Capítulo VI - Sou Irmã
Clotilde entrou no ônibus no ponto final. Naquele dia tinha faltado á faxina para visitar sua filha Julia no hospital. Não parava de pensar na sua menina, deitada naquela cama pobre da enfermaria.
- Coitadinha! – pensou suspirando. – “Está tão abatida! Como de costume, escolheu sentar na ponta do banco: não gostava do lugar junto à janela. Duas paradas depois subiu uma mocinha, pedindo licença para ocupar o outro lugar do banco. Lembrava Belinha, sua caçula. Logo que sentou, abriu a bolsa e dela retirou um livro para ler.
Clotilde pensou:
- Deve ser estudo! – Disfarçadamente, ficou observando: vez por outra, sua companheira de viagem parava a leitura e permanecia pensativa, cabeça tombada para o lado:
- Que nem minha Belinha quando está nos estudos!
Algum tempo depois, a garota deu sinal e, se levantando, pediu licença para passar de novo. Saltou apressada. Clotilde pensou:
- Tomou ônibus errado, na certa!
Reparou, então, que ela tinha esquecido o livro sobre o banco:
- Pobrezinha! Lia com tanta atenção! Vai fazer falta com certeza!
Teve vontade de deixar com o trocador, mas resolveu levar. Ele não parecia confiável. Pensou: “Se eu pudesse ler… Pode ter o endereço! Belinha vai procurar.” Examinou a capa:
- Letra bonita! O que será que está escrito? –
Clotilde era analfabeta. Criada na roça, bem distante da escola rural, só vindo para a cidade grande já adulta, nunca tinha estudado. Colocou o livro na sacola que levava. Morava numa casinha muito pobre de uma comunidade num distante subúrbio, ela e suas duas filhas: Júlia e Izabel. O marido tinha morrido num desastre de trem, há alguns anos. Vida dura. Criava as filhas com faxinas que fazia seis dias por semana. Planejava um futuro melhor para elas, assim, se sacrificava para que estudassem. Belinha estava na sexta série e Júlia na oitava, preparando-se para fazer faculdade. Boas filhas, alunas aplicadas. Tinha um orgulho danado delas!
Mas, então, apareceu o Gui. Boa pinta, sempre bem vestido. Logo se interessou por Júlia e ela por ele. Na comunidade aparecia, desaparecia… Clotilde alertou sua menina. Conhecia a vida e logo percebeu que ele não era “flor que se cheire.” Então, para aquietar o coração de sua mãe, um dia Julia perguntou qual era sua profissão. O que ele fazia para andar assim todo arrumado? Gui respondeu que se dedicava “ao ramo de importação e exportação”. Isso a tranquilizou. Mas, paixão cega: embora seu namorado logo tivesse demonstrado seu ciúme e, algumas vezes até sua agressividade, Júlia se recusava terminar sua história de amor.
Então, chegou aquele dia: polícia cercando o morro atrás de uma boca de fumo onde um grupo traficava drogas. Gui apareceu na porta de Clotilde armado, nervoso e assustado atrás de Júlia. Precisava fugir e queria que ela seguisse com ele. Júlia não entendeu direito: Ele precisava fugir? Por quê? – aos poucos, começou a compreender – Então, o ramo importação/exportação era de droga? Fugir? Não! Deixar a mãe! Não queria!!! Seguir com ele o caminho da marginalidade? Isso não!!!
Desesperado, Gui agarrou-a pelo braço tentando arrasta-la com ele. Na luta, Júlia bateu a cabeça, desmaiando ali mesmo, na soleira da porta. Vendo que não podia esperar mais, Gui se embrenhou pelas vielas do morro, já cercado pela polícia, deixando Isabel aos gritos diante da irmã sem sentidos. Baleado na fuga, Gui morreu a caminho do hospital. Amparada pelos visinhos, Júlia foi internada com duas costelas quebradas e um profundo corte na cabeça.
- Apesar de tudo sua menina está bem. Fisicamente dizendo, ela está bem! – informou o médico- Mas emocionalmente…
Clotilde não entendeu direito. O que o doutor queria dizer? Sua Júlia, naquela cama a olhar para o teto, imóvel e triste, não lembrava em nada sua menina sonhadora e feliz.
Em casa, depois do jantar, lavou a louça e algumas peças de roupa que havia deixado de molho pela manhã. Então se lembrou do livro que tinha encontrado no ônibus e guardado na sacola. Chamou sua filha:
- Belinha! Vem me dizer que livro é esse! Achei no ônibus! Uma mocinha deixou no banco do meu lado. Vê se tem o endereço! Deve ser estudo! Ela lia com tanta atenção!
- Não, mãe! É um livro de poesia!
-Me diz uma coisa, Belinha. O que é poesia? Não é estudo não?
- Não, mãe! Poesia é… É uma coisa difícil de explicar. Mas é bonito!
