dez 04
Rapta o fascínio da lua
Em baldes de jorro alado
E verás que a dor amua
Num suspiro enamorado
Ele farta o rubor da rosa
Ele trota em grande euforia
Tão forte como a multidão ruidosa
Quando espera cantoria
Rapta o teor das almas
Como o compositor falaria,
E verás sauvas de palmas
Deste amor que só podia…
Deste amor que só podia…
Deste amor que só podia !!
publicado por Nina Araújo
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dez 03
Valei-me a boa inércia
Valei-me quando não for atrapalhar
Valei-me o vento zoando as copas do juá
Valei-me um metro de abraços
Valei-me a ânsia do riso
Valei-me o friso da boca se sujar
Valei-me o tempo de férias
Valei-me o dom das crianças
Valei-me a luz de um avatar
Valei-me a lonjura dos tetos que o Criador mandar
Valei-me a ginga das ondas quando quebram
Porque hão de fazer canções sobre as coisas
Porque hão de aparar a lua bonita
Porque hão de tornar a noite bendita
Então,valei-me Deus pelo que há….
publicado por Nina Araújo
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dez 03
Não te darei trela, amor confuso,
Solo de aluvião, solo úmido
Chão que encharca a cor do coração
Não te darei cela, nem mesmo tentes,
Procure outro alguém, mostre-lhe os dentes
E sirva-se deste amor preguiça
Fraqueza, cipó, areia movediça
Que brigam para ter a conclusão
Não fiques a rondar meus pensamentos
Hoje me disponho a andar com os tolos
Esses que aplaudem o sol poente
Rimam vendo a vida diferente
Líricos, com o corpo na emoção
Se trombar comigo não te preocupes
Já não me convences, nem iludes
Largar de ser bobo e vá ser são !
“Quero antes o lirismo dos loucos
O lirismo dos bêbedos
O lirismo difícil e pungente dos bêbedos
O lirismo dos clowns de Shakespeare
-Não quero mais saber do lirismo que não é libertação.”
(Poética - Manuel Bandeira)
publicado por Nina Araújo
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dez 02
Onde achar a noite
que o dia abocanha
Onde a dor arranha
quem nunca lhe estranha
Onde a vida encara
quem relativiza
Onde olhar bondade
poluindo a brisa
Onde forçar o caos
engessando o amor
Onde afagar o mal
para ter dissabor
Onde seduzir a sorte
com a força do braço
Onde entreter a morte
e matá-la de inchaço
Onde se tece gente
nos trilhos do exemplo
E onde se molda o corpo
com a força dum templo?
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dez 02
Ser humano e meio ambiente
Um atiça e outro projeta
Um selvagem impertinente
Outro mata o que lhe espeta
Ser humano e meio ambiente
Um que corta e esfola o ar
Fere a flora, sufoca os peixes
E o outro expande o seu pesar
Ser humano e meio ambiente
Um é duro forasteiro
Outro é rico campo e mar
Um anima o contrabando
Outro é trigo, vasto e brando
Onde isso vai parar?
Ó meu Deus tem compaixão!
Tora a ânsia deste cão!
Faz o homem ficar burro!
“E faz chover pão no sertão!”
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dez 01
Li de Bráulio Tavares, que Pablo Neruda descreve num poema, o quanto vibrou quando aprendeu a palavra “orégano”, o poeta saiu a gritá-la pelas ruas freneticamente, e eu fico a imaginar o volume das palavras que se materializam com distintas matizes de som, no cotidiano das leituras.
Quem há de contestar um iconoclasta? Um ornitorrinco é mesmo um animal? Quem sabe andar correndo numa charanga? Seria o quixó uma armadilha? E séctil é aquilo que se pode cortar? Xerém é um prato, um pássaro ou lugar?
Muitas palavras nos soam estranhas, e têm significação distinta em outros sítios, porém para quem escreve um poema, versada ou proseada ela é invulgar.
São pedras finas com que se faz alguns castelos são sopas de letrinhas a soltar…
Enfim,talvez possamos compreender com que grau de novidade Neruda saiu a exclamar por onde ia:
-Orégano,orégano!!!
As palavras têm mesmo um ritmo com certo paladar…
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dez 01
Como se acende uma pira
Lá no alto o céu por perto,
Enquanto cá embaixo as moringas,
Amenizam a sede do deserto?
Como se aquieta uma lava
Que do vulcão já desperta,
Enquanto cá embaixo uma trava
Permeia o gosto da palavra?
Qual sofrimento, que dose
Espreita as cascas da lagarta,
Enquanto a borboleta salta
Nas asas da metamorfose?
Qual chuva molharia a lua
Com suas comportas abertas,
Enquanto inundasse a rua
Por onde dormem os poetas?
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nov 30
Eles têm luminescência
Sintonia de virtudes
Com três notas
Trovam um xote
Em penas de muita atitude
E vira um verso manhoso
Misto de letras e festas
Vem gente de todo lado
Neste mote de poetas
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publicado por Nina Araújo
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nov 30
Bentinho escolheu ser sóbrio
Braço nobre, olhar fecundo
E andar com brilho próprio
Menestrel, reto e profundo
Fez na vida escolhas densas
Nunca egóico, nunca raso
Não quis ser oportunista
Nem cínico, imediatista
Nem “politicamente correto”
Cruel ou dissimulado
Quis respirar com calma
Comer certo e ter saúde
Encontrou ódio amiúde
Mas não se envolveu na lama
Alimentou sua alma
De manjar doce e ameno
E se tornou um poeta
Amigo dos vaga-lumes
Desses que adornam viola
São íntimos de lua estrelada
E caminham sua estrada
Elegantes pelo mundo.
publicado por Nina Araújo
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