Timoneiro Timoneiro

Category: LuDiasBH

Mosaicos – CRISTO PANTOCRATOR e A IMPERATRIZ TEODORA E SUA CORTE

Por , 16 de maio de 2012 8:59

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Os mosaicos acima representam Cristo Pantocrator e a Imperatriz Teodora, mulher de Justiniano, imperador do Império Bizantino, e seu séquito.

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Cristo Pantocrator

A palavra Pantocrator (Παντοκράτωρ) é de origem grega e significa "Todo Poderoso", "Onipotente" ou “o Rei de Todos”. Ela também possui variante com acento gráfico no segundo "a": pantocrátor. Provém de pan (tudo ou todo) e krátos (alto, em cima e, daí, governo, poder).

O Cristo Pantocrator aqui apresentado é um gigantesco mosaico (7m x 13m) do período bizantino (1180 – 1190) que se encontra localizada na abside principal, acima do altar-mor da Basílica Ortodoxa de Monreale, na Sicília, Itália, de autoria desconhecida.

1- Cristo traz os braços abertos, num largo gesto, que segue a forma da abside, como se recebesse o observador.

2- A auréola ortodoxa com uma cruz no meio, simbolizando a Paixão de Cristo, demonstra a sua grandiosidade como rei espiritual e juiz supremo do Céu e da Terra.

3- A arte bizantina observava com rigor a simetria e a hierarquia. Logo abaixo da imagem de Cristo Pantocrator está a Virgem Maria com o Menino Jesus, e à sua direita está o Arcanjo Gabriel e à esquerda o Arcanjo Miguel. Ao lado de cada arcanjo estão seis apóstolos. Abaixo estão quatorze santos, sendo sete de cada lado da janela.

4- À esquerda e à direita da cabeça de Cristo encontra-se o Cristograma (monograma) que significa “Jesus Cristo”. As barras vistas acima dessas letras (IC e XC) são um símbolo que indica a divindade do nome.

5- As imagens do Cristo Pantocrator sempre trazem esta expressão séria e meio triste. Embora abra os braços para os fiéis, seus olhos não estão direcionados a eles e sim voltados para cima, ou seja, direcionados ao reino espiritual.

6- Cristo traz na mão esquerda o Evangelho, aberto em João 8:12: “Eu sou a luz do mundo; quem me segue não andará em trevas.”

7- A luminosidade dos mosaicos de ouro ao redor de Cristo reafirma o fato de que Ele é a luz do mundo.

8- A mão direita de Cristo está levantada, na mesma altura da esquerda, num gesto de bênção, muito comum em muitos ícones do Cristo Pantocrator, encontrados na Igreja Ortodoxa tradicional.

9- A postura dos dedos de Cristo expressam as letras gregas “I, C, X, C”, formando o Cristograma “ICXC (Jesus Cristo). Este gestual ainda é usado nos dias de hoje por padres da Igreja Ortodoxa Oriental.

Ficha Técnica – Cristo Pantocrator:

Autor: Artistas desconhecidos
Ano: 1180 – 1190
Técnica: Mosaico
Tamanho: 7m x 13m
Localização: Basílica Monreale, Sicília, Itália

A Imperatriz Teodora e sua Corte

1-Teodora é a figura mais alta do grupo e é a única a ter a sua imagem totalmente destacada, o que evidencia a sua real importância, embora a tradição reze que ela era uma mulher pequena e graciosa. Sua touca alta e a posição em primeiro plano ampliam o seu tamanho.

2- A imperatriz usa um majestoso manto sobre o vestido branco, coberto por muitas joias. Nas suas bordas estão bordados, em ouro, os três reis magos entregando seus presentes.

3- À direita da imperatriz, um dos presentes segura a cortina da porta, tornando visível a escuridão do ambiente por detrás da porta, o que contrasta com a claridade do ambiente ao ar livre, onde se encontra a comitiva.

4- Teodora encontra-se sob um dossel, sustentado por colunas de pedra. Ela está encabeçando uma procissão, levando nas mãos um cálice para a igreja.

5- Justiniano, esposo de Teodora, era considerado líder religioso e sacerdote de Cristo na Terra. Por isso, a imperatriz traz um halo dourado, reflexo da luz divina, atrás da cabeça, igualando-se aos santos e apóstolos.

6- A mulher mais próxima à imperatriz, presumivelmente, é Antonina, mordoma do palácio, casada com o general Belisário, e tem a seu lado a filha Joanina. Ambas se destacam em relação ao grupo de cinco mulheres, na parte direita da composição.

7- Determinadas nuances de cores eram de exclusividade da família real. Quem usasse alguma delas sem autorização era condenado à morte. Por isso, a mulher à esquerda da imperatriz é tida como Antonina, pois usa um manto de cor semelhante ao de Teodora.

8- A imperatriz traz a insígnia do poder: a tríplice coroa de pedras preciosas com longas fieiras de pérolas, muitas joias adornando a touca, pescoço e ombros e o manto de púrpura.

9- Os dois personagens, vistos à direita de Teodora, vestem uma indumentária dos dignitários bizantinos. A cor do manto e do pedaço quadrado de pano costurado sobre este determina a classe a que pertencem. Os sapatos brancos com preto fazem parte do uniforme.

10- Antonina e as demais cortesãs trazem as cabeças cobertas com toucas estampadas, bem de acordo com a moda oriental da época.

11- O mosaico apresenta a única imagem conhecida da Imperatriz Teodora, com seus olhos grandes e escuros e seu rosto fino, quando deveria ter cerca de 50 anos.

(Mosaico, século VI d.C., Igreja de San Vitale, Ravena, Itália)

Mosaico ou arte musiva, é uma palavra de origem alemã, embora a técnica seja antiquíssima. É um embutido de pequenas peças (tesselas) de pedra ou de outros materiais como (plástico, areia, papel ou conchas), formando determinado mosaico. O objetivo do desenho é preencher algum tipo de plano, como pisos e paredes.

A técnica da arte musiva consiste na colocação de tesselas, que são pequenos fragmentos de pedras, como mármore e granito moldados com tagliolo e martellina, pedras semipreciosas, pastilhas de vidro, seixos e outros materiais, sobre qualquer superfície. Nos dias de hoje, o mosaico ressurgiu, despertando grande interesse, sendo cada vez mais utilizado, artisticamente, na decoração de ambientes interiores e exteriores. Hoje, entre as principais figuras do mosaico contemporâneo, destacam-se Marcelo de Melo (Brasil), Sonia King (E.U.A.) e Emma Biggs (Reino Unido).

Fontes de pesquisa:

Tudo sobre arte/ Sextante

A história da arte/ E.H. Gombrich

Los secretos de las obras de arte/ Taschen

Wikipédia

A mulher na história da civilização

Por , 14 de maio de 2012 16:38

No começo, sem dúvida nenhuma, era o homem a sua própria besta de carga – exceto quando casado. (Will Durant)

Quem pariu Mateus que o balance. (Provérbio popular)

As mulheres foram criadas para o trabalho. Elas armam nossas tendas, fazem nossas roupas, remendam-nas, conservam-nos quentes durante a noite… por isso, não podemos dispensá-las numa viagem. Elas fazem tudo e custam pouco; e porque passam a vida cozinhando, quando chega o tempo de escassez contentam-se em lamber os dedos. (Um certo cacique)

Alguns historiadores dizem que o homem difere dos animais unicamente pela educação, que pode ser definida como “a técnica de transmitir a civilização”. No entanto, apesar das diferenças naturais entre gêneros, é difícil compreender o que difere o homem da mulher, de modo que essa tenha sido tão desprezada, desde os primórdios da civilização.

Desde a vigência do clã, a mulher já desempenhava a maior parte das funções, que cabiam aos homens, em relação aos filhos. A existência do pai era, na verdade, um mero acidente de percurso de seus espermatozóides. Eles, os homens e não os espermatozoides, nem ao menos tinham noção da causa que levava uma mulher a ficar grávida. A presença do pai era extremamente superficial. A mulher e os filhos viviam juntos no clã, na companhia do irmão mais velho. O pai era, muitas vezes, desconhecido.

O mais aterrador era perceber que a mulher era tida como inferior, principalmente por ter que dar mais assistência aos filhos e passar por períodos menstruais, o que diminuía a sua participação no manejo das armas e nas guerras. O macho não levava em consideração o fato de que era ela quem formava os futuros guerreiros da tribo. E que, sem os seus cuidados, não haveria homens para lutar num futuro muito próximo.

No estágio da caça, todo o trabalho caseiro era de responsabilidade da mulher. Nos intervalos das caças ou guerras, os machos limitavam-se apenas a descansar. Nada mais faziam a não ser ficar de papo para o ar. Durante as guerras, cabia às mulheres levar todo o equipamento de sobrevida, exceto as armas, atrás de seus homens, para que esses não ficassem cansados na hora do ataque, além de lhes servir como fonte de prazer nos intervalos da luta.

A mulher foi muito importante nas sociedades primitivas, sendo que o progresso econômico foi, muito mais, fruto dela que do homem. Ela foi responsável pela agricultura, iniciada ao redor dos acampamentos, pelas artes caseiras e pela transformação dessas em indústria, responsável pela domesticação de animais, preparando os alicerces para a civilização.

Embora a realidade prove a importante função feminina em qualquer aspecto social, mostrando a real necessidade que os homens têm das mulheres, alguns machos ainda se gabam de sua superioridade em relação à fêmea. Mesmo naquela época, casos excepcionais mostram mulheres na chefia de algumas tribos e, em outras, havia um conselho de mulheres mais velhas. Mas, não nos esqueçamos de que a regra geral foi sempre a sujeição feminina.

Ainda é desesperadora a situação das mulheres em certas culturas, que atreladas a rigores religiosos arcaicos, tratam-nas com a mais escancarada humilhação, negando-lhes importância na continuação da espécie e no desenvolvimento da civilização.

Fonte de pesquisa:

Nossa Herança Oriental/ Will Durant

Poema para minha mãe que partiu

Por , 13 de maio de 2012 0:04

poema

Parem todos os relógios e máquinas,

emudeçam os telefones fixos e móveis,

ensurdeçam as vozes dos homens e animais,

calem os instrumentos e sons dos arredores.

Silenciem todos os sonidos da Terra, e que

só as lágrimas anunciem a descida de seu

corpo, seguido pelo murmurar do vento:

- Ela partiu! Ela foi embora pra sempre!

Que os aviões singrem o ar, gemendo,

e que escrevam no céu a verdade cruel:

ELA PARTIU pra nunca mais voltar.

 

As estrelas não são mais bem vistas,

apaguem-nas, uma a uma, por favor!

Guardem eternamente a lua e as flores,

desmontem para sempre o sol e a brisa.

Escureçam o azul do céu de uma só vez,

despejem o mar na vastidão do cosmo,

livrem-se da música, das flores e árvores,

onde cantam os curiós, canários e rouxinóis.

Coisa alguma terá o ardor de tempos atrás e

nada há que possa minimizar a minha dor,

pois não mais ouvirei o som de sua voz.

 

Por favor, parentes e amigos,

amarrem laços violetas nas torres das igrejas,

botem um manto roxo nos letreiros luminosos,

impeçam as crianças de divertir-se nos parques,

ponham tarjas negras nos braços dos passantes,

empanem a alegria impressa nos enamorados,

cubram de preto a cor esmeralda dos campos

e deixem-me também partir, expirar, fenecer,

pois minha vida já não tem mais significado.

 

Eu lhes peço, gentis presentes, que

não me estanquem a voz com frases feitas,

não me falem de céu, paraíso ou eternidade,

não me consolem com promessas vazias e

não me entorpeçam coo sono da caridade.

Pois tudo será inútil diante da dor pungente

que me dilacera corpo e espírito iracundos.

Mas, por favor, abracem-me.

 

Minha mãe,

jamais eu tocarei a sua face de novo,

nem sentirei a ternura de seu abraço,

nem ouvirei sua voz falando meu nome,

nem sentirei o ressoar de seus passos.

Quando a noite ou o dia vier, estarei só,

e também quando a vida me machucar.

Pois você era meu Norte e meu Sul,

era também meu Leste e Oeste.

Era meu tudo!

Você era meus dias úteis,

meus finais de semana,

minha poesia, meu causo

e era também meu canto.

 

Eu pensava que o amor de mãe fosse eterno,

mas a verdade aparece apenas nas lágrimas

que escorrem no meu rosto murcho e roto, e

na dor que despedaça meu coração sem rumo,

coo sentimento forte de ter morrido junto,

pra depois constatar que fiquei pra trás,

no mundo.

 

Que nos abracemos, agora,

todos nós, filhos sem mãe,

deserdados do amor materno,

e que o nosso calor seja capaz

de arrefecer o nosso luto,

por termos ficado tão sós.

Sós nos braços do mundo.

Mas a vida deve continuar,

dizem,

apesar de tudo.

 

Nota: poema inspirado em Blues Fúnebres, de W. H. Auden (Quatro Casamentos e um Funeral).

Minha tia Miúda e o cartão de crédito

Por , 10 de maio de 2012 0:10

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Minha tia Miúda é uma mulherzinha achaparrada, dessas bem socadinhas em que um muxicão não lhe atravessa a pele com desimpedimento. Mas, no que tem o corpo de atarracado, tem a língua de frouxa e delongada no fraseado, principalmente quando se bota a mercadejar. Ela nunca foi de fazer conta de seus gastos, pois diz que isso é coisa de rico muquirana. Portanto, é a alegria dos negociantes da cidade e dos mascates que por sua casa passam dia sim e o outro também. Compra o que vê e o que não vê. Compra até mesmo na modorra, quando está com preguiça de se arribar de sua velha espreguiçadeira. Dá um pequeno abrimento no olho direito e solta sua voz esganiçante:

- Deixa aí na cadeira, homem de Deus, junto com o preço da mercadoria, e passa aqui amanhã pra pegar o caraminguá.

Quando mudou para Belo Horizonte, minha tia Miúda sentiu-se num verdadeiro paraíso fiscal. O filho, meu primo Vicente Charleston Silva, empregado num certo banco nacional, logo fez um cartão de crédito com que mimoseou a mãe no dia de seu aniversário. Ela o recebeu como se fosse o passe para sua liberdade plena, pois ninguém pode viver numa capital, vendo tanta boniteza sem poder adquirir. Isso é uma judiação das brabas que não se pode impingir a um cristão, ainda mais se for fêmea. Mas agora não tinha mais “corecoré”. Era ela e seu cartão rua acima e rua abaixo, unidinhos, dois inseparáveis cupinchas. Aonde um ia, o outro ia também. Até o dia em que o filho entrou desesperado em casa, tendo nas mãos uma fatura de cinco folhas:

- Mamãe, a senhora está roubada, ou melhor, maniatada, se não pagar tudo que deve. Onde já se viu fazer tanta compra assim. Vai ter que vender a casa, o cachorro, o papagaio, o gato e até o urinol, se é que alguém ainda o use.

Mas minha tia Miúda fez ouvidos de mercador, pois achava o filho muito atarantado, igualzinho ao finado pai, de uma tacanhice sem limites, de modo que deu o dito por não dito. Ela só foi esparralhar na real, quando escolheu dois pares de botas de camurça numa loja de calçados, para aguentar o frio nas solas dos pés, e o cartão não passou o débito. Fez mil e uma tentativas, mas só lia a palavra funesta: INVÁLIDO. Aí a coitada entrou em nervosidade e partiu em busca do adjutório de Santo Expedito que resolve as coisas impossíveis. Mas até para o milagreiro a dívida era grande em demasia. Uma amiga sua, conterrânea do interior, contou-lhe sobre uma igreja onde o pastor resolvia qualquer pendência. Não havia enguiço que o homem não botasse fim. Se ele vencia o demo, haveria de libertá-la daquele débito do mal, pois o que estava acontecendo era coisa de satanás, que tirara sua razão, fazendo com que ela se oberasse tanto. E, assim, minha acaçapada e devedora tia prometeu ir logo de manhazinha em busca do dito presbítero.

Minha tia Miúda levantou-se imbuída da mais fervorosa esperança. Mal tomou um copo de café forte acompanhado de dois beijus de tapioca e uns três toletes de requeijão, partiu para a tal igreja, onde seu nome já constava da lista dos atendimentos. Lá pelas tantas foi chamada pelo pastor. Depois de acertar o dízimo e a sua presença futura no templo, foi levada para uma roda com o homem de fé e cinco obreiros. E, ali, em uníssono, os seis varões expeliam palavras raivosas contra satanás, num tom ascendente de voz, enquanto minha não tão santa tia ia fazendo volteamentos de trezentos e sessenta graus em torno do próprio corpo. À media que as imprecações se avolumavam e as vozes se elevavam, o corpo da pequena mulher ganhava mais impulso. Eram um açulamento daqui, um arranco dali e a coitadinha azoratada, bêbada de tanto desnorteamento. Mal e mal ela conseguia se equilibrar de pé em meio às volteaduras e ouvir algumas frases da rogatória:

- Satanás, deixa esta mulher. Eu te ordeno, sai deste corpo, pois este corpo não te pertence. Vamos, filho dos infernos, eu te esconjuro em nome do poder forte a mim conferido: desaloja, desaloja, agora desaloja…

E os devotos passaram a gritar em couro, em meio a palmas e bater de pés no assoalho da igreja:

- Desaloja, desaloja, desaloja, desaloja… - (o “e” soando como “i”)

Minha tia Miúda, gotejando suor por todos os poros, com seus cabelos rebeldes desafiando a gravidade, e com os olhos a despencar das órbitas, começou a gritar com todas as forças que ainda lhe restavam:

- Lojas Americanas, Casa Bahia, Ricardo Eletro, Itapoã, Carrefour, Extra, Topa Tudo, Mercado São José, Açougue Tremendão, Magazine Luiza, Armazém do Grilo…

E eu ali, num banco acompanhando tudo, sem nada poder fazer. Resumindo, minha querida tia Miúda vendeu tudo que tinha para pagar as dívidas. Voltou para o interior, onde é a alegria dos negociantes da cidade e dos mascates que por sua casa passam dia sim e o outro também.

(*) Retrato da Mãe do Artista (retratada de dois ângulos diferentes)

Artista – Hyacinthe Rigaud

Ano – 1695

Material – Óleo sobre tela

Dimensões – 81 x 101 cm

Local – Museu do Louvre, Paris

Índia: ocidentalizar ou sucumbir

Por , 3 de maio de 2012 0:10

Fora com o antigo purdah!

Retirai-vos o quanto antes das cozinhas.

Largai as panelas nas prateleiras.

Arrancai a venda dos olhos e olhai o mundo novo.

Deixai que vossos maridos, filhos e irmãos cozinhem para vós.

Muito trabalho nos cumpre fazer para tornar a Índia uma nação.

(Artigo de um seguidor de Gandhi, defendendo as mulheres indianas)

Por mais que alguns povos tentem conservar a pureza de sua cultura, Ocidente e Oriente cada vez mais se aproximam. Os abismos, antes insuperáveis, são agora facilmente contornados pelo desenvolvimento tecnológico, com maior ênfase para a internet. Como nos é de conhecimento, o invasor, sempre mais forte, acaba por se fazer assimilado com mais força, embora não se isente de receber lições do invadido. E neste caso, o Ocidente vem se impondo com maior veemência ao Oriente.

No século XIX, a Índia estava reduzida à pobreza, ainda apegada à revolução dos teares, hesitante quanto à industrialização que se processava no mundo chamado “civilizado”.

Mas, tal relutância foi enfraquecendo e o país trilhando os caminhos da modernidade econômica. Hoje, a Índia compete no mercado externo com o Ocidente. E o faz com a supremacia de quem tem mão de obra barata e abundante. As mulheres lideram em número o trabalho nas indústrias, enquanto cresce a porcentagem de crianças, abaixo dos 14 anos, nos mais diversos serviços.

