte à casa do “seu” Perico. Crianças vestidas de anjos saíam na frente, seguidas pela Pia União de Filhas de Maria, Congregação Mariana e outras irmandades que eram identificadas pelos seus estandartes. Atrás das congregações religiosas estava o povo devoto.

O cortejo seguia pelas três ruas da praça do jardim e retornava à matriz, para o final das solenidades dedicadas à Virgem Maria.

Com a igreja toda lotada, o pároco, padre Nicanor, dava prosseguimento ao ritual dedicado à Santa. Rezavam o terço. O coro, composto por vozes femininas e masculinas, sob a direção de Anna Hisnnauer – Aninha – acompanhado pelo violino de Cezarino Gagliardi, elevava ao clímax aqueles momentos de emoção coletiva, transportando espiritualmente os fiéis pelo poder da oração à presença de Maria, a “Mater inviolata”, a “Mater creatoris” .

Após a ladainha cantada, o celebrante dava início à parte mais comovente do ato religioso: a coroação da Virgem.

Duas meninas-moças, com vozes líricas, subiam ao altar-mor, onde fora colocada a imagem de Nossa Senhora, e com um comovente canto enaltecendo as qualidades da Santíssima, uma delas colocava sobre sua cabeça uma coroa dourada: “Esta coroa, e nossas almas, pequeninas rosas, que ao teu olhar se tornam majestosas”. A outra menina-moça, possuidora de belíssima voz, delicadamente punha às mãos da Virgem uma palma de ouro. “Já que outro bem não temos, a humilde palma te oferecemos” .

Flores, muitas flores, pétalas de rosas, eram derramadas sobre o altar.

Terminada a coroação, seguiam-se as orações finais daquele ritual comovente. O nosso saudoso vigário padre Nicanor fazia o seu agradecimento ao povo pelo êxito obtido.

Quanta beleza, lirismo, fé e devoção continham aquelas festas de maio na Matriz de São José!

À noite, seguia-se o leilão na barraca, onde todas as atividades estavam a cargo da Pia União das Filhas de Maria e da Congregação Mariana.

Terminava o mês de maio. Com ele levava as nossas lembranças e nasciam as saudades. Saudades do povo de nossa antiga Torrinha.

E como dizia o amigo Mingo Verderami:”Que seja mais este dia, tudo em louvor a Maria”.

Publicado no livro “Minhas e Outras Memórias de Torrinha

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As Serenatas – de autoria de José de Barros

Por Gutierritos-SP, 4 de março de 2010 7:16

(Publicado por Gutierritos)

Noites prateadas pela lua cheia. Noites frias, agitadas pelo vento sul. Noites calmas; a natureza adormecia para despertar em manhãs coloridas pelo sol que se erguia no horizonte nebuloso.

A quietude noturna e o silêncio eram interrompidos pelo vibrar das cordas de violões. Sob um posto, na rua, estavam alguns seresteiros, às vezes um só, solitário, apaixonado, com o seu violão junto ao peito, cantava para a sua amada.

Eram as serenatas. Os trovadores falavam pela música o que não eram capazes de dizer com palavras. Era a continuidade daquele olhar para ela, no jardim, quando ouviam a banda tocar. Complemento daquele sorriso quando ela saía da igreja em companhia da mãe ou com outras amigas. O reforço de um relacionamento entre as pessoas. Início de um namoro. Formas delicadas de manifestar emoções, de dizer a ela: “Eu te amo”. Era também o lamento de um menestrel apaixonado, frustrado, infeliz pela despedida, pela separação.

Todas as serenatas tinham as suas linguagens, comunicavam sempre, traziam mensagens, despertavam lembranças adormecidas, não poucas vezes conflitantes, pungentes até.

Na nossa velha Torrinha havia vários grupos de serestas. Lembro-me bem do meu tempo de menino e das serenatas que se faziam lá. Em cada linha com que descrevo aqueles tempos, a cada vírgula, em cada ponto, surgem as lembranças dos meus velhos amigos seresteiros.

Muitos já não existem mais, partiram para a eterna glória. Porém, à medida que escrevo, eles revivem em minha lembrança, estão bem próximos de mim, ouço as suas vozes, os sons dos seus instrumentos musicais; o soluçar agudo e choroso dos violinos, o delicado som da flauta, o cantar romântico do ator que se despedia daquela que amava e não era correspondido: “ Sei que vais partir, já se aproxima o fim do nosso amor (…)”, a declaração sonora àquela deusa dos seus sonhos, tendo como palco um céu estrelado, uma casa mal iluminada, a rua escura e poeirenta “ Dorme que eu velo por ti “…

Nas décadas de vinte, trinta e quarenta, as serenatas não eram proibidas. Hoje, “elas perturbam a ordem pública “. Aquelas noites eram calmas. Os grupos formados por gente que lá morava eram compostos de pessoas educadas e finas. Não havia vândalos na cidade.

Tempos das valsas de Zequinha de Abreu, executadas pelo conjunto de “seu” Germano de Campos. Fizeram parte desse grupo o regente e compositor Durval Marques, João Ramos, Atílio Vicentini, Cezarino Gagliardi, José Cezaroni e outros que, à distância dos tempos, foram esquecidos.

Outro, já menos distante nos anos, foi o de Achiles Vicentini e de seu irmão Alcebíades, Guilherme Perlatti, Zeca Dias Ferreira, Décio de Campos, Luiz Bortolai Netto e Quinzinho Rodrigues.

Não faltavam cantores. Entre eles lembro-me do “Neco Barbeiro”, Manoel da Silva, Atílio Watzeek, Newton Lacerda, Nicolino Lância, Renée Lacerda.

No início dos anos quarenta formou-se um novo bloco na cidade. Desta vez, com jovens. A média de idade era dezenove anos. Fizeram parte dele o saudoso José Braidotti, Labib Cury, Mário Valério, Salvador Mancini, Pedro Paulo Zanforlim, Geraldo Camargo e Alfredo Vieira. Cantavam sucessos de Vicente Celestino, Carlos Galhardo, Orlando Silva, Gilberto Alves e de outros cantores da época risonha e franca.

E foram jovens os que promoveram o famoso “Baile do Inverno”, que se realizou no dia 12 de maio de mil novecentos e quarenta e dois, no salão do antigo cinema, abrilhantado pela orquestra “ Gato Preto”, de Dois Córregos. Foi, realmente, aquela noite, uma noite de inverno. Fazia bastante frio naquele sábado.

Esse grupinho, velhos amigos, teve pouca duração. Em 1944, alguns deles tiveram de partir para o Exército, que serviram em Mato Grosso, São Paulo e Minas Gerais.

Nos tempos dos gramofones e vitrolas à manivela, os que não tocavam instrumentos musicais e nem cantavam, alegravam as noites, rodando sob as janelas das casas de amigos, gravações, discos de Ernesto Nazareth, de Gastão Formenti, tangos de Galdel, e músicas líricas de Caruso, operetas com Nélson Eddy e Jeanette McDonald.

Tudo passou tão depressa na vida…

Vez ou outra apareciam seresteiros improvisados, que, estimulados pelo álcool, chegavam a importunar. Contam que alguns deles foram afugentados com conteúdo de um urinol cheio, ou com um balde d´água fria sobre a cabeça.

Como já disse, os grupos de seresteiros eram formados por pessoas finas e educadas. Por isso eram bem recebidos pelos moradores das casas onde tocavam ou nas suas proximidades, que lhes ofereciam um saboroso café, bolinhos, licores, e sem esquecerem do clássico “muito obrigado”.

- Vamos tocar mais uma Achiles?

- Qual?

- “ O destino desfolhou…”

O som suave do saxofone, acompanhado pelo clarinete do Luiz Bortolai Netto, pelo violão do Décio de Campos, diluía-se no frescor e calmaria da noite, fazendo bater mais forte o coração da mocinha apaixonada.

Pronto. Findou-se serenata. Os galos cantaram. Os ponteiros dos relógios marcam outro dia.

Os seresteiros vão dormir, mas voltarão no próximo sábado.

Esperem por eles. Recebam-nos bem, como sempre.

Obrigado.

Boa noite.

Publicado no livro “Minhas e Outras Memórias de Torrinha“ de autoria de José de Barros.

Postado por GUTIERRITOS

Dedicado pela Cidinha, morrendo de saudades, às suas primas, a professora e psicanalista Maria Teodora, a Fátima, a Regina, ao Tadeu, Paulo e Camilo, todos filhos de José de Barros.

Vamos ouvir algumas músicas citadas no texto ?

CANÇÃO DE QUEM SEGUE SOZINHO, interpretada por Moacir Franco.

E O DESTINO DESFOLHOU, na voz de Francisco Petrônio.

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O ciclo junino

Por Gutierritos-SP, 7 de junho de 2009 15:19

Autor: José de Barros

Enviado por Gutierritos

 

O mês de maio terminava festivamente e já se iniciava o ciclo junino – Santo Antônio, São João, São Pedro.

Vários proprietário rurais do município comemoravam com festas os santos juninos. Na roça não se trabalhava nesses dias. Guardavam-se os dias santos.

Ao cair da tarde, ao anoitecer, com o espoucar de rojões e gritos de vivas, erguia-se o mastro com a bandeira do santo. Geralmente, ou quase sempre, cabia ao proprietário do imóvel esse privilégio. Ele era o festeiro, outras pessoas presentes batiam palmas. Não faltavam nessas ocasiões pessoas rezadeiras e o faziam com todo respeito, fé e devoção. Entoavam cânticos religiosos e outros folclóricos, com louvores, pelos bens recebidos durante o ano, pela boa colheita que tinham tido e renovavam os pedidos para que o santo os ajudasse nas horas das incertezas.

A bandeira era o “retrato” do santo, impresso em pano colorido ou em branco e preto, no tamanho 40×40 cm, que, colocado numa moldura de madeira, era pregado à ponta de um tronco alto. Por ser mais fácil e adequado, eram sempre o eucalipto ou o bambu-gigante os mais usados. Enfeitavam o tronco com bandeirinhas de papel colorido, flores silvestres ou artificiais, ramos de cedrinho ou fitas coloridas. Este era o mastro.

Na fazenda Serreta, a festa de Santo Antônio, na Fazenda São João (Correa Porto) havia festa em louvor ao santo, filho de Zacarias e Isabel. Na fazenda Torrinha, “seu” Raul Lacerda comemorava o dia do apóstolo Pedro. Nas fazendas Monte Santo, Veremos, Floresta e muitas outras propriedades rurais, os Bissoli, Gregolin, Michelin, Baptistela, no Bairro Bonfim, e inúmeros outros que já não existem mais, todos faziam festas juninas. Erguiam o mastro, cantavam, rezavam e soltavam fogos. Os foguetes e bombas eram partes obrigatórias e indispensáveis naqueles rituais. Eram parte da devoção e comunicação entre o físico e o suprafísico, entre o sagrado e o profano. O resto, os comes e bebes, ficava às possibilidades financeiras, ao poder aquisitivo dos festeiros. Todavia, nunca faltavam os doces de abóbora, pés-de-moleque, o quentão, a cachaça pura para aquecer um coração de caboclo, uma roda violeiros que só parava de tocar quando o sol aparecia junto das primeiras brisas da amanhã que espalhavam as cinzas e as brasas restantes da fogueira que se consumira.

No baixadão da serra situavam-se várias propriedades rurais. Era o bairro da Mangueira, que tinha como seu padroeiro Bom Jesus de Pirapora. No dia seis de agosto faziam festa. Havia leilão com prendas doadas por comerciantes da cidade. Os sitiantes colaboravam ( os do bairro ). À tarde, uma pequena procissão percorria os arredores da capela do Bom Jesus.

A banda de música, sob a direção do saudoso João Seber, dava sua participação gratuitamente. Um dos últimos festeiros do bairro foi o Jorge Piedade que, na década de quarenta, mudou-se com todos os filhos, noras e netos para a “Alta Paulista“, levando na sua bagagem a esperança de melhores dias.

Na fazenda Serreta, de propriedade Antonio Amalfi, no dia dos Namorados – doze de junho – tinha festa de Santo Antonio. Pela manhã havia missa celebrada pelo pe Nicanor. Depois, o almoço. Muitos frangos e leitoas assados, coxinhas, bolinhos a valer. À noite a tradicional fogueira, muitos fogos, música, correio dos namorados, beijos roubados, violeiros, roda de batuque. A banda alegrava a festa tocando marchas carnavalescas. O mastro com a bandeira de Santo Antonio era erguido pelo “seu“ Messias Frota e pelo “seu“ Antonio Amalfi. Era a maior festa, a mais concorrida do Município. ”Seu“ Nucho e esposa – Dona Liça – distribuíam cobertores aos seus colonos; não só cobertores, mas outros presentes.

Na cidade não faltavam, aqui ou ali, pequenas fogueiras, estalos de bombinhas, foguetes, balões, arrasta-pés formados pelo pessoal do quarteirão, animado por algum sanfoneiro improvisado. Meninas-moças brincavam de “tirar sorte“ ou de adivinhar o nome do futuro namorado.

Toda aquela beleza subiu com o último balão que se foi.

A dinâmica da vida de hoje criou um tempo novo, onde há menos espaço para o convívio, para os sonhos. A solidariedade também se transformou, mas, com certeza, alguns ganhos houve com a ideologia do individualismo, no sentido do respeito à pessoa, em detrimento do coletivo. Mas é necessária a permanência solidariedade com o amálgama para os dias melhores.

