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Category: João Ubaldo Ribeiro

O coco e as mulheres – João Ubaldo Ribeiro

Por , 13 de maio de 2012 0:01

No domingo passado, creio que se armou aqui uma confusão, causada não tanto por manquitoladas redacionais quanto por um assunto intrometido, que acabou envolvendo as mulheres, a criação artística (que são a mesma coisa, encantadora leitora) e outros temas sem nenhuma relação aparente com o que eu tencionara escrever. É que eu tinha lido uma reportagem vibrantemente dedicada a redimir o coco, especialmente sua gordura. E aí achei que seria o assunto da semana passada, mas não foi. Prometi endireitar as coisas hoje, não é possível essa quebra de hierarquia, o assunto mandando no escritor, tenho que mostrar quem é que pilota aqui este teclado.

O banimento da gordura do coco foi altamente científico, respaldado pelas mais respeitáveis pesquisas. E sua redenção triunfal (sim, porque não é que ela tenha deixado de fazer mal; é muito mais que isso, ela agora traz benefícios que só faltam prometer vida eterna e uma médica americana diz e escreve que óleo de coco cura – isto mesmo, cura – o mal de Alzheimer) também é altamente científica e igualmente respaldada. Para os religiosos que acreditam que, uma vez estabelecida uma conclusão científica, ela é imutável, essas coisas devem ser perturbadoras. E, mesmo para quem não tem essa fé, é também perturbador haver passado grande parte da vida fazendo o errado porque assim mandava a “ciência” e evitando o certo pela mesma razão, principalmente quando essas ações redundaram na perda de prazeres irrecuperáveis. Agora que morreu há anos a tia portuguesa que fazia uns doces d’ovos concebidos no paraíso e dois ovos estrelados no café da manhã só são conhecidos por fotografias? Adianta mais nada? Claro, os poucos chatos entre vocês (sempre tirante a formosa leitora), vão estragar tudo e lembrar que o açúcar faz mal. Mas todo mundo sabe que eu me refiro mesmo é aos ovos, aos ovos tão brutalmente sacados de nossa dieta. E agora vêm com uma conversa de que não é bem assim, que, havendo moderação, evitando-se frituras, etc., etc.

Tudo bem, acatemos quem gosta de viver assim, não sofreu ou sofre o Trauma do Ovo, o Trauma da Margarina, o Trauma do Chocolate, o Trauma do Café, entre tantos outros. Acho que a maior parte de nós, para nos livrarmos do inferno em vida que são as ladainhas desse pessoal, topa concordar que comer é perigoso, ponto. Não existe nada neste mundo, nem alface (acusada de grande broxante desde a Antiguidade), que não faça algum mal aí, em alguém aí. Além disso, no tempo em que manteiga matava na hora e margarina era o único jeito de evitar fazer oito safenas, há quem alegue que o jeito que a margarina dava mesmo era no escoamento de estoques excedentes de milho e outras matérias-primas. Ou seja, haverá talvez de assistir alguma razão a quem vincula o que a “ciência” diz que é bom àquilo que se quer vender.

Quando eu era menino vendiam-se cigarros em farmácias. Não de tabaco, mas medicinais mesmo. Havia uma marca, Catedral, que era para eliminar – isto mesmo – o vício de fumar. Mas, vil memória, não tenho certeza sobre se o Catedral era para que se abandonasse o vício ou se era o da asma. Apelo ao terceiro-idadista presente no recinto para que deixe de negar a idade e lembre: receitavam-se – verdade científica – cigarros para asma, bronquite e outros males respiratórios. Mais ainda: Papai Noel fumava e fazia comerciais de cigarro. Quem acha que desta vez fui longe demais pode procurar na internet e verá o bom velhinho pitando uma guimba, soprando uma fumacinha e recomendando, se não me engano, Pall Mall. Muitas casas devem ter sido incendiadas por esse tabagista irresponsável, deixando cair brasas nas árvores de Natal. E havia mais. Médicos, não atores, mas médicos mesmo, formados e também altamente científicos, vestidos em seus trajes profissionais e sentados às suas mesas de consultório respondiam cientificamente à pergunta de um entrevistador: “E o cigarro que o senhor fuma, doutor?” O doutor mandava o comercial (acho que esse fumava Camel, mas não tenho certeza), embolsava a gruja e o freguês ia cultivar o enfisema pulmonar dele cientificamente.

Os mais velhos também lembram do tempo em que se cozinhava com banha de porco. Aí deram para falar em colesterol e banha de porco não servia mais nem para lubrificante de trem. Passou-se a cozinhar com a altamente científica gordura de coco, vegetal, pura, natural. Branquinha, vinha numas latas com algo verde no rótulo. Pelo menos as latas da marca mais conhecida, que aparentemente todo mundo usava: Gordura de Coco Carioca. E por aí marchávamos, em grande segurança alimentar, quando estourou nova reviravolta na ciência. Falha nossa, tudo errado, a gordura de coco é ainda mais mortal que a de porco! E aí não sei que fim levou a Carioca. A julgar pelo consumo, a gordura de coco devia envolver uma grande rede de fornecedores, atacadistas e varejistas. Não deve ter sido comércio pequeno, mas nada comparável ao dos milagrosos óleos saídos a cada ano, o mais recente sempre mais sadio que o anterior, com um lugar especial para a atual voga do azeite de oliva virgem (no meu tempo, ele ainda não fazia exame pré-nupcial).

Vou ter de pedir um intervalo técnico. Criei coragem, olhei o que escrevi até aqui, minhas suspeitas se confirmam. Corro novamente o risco de ser processado, agora não só por militantes feministas como por veicular propaganda enganosa. Que é que o coco tem a ver com as mulheres? Juro que não é truque de folhetineiro barato, é incompetência mesmo. O óleo de coco está de fato sendo cientificamente anunciado como muito importante para as mulheres. Não sei se é o caso de elas desconfiarem, tenho algumas outras lembranças de meu tempo que ajudarão a pensar no assunto. Assunto de que há dois domingos não consigo tratar, mas domingo que vem eu acerto a vida dele.

La scienza è mobile – João Ubaldo Ribeiro

Por , 6 de maio de 2012 7:25

Escrevi esse título aí sem pensar em nada além de aproveitar a célebre ária do Rigoletto para o assunto sobre o qual acho que vou escrever hoje. Não vejam nesta incerteza, queridos leitores, irresponsabilidade, leviandade ou escassez de disciplina profissional. É que, pelo menos para certos escritores, assunto é assim: o sujeito pensa que escolheu um, mas logo outro se intromete, toma a frente e às vezes cria situações difíceis. Em todos os romances que escrevo, sempre há algum personagem que eu quero matar e ele não morre, alguém que eu quero casar e ele se recusa. Com assunto é a mesma coisa e receio que algo do gênero está acontecendo no momento.

Sim, porque eu ia (ou ainda vou, quem sabe) escrever sobre como a ciência, de um certo ponto de vista, parece mais volúvel que a mulher retratada na ária. Aí, viva meu anjo da guarda, me ocorreu que enfrentamos tempos perigosos, há ciladas por toda parte. Talvez vocês nem tenham pressentido, mas vejam a fria em que eu ia entrar. Ia atribuir um aspecto, digamos, negativo da ciência à semelhança desta com a mulher. Não sacaram, não? Eu ia desmerecer a ciência usando a figura da mulher, ou seja, Deus me defenda, fazer da condição de mulher um insulto. Isso é do tempo em que os guerreiros gregos, no cerco de Troia, menosprezavam seus companheiros, chamando-os de “mulheres acaias”, coisa de mais de dois mil anos atrás, vá ser atrasado assim na Coroa do Limo, lá na ilha.

Como pude quase cair nessa? Choveriam cartas e e-mails inflamados, talvez artigos de protesto, me acusando de misoginia, machismo, sexismo, heterofobia e talvez até assédio sexual, sei lá, também está na moda. E não duvido nada que já exista alguém do Ministério Público tocaiando o primeiro infeliz que entre nessa esparrela. Não pude sopitar um calafrio, mas logo me recuperei do choque e descortinei atrás dele todo um novo horizonte. Meus olhos se abriram para o mal que nos acomete de todos os lados, a ponto de não sabermos mais por onde começarmos a nos defender.

Lembrei a ária que motivou este palavrório todo. Não a sei de cor, mas já a ouvi e li a letra várias vezes, assim como muitos de vocês. E quem quiser pode pegá-la no Google, a erudição ao alcance de todos. E escandalizar-se, meus caros amigos, escandalizar-se! Faz praticamente dois séculos que essa ária está aí e ninguém se deu conta! Meu caso é típico, só fui notar agora, por feliz coincidência. Como se pode permitir que palavras tão depreciativas, tão desdenhosas, tão agressivas, tão cheias de ódio disfarçado em sarcasmo, tão criminosas mesmo, sejam proferidas – e de forma tão glorificada, cantadas por um grande tenor e obra de um dos mais consagrados compositores da História? É esse o retrato da mulher que se quer ver perpetuado? No momento em que tantas nações importantes são lideradas por mulheres, inclusive a nossa, não se faz nada para impedir a renitência do preconceito, e através de uma das vias mais importantes para a consciência humana, que é a arte?

A arte, parafraseando alguém aí (vejam no Google), é importante demais para ser deixada na mão dos artistas. E o pensamento, mais ainda, é importante demais para ser deixado na mão dos que pensam. Isso vem ficando cada vez mais claro e acho até que ocupamos um lugar de destaque no mundo. Assistimos, aqui no Brasil, a um episódio recente, envolvendo problemas raciais numa obra de Monteiro Lobato. Não sei em que é que deu, mas lembro que se favorecia a “contextualização” do romance. Isso nada mais é que tutelar a leitura, ou seja, ensinar como ela deve ser apreendida ou compreendida. “Onde você está lendo ‘isso’, não é bem ‘isso’.” Vá lá que não se reescreva o texto original, para adequá-lo à nossa época e a nossos valores, evitando ainda o risco de ver ressuscitados conceitos nocivos e cientificamente inaceitáveis, mas pelo menos baixemos normas para seu correto entendimento.

Não vejo como escapar disso, na construção da sociedade perfeita que almejam para nós, o mais possível fundada em inatacáveis, porque reais e inalteráveis, verdades científicas. Sei que é difícil, mas não custa sonhar. E é passo a passo que se chega ao objetivo, nenhuma área é mais importante que a outra e a prioridade é ditada pelo momento histórico (não tem nada a ver, mas hoje estou todo cheio de parênteses mesmo: alguém se lembra de “momento histórico”? Antigamente a esquerda falava muito em momento histórico, nunca mais ninguém falou).

Por que não aproveitamos o embalo e criamos a Agência Nacional da Contextualização da Arte, que, pelo porte que deverá ter, melhor ficaria se ministério? Tirando pela fertilidade cunicular (vamos lá, nunca mais fiz a brincadeira do dicionário, e esta é boa, não tem no Aurélio nem no Houaiss) na gestação de ministérios, demonstrada pelos últimos governos, uns quatro ministérios. E a Agência Nacional de Controle Social da Arte e da Cultura, junto à qual talvez finalmente consigam encaixar a tão ansiada Agência de Controle Social da Mídia. Aos melhoramentos culturais se aliariam os socioeconômicos, a geração de empregos, as novas profissões (“Explicador das Intenções do Artista”, “Contextualizador Credenciado”, “Esclarecedor Juramentado”) – as possibilidades chegam a entontecer, roam-se e mordam-se os pessimistas.

Perdão, leitores mas, como temia, fui vítima de um assunto enxerido. Eu só queria comentar como é volúvel a ciência e como, cada vez a menores intervalos, o que ontem matava hoje rejuvenesce, o que hoje emagrece ontem engordava. Ia falar na retumbante redenção do coco ora em curso, matéria com que, baiano sendo, tenho algum envolvimento emocional. Mas aí fui botar mulher no meio e me enrolei todo. Domingo que vem, tento desenrolar.

Reflexões dominicais – João Ubaldo Ribeiro

Por , 29 de abril de 2012 0:02

Domingo não devia ser dia de pensar ou fazer besteira, pois é o dia do Senhor. Não tem nada de ficar olhando disfarçadamente a cunhada de shortinho, dar beijinhos furtivos de canto de boca em quem topar, nem encher a cara e cantar a mulher do dono da casa enquanto ele cuida do churrasco. Nem tem nada de mostrar, fingindo que não nota, os peitos aos presentes, ou dar um apertãozinho mais caprichado no braço do marido da amiga, na hora em que se apoia nele para mudar de lugar. Muito menos essa sem-vergonhice, ainda vigorosamente praticada em todo o Brasil, de roçar joelhos e coxas por baixo da mesa, para no dia seguinte ou não se lembrar de nada ou cair numa ressaca moral devastadora. Devíamos todos estar meditando sobre a vida e o aperfeiçoamento espiritual, já que nos afastamos um pouco das refregas de todo dia.

Mas não estamos, a verdade é essa, embora eu devesse cumprir a praxe e mencionar a existência de exceções. Claro que há exceções, em quase tudo há exceções. Lembro agora a frase de Pittigrilli escritor na época considerado muito picante, hoje esquecido e provavelmente tedioso para uma adolescente de 15 anos, na abertura de um texto que cito de memória: “As únicas mulheres sérias são minha mãe e a mãe do leitor.” Podíamos combinar algo assim. Todo mundo faz besteira no domingo, mas nós não e, principalmente, nossas mãezinhas. E as santas esposas de todos também, naturalmente.

E se, no afã de não melindrar ninguém, formos adiante, acabaremos achando tantas exceções que ninguém mais se enquadrará na regra. Concluímos assim que ninguém faz besteira no domingo, nem em dia nenhum, pensando bem. Ou melhor dizendo, quem faz besteira são os outros. Há não muito tempo, falei aqui sobre isto, a mania, ou vício, ou neurose coletiva que nós, brasileiros, temos de atribuir tudo o que de mal ou inconveniente nos atinge é culpa “deles”. Ninguém sabe direito quem são eles. É o governo, são os políticos, são os ignorantes, os bandidos e assim por diante. Mas nós não temos responsabilidade nisso, é com “eles” ou “os homens”.

Domingo, dia também de jornal grosso, dia de revistas semanais, vejo-me aqui entontecido e incapaz de raciocinar, em meio ao turbilhão de notícias sobre corrupção, ladroagem e bandidagem. Não são somente as de hoje, são as que vêm chegando há tanto tempo que já perdi a conta. Duvido que alguém consiga fazer um levantamento das gatunagens, maracutaias, furtos, desvios, roubos e todo tipo de falcatrua envolvendo, direta ou indiretamente, algum órgão público ou poder da República. Somente uma equipe diligente e bem treinada talvez conseguisse fazer uma base de dados razoável, mas, ainda assim, acho que sempre seria uma tarefa incompleta, pois muita coisa se apura e se guarda em segredo, outras coisas se abafam, outras são meramente ignoradas, outras passam por cima da lei, num panorama a que estamos acostumados desde que nascemos.

Façamos uma abstraçãozinha e imaginemos uma hipótese. Se o povo brasileiro de hoje por acaso desaparecesse, como desapareceram civilizações da antiguidade oriental, e alguns vestígios fossem descobertos? Decifrada a escrita, o que se formaria seria o retrato de uma sociedade corrupta de cima abaixo, governada despoticamente e insensível a valores morais. Não veriam “eles”, veriam nós. Descreveriam uma curiosa coletividade, oficialmente regida por leis escritas, mas, na verdade, leis consuetudinárias, ou seja, baseadas no costume. Essa conversa de lei escrita é enrolação para constar, o que vale mesmo é o costume. Tanto assim que há leis que não pegam e leis que não despegam, há até artigos da Constituição que o costume manda não observar. E não adianta a lei escrita punir os corruptos, porque a maioria não vai ser mesmo, não é o que manda o nosso soberano direito consuetudinário.

E, verdade que também não gostamos de encarar, os costumes não são recentes. Agora, por uma série de razões, inclusive a tecnologia, estão piorando muito, mas sempre foi assim. Sempre se roubou dinheiro público aqui e sempre o poder político foi disputado para premiar os vencedores e seus aliados com cargos vitalícios, remunerações nababescas e privilégios inacreditáveis. A carreira política é vista apenas como um meio de subir na vida e amealhar tanto para si quanto para a família e os aliados. Os partidos políticos também só servem para conseguir “colocações” e postos de influência, onde continuará a medrar a corrupção enraizada, no rodízio dos de sempre, com o qual já temos bastante familiaridade. Até fisicamente isso é visível, nos inúmeros políticos que se elegem pela primeira vez com ares famélicos e ansiosos, para estarem, poucos anos mais tarde, gordinhos, bem-humorados, sorridentes e de paz com a vida: é o bendito sinal de que já se fizeram, ideal de tantos brasileiros, que pode ser tanto o Congresso Nacional quanto o Big Brother Brasil.

Não sei quem foi o gringo que, se referindo ao Brasil, disse que “um país em que o sujeito cospe um caroço de fruta numa frincha da calçada e logo nasce comida não pode dar certo”. Não sei bem por que, acho que a explicação vem pela indolência assim fomentada e, claro, vem também pela nossa ignorância e falta de educação, pelo egoísmo e ausência de espírito público, pela nossa moral santarrona mas hipócrita, pelo nosso treinamento como súditos e não como cidadãos. Não estamos acostumados a ter mandatários e representantes, temos apenas governantes, a quem obedecemos sem discutir. E continuarão assim porque esquecemos que “eles” não são “eles”. Enquanto formos como somos, eles continuarão a ser como são, porque é de nós que saem. Um povo que pratica, tolera – e até admira – todo tipo de desonestidade é um povo honesto? Tudo leva a crer que não, embora com a exceção da gente.

Isso não vai dar certo – João Ubaldo Ribeiro

Por , 22 de abril de 2012 1:02

Acabo de ler que há suspeitas de que, nos Estados Unidos, existam alguns homens com mil filhos – ou muito mais, segundo os exaltados – de ambos os sexos e aproximadamente da mesma idade. Para mim foi uma grande surpresa, embora seja natural de Itaparica, ilha de mulheres famosamente ferazes e varões façanhudamente femeeiros, onde proles numerosas são a regra. E as exceções a ela são descendências legendárias, como a de um certo tio-avô meu cujo nome deixemos pra lá, que, diz o povo, fez mais de 20 em casa e, variando conforme o narrador, 70 e tantos na rua, entre teúdas, manteúdas, fugazes aventuras galantes, casadas inquietas, viúvas inconsoláveis, comadres traquinas, maus passos da mocidade e raparigas diversas. Falam até que ele nem era o recordista, havia vários outros que o superaram.

Mas mil, meus caros amigos, mil nem o finado Helinho Codorna, que justamente levava esta alcunha por, no enfático dizer de Jacob Branco, “ser um fenomenal erotômano, que só pensava nisso, só fazia isso e morreu de fazer isso”. Por mais que o sujeito seja despachado, fazer mil filhos – e todos mais ou menos da mesma idade, ainda por cima – não parece empresa simples. Mas isso é porque ainda não nos acostumamos direito aos novos tempos e não nos damos conta das implicações de fatos que já fazem parte do cotidiano. Deve haver mesmo pais com mais de mil filhos, é bem possível.

A matéria explica que muitos homens são doadores de sêmen, mas poucos têm um sêmen “ideal”. Ele pode conter traços genéticos indesejados e outras “impurezas”, com o resultado de que uma amostra do bom, ou do mais em demanda, se valoriza e é muito usada pelo banco que a fornece para inseminação artificial. Daí se temer que um número inestimável de meios-irmãos, ou seja, filhos do mesmo pai com dezenas, centenas ou milhares de mães, já esteja circulando por aí, correndo até o risco de virem a casar-se entre si. Não sei se há exagero nisso, mas, se houver, não deverá ser muito, porque já se formam movimentos de possíveis prejudicados, notadamente entre os pais de filhos gerados por sêmen de doadores anônimos. Tampouco sei em que medidas concretas isso vai dar – talvez a exigência de que os noivos façam sempre testes de DNA, para ver se não são irmãos ou filho um de outro, embora eu não creia que isso evite grandes traumas e mesmo tragédias.

É possível que seja mera caturrice minha, mero apego a valores destituídos de fundamentos sólidos, mas não acho certo esse negócio de o sujeito ter milhares de filhos, é muito estranho. Não creio que haja muitos homens que, depois de pensarem um pouco, gostem da ideia de ter filhos seus anonimamente espalhados por aí, quando o impulso que antigamente era tido como natural seria conhecê-los, conviver com eles, aprender com eles e, enfim, ter a relação que a maior parte dos pais quer ter com os filhos. Compreendo quem queira gerar um filho por inseminação artificial, mas creio que os critérios, a começar pela própria área médica, poderiam ser revistos, porque assim chega a parecer coisa de gado, de animais criados quase em moldes industriais.

Mas nada deverá ser revisto, a não ser na direção oposta. Alegam-se impedimentos éticos e legais para a realização de certos experimentos com seres humanos, mas nada de fato impede que eles venham sendo feitos, pois há muita glória e, principalmente, dinheiro, envolvidos nesse campo. E os cientistas não constituem, ao contrário do que são levados a crer os leitores das páginas de ciências dos jornais, uma comunidade homogênea, que partilha dos mesmos valores, tem a mesma ideologia e os mesmos princípios e, enfim, não conta com canalhas e possíveis delinquentes em seu meio. Há tantos carreiristas venais entre eles quanto na sociedade maior de que são parte.

Não sei em que escala isso já se dá, mas é possível, por exemplo, escolher o sexo do bebê a resultar da inseminação. Em breve, quem sabe se essa escolha não virará rotina, ou até obrigação, por força de alguma lei que pretenda regular a composição demográfica do País? Onde ter filhas dê prejuízo (como nos casos em que o pai precisa oferecer um dote), o sexo preferido vai ser o masculino. O mesmo nas culturas genericamente denomináveis de machistas. Só pode inspirar pesadelos, em que exércitos de donzelões chineses invadirão países vizinhos, dispostos a tudo para asfixiar o anserino (vão ao dicionário somente esta vezinha; não foi por pernosticismo que escrevi isso aí, foi para pôr traje social numa expressão normalmente um pouco deselegante). E os países que produzirão meninas adolescentes para exportação?

Já se começa também a pensar nas aptidões que poderão ser “aplicadas” ao bebê em formação. Não devo estar muito equivocado em apostar que a maior parte dos pais vai querer que seus filhos nasçam com aptidão para ganhar dinheiro. Mas um país exclusivamente de banqueiros, políticos e malandros não pode subsistir (ou pode? examinar o caso do Brasil numa ocasião futura). Tem que haver quem trabalhe e então, naturalmente, o governo criará a Agência Nacional do Nascimento e da Vocação, destinada a produzir critérios e metas para organizar a caótica reprodução humana estabelecida com as novas tecnologias. Metas serão traçadas pelos economistas e demógrafos, para a criação da correta mão de obra para cada década. Mas, como de hábito, as metas vão revelar-se todas furadas e o pandemônio populacional se apresentará em novas formas. Isso para não falar nas exigências de cotas para profissões, tipos físicos, cores da pele, vocações, opções sexuais e assim por diante. E, finalmente, talvez mais cedo do que se espere, a Polícia Federal executará a Operação Cromossomo, com a prisão de vários implicados na adulteração e falsificação de gente. Mas ninguém vai ficar na cadeia.

Vamos e venhamos outra vez – João Ubaldo Ribeiro

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Por , 15 de abril de 2012 8:44

Volta e meia, toco no assunto de hoje, sempre com as mesmas opiniões. Não adianta nada, mas sei que há muita gente que pensa parecido e gosta de ver estas observações expostas novamente, com outras palavras. Não há de ser em minha geração, mas virá o dia em que nos tocaremos de vez. Morrerei cético, mas na torcida e com o fio de esperança que todos precisam carregar. Refiro-me a nós mesmos, o tão falado povo brasileiro.

Quando eu era um jovem metido a várias coisas (aliás, tão metido que, se hoje encontrasse um fedelho opinioso como eu era aos 20, desapareceria do recinto assim que ele falasse e me manteria à distância, no mínimo em outro município), os brasileiros não tinham culpa pelo atraso do País, mais tarde adornado com a designação, então em uso chique, de “subdesenvolvimento”. A culpa era do imperialismo norte-americano, tudo o que de ruim nos acontecia era culpa do imperialismo norte-americano. Até quando a moça não queria nada com a gente, a culpa era do imperialismo, que impunha padrões de beleza masculina humilhantes e ainda obrigava a gente a usar blusão James Dean no calor de Salvador, afetar ares entediados e besuntar o cabelo com as banhas e cremes fedentinosos que inventavam para nossos penteados serem iguais, por exemplo, ao do Farley Granger. Elas, as coroas do meu tempo, hoje ficam com vergonha e fingem que esqueceram, mas caíam até em sussurrinhos indecorosos, quando esse tal Farley Granger e seu famoso penteado apareciam na tela. Legiões de compatriotas foram assim ultrajados pelo imperialismo.

Para vencer esse poderoso inimigo, mobilizaríamos as massas e faríamos a Revolução. Mas, como já assinalava o bom juízo dos antigos, ser revoltado é fácil, difícil é ser revoltoso. A maior parte dos revolucionários era mais para a revoltada e debatia temas palpitantes, tais como a existência de uma burguesia nacional ou a vigência de regimes feudalistas no Nordeste, e só dois ou três gatos-pingados eram revoltosos e tentavam ir além do debate, geralmente com resultados péssimos para a saúde. A Revolução se foi, o negócio passou a ser as grandiosas Reformas de Base, que ninguém nunca soube direito de que se trataria e que agora todo mundo esqueceu de vez.

Poupando-nos um retrospecto que não traria nenhuma novidade, o que temos é o que está aí. Todo mundo sabe como é ruim a situação do Brasil em carga tributária, em saúde, em educação, em transportes, em segurança pública, em trânsito urbano, em aplicação da justiça, em saneamento básico e, enfim, em praticamente todas as categorias concebíveis. Não lembro um só dia, nos anos recentes, em que uma grande tramoia, um desvio de dinheiro espetacular ou um roubo sem precedentes não seja matéria dos noticiários. Ninguém mais presta atenção direito, confunde tudo e o resultado final é uma espécie de monturo na cabeça da gente, que se amontoa espantosamente a cada dia.

Os partidos políticos não são nada, nem em matéria de crenças e princípios, nem de qualquer outra coisa; não há ideais, há interesses. Não são partidos, são bandos ou, sem esticar demais a metáfora, quadrilhas rapineiras, que não pensam nos interesses do País, mas na aquisição de poder e influência geradora de riqueza. Os homens públicos, dentro ou fora dos parlamentos, em todos os níveis, parecem não conseguir escapar à malha corruptora que abafa o Estado em todas as esferas. E, de qualquer forma, injustiça ou não, a palavra “político” é hoje quase sinônima de ladrão.

Mesmo quando não há ilegalidade, há indecência, há recursos a eufemismos cínicos e trapaças engenhosamente maquiladas de manobras legítimas e o fato é que o Estado, sustentado pelos impostos mais altos do mundo, continua a ser sugado de todas as maneiras, fraudado de todas as formas. Roubam parlamentares, roubam administradores, roubam funcionários, roubam todos. Para lembrar somente um exemplo mais recente, a verba liberada para a reconstrução de Teresópolis, não deve ter sido suficiente, já que nada se fez. Aliás, li que instalaram algumas sirenes. Mas deviam ser de qualidade inferior, porque várias falharam. Isso é o que dá, quando se libera verba sem prever a taxa de corrupção aplicável por praxe.

É pensando nessas coisas que vem uma saudadezinha do imperialismo, era bem melhor, pensem aí. Agora a gente matuta, matuta, e chega à desagradável conclusão de que sempre quisemos botar a culpa do nosso atraso, do subdesenvolvimento ou que outros males nossos citemos, em alguém diferente de nós. A mania vem diminuindo um pouco, mas até hoje é comum um cidadão indignado discursar no boteco, espinafrando o brasileiro – o brasileiro não obedece à lei, o brasileiro é malandro, o brasileiro não tem educação, o brasileiro isso e aquilo. Brasileiro, quem? Ele não, e os outros sim?

Parece sempre necessário lembrar que somos todos brasileiros e envolvidos na vida brasileira. Há quase 200 anos, somos donos exclusivos disto aqui e nunca fizemos por onde honrar a imensa riqueza que herdamos, mas, ao contrário, instauramos desigualdades monstruosas, assaltamos a fazenda pública e fomentamos o atraso à custa do prejuízo geral e do ganho dos privilegiados. Somos nós os responsáveis pelo que está aí, nada disso se fez, ou se faz, por geração espontânea, fomos nós. Cabe repetir a verdade, já cediça, de que os corruptos não são marcianos, são também brasileiros como nós, aqui paridos e criados. Portanto, vamos e venhamos, pode ser chato, mas a evidência se impõe, não é possível fugir dela. Toda árvore boa produz frutos bons, e toda árvore má produz frutos maus. Uma árvore boa não pode dar frutos maus, nem uma árvore má dar frutos bons. O autor destes dois últimos pensamentos foi até um pouco lembrado nesta Páscoa, embora bem menos que o coelho.

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