Category: Sonia Quartin

Cap. VII – pensamentos matinais – Sonia Quartin

Por Sonia Quartin, 12 de maio de 2010 18:30

Capítulo VII – Pensamentos matinais

Deitada naquela cama de hospital, Júlia pensava em sua vida. Tantos sonhos sonhara principalmente depois que havia conhecido o Gui! Via-se formada em pedagogia, casada, com sua família, em sua casinha de subúrbio, simples, mas toda arrumadinha. Filhos… dois ou três! E, assim de repente, tudo tinha desmoronado. Gui não era o que dissera: do ramo de “importação e exportação”. Ou melhor, pensando bem, até que era mesmo! Ele, de certa forma, não havia mentido! Importação e exportação de droga: cocaína! Que decepção! Então, sua mãe lhe trouxera a notícia: seu amor tinha terminado daquele jeito, morto! Mas ela, Júlia, não havia ainda sepultado todo aquele sentimento. Ainda sentia amor por Gui: seu modo de sorrir, de dizer coisas bonitas como nunca ninguém lhe dissera antes, seu beijo… O que fazer dos sonhos ainda vivos dentro do seu coração? Onde encontrar um outro Gui?  Não aquele, da porta de sua casa: olhar assustado e febril. Não! O Gui romântico com quem dançava aos sábados nos bailinhos da Associação, que lhe fazia rir e sonhar dizendo coisas lindas em seu ouvido! O Gui das noites estreladas, dos beijos quentes de promessas, quando se despediam e era tão difícil resistir. Sim! Perdera a vontade de viver.

A mãe estivera no hospital pela manhã. Trouxera um livro para lhe distrair. Disse que tinha muita coisa bonita, que Belinha havia lido para ela, na véspera. A mãe! Sim! A mãe havia lhe dito que Gui não parecia ser de confiança, para se cuidar. A mãe tinha percebido, de alguma forma, quem era realmente o Gui. E, em atenção àquela mulher corajosa, batalhadora, ela tinha se cuidado, apesar dos apelos do seu corpo e do seu coração. Sabia, porém, que isso não seria por muito tempo. Gui era tão sedutor!

Júlia tocou no livro deixado por sua mãe e esquecido sobre seu corpo inerte naquele catre de enfermaria.  Eram poesias! Será que mãe entendeu? Curiosa, abriu e leu:

Pensamentos matinais

Acordei!

Que felicidade! Ganhei mais um dia!

Respiro! Respiro com facilidade,

O ar poluído de minha cidade!

Naquela cama da enfermaria Júlia olhou em volta e estremeceu. Junto dela, na cama ao lado, uma mocinha, da sua idade talvez, respirava com o auxílio de oxigênio. E era visível o seu esforço. Parecia sofrer muito. Instintivamente Júlia encheu seus pulmões de ar. Sim! Ela podia respirar com facilidade! Nunca havia pensado em agradecer a Deus por isso!

Me viro e me mexo,

E deixo meu braço fazer

Com prazer aquilo que quero.

E eu faço com facilidade.

Que felicidade! Ganhei mais um dia!

Três camas à direita um rapaz paraplégico imóvel não tinha o movimento dos braços. Parecia um morto vivo! Seus olhos se encheram de lágrimas! Não havia se dado conta do sofrimento daquelas pessoas à sua volta. Sentiu muita vergonha de seu egoísmo.

Meus olhos percebem o dia que nasce

O sol que me chama,

Na minha janela.

E os passarinhos, pequenos cantores,

Espantam as dores do meu coração,

Só pra me lembrar que ouço com gosto

Seu belo cantar.

Que felicidade! Ganhei mais um dia!

De seu leito Júlia podia ver o pátio do hospital. O sol brilhava sobre uma frondosa árvore onde os bentevís faziam a festa. Mais uma vez Júlia sentiu vergonha por nunca ter dado o devido valor à essas pequeninas coisas que passam despercebidas no nosso cotidiano. O dia estava tão bonito! Ela podia ver todo esse esplendor! Podia ouvir o cantar dos passarinhos!

Me sento na cama.

Diante de mim a vida me chama.

Roleta que gira inquieta, pulsante,

Trazendo o futuro que era distante

E logo é presente… E breve é passado…

Mas onde ficou a adolescente

Com tantos projetos em sua cabeça?

Deixei nas manhãs dos dias vividos!

Sim! A vida lhe chamava! Mal podia esperar por sua mãe que ficou de visitá-la naquela tarde. Queria viver deixando para trás seu passado, o Gui e tudo mais. Precisava viver um novo futuro, por sua mãe e, principalmente por ela mesma.

A vida não espera!

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Um livro itinerante – cap.VI – Sou irmã

Por Sonia Quartin, 12 de abril de 2010 9:19

Capítulo VI -  Sou Irmã

Clotilde entrou no ônibus no ponto final. Naquele dia tinha faltado á faxina para visitar sua filha Julia no hospital. Não parava de pensar na sua menina, deitada naquela cama pobre da enfermaria.

- Coitadinha! – pensou suspirando. – “Está tão abatida! Como de costume, escolheu sentar na ponta do banco: não gostava do lugar junto à janela. Duas paradas depois subiu uma mocinha, pedindo licença para ocupar o outro lugar do banco. Lembrava Belinha, sua caçula. Logo que sentou, abriu a bolsa e dela retirou um livro para ler.

Clotilde pensou:

- Deve ser estudo! – Disfarçadamente, ficou observando: vez por outra, sua companheira de viagem parava a leitura e permanecia pensativa, cabeça tombada para o lado:

- Que nem minha Belinha quando está nos estudos!

Algum tempo depois, a garota deu sinal e, se levantando, pediu licença para passar de novo. Saltou apressada.  Clotilde pensou:

- Tomou ônibus errado, na certa!

Reparou, então, que ela tinha esquecido o livro sobre o banco:

- Pobrezinha! Lia com tanta atenção! Vai fazer falta com certeza!

Teve vontade de deixar com o trocador, mas resolveu levar. Ele não parecia confiável. Pensou: “Se eu pudesse ler… Pode ter o endereço! Belinha vai procurar.” Examinou a capa:

- Letra bonita! O que será que está escrito? –

Clotilde era analfabeta. Criada na roça, bem distante da escola rural, só vindo para a cidade grande já adulta, nunca tinha estudado. Colocou o livro na sacola que levava. Morava numa casinha muito pobre de uma comunidade num distante subúrbio, ela e suas duas filhas: Júlia e Izabel. O marido tinha morrido num desastre de trem, há alguns anos. Vida dura. Criava as filhas com faxinas que fazia seis dias por semana. Planejava um futuro melhor para elas, assim, se sacrificava para que estudassem. Belinha estava na sexta série e Júlia na oitava, preparando-se para fazer faculdade. Boas filhas, alunas aplicadas. Tinha um orgulho danado delas!

Mas, então, apareceu o Gui. Boa pinta, sempre bem vestido. Logo se interessou por Júlia e ela por ele. Na comunidade aparecia, desaparecia… Clotilde alertou sua menina. Conhecia a vida e logo percebeu que ele não era “flor que se cheire.” Então, para aquietar o coração de sua mãe, um dia Julia perguntou qual era sua profissão. O que ele fazia para andar assim todo arrumado? Gui respondeu que se dedicava “ao ramo de importação e exportação”. Isso a  tranquilizou. Mas, paixão cega: embora seu namorado logo tivesse demonstrado seu ciúme e, algumas vezes até sua agressividade, Júlia se recusava terminar sua história de amor.

Então, chegou aquele dia: polícia cercando o morro atrás de uma boca de fumo onde um grupo traficava drogas. Gui apareceu na porta de Clotilde armado, nervoso e assustado atrás de Júlia. Precisava fugir e queria que ela seguisse com ele. Júlia não entendeu direito: Ele precisava fugir? Por quê? – aos poucos, começou a compreender – Então, o ramo importação/exportação era de droga? Fugir? Não! Deixar a mãe! Não queria!!! Seguir com ele o caminho da marginalidade? Isso não!!!

Desesperado, Gui agarrou-a pelo braço tentando arrasta-la com ele. Na luta, Júlia bateu a cabeça, desmaiando ali mesmo, na soleira da porta. Vendo que não podia esperar mais, Gui se embrenhou pelas vielas do morro, já cercado pela polícia, deixando Isabel aos gritos diante da irmã sem sentidos.  Baleado na fuga, Gui morreu a caminho do hospital. Amparada pelos visinhos, Júlia foi internada com duas costelas quebradas e um profundo corte na cabeça.

- Apesar de tudo sua menina está bem. Fisicamente dizendo, ela está bem! – informou o médico-  Mas emocionalmente…

Clotilde não entendeu direito. O que o doutor queria dizer? Sua Júlia, naquela cama a olhar para o teto, imóvel e triste, não lembrava em nada sua menina sonhadora e feliz.

Em casa, depois do jantar, lavou a louça e algumas peças de roupa que havia deixado de molho pela manhã. Então se lembrou do livro que tinha encontrado no ônibus e guardado na sacola. Chamou sua filha:

- Belinha! Vem me dizer que livro é esse! Achei no ônibus! Uma mocinha deixou no banco do meu lado. Vê se tem o endereço! Deve ser estudo! Ela lia com tanta atenção!

- Não, mãe! É um livro de poesia!

-Me diz uma coisa, Belinha. O que é poesia? Não é estudo não?

- Não, mãe! Poesia é… É uma coisa difícil de explicar. Mas é bonito!

- Então lê pra mim! –

Belinha se sentou num banco da cozinha e Clotilde se acomodou à sua frente, disposta a ouvir com toda atenção. Abrindo livro ao acaso, Belinha começou a leitura:

Sou Irmã

Sou irmã do dia

Que nasce toda manhã.

O sol sorrindo

Quente e pontual

Na minha janela.

Sou irmã da noite

Bela e majestosa,

Semeando diamantes

Pelos caminhos do céu.

Que algumas vezes, generosa,

Me deixa uma lua cheia

De presente

Prateando o meu leito.

Belinha fez uma pausa para respirar e sentir a reação de sua mãe.

Clotilde pensou: Bonito isso! Irmã do dia que nasce! O dia que trás o sol! Sim!… E o sol é tão bonito! Tão alegre as manhãs de sol!

- Lê de novo isso, filha! Lê do comecinho!– pediu Clotilde – Acho que estou entendendo um pouco o que é essa tal de poesia!

Belinha releu lentamente a primeira parte da poesia. Clotilde, então, fez sinal para que interrompesse a leitura e, segurando seu braço por cima da mesa, perguntou:

- Me diz se estou certa: “O sol sorrindo” quer dizer que ele é alegre, não é? A gente sorri se está alegre! O sol não sorri, mas nos faz feliz, não é? E depois, quando o livro diz que a noite “semeia diamantes”, ele está falando das estrelas, não é? As estrelas são os diamantes da noite! Estou certa? E “a lua cheia prateando” é a luz que a lua deita nas coisas e parece prata, não é isso?

- Mãe! Você entendeu direitinho! Você é muito inteligente, mãe! E tem muita sensibilidade.

- Não sei o que é isso, sensi… O que? Mas de semear, eu entendo! Acho que eu já sei, mais ou menos, o que é poesia: é dizer uma coisa que quer dizer outra coisa, não é? Só que de um jeito mais bonito!

Belinha fez que sim com a cabeça, emocionada. Pela primeira vez ela e sua mãe estavam vivendo juntas um momento de pura beleza. De total encantamento e descobertas. Um momento mágico! Clotilde, na sua pureza e simplicidade, ensinava sua filha o que significava, na essência, uma poesia.

- Lê mais, Belinha! Lê mais! – pediu Clotilde entusiasmada.

E Belinha continuou:

Sou irmã da rosa singela

Que colho em meu jardim

E que perfuma meu peito.

Sou irmã do vento cantando alto,

Brincando em meus cabelos,

E da chuva que mansa enverniza

As folhas E o asfalto.

Como Belinha fizesse outra pausa, Clotilde comentou:

- De flor também eu entendo! “A flor perfuma o peito!” Que lindo! De vento cantando, também! E brincando nos cabelos…  Que nem você quando era criança e queria me pentear e embaraçava meu cabelo todo, lembra? “A chuva que enverniza as folhas” também entendi! A chuva molha as folhas e elas ficam lustrosas como o chão de Dona Lúcia depois da faxina que eu faço.

Segue, Belinha!”.

Sou irmã dos pássaros cantores

E das rolas que não sabem cantar.

Sou irmã do mar

Do eterno mar

Eternamente a desmanchar

Rendas salgadas nas areias.

- Acaba assim, mãe! Mas, tem muitos outros! Quer ouvir?

- Depois, querida. Outro dia! Vai dormir que amanhã você tem aula.

Belinha foi para o pequeno quarto que ocupava com sua irmã. Clotilde ficou pensativa. Tanta coisa tinha os livros e que desconhecia! Nunca havia se dado conta que eles guardavam tanta beleza. Pela primeira vez sentiu o peso de sua ignorância. Até então parecia a ela que ler e escrever não lhe faziam falta. Era forte e disposta para o batente. Aprendera com a vida a se virar na cidade grande: nunca tomou condução errada e tinha as meninas para qualquer dificuldade maior. Agora, porém, pela primeira vez sentia um desejo muito forte de ler ela mesma aquelas palavras do livro que o acaso tinha feito cair em suas mãos.  Ler, sozinha! Com seus próprios olhos, entender com a sua cabeça e sua… o que Belinha disse que ela tinha? Ler esse livro e tantos mais! Descobrindo por ela mesma a beleza de cada palavra, de cada texto.  As meninas tinham tantos livros! Se aprendesse a juntar as letras e saber o que diziam, tanta coisa podia aprender!

Belinha já estava deitada quando Clotilde apareceu na porta do quarto. Não era seu costume fazer isso.

- Filha! Me diz uma coisa com toda franqueza: você acha que já sou velha pra estudar? Aprender a juntar as letras? A ler sozinha, sem precisar de ninguém? Aqui na comunidade vai ter… como é mesmo?

- Alfabetização de adultos, não é? Já soube!

- Você acha que se eu entrar… se eu entrar… Eu aprendo? Você me ajuda?

- Claro que sim, mãe! –Claro que sim! – Belinha olhou para aquela mulher, tão guerreira, tão corajosa! E, mais que nunca, sentiu um orgulho danado de sua mãe!

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Um livro itinerante – cap V – O medo

Por Sonia Quartin, 6 de abril de 2010 13:23

Capítulo V – O medo

Gabi correu para pegar o ônibus. Se perdesse esse, não sabia quando passaria um outro. Na beira da calçada, tropeçou em alguma coisa. Parecia ser um embrulho… Não!  Era um livro! Agora não podia ver direito. Seu ônibus estava encostando. Botou o livro na bolsa para ler na condução. Teria tempo de sobra! Mais de uma hora até chegar em casa.  Constatou aliviada que havia um lugar para sentar junto à janela ao lado de uma senhora parecendo cansada. Pediu passagem e, se acomodando, examinou a capa do livro. Em letras grandes estava escrito: “Poesias”. Que bom! Poderia se distrair enquanto viajava até a casa. E era mesmo uma viagem! Abriu ao acaso e leu:

O MEDO

Afinal,

De que você tem medo?

Qual é seu mal, o seu segredo?

Você tem medo de que?

Estremeceu. Aquele livro era mágico? Bruxo? Advinha pensamentos, sentimentos? Mais uma vez tinha sentido medo! Medo de se expor diante dos outros. Recuara diante do primeiro impulso. Gabi, uma simples caixeirinha de loja, tinha um sonho. Simples, como simples era sua vida: entrar numa aula de dança de salão. Achava tão bonito! Devia ser gostoso dançar! Fazer amigos! Sentia-se tão sozinha no quartinho abafado onde morava na casa da tia. Família no interior. Que saudade!  No entanto, todo dia, ao voltar do trabalho, seu ônibus passava em frente a uma “academia de dança”, como anunciava a placa colocada sobre a janela de um velho sobrado. Então, ouvindo a música que descia até ela, ás vezes o riso de alguém, seu coração batia mais forte! Muitas vezes quis saltar e entrar para conhecer aquele lugar, mas desistia sempre. Cadê coragem?

De onde vem seu medo?

Da escuridão vivida

No seu quarto de criança

Que ficou lá no passado?

Onde seu medo mora?

Qual foi sua raiz?

O que lhe fecha a garganta, agora,

E lhe trava o gesto?

Tímida, desde criança! Desde quando, aos nove anos sua professora organizou um teatrinho no fim do ano escolar. Coisinha pobre de interior.  A personagem principal seria a fada da natureza. Desde o início sonhou ser essa fada! Escolhidos os papeis, a fadinha ficou com a menina mais bonita da turma. E da família mais importante, também. Claro!  A ela coube o papel de uma árvore. Ficaria, no fundo do cenário, de pé, sem se mexer e a única coisa que diria, no final da peça, levantando os braços, supostos galhos dessa árvore tosca, seria gritar com todos os demais: “Viva a natureza!” Não quis participar. Inventou uma dor de barriga de última hora. Desde então se fechou na sua timidez. Nunca mais se atreveu sonhar com coisas impossíveis e nas quais ficaria exposta.

Tem medo de mudar?

De arriscar a sorte?

De se jogar

Na roleta da vida

Que não para de girar?

Mais tarde, já morando no Rio de Janeiro, quando o ônibus passava por aquele sobrado, seus olhos subiam até aquela janela como se algo estivesse lhe chamando: “Academia de dança. Aulas noturnas!

E aquela música… Ficava  ecoando em seus ouvidos por longo tempo.

Então se imaginava a rodopiar pelo salão, leve e solta. Girando, girando… Girando… Como fazia aquela pequena fada do teatrinho infantil.

Quem lhe impede jogar,

Pra valer,

O jogo da vida?

Aquela poesia acabava assim, com uma pergunta instigante: Quem lhe impede se jogar no jogo da vida? Por que não? Afinal, já não era a menininha, medrosa de sua falta de jeito, de sua pobreza. Era uma adulta e não fazia mal se, de início, pisasse o pé de seu par. Todo mundo paga mico, muitas vezes, pelos salões dessa vida! E a roleta da vida continua a girar! Não para, não espera!

Levantou e, rápido, procurou a porta da saída.  Faria a matrícula naquela academia! Faria as aulas de dança! Decisão tomada!

Era a fadinha que despertava no palco da vida.

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Um livro itinerante – cap IV – O trem do sonho

Por Sonia Quartin, 30 de março de 2010 14:43

Capítulo IV – O trem do sonho

Cris entrou no seu pequeno restaurante que ela e seu marido Artur haviam comprado oito anos atrás. Um sonho realizado. Juntaram economias e investiram num boteco velho e decadente. A reforma foi feita com peças de segunda mão.  Quase tudo restaurados por eles mesmos, a duras penas. Mas, então, era o começo de tudo: o casamento, o negócio… Tudo misturado com muito amor e entusiasmo. Ficou charmoso! Pequeno, mas charmoso! Depois de inaugurado, ambos botaram a mão na massa: eles mesmos preparavam a comida: pratos simples, mas bem feitos. Também serviam as mesas, faziam o caixa… Dureza! Mais tarde apareceu Ernesto: um verdadeiro achado; sem medo do batente, agora era gerente, meio sócio. Com o movimento em ascensão, haviam contratado duas moças para atender à freguesia. E isso já estava ficando insuficiente.

Quanto ao casamento… Muito trabalho, dinheiro entrando. Rotina, cansaço… Cris já não precisava ajudar no estabelecimento. Em casa podia se dar ao luxo de ter uma empregada.  Gravidez programada mas, até o momento, o filho se recusava a aparecer. Nos últimos tempos Artur só chegava de madrugada: banho e cama. Cris estava certa que não tinha mulher na jogada. Porém seu marido era teimoso: precisavam contratar mais empregados. Assim, com tanto trabalho estavam se distanciando.

