Ói quem tá na gemedeira
a noite tá “feitim” carvão
o galo tá na cumeeira
o Biú tá em cima de Rita
o óleo tá no lampião
A caipora tá na mata
a rama tá na batata
o sabor tá na macaxeira
o boi tá varando a fome
o pêlo tá no lobisomem
o mel tá na laranjeira
ai de ‘nóis” “sá” dormideira
que o homem tá dando “bicada”
“adonde” tudo combina
ai o vôo dos pássaros
ai o pau da baraúna
ai beleza de graúna
Com Quê Veneno Amorfina ?
“Seu menino” este proveito
o homem já não regula
a sorte tá com defeito
a cabrocha tá sem “fulô”
a zabumba sem o xote
a fé tá sem rezador
a ganância sem firula
o rio tá sem pescador
“inté” que o juízo volte
na terra de nosso Senhor !
Ponha gema e catuaba
uma rede na lombeira
que o mundo é “finzim” de feira
maldizendo o próprio lote.
mas não perca a estribeira
que não há quem dele queira
despedir-se num pinote
quem tá vivo aí de bobeira
assobie e pise o coco
Que danou-se a gemedeira !!
MARLEY:
Ô comadre tu se ajeita
mode conduzi a pêia
nós somos ‘tudim” de areia
pó por dentro retorcido
NO NATAL É QUE SE NOTA
a distância do Senhor,
somos tôsco pecador
“enlombrigado” de azia
bafo de cobra no amor
mentindo feito a heresia
atropelando o cristão
só porque o pobre pia
‘apois” neste mundo cão
rouba-se tudo do irmão
galo, pato, dólar impresso,
casa, marido,18 verso,
quilo, torrão e trocado
e inté o pobre coitado
se acaso for precisado
termina vendo a biela
duro, frio e empacotado
sem dois ais nas goela
por algum ‘desleriado’.
NINA:
Comadre tu me chamou
‘apois’ eu lhe boto a tinta
ontem mesmo Zé falou
como Jesus é supimpa
falava na beira das praia
para cem dúzia de trinta
coisa que divide os “cêsto”
os medo, os peixe, as “páia”
que ‘inté’ quem tem “mortáia”
se embebedou nas delicia
jurou deixar a imundicia
para ter nova vontade
NO NATAL É QUE SE NOTA
a lonjura dessa rota
‘nois” aqui tão separado
escolhendo cor e cobre
roto fingindo ser nobre
pobre sendo destratado
enfileirando nas dores
sem casa, trigo e odores
na barriga vento e água
acochado aos pé de Cristo
“mode” ser considerado.
MARLEY:
“Ôçê” fez um bom traçado
NO NATAL É QUE SE NOTA
pra seguir um mestre santo
como ter as coisas torta?
“apois” em “cabra safado”
o diabo é que se ‘avorta”
toma a alma na marmota
‘mode” ter mais um otário
nos volteio da chacota
Jesus pôs seu doce manto
arrodiando o cristão
como elixir de alegria
na justiça e no perdão
humilde sem ser notado
ô comadre tu me diga
em que touceira de urtiga
o avarento come angú
o patrão faz festa em pobre
o agiota deu desconto
nos vôo dum urubu?
hoje o homem virou lobo
devorando ‘inté” as cria
só por causa dos ‘tutu”.
NINA:
E não é como eu dizia…
nas orgia do emplumado
o orfão sempre enjeitado
as viúva tão carcomida
a mesa do rico armada
de ceia cara em comida
a humanidade fechada
voltada pra própria vida
e Jesus batendo à porta
NO NATAL É QUE SE NOTA
quanta falta de acolhida!!
a senda dos justos fraca
a ganância enfurecida
o “povo escolhido” em passas
castanhas, nozes, mordidas
o “povo esnobado” em praças
jornais, relento e feridas
trocas de grife, oferenda
sapatinhos sem guaridas
Ô moça triste da vassoura !!
não temas porque Jesus
não veio envolto nas renda
foi menininho sem prendas
nascido na manjedoura.
NINA ARAÚJO & MARLEY ABDO
esse mar jeitoso, capturador, maroleiro, tem patas e asas, cais e, adjacências. esse mar jeitoso, de aquáticos, pares e, pontes, balança versos, e saliências, nos horizontes. mar de vértice, mar em movimento, singular e coletivo, primitivo elemento, dos homens.
Bentinho preferiu ser sóbrio
braço forte, olhar fecundo
e andar com brilho próprio
menestrel , rico, profundo
fez na vida escolhas densas
pouco egóico, nunca raso
não quis ser oportunista
ou cínico compenetrado
politicamente incorreto
nem ao céu nem ao lago
quis respirar com calma
comer certo e ter saúde
encontrou ódio amiúde
solavanco, riso, trama
mas alimentou sua alma
para ser cipó e rama
manjar doce, fel ameno
flor -de-lótus, praça, bola,
cajado dalgum poeta
ouvinte de vagalume
íntimo da lua estrelada
voz que traduz a estrada
pelo gps do mundo.
torpedo olhar,
congelei-me,
pelo triz
do teu vulto.
quis a noite,
o frisson astuto,
o flerte tombado,
eixo de surto.
menos alto,
porias o grito,
no peito.
menos bambo,
verias o toque,
do leito.
contágio forte,
flor amarela,
à luz de vela,
almiscarada,
vinho e balada,
suspiro perto e,
febre de amar.
antídoto
fonema,
desloca
a rima,
aquece
o enfado
que dorme
à míngua.
lima
a boca,
parva
de tédio,
ávida,
por entreter-se.
fonte
inusitada,
abranda
o clima,
luz
crescente,
anamnêse
de frase,
unica
e vasta,
voz
da língua.

amanheceu
doce pele fresca,
em luas
sem esperas
ou verdugos.
jazem ausentes
os meus urros,
e o ventre vibra,
até o avesso,
porque acorda
em teu olhar.
amanheceu
doce pele fresca,
em poros,
sem travas,
ou problemas.
por ora cabe,
palma e poema,
o inquilino,
verso amante,
o suspiro,
cambaleante,
casa-coração
para morar.

metade de minha alma,
é vegetação absurda,
onde os teus olhos,
colherão minhas mudas.
metade de minha alma,
é cataclismo,
onde os teus beijos e mãos,
fazem abalos sísmicos.
ah, essa fome sem norma,
vela o manto, de ilusão eterna,
enquanto rompe a primavera,
só na espera… só na espera de paz.