A Índia dos pobres vê com tristeza que os patrões indianos apenas substituíram os patrões ingleses (antes de o país ser libertado). A exploração aos concidadãos possui um viés bem mais dramático de que a imposta pelos europeus. Dói na própria carne. Trata-se de irmão explorado por irmão.

O sistema de casta só pode persistir numa sociedade agrícola, estagnada e inculta. Embora, de certa forma, seja um elemento para a manutenção da ordem, ela coloca barreiras nos caminhos que levam ao progresso, pois decepa a esperança e o estímulo, que induzem o crescimento de uma nação. Portanto, ao mudar as suas bases econômicas, a sociedade indiana também está afetando as suas instituições sociais e os seus costumes (cultura). A duração extraordinária das castas passa a ser uma mera questão de tempo, após iniciada a revolução tecnológica. Alguns pensaram que isso se daria com a chamada Revolução Industrial. Mas as castas se mantiveram firmes. Agora já podemos ver o prenúncio de seu desmantelamento, pois tecnologia e superstições jamais conviveram bem.

Hoje, em muitas indústrias indianas, homens e mulheres já trabalham lado a lado, sem levar em conta a discriminação de castas. Os partidos políticos já tratam de angariar simpatia em todos os patamares da pirâmide indiana. As fábricas ocidentais, principalmente as estadunidenses, estão aportando com ferocidade em solo indiano, em busca de mão de obra barata para os seus produtos. O governo indiano sabe, por sua vez, que o contingente de trabalhadores precisa ser cada vez mais especializado, para segurar tais investimentos no país. Por isso, as escolas começam, ainda que lentamente, a se abrir para todos, indiferentemente de castas. De modo que a abolição de todas as distinções de castas pela Constituição indiana, que até então não conseguiu resultado, passa agora a ser uma esperança consistente. Quem sabe agora nasça uma nova classe de homens, deixando as superstições apenas nos livros da História da Índia, apesar da luta dos brâmanes para manter o “status quo”?

O sistema de castas gerou inúmeros males para o país. Dentre eles, a multiplicação de geração em geração, do número de párias (intocáveis ou dalits), ameaçando o próprio sistema. Pois aos párias se juntaram os escravizados de guerras ou pelas dívidas, os filhos nascidos da união de brâmanes com sudras (corresponde ao antigo filho ilegítimo no nosso país e que hoje inexiste) e os expulsos da religião hinduísta. E, como a pobreza quando é grande em demasia gera filhos, já que nada tem a ganhar ou perder, esse tem sido o maior legado dos párias para seu país: filhos e filhos.

O macho hindu vê-se num dilema, enquanto constata a invasão da tecnologia na Índia. Quer ganhar tudo o que pode, mas sem abrir mãos dos seus “direitos”. O que é impossível. Sempre que ganhamos algo de um lado, perdemos do outro. É a balança que dirá qual lado pesa mais, para que a decisão seja tomada. E pelo que ora vemos, na Índia está pesando o lado da ocidentalização. Se assim for, logo é possível ter:

  • a emancipação da mulher;

  • o aumento da idade no casamento infantil (com rigor);

  • a opção de escolha do companheiro;

  • o fim ao constrangimento e crueldade impostos às viúvas.

Revistas, jornais e internet já discutem as questões diárias das mulheres. O controle de concepção já está sendo incentivado sem restrições. Na maioria das províncias as mulheres votam e assumem cargos públicos. Cada vez mais elas frequentam as universidades. Assim está a caminhar a Índia, embora muito trabalho ainda tenha que ser feito e muitas mentalidades mudadas.

A Índia continua sendo um país de fortes e intrigantes contrastes. É uma terra do futuro, embora muitas partes dela ainda nem chegaram ao presente. É um país de pessoas incalculavelmente ricas e de pessoas desesperadamente pobres. É um país, onde se trabalha com arados de madeira, mas que também possui bomba atômica. Resta-nos torcer para que este país fantástico em muitos aspectos e tenebroso em outros, passe a respeitar os direitos humanos e se torne uma grande nação.

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