Um dia, nas mãos de Cris caiu aquele anúncio convidando amantes de boa cozinha para um teste de gastronomia. O mesmo constava em elaborar um cardápio: entrada, prato principal e sobremesa. Os vencedores ou vencedoras fariam um curso de aperfeiçoamento em Paris. Era o sonho de Cris. Sonho impossível até então! Todos têm um! Cris amava cozinhar e inventar pratos diferentes e sofisticados. Só de brincadeira, se candidatou sem que Artur soubesse. Um mês depois chegou carta e passagens: tinha sido selecionada! Era uma das dez classificadas para fazer um curso de gastronomia, por um ano, em Paris. Tudo pago! E agora? Isso até poderia ser bom para o restaurante! Em vez de comidinha caseira, quem sabe, cardápios sofisticados! Mas, e o seu casamento? Seria bom para ele também? Artur compreenderia? Ela mesma não estava bem certa de querer viajar. Um ano fora? Com seu casamento em crise?

Noites sem dormir. Viajar ou desistir do seu sonho? O que fazer? Por vários dias e noites tinha ensaiado o que falar. Certa vez até deixou a carta sobre a mesa esperando que ele lesse. Artur era discreto. Não leu. Agora não havia mais tempo. Viagem marcada para aquela noite. Escreveu, então, uma carta.  Difícil de escrever aquela carta! Mesmo porque não havia briga entre eles, apenas um afastamento inexplicável. Ou explicável? Sentiu que estava traindo seu amor! Mas, era o seu sonho! O sonho de seu marido estava realizado: Artur havia sonhado aquele restaurante assim, do jeitinho como era. Porém, os horizontes dela pediam muito mais! Iam além!

Deixou a carta em cima da mesa. Arrumou as malas. Seu coração estava apertado demais. Amava Artur! Na afobação, ficou pronta muito cedo. Resolveu, então, passar no restaurante para se despedir do seu amor de longe. Queria vê-lo mais uma vez!

Olhou da porta: seu restaurante estava cheio, mas uma mesa acabara de desocupar. Sentou-se.  Havia um livro sobre ela. Esquecido!

“Poesias!!! Poesias???Sim! Era um livro de poesias!

Consultou o relógio. Tinha tempo. Da mesa via Artur de cá para lá, ocupado! Seu restaurante! Com que orgulho ele dizia isso! Ela também amava seu marido e aquele espaço que juntos tinham construído. Cris sentia que precisava juntar todas as suas forças para partir. Deixar seu amor e o seu restaurante! Por um momento Artur sorriu para ela, surpreso em vê-la. Sentiu remorso!

Abriu, entâo, o livro e leu ao acaso:

O trem do sonho

Abri a porta

Como se, a esmo, abrisse

Um álbum de fotografia antigo.

E o mesmo sorriso amigo, encabulado,

Surgiu do meu passado.

Era atrás desse trem do seu sonho que partia! Passando ligeiro, precisava pegar antes que ele partisse sem ela. Mas como deixar seu amor, o sorriso dele ali na estação, seu restaurante, e seguir? A estação de Artur era aquele restaurante; mas o destino dela era aquele trem que passava ligeiro e não podia perder. Cris vivia feliz no sonho de Artur; e dela até então. Mas tinha o seu, particular, sempre bem escondidinho. No entanto, como abrir mão de uma felicidade cômoda e estável por outra, quem sabe incerta? Amor ou realização profissional?

As mesmas flores num buquê vermelho

Como um espelho de tudo o que vivemos.

E eu me vi, então, aos quinze anos,

No meu vestido branco de organdi.

Aqueles versos fizeram-na lembrar do seu casamento: flores, vestido branco… Tantos sonhos! O casamento, o restaurante, filhos… Filhos que não conseguiram ter. Então, assim de repente, brotou aquele sonho, adormecido no fundo de seu coração. Devia abandonar também esse seu sonho? Será que Artur não cabia mais nos seus sonhos? Será que ele compreenderia sua necessidade de continuar crescendo? De continuar sonhando?

Você, ali na porta, não sabe o que dizer…

E eu, admirada, não sei o que pensar…

No ar um cheiro bom de primavera.

Tudo é igual. E tudo é diferente.

Seu olhar adolescente não tinha o cansaço

Que agora encontrei ao me fitar, sorrindo.

E como seria a volta dessa viagem atrás do sonho? Como estaria Artur? E ela? Acaso o amor sobreviveria a um ano de ausência? Artur compreenderia a sua necessidade de viver esse sonho? Onde o outro sonho, seu casamento, não entrava? Devia jogar seu casamento aos ventos, assim, e partir atrás de um sonho?

Quis perguntar dos longos descaminhos

Pela vida procurando sonhos,

Talvez, quem sabe, sofridos em silêncio…

Quis saber o que roubou toda alegria

Do seu olhar de lágrimas contido.

O que aconteceria, então, depois desse ano de ausência? O que falariam? A cumplicidade ainda existiria? Tudo seria diferente! Não! Tudo já estava diferente! Não conversavam mais como faziam nos primeiros anos, varando a madrugada em planos para a vida futura: o restaurante, filhos… Tudo já estava tão diferente! Haveria tempo para assumir o seu lugar no trem do seu casamento que seguia com seu amor? Ou partir sozinha no trem do outro sonho?  Do seu sonho?

Quis lhe embalar ao peito, amorosa,

Qual menino fosse ao desamparo

E cantar baixinho, doce, ao seu ouvido

A canção que ficou comigo, ao me deixar,

E nunca me saiu do coração.

As malas estavam no seu carro. Havia combinado com Marli, sua amiga e confidente, de encontrá-la no aeroporto e trazer o carro de volta.

As passagens, na bolsa. A carta de despedida em casa sobre a mesa. Sentia que estava cometendo uma traição! Mas… Era o seu trem do sonho que passava! Não podia perder! Ou… Podia???

Mas, não! Não! Não há mais tempo!

O trem do sonho já passou ligeiro,

E ficamos esquecidos na estação.

Precisava se decidir. Seu trem estava passando ou já teria passado?

Era uma realidade ou uma fantasia?

O trem do sonho só passa uma vez por nossa vida? Ou não?

Precisava se decidir! E assim ela fez!

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Um livro itenerante – Cap:III Cena de subúrbio – Sonia Quartin

Por Sonia Quartin, 24 de março de 2010 16:00

Capítulo III – Cena de Subúrbio

Vilma se sentou no banco da praça para refletir melhor. Estava exausta de tanto pensar. No princípio achou muito natural: aborto, sim! Já que a gravidez foi aquele vacilão na festa de despedida do ano, realizada no escritório onde trabalhava, depois do expediente. Não tinha costume de beber e se dera mal. Ricardo sempre se insinuava: convites para sair, cineminha talvez… Mas sempre recusados. Não queria se envolver com colegas de trabalho. Achava antiético. De mais a mais, não sentia nenhuma atração por aquele rapaz se achando “o máximo”! Se exibindo para todas. Nem lhe inspirava confiança. Na noite daquela festa, porém, ele a importunou o tempo todo com sua incômoda presença, inventando assunto e, disfarçadamente, enchendo seu copo que ela bebia sem se dar conta. A certa altura tudo se misturou em sua mente: os risos, a música alta… Sua cabeça começou a girar.

Acordou no dia seguinte, na cama estreita de Ricardo que ainda dormia, o corpo apertado ao seu. Sentiu nojo. Levantou e se vestiu com cuidado, saindo sem ser notada. Envergonhada, pediu demissão. Como voltar para aquele escritório e encarar seus colegas, principalmente Ricardo? Por mais que pensasse, não se recordava do que tinha feito até despertar naquele quarto vagabundo, a cabeça parecendo que ia estourar. Acaso Ricardo teria colocado alguma coisa em sua bebida? Achava que sim!

Quando descobriu estar grávida, não teve dúvida: faria o aborto! Sabia onde fazer. Tinha endereço de uma clínica. Simples! Depois procuraria novo emprego.  Marcou hora e tomou nota de todas as providências. Seria hoje!

Sobre o banco da praça havia um livro: “Poesias! Alguém deve ter esquecido!” – Respirou fundo e concluiu:

“É! Não há outro caminho! Vamos resolver logo isso! Coração à parte!”

Levantou-se decidida a levar seu plano até o fim:

“Melhor assim! Com o tempo, tudo se arranja! Botar uma criança no mundo, sem pai? Criança gerada por um descuido? E no dia que ela quiser saber? Sempre vai chagar o dia! O que dizer? Você nasceu de um descuido? Seu pai nem sabe que você existe! Na verdade, ele nem deve se lembrar daquela noite em que você foi gerado. Nem de mim! Com certeza faz isso sempre!”

Já na clínica sentou-se para esperar. Na pequena sala aguardavam três mulheres tristes e uma quase criança, ao lado da mãe.  De todas, a menina parecia a menos ansiosa, indiferente ao que iria acontecer. Na sua ignorância escutava um radinho ligado aos ouvidos como fazem os adolescentes. Algumas vezes até cantarolava, balançando a cabeça ao ritmo da música, mascando seu eterno chiclete.

Vilma percebeu que havia trazido o livro de poesias sem perceber.

Ótimo! – pensou. – Serviria para passar o tempo e eu deixar de pensar no que está  para acontecer.

Abriu-o ao acaso e leu a poesia:

Cena de subúrbio ou sonho de menino.

E o menino correu atrás da bola.

Feliz como um passarinho.

A rua era deserta,

Àquela hora incerta

De tarde moribunda.

A rua era imunda.

E o menino correu atrás da bola

Tão alegre era o menino!

Seus olhos se encheram de lágrimas. Estava muito sensível naqueles dias. Seu filho nunca correria atrás de uma bola! Nunca seria um passarinho, feliz! Agora ele era apenas uma sementinha dentro dela.

E o menino, atrás da bola  correndo,

Não viu o carro vermelho

Brilhando como um espelho.

Só viu a bola fugindo.

Só viu a bola partindo

Sem esperar por seu toque,

Sem aguardar por seu pé.

Seu filho! Surpresa reparou que, pela primeira vez, falara assim: seu filho! Teria coragem para matar seu filho? Quando pensou fazer o aborto estava pensando nele? No seu filho? Ou apenas nela? Nas dificuldades que teria com esse filho não desejado?

Quem sabe um dia… Quem sabe…

Quem sabe talvez seria

Um Kaká? Quem sabe fosse?

Quem sabe em quem um ser humano vai se transformar? Um cientista, descobrindo a cura da aids? Um professor, ensinando alunos a serem melhores? Um operário, pai de família com mulher e filhos? E os filhos dos filhos? E toda aquela descendência perdida num aborto? O que uma criança vai ser quando crescer? Só Deus sabe! Dentro dela ainda uma semente de vida. Mas era uma vida! E Deus já devia ter planejado seu destino!

Mas rola a bola… E roda a roda…

O carro… A bola… O menino…

O sangue sobre o capim…

Gritos… Choro…… Correria…

Acuda Dona Maria!

Seu anjinho foi pro céu!

Meu anjinho! Pra onde iria meu anjinho? Haveria um céu para ele?O meu anjinho? Qual seria o destino do meu anjinho?E o meu destino, quando morresse? Matei meu filho por puro egoísmo! Para onde iria eu? Cortei o destino de um ser humano que Deus colocou dentro de mim! Para eu criar!!! Mexi com a obra de Deus! E isso me seria cobrado!

Aquelas palavras do livro gritavam em sua mente:

“Seu anjinho foi pro céu! Seu anjinho foi pro céu!”

No coração só um sonho,

De ser Kaká, algum dia.

Não! Não podia fazer isso com seu anjinho! Matar o sonho que o meu anjinho vai ter um dia. Não importa qual seja: médico, bombeiro, astronauta, artista… Não podia fazer isso!!! Seu anjinho já dentro dela pedia para viver! Não podia fazer isso!

- Sua vez! – chamou uma mulher de branco, acenando para ela da porta.

Vilma levantou e rápido deixou a clínica.

Na rua se lembrou que, naquela manhã, não havia posto nada no estômago. Tonta se apoiou na grade do portão. Reparou, então, que havia um pequeno restaurante em frente e resolveu comer alguma coisa. Pediu uma sopa quente. Precisava se preparar para receber o seu anjinho, pensou agora com ternura.

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Um livro itinerante – Cap. II – A festa da solidão

Por Sonia Quartin, 21 de março de 2010 6:00

Capítulo II – A festa da solidão

Paula, mulher do Senador, não costumava freqüentar aquele salão. Mas haviam recomendado um excelente cabeleireiro que trabalhava ali. Olhou em torno. Na verdade, ele não tinha o mesmo gabarito do antigo, no entanto quis experimentar o novo corte que agora era o hit do momento. Olhou-se no espelho: O tal “coiffeur” , como se apresentou, até tinha feito um bom trabalho. “Às vezes precisamos mudar.” Consultou o relógio: cedo ainda! Seu motorista só viria mais tarde. Resolveu esperar sentada na pracinha em frente, longe daquelas freqüentadoras fofoqueiras que já começavam a querer intimidade, fazendo perguntas. Para se distrair, levaria uma revista: “Todas antigas! – constatou com desdém. – No outro salão, elas eram atualizadas semanalmente”. Achou um livro: “Poesias??? Huumm!!! E essas freqüentadoras gostam disso???”

Na praça, abriu ao acaso e iniciou a leitura:

A festa da solidão

Você está só.

No seu apartamento,

O seu pensamento

É o seu tormento.

Você está só.

Vagamente, a canção que toca lhe diz,

Uma história de amor infeliz.

Contraponto de sua emoção sufocada.

Porque chorar não é moda!!!

O título lhe pareceu instigante e contraditório. “Festa e solidão!” Pensou na sua vida: também solitária e contraditória. Uma eterna festa de solidão! Segunda esposa do Senador. Ou melhor, segunda esposa legítima! Quantas outras mulheres ele teria, isso não sabia e não estava interessada. Nunca foi apaixonada pelo Senador.  Casamento, digamos, de duplo interesse. Ele precisava de uma mulher para exibir em festas, recepções, viagens e ela só queria uma vida de luxo. Quartos separados, vidas paralelas. Enfim, tudo bem compreendido e aceito pelos dois.  No final das contas e após alguns anos, Paula não saberia dizer se era feliz ou não. Acomodada, sim.

Continuou a ler:

Você está só nessa roda

De estranhos amigos.

Amigos? São mesmo? Quem é essa gente?

Querendo ter graça naquilo que fala?

Bebendo cerveja, tragando fumaça…

Contando piada… E dando risada

Sujando seu chão?

Desculpe! Foi nada!

Você está só.

Como um cão, num canto sentada,

Olhando na cara de quem chega e parte,

Sem cumprimentar… Sem se despedir…

Assim, de repente, sem pedir licença,

Só ignorando a sua presença.

A sua procura? A sua loucura?

Você está só.

E sozinha, sorriso escondendo

A falta do abraço… Do beijo… Do afago…

Do amante na cama… No jogo, o parceiro… Na vida, o amigo…

O amante no jogo da vida?

Falta, sim, ela sentia. De um verdadeiro amor. Em todo aquele tempo de casada havia conhecido muitos homens: relações breves e sem conteúdo. Sentia falta sim! De um parceiro no jogo da vida! Quanta falta!

E, à meia luz desta festa, sem rumo, sem jeito,

Esconde calada

O desejo contido que bate no peito.

Quantas festas vivera no seu belo apartamento promovidas para o Senador e pelo Senador! As mesmas caras, as mesmas conversas fúteis de esposas e amantes. Os mesmos sorrisos vazios e falsos.

No entanto, você sabe que existe!

Se você gritasse isso, agora,

Se você chorasse, nessa hora,

Se você quebrasse o cristal transparente

Que conduz, com cuidado, entre dedos gelados,

E sem medo cortasse assim, de repente,

Suas veias azuis,

No meio da festa,

Olhando nos olhos de toda essa gente…

Não! Cortar seus pulsos, nunca chegara a pensar. No fundo, gostava de viver. Vida boa e fácil. Mas gritar, sim! Muitas vezes, diante de toda aquela mediocridade que se imaginava superior, acima do bem e do mal… Que, de certa forma, se faziam acima de qualquer coisa! Impunes! Nojentos!Rindo e comentando as últimas negociatas!!! Com orgulho!!! E Paula fingindo não entender, mas com uma profunda repugnância de tudo aquilo.

Qual deles, então, pensaria no fato,

Na loucura do ato,

Em si, daqui há pouco?

Cada um deixaria esta festa

Guardando com medo,

Seu próprio segredo, jamais revelado!

Novamente a enxaqueca, comum ultimamente, martelando suas têmporas.

“Essa poesia me fez mal! – constatou.- Mexeu com coisas que não quero pensar! Agora, não!”

Fechou o livro abandonando sobre o banco.

O motorista tinha chegado e Paula se lembrou que precisava urgente comprar aquele par de brincos magníficos e caros que vira na joalheria do Shopping.

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Um livro itinerante – Capítulo I – Amor bandido

Por Sonia Quartin, 20 de março de 2010 15:50

UM LIVRO ITINERANTE

Capítulo I  – Amor Bandido

Sueli entrou no salão para arrumar seus cabelos. Fazia isso duas vezes por semana. Nunca sabia quando o Senador iria visitá-la. Ultimamente não aparecia muito, apesar de depositar sua mesada regularmente. Era generoso. Viviam aquele romance há dez anos. Coisa difícil de acontecer; casais como eles nunca chegavam ao quinto ano. Embora a paixão dos primeiros tempos houvesse passado, sentia certa ternura por aquele homem tão importante. Era confortável viver assim. Lindo apartamento ( alugado), dinheiro em sua conta bancária… Situação confortável também para o Senador: Sueli era discreta e nunca lhe causara nenhum problema.

Olhou-se no espelho e pensou:

- Não sou mais aquela que encantou o Senador! Trinta e oito anos pesam! Qualquer dia, vai me trocar! É a lei da vida!  Se é que já não trocou!  Não vem mais com a mesma regularidade. Sempre cansado, ultimamente.

Tinha chegado cedo. Sentou-se comodamente para esperar a sua vez e, como de costume, procurou uma revista entre tantas que estavam na mesinha lateral. Um livro? Que estranho! Leu o título na capa: “Poesias”. Poesias??? Num salão? O que esse livro fazia ali? Quem o teria deixado? Olhou em torno. Ninguém por perto. Pegou, curiosa e abriu ao acaso.

Leu o título e as primeiras linhas:

Amor bandido

Você é o que resta.

É o que fica,

Quando o último companheiro

De copo e de porre

Deixa o bar.

Você é a mulher

Que sobra quando

Não encontra outra qualquer

Para transar.

Esses dois primeiros versos cabiam perfeitamente nela. Feitos para ela. O que, afinal, ela representava para o Senador? Mulher objeto para diverti-lo? Ou algumas vezes para fazê-lo relaxar? Aquela que fica?

Continuou a ler:

É sempre você

Que enxuga o rosto,

Limpa o vômito,

Cura a ferida.

Pra você, sempre ele volta

Manhoso, safado, sacana,

Cansado e suado,

Exigente de amor e de cama,

Cheirando a álcool e mulher.

No passado, sim! Muitas vezes! Cansado, mas exigente… Cheirando a álcool e mulher. Então, fechava os olhos e fazia sua função. De puta? De gueixa?

Queria ler mais:

E você lhe sorri, agradecida,

Fingindo feliz,

Bendizendo as longas noites

De espera.

Como um cão carente, vadio,

Obediente, sorri e beija

Aquela mão que humilha,

Filha do vício,

Louca e fiel.

Sim! Fazia sua função sem questionar. Dez anos de sua vida, os melhores, passados dentro daquele apartamento à espera do Senador. Celular sempre ligado, cheirosa e arrumada. Ele poderia chegar assim, sem avisar. Chave girando na fechadura e eis que surge o seu senhor! Às vezes para transar… outras, apenas para dormir… Ou, simplesmente, ler o jornal. A casa era dele, assim como tudo o que tinha dentro, inclusive ela: Sueli!

Porque se chega o dia

E ele parte,

Você já conhecia

O seu papel.

Sueli fechou o livro e recolocou sobre a mesinha. Aquela poesia havia mexido no íntimo de sua alma. As lembranças povoaram seus pensamentos. Nos primeiros anos tinha sido muito feliz. Abandonara uma próspera carreira de advogada para se dedicar totalmente ao seu Senador. Mas agora aquela rotina vazia estava lhe cansando. Uma insatisfação…

E aquela poesia que acabou de ler…

“Sorri e beija a mão que humilha, louca e fiel”. Sim! Louca e fiel! Sempre!

“ E ele parte, você já conhecia o seu papel”.

Papel exercido por dez anos, sem reclamar. Agora, queria mais! Muito mais! O Senador estava lhe deixando, isso era visível. Então, porque não deixá-lo antes? Tinha suas economias. Tinha um bom dinheiro em sua conta que ela, na maioria das vezes, nem gastava. E as jóias que ele dava em datas especiais: aniversários, Natais… ( esses, para compensar a sua ausência). Não faria a tolice de devolver. Claro que não! Tinha direito de ficar, a título de uma indenização, pelo tempo que estiveram juntos.

Alguém se sentou na poltrona ao lado. Olhou com  rabo de olho. A mulher do Senador! Conhecia de revistas. Era ela, sim! Nas fotos parecia mais jovem! Fotoshop! Perdeu a vontade de fazer o cabelo.  Levantou e saiu.

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Coisas de Internet ou A vingança – Sonia Quartin

Por Sonia Quartin, 1 de março de 2010 17:27

Amigas desde a infância. Ambas com quarenta e sete anos. Maria Eugênia solteira e Stella divorciada. Mantinham contato através de e-mails diários e, não contentes com isso, se encontravam uma vez por mês, ora na casa de uma, ora de outra, para botar o papo em dia.

Uma tarde, Stella veio com uma novidade.

- Geninha, estou namorando.

- Quem? Me conta essa história!

- Bem. Ainda não é propriamente namoro, namoro… Conheci uma pessoa pela internet. Chat de relacionamentos, sabe? Entrei só de brincadeira. Tem mais de um mês.

- Mas, isso não é perigoso? Assim… Assim… Sem conhecer direito…

- Me pareceu boa pessoa, sério, querendo compromisso…

- De onde ele é? Qual o seu nome? Vai ver que ele é até casado, hein?

- Daqui mesmo, do Rio. Laranjeiras! O nome a gente combinou só dizer no nosso primeiro encontro! Só usamos nosso pseudômino: Eu sou Estrela Cadente e ele Cavalheiro Andante.

- To achando tudo muito esquisito!

- Eu é que propus isso! Nada de nome, por enquanto. Dá mais emoção!

- Mandou foto? Quantos anos?

- Também não! Foto, Geninha! Aposto que mandava uma de dez anos atrás! De mais a mais, você sabe que eu não sou fotogênica! Cinqüenta e três anos.

- Você ta maluca!

Como sempre faziam, Stella contou tudo à sua amiga confidente nos mínimos detalhes. Cada conversa que tiveram, naquelas tardes virtuais.

- Ainda acho que você não deve levar isso avante. Não se envolver demais. Nada de muitas expectativas. Você pode se decepcionar e se machucar, amiga!

Alguns dias se passaram e Maria Eugênia sempre procurando saber de todos os detalhes daquele romance. Mas sempre aconselhando a desistir do romance.

- Pra mim ele é casado! Ah! Quando ele disse que… Não lhe pareceu suspeita essa pergunta dele? Não sei não! Casado ou coisa pior!

Até que um dia Stella contou que haviam marcado um encontro num barzinho em Copacabana.

- Não dá mais pra adiar. Vou e blusa verde e, para não ficar dúvidas, levo uma rosa na mão. Vai que tenha outra de blusa verde, não é? Ele disse que vai de camisa azul clara, trazendo um buquê de flores do campo. Eu disse que são as minhas preferidas.

Maria Eugênia, mais uma vez, insistiu para ela desistir.

- Você sabe que eu até não tenho conseguido dormir direito? Só pensando nessa sua maluquice. Desista disso, por favor! É perigoso!

Em casa, Stella começou a pensar.

- Quem sabe, Deus está me alertando pelas palavras de Geninha? Quem sabe tudo isso não é uma bobagem, uma carência minha? E se ele não for aquilo que parece ser? E se fisicamente ele for um velho caquético e ficar pegando no meu pé. Afinal, eu não sou de se jogar fora! É! Acho que não vou! Telefono pra Geninha e digo que desisti! Está tão aflita!

Assim o fez. Mas, no dia combinado, decidiu ir e ficar escondida, só para conhecer o “Cavalheiro andante”. Vestiu uma blusa branca, discreta e, bem antes da hora marcada, ocupou uma mesa ao fundo, de onde tudo podia observar sem ser vista. Em certo momento, um senhor de camisa azul clara, trazendo flores campestres se sentou em uma mesa que ficava bem na entrada. Sim! Era ele! Stella pode analisar o cidadão: baixo e ligeiramente calvo. Uma barriga proeminente… Humm! Não era seu tipo! Ainda estava agradecendo a Deus e a sua amiga Geninha tê-la feito desistir, quando eis que a mesma surge à porta: Blusa verde com uma rosa na mão! Sorridente, se aproximou do tal homem de camisa azul. Ah! Por isso seu empenho em fazê-la desistir do seu pretendente! A danada queria para ela! Bela amiga! Teve ímpeto de se levantar e armar um barraco. Não fez. Quando o casal pareceu distraído nas apresentações, levantou-se e saiu pela porta lateral sem ser vista.

Dia seguinte mandou um e-mail para a então ex amiga onde dizia:

“Maria Eugênia

A Geninha que eu conhecia, amiga e confidente, morreu ontem quando te encontrei naquele bar vestindo blusa verde com uma rosa na mão.

Favor nunca mais me procurar. Stella.”

A atitude de Maria Eugênia, foi considerada uma profunda traição por parte de Stella. Por muito tempo chorou a perda de sua melhor amiga.

Mas, feridas cicatrizam e o tempo tudo apaga. Certo dia ficou sabendo que Maria Eugênia ia casar “com um namorado arranjado na internet.”

Então, mesmo sem convite, apareceu na Igreja toda orgulhosa de braço com seu novo amor, um belo espécime masculino, encontrado nas voltas que o mundo dá. Esse sim! Do seu jeitinho!

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Quem pariu Mateus… – conto – Sonia Quartin

Por Sonia Quartin, 28 de fevereiro de 2010 19:01

Quem pariu Mateus …

Glória havia-se programado toda. Embora estivesse com cinqüenta e seis anos, se cuidava muito. Viúva há alguns anos, filhos criados, tinha uma turma de amigos com os quais se encontrava regularmente. Teatro, cinema, barzinhos… Vez por outra, uma pequena excursão… Praia no verão… Dançar…  Naquela noite, aniversário de Carla, uma das amigas, o grupo havia planejado uma saída. Para tanto ela marcara horário no salão. Bem cedo. Despertador para as sete. Tomar uma ducha, lavar os cabelos para adiantar, um café ligeiro e estar no salão antes das nove. Tudo planejado.

A hora determinada, o despertador tocou e Glória pulou da cama. Era tomar um banho morno pra acordar… Café ligeiro e salão.

“Mas, o que? Porta do banheiro trancada? Cláudio? Tão cedo?”

Cláudio, seu filho já entrando nos trinta, era um eterno adolescente, e vivia pulando de um emprego para outro. Nunca concluiu a faculdade. Sair da casa de mamãe, nem pensar.

- Cláudio!!! Preciso tomar meu banho!!! –

“ Um banheiro privativo, era tudo que eu queria nesse momento! Fechado no meu quarto! Ah! Tudo por  um banheiro privativo!!!”

- Cláudio!!! – chamou.

Silêncio. Só se ouvia o barulho da água do chuveiro.

Para adiantar, voltou ao quarto. Abriu o armário e escolheu a roupa, deixando sobre a cama.

De novo na porta do banheiro. Agora, gritando:

- Cláudio!!! Saia já desse banho!!! Tenho hora marcada!

- To saindo! – Gritou uma voz feminina.

“ Outra namorada!” – pensou, suspirando resignada.

Porta aberta, uma garota estranha enrolada em sua toalha, lhe sorriu com um bom-dia radiante e entrou no quarto do Cláudio.  Deu uma ligeira espiada no seu banheiro, sempre limpo e bem arrumado.  Alagado! Seu caríssimo xampu destampado e quase pela metade. Respirou fundo!

“ Calma! Agora não tenho tempo. Preciso correr! Glória! Glória! É bom fechar os olhos para essa bagunça! Arrumação, nem pensar!”

Banho às pressas. Copo de leite engolido de pé diante da geladeira.

Já  saindo, toca o telefone. Sua filha Dulce.

- Mãe! A Lúcia não veio! Tenho hora no salão! Você pode ficar com a Marcinha? Só por duas horas?

- Heinnn!!! Dulce, eu também…

- O Jorge vai levar!

- Dulce! Me escuta! Dulce??? Desligou!!!

E agora? Por um momento, pensou desmarcar o salão. Adorava sua netinha! Virava criança brincando com ela! Ficou dividida, lembrando a carinha sorridente da pequenina. Olhou-se no espelho da sala: Os cabelos precisavam de um bom corte e de um retoque na tintura. As unhas, de um bom trato.

- Não!!! Hoje a vovó vai pra gandaia! De mais, como dizia minha mãe: quem pariu Mateus que o embale!

Dizendo isso, bateu a porta e saiu. Sem remorso!

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De utilidade pública – Sônia Quartin

Por Sonia Quartin, 18 de fevereiro de 2010 16:31

Tenho uma teoria sobre nosso povo e sua passividade diante dos acontecimentos, sua aceitação de circunstâncias adversas onde qualquer um outro faria uma revolução. Nosso povo não se revolta, ou pelo menos não se revolta como deveria, mesmo se acorda as quatro e pega três conduções superlotadas para chegar ao trabalho as oito e ganhar salário de fome. Por que? Nosso povo, principalmente os cariocas, fazem sempre uma piada diante do que seria uma tragédia. Por que?

Porque temos nosso carnaval! Sim! Nosso carnaval! É graças a ele que o povo brasileiro agüenta tudo com certa leveza de espírito. O carnaval, nos moldes brasileiros é único, só existe no Brasil! E se adapta ao estilo de cada região: o carnaval do Rio difere do carnaval de Recife – Olinda, que difere do carnaval de Salvador, que é diferente do carnaval de outras regiões do Brasil, mas que é diferente de todos os pseudos – carnavais do resto do mundo.

O povo brasileiro tem o nosso bom carnaval! O carnaval onde cada um pode extravasar suas dores, penas, dificuldades vividas o ano todo, nesses três ou quatro dias de total irreverência e prazer. Onde cada um pode ser aquilo que quiser: a cozinheira vira rainha, o homem vira mulher, o rico pinta a cara e sai de mendigo totalmente anônimo. Graças ao carnaval e por alguns dias, nosso povo consegue ser o outro, se ver como outro e, então na maioria das vezes, vence seu apartaid interior.

O povo brasileiro precisa do carnaval como de um oxigênio para sobreviver. Durante todo o ano ele sonha com seu carnaval, vive para esse momento, logo o nosso carnaval deveria ser considerado de utilidade pública por nossos governantes.

Pelo menos, é assim que penso. Tenho dito!

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Bala perdida – Sonia Quartin

Por Sonia Quartin, 13 de fevereiro de 2010 10:43

Na subida do morro,
Que pode Das Dores
Seu sonho encontrar?
Uma bala perdida?
Nas mãos, fantasia
De um ano sonhado.
Que pode Das Dores
Seu sonho encontrar,
Na subida do morro?
Uma bala perdida?
O embrulho adorado
Dourado de sonhos
Rolando as escadas,
Perdido na vala,
Na lama perdido…
Das Dores morrendo
De bala no peito?
Desfile marcado
Pro dia seguinte…
Então enterrada
Com a fantasia…
Bandeira da escola
Cobrindo seu corpo…
E Dalva chorando
Com lista na mão.
E do Claudionor,
Seu homem amado?
Quem sabe? Quem sabe?
Sumido do morro,
Tão grande é a dor!
Mas, quem vai tocar
Tão forte o repique,
Com tanta alegria,
Com tanta paixão?
Das Dores menina
Mulata faceira,
Ancas largas e soltas
Treinadas no samba.
Cabelos ao vento,
Riso doce e fácil
Em boca bonita…
Que a todos encanta
Com sua alegria.
Que quando se joga
Num samba rasgado
A ele se lança
De corpo e de alma,
Espalha a paixão
Que guarda no peito.
Agora o que é feito
De toda a alegria?
Que pode o destino
Mudar de repente
Na subida do morro?
Só bala perdida!

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