Publicado no livro “Minhas e Outras Memórias de Torrinha “

 

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Três de maio – José de Barros

Por Gutierritos-SP, 1 de maio de 2009 1:50

O dia 1º de maio é comemorado em quase todo o mundo como o Dia do Trabalho.

Surgiu em decorrência do Congresso Internacional Socialista, em 12 de julho de 1889, realizado em Paris, em homenagem aos “ Mártires de Chicago “.

Comemora-se no segundo domingo de maio o Dia das Mães. Maio era também o mês das noivas, o mês em que havia o maior número de casamentos do ano. No dia 13 de maio foi assinada a Lei Áurea, para a libertação dos escravos negros, ainda que a escravidão humana nunca tenha deixado de existir.

Esse mês é, com muito fervor, pelo povo lusitano e povos católicos do planeta, consagrado à primeira aparição de Nossa Senhora aos três pastores, em Fátima. Foi no dia 13, em 1917.

Naquele tempo já distante, há meio século, dia 03 de maio era feriado nacional. Solenemente, comemorava-se a descoberta do Brasil, o qual foi também chamado de Terra de Santa Cruz.

Em Torrinha, pela madrugada, havia alvorada sonora com a banda musical “Lira Torrinhense“ que despertava o povo, tocando marchas e dobrados pelas ruas da cidade.

No Grupo Escolar havia festa cívica. Em seu pátio reuniam-se os professores e alunos das oitos classes, pais de alunos e autoridades locais. Dispunham-se em forma de um quadrado em cujo centro, os alunos mais desinibidos de cada classe, declamavam poesias, exaltando os feitos nobres e heróicos daqueles que fizeram páginas da História do Brasil.

Cantavam hinos, discursavam poemas, alguns até épicos; o lirismo de Cláudio Manoel da Costas, o parnasianismo de Olavo Bilac, o romantismo de Casimiro de Abreu, de Fagundes Varela, de Castro Alves e de outros poetas que fizeram os mais belos poemas e poesias patrióticas. Aquele menino ou menina que declamasse naquelas saudosas festas escolares ganhava o status de aluno inteligente. No meu tempo de grupo escolar havia vários alunos que declamavam com arte e beleza. Entre eles destacaram-se Tito Costa, Paulo Blümer, Suzana Blümer, Inês Brenelli, Achilédia Vicentini, Lolito Séber, Mauro Barbosa e outros, que abrilhantaram aquelas datas festejadas.

Retomando o 3 de maio, nesse dia tínhamos reza no sítio de Bruno Mamoni, pela manhã. Era o dia de Santa Cruz. Dia em que Helena, mãe do Imperador romano Constantino I, encontrou em Jerusalém a suposta cruz, onde Cristo foi pregado. Era dia Santo e feriado nacional. Poucos trabalhavam.

Em troles, charretes, a cavalo ou a pé, as pessoas dirigiam-se ao Sítio de Bruno Mamoni. Bonito lugar, muitas laranjeiras, a roça de milho, o arrozal na baixada, o cafezal, o riacho que movia o monjolo e ao fundo, a mata verde.

O espoucar de rojões anunciava o início da oração na capelinha, repleta de fiéis. Do lado de fora, aglomeravam-se as pessoas que não cabiam na capela. Depois, quando terminava o ofício religioso, eram servidas fatias de bolo, pão de fubá, licor de anis; bolos e pães era servidos em grandes peneiras de arame. A criançada deliciava-se com as laranjas-baianas, as mexericas e laranjas-limas que havia no pomar.

À tarde, quase à hora do pôr-do-sol, a turma voltava para a cidade. Esse costume já não existe mais. Seu Bruno Mamoni foi o primeiro imigrante italiano que veio a Torrinha. Isto por volta de 1884.

 

Publicado no livro “Minhas e Outras Memórias de Torrinha

 

 

JOSÉ DE BARROS nasceu em Torrinha SP, onde passou sua infância e juventude, residindo até o final de sua vida em Piracicaba. Formou-se na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da UNIMEP, de Piracicaba. Publicou o livro Lobisomem e Companhia, premiado com Primeiro Prêmio Internacional de Folclore pela Academia Uruguaiana de Letras (RS). Foi membro da União Brasileira de Escritores da Academia Piracicabana de Letras, membro correspondente da Academia Paulista de História e membro honorário da Academia Internacional de Letras “Três Fronteiras“.

 

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