- Então lê pra mim! –
Belinha se sentou num banco da cozinha e Clotilde se acomodou à sua frente, disposta a ouvir com toda atenção. Abrindo livro ao acaso, Belinha começou a leitura:
Sou Irmã
Sou irmã do dia
Que nasce toda manhã.
O sol sorrindo
Quente e pontual
Na minha janela.
Sou irmã da noite
Bela e majestosa,
Semeando diamantes
Pelos caminhos do céu.
Que algumas vezes, generosa,
Me deixa uma lua cheia
De presente
Prateando o meu leito.
Belinha fez uma pausa para respirar e sentir a reação de sua mãe.
Clotilde pensou: Bonito isso! Irmã do dia que nasce! O dia que trás o sol! Sim!… E o sol é tão bonito! Tão alegre as manhãs de sol!
- Lê de novo isso, filha! Lê do comecinho!– pediu Clotilde – Acho que estou entendendo um pouco o que é essa tal de poesia!
Belinha releu lentamente a primeira parte da poesia. Clotilde, então, fez sinal para que interrompesse a leitura e, segurando seu braço por cima da mesa, perguntou:
- Me diz se estou certa: “O sol sorrindo” quer dizer que ele é alegre, não é? A gente sorri se está alegre! O sol não sorri, mas nos faz feliz, não é? E depois, quando o livro diz que a noite “semeia diamantes”, ele está falando das estrelas, não é? As estrelas são os diamantes da noite! Estou certa? E “a lua cheia prateando” é a luz que a lua deita nas coisas e parece prata, não é isso?
- Mãe! Você entendeu direitinho! Você é muito inteligente, mãe! E tem muita sensibilidade.
- Não sei o que é isso, sensi… O que? Mas de semear, eu entendo! Acho que eu já sei, mais ou menos, o que é poesia: é dizer uma coisa que quer dizer outra coisa, não é? Só que de um jeito mais bonito!
Belinha fez que sim com a cabeça, emocionada. Pela primeira vez ela e sua mãe estavam vivendo juntas um momento de pura beleza. De total encantamento e descobertas. Um momento mágico! Clotilde, na sua pureza e simplicidade, ensinava sua filha o que significava, na essência, uma poesia.
- Lê mais, Belinha! Lê mais! – pediu Clotilde entusiasmada.
E Belinha continuou:
Sou irmã da rosa singela
Que colho em meu jardim
E que perfuma meu peito.
Sou irmã do vento cantando alto,
Brincando em meus cabelos,
E da chuva que mansa enverniza
As folhas E o asfalto.
Como Belinha fizesse outra pausa, Clotilde comentou:
- De flor também eu entendo! “A flor perfuma o peito!” Que lindo! De vento cantando, também! E brincando nos cabelos… Que nem você quando era criança e queria me pentear e embaraçava meu cabelo todo, lembra? “A chuva que enverniza as folhas” também entendi! A chuva molha as folhas e elas ficam lustrosas como o chão de Dona Lúcia depois da faxina que eu faço.
Segue, Belinha!”.
Sou irmã dos pássaros cantores
E das rolas que não sabem cantar.
Sou irmã do mar
Do eterno mar
Eternamente a desmanchar
Rendas salgadas nas areias.
- Acaba assim, mãe! Mas, tem muitos outros! Quer ouvir?
- Depois, querida. Outro dia! Vai dormir que amanhã você tem aula.
Belinha foi para o pequeno quarto que ocupava com sua irmã. Clotilde ficou pensativa. Tanta coisa tinha os livros e que desconhecia! Nunca havia se dado conta que eles guardavam tanta beleza. Pela primeira vez sentiu o peso de sua ignorância. Até então parecia a ela que ler e escrever não lhe faziam falta. Era forte e disposta para o batente. Aprendera com a vida a se virar na cidade grande: nunca tomou condução errada e tinha as meninas para qualquer dificuldade maior. Agora, porém, pela primeira vez sentia um desejo muito forte de ler ela mesma aquelas palavras do livro que o acaso tinha feito cair em suas mãos. Ler, sozinha! Com seus próprios olhos, entender com a sua cabeça e sua… o que Belinha disse que ela tinha? Ler esse livro e tantos mais! Descobrindo por ela mesma a beleza de cada palavra, de cada texto. As meninas tinham tantos livros! Se aprendesse a juntar as letras e saber o que diziam, tanta coisa podia aprender!
Belinha já estava deitada quando Clotilde apareceu na porta do quarto. Não era seu costume fazer isso.
- Filha! Me diz uma coisa com toda franqueza: você acha que já sou velha pra estudar? Aprender a juntar as letras? A ler sozinha, sem precisar de ninguém? Aqui na comunidade vai ter… como é mesmo?
- Alfabetização de adultos, não é? Já soube!
- Você acha que se eu entrar… se eu entrar… Eu aprendo? Você me ajuda?
- Claro que sim, mãe! –Claro que sim! – Belinha olhou para aquela mulher, tão guerreira, tão corajosa! E, mais que nunca, sentiu um orgulho danado de sua mãe!
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