1
O espelho reflete o rosto do seu pai: a testa larga, cortada por rugas, os olhos grandes, tristonhos, o nariz adunco, os lábios finos, com o vinco que os repuxam…
- Estou ficando muito parecido.
Conclui sorrindo. Penteia a cabeleira ondulada, cheia, grisalha, igual… Ainda mantendo o sorriso, deixa o quarto, entrando na salinha.
- Vai sair?
Indaga-lhe a mulher morena, na cadeira de rodas.
Responde já em direção do terracinho que o conduzirá após cruzar o jardinzinho, ao portão e daí, à rua estreita.
- Vou fazer a visita.
- Sim.
Ela com o olhar analítico segue-lhe a figura se afastando. O Tadeu está mais gordo? O que é a nossa vida, de repente, nos deparamos velhos, mudados pela metamorfose do tempo. Somos outros seres. Mas assim é a lei natural de tudo. Deus sabe o que faz… Cadencia-se. E o amanhã o que nos reservará?
- Como saber?
Indaga-se, em voz baixinha, libertando o que pensa. E continua refletindo. De três em três meses o Tadeu faz a visita ao jazido, na fiscalização de zelar o que resta do pai… Mas, o que ainda restará do outrora senhor cheio de corpo, forte?
- A lembrança que não morre.
Novamente se resume, na voz sussurrada.
Sim, cada um com seu mundo, sua criação, conduta de vida. Balança-se. Mais tarde, o marido regressará. Silencioso. O rosto fechado, mais tristonho ao encarar a realidade de novamente se deparar com a ausência querida. Cerra os olhos e, sem tardar, adormece.
2
Transpõe o largo portão e caminha entre jazidos. Homens envergados cuidam de aparar ou aguar a grama. Quanta vez já fez esse percurso doloroso, na obrigação de dizer à memória que não esqueceu o pai, que ele o sente presente, na força do parentesco que os une?
Agora parado, de pé, observa o caminho traçado por formigas sobre o verde da grama. Ah, reclamará de Seu Toinho esse descuido, a falta de zelo com o túmulo!
- Bom dia.
Então, reconhecendo a voz de Seu Toinho e se voltando:
- Mas, Seu Toinho, o senhor não tem cuidado do túmulo: as formigas fizeram caminho na grama. O senhor não recebe todo mês para cuidar do túmulo?
Gaguejando, o zelador busca se justificar:
- É que com o verão, as formigas sempre aparecem… Mas, eu vou colocar areia preta no buraco e vou mudar essa grama.
- Espero. Espero Seu Toinho.
Silenciam, enquanto em volta a tarde vai morendo. O céu escurece, as primeiras luzes se acendem na avenida à esquerda. O vento circula mais frio? Alguém grita, chamando um dos operários:
- Samuel!
Então Tadeu e Seu Toinho se afastam, em direções opostas. Calados. Entregues aos próprios silêncios.
- Samuel!
- Já tou indo, cara!
Responde o rapazote próximo e vai saber o que o outro deseja.
O portão. Cruza-o. Adiante, está a parada dos coletivos. Atravessa a avenida, em direção deste. E, de repente, à semelhança das visitas anteriores, sente-se envolvido pela paz. A paz…
Sorri, entendendo. Tudo entendendo.
Imprimir












Comentários recentes