Category: João Ubaldo Ribeiro

Dentadura, sapato ou emprego – João Ubaldo Ribeiro

Por Editor, 29 de agosto de 2010 7:34

A grande festa da democracia já está rolando, embora a animação não pareça das mais intensas. Pelo menos para mim, nos cada vez mais escassos momentos em que consigo assistir ao horário eleitoral sem dormir, lembra esses circuitos de Fórmula Um onde as ultrapassagens são quase impossíveis e a corrida se define logo depois das primeiras três ou quatro voltas. Espero não violar nenhuma lei eleitoral, ao endossar a opinião de praticamente todo mundo com quem converso, ou seja, o dr. Serra já perdeu, anda com jeito de perdedor e às vezes a campanha dele dá a mesma impressão que a de um time de futebol em campo apenas para cumprir tabela. Observando-a em andamento, a gente às vezes precisa até de um pequeno esforço, para recordar que se trata de um candidato da oposição.

Ouso ainda achar que a campanha dele partiu de um pressuposto exemplarmente burro. Não sei se aqueles que a conceberam se basearam numa analogia com o que, segundo me contam, fazem os lutadores de jiu-jítsu, os quais usam a força do adversário contra esse mesmo adversário. Se não foi isso, ficou perto. Já que não se pode fazer nada contra a popularidade do presidente Lula, vamos então usar a força dessa popularidade contra sua candidata.

Ideia de Jericó. Não me refiro à cidade bíblica cujas muralhas ruíram por obra das trombetas de Josué, refiro-me à elegante pronúncia de Zezito Cabecinha, lá de Itaparica, que não conhecia a palavra “jerico” (só conhecia “jegue”) e a leu “jericó” na primeira vez em que a viu, de maneira que até hoje designa como ideia de Jericó qualquer juízo que lhe pareça pouco inteligente. Perfeita ideia de Jericó, essa corporificada na campanha “oposicionista”. Bota lá a imagem do presidente Lula bem visível nos meios de comunicação de massa, bota o nome dele nos jingles. Para mim, isso é mais ou menos a mesma coisa que a Pepsi-Cola fazer propaganda estampando a marca da Coca-Cola em todos os seus comerciais – e com uma voz off no final dizendo “Pepsi-Cola: tão boa quanto Coca-Cola!” Ou, talvez, um pouco mais no espírito da atual campanha da alegada oposição, um ator simpático falando para o telespectador: “Agora que você se deliciou com sua Coca, por que não experimentar uma Pepsi?” É em algo assim que essa campanha resulta. Eu pensava que usar uma marca e uma imagem era coisa muito bem entendida por publicitários, marqueteiros e outros cientistas sociais, mas, pelo visto, não é. Ou então o burro sou eu, deve ser. De qualquer maneira, acho que, a esta altura, saiu tudo pela culatra e a força do adversário não tem funcionado contra ele, mas provavelmente a favor, como parecem corroborar as pesquisas eleitorais.

E, lá no meu sertão, como andará a festa? O brasileiro não sabe votar, avaliação todos os dias repetida, até mesmo num texto falsamente atribuído a mim, que circula na internet e que já desisti de desmentir. Se isso se refere aos brasileiros pobres, miseráveis ou esquecidos nos cafundós, não tenho tanta certeza de que representa a verdade. Que quer dizer “votar certo”? O eleitor vota certo, digamos, quando vota no candidato que representa seus legítimos interesses e aspirações. Nesse caso, quando vende seu voto, ou o troca por uma dentadura, um par de sapatos ou, melhor ainda, um emprego, o tal eleitor “inconsciente” não estará votando certo? Em muitos casos, somente na próxima eleição é que ele vai ver esse pessoal que ora compra seu voto. A eleição é uma ocasião preciosa e rara que se oferece a ele. Durante a temporada eleitoral, ele é cumprimentado, é escutado e elogiado, vira até gente e recebe alguma coisa de um mundo que o ignora e abandona o resto do tempo. Que outra serventia tem o voto para ele? Como vão caber no horizonte dele as questões discutidas pelos “esclarecidos”? Que real diferença, para ele, existe entre um deputado e outro, a não ser que um recompensa o voto com uma graninha, um sapatinho, uma dentadurazinha, uma colocaçãozinha – e o outro nem isso? E, como nem um nem outro jamais fizeram nada para beneficiá-lo, estará votando errado, ao ser recompensado pelo seu voto da única forma que a experiência o autoriza a ver como viável?

E os que votam “certo”? Aqui de novo há uma escala. Quem furta galinha é ladrão; quem furta muitos milhões é um financista vitimado pelas vicissitudes do mercado; quem furta bilhões é um grande homem. Matou um, é assassino; matou milhões, é grande líder. Da mesma forma, quem negocia seu voto por um emprego vota errado. Em compensação, votam certo os que negociam seus votos por uma legião de empregos, como fazem os políticos profissionais que já hoje nem se aguentam, tamanha a sede de ir ao pote assim que o novo governo tomar posse, dando-nos volta e meia a vontade de pedir calma, que vai dar para todo mundo, embora, levando-se em conta a voracidade e a eficiência com que saqueiam e dissipam, talvez o seguro seja estar entre os primeiros a abocanhar, pois de repente a fonte pode secar.

Saber votar, por outro lado, consola pouco os que acham que sabem. Todos os objetivos de todos os candidatos (espero também não ter violado nenhuma lei eleitoral, por haver falado acima somente nos candidatos mais cotados nas pesquisas – temo, aliás, que no futuro, a julgar pelas tendências correntes, isto de fato venha a constituir crime eleitoral e até os livros de História do Brasil sejam obrigados a dedicar espaço rigorosamente igual a todos os presidentes da República) são sempre os mesmos. Construir um Brasil mais justo, mais igualitário, com cidadania. E porque tal, porque vira, etc. e tal. É tudo a mesma coisa, tudo fácil de dizer. E assim, mesmo nós, os que achamos que sabemos votar, enfrentamos dificuldades de escolha. Não estou precisando de dentadura no momento, mas um parzinho de sapatos talvez caísse bem.

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Como seria bom – João Ubaldo Ribeiro

Por Editor, 22 de agosto de 2010 1:00

Há muitos e muitos anos, ir à Suécia era o sonho de jovens brasileiros que sobre ela só sabiam que revistas pornográficas lá eram produzidas e vendidas livremente e que as suecas tiravam a roupa assim que avistavam negros e morenos de modo geral, caso da grande maioria de nós. Até já estive na Suécia, ainda mais ou menos nessa época, e receio ter de recordar que meu bronzeado baiano não fez nenhum sucesso. Mas a imagem antiga, diluída em fantasias juvenis, permanecia na memória. De uns tempos para cá, contudo, isso vem sendo substituído por um certo calafrio, quando me bato com uma notícia vinda de lá.

É que muitas ideias propostas para adoção no Brasil são precedidas pela conversa de que na Suécia, país civilizadíssimo, onde até os cachorros têm diplomas escolares e a felicidade é obrigatória, também se faz assim ou assado. A ideia de que o que é bom para a Suécia pode não ser bom para o Brasil não costuma entrar em cogitação. E, como cada vez mais aparece gente com poder e disposição de deitar regra sobre tudo o que fazemos e nos tornar felizes, protegidos e ajustados, mesmo que não queiramos, as notícias da Suécia deram para assustar.

Agora, leio aqui que por lá há um plano para extinguir o dinheiro, ou seja, notas e moedas. A razão para a iniciativa – diz aqui, não tenho nada com isso – são os assaltos. Sem moeda, os assaltantes suecos não teriam o que levar. Daí para a extinção total do chamado dinheiro sonante, esse trambolho anti-higiênico e incômodo, deverá ser um passo rápido, é só querer. Em vez de salário, o camarada receberia créditos em seu cartão e sairia fazendo todas as suas despesas com ele, pois imagino que, num sistema perfeito, cada um, não somente o comércio, tenha sua maquininha de debitar cartões, que poderá, como tudo mais, vir com o celular. O qual, aliás, já é usado até no Brasil mesmo, como instrumento para pagar contas.

Perfeito, claro. Alguém deve estar pensando em fazer a mesma coisa aqui, onde os assaltos, presumo eu, são um problema um pouco maior que na Suécia. Seria uma beleza, notadamente para os órgãos cobradores de impostos, porque nem uma gorjeta entraria no bolso de um flanelinha, sem que a autoridade tivesse conhecimento. O dinheirinho do motel, cuja saída ele ou ela ocultam do consorte, também ia ficar meio difícil de disfarçar. Tudo ia ficar difícil de disfarçar e até quem quisesse fugir ou sumir provavelmente não conseguiria. Com certeza, não sei como, surgiria um mercado negro de moedas estrangeiras e haveria gente acumulando ouro para garantir a liberdade até mesmo de sair do País. Talvez viesse a tornar-se dispensável prender criminosos, poupando-nos do vexame de não dispormos de prisões resort, como na Suécia. Bastaria uma ordem ao Centro de Movimentação Financeira Livre (um pouco do newspeak do Orwell cai bem nestes casos) para que o cartão do indigitado fosse bloqueado, com a consequência de que ele não poderia nem tomar um ônibus. E, evidentemente, o governo saberia da vida privada de todos os cidadãos. Tenho a certeza de que, no caso do Brasil, onde a Receita Federal é um exemplo de inatacabilidade, isso não seria problema, mas, não sei por que, apesar de nunca haver sido muito bom no seu manejo, ainda prefiro que exista dinheiro mesmo.

Certas coisas “erradas”, ou vistas como até mesmo enganos de Deus (é engraçado como uma espécie que tem dificuldade para organizar um campeonato de futebol oferece correções à Criação), são uma tentação aparentemente irresistível, para os reformadores. Por exemplo, a falta de terras aráveis ou habitáveis não ocorreria (aliás, não há falta de terras aráveis, mas é uma dessas coisas que se afirmam em conversa e ninguém discute), se não houvesse desertos. Não seria tão melhor que o Saara fosse todo transformado num oásis temperado e cultivado? Claro, seria, com o resultado de que o Mediterrâneo ia virar um mar glacial e os europeus todos, notadamente os escandinavos, passariam à condição de picolés.

Acabar com os insetos, essa peste que vive torrando a paciência da Humanidade, liquidando lavouras e causando doenças, nada mais desejável. Lembro agora que, faz poucos anos, houve um discreto alarme em relação a uma doença misteriosa que acometeu abelhas no Meio-Oeste americano, responsável por uma parte crucial da produção mundial de comida. Temeu-se que as abelhas sumissem e, com elas, a polinização das plantações e, em última análise, a comida. E ainda bem que nenhum reformador anti-inseto chegou nem perto de eliminá-los, pois é bem mais fácil eliminar o homem, a Natureza é sábia. Os tubarões, bichos horríveis que estraçalham os banhistas e só servem para matar, são em grande parte também responsáveis por nossa sobrevivência, pois ajudam a controlar as populações de focas, pinguins e outros comedores de peixe, que do contrário desequilibrariam a vida nos oceanos.

A proposta de eliminar a dor também é interessante. Já a ouvi discutida diversas vezes, havendo mesmo quem torça para que, no futuro, a tecnologia suprima completamente do nosso dia a dia as dores de causas externas, nada de dor de queimadura, corte, pancada, etc. Claro, no fim de algum tempo assim, ia sobrar muito pouca gente com a mão inteira, já que a dor não avisaria quando se estivesse cortando fora um pedaço de dedo, ou queimando-o no fogão. Não, isso nem na Suécia. Já quanto à extinção do dinheiro, não estou tão seguro. No Brasil, não na Suécia. Não é possível que o governo deixe passar essa oportunidade, ainda nos restam oito meses de salários para pagar de impostos e as boquinhas a sustentar cada vez aumentam mais.

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O Leviatã pega – João Ubaldo Ribeiro

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Por Editor, 15 de agosto de 2010 3:02

Acho que já falei aqui numa comadre minha que diz que tudo é trauma de infância. Inclino-me a concordar com ela e, muitas vezes, nem tenho de escarafunchar muito essa remotíssima fase de minha vida para descobrir a origem de certas inquietações do presente. O Leviatã é um exemplo claro, porque meu medo dele vem desde o tempo em que, no meio da livrama de meu pai, eu topava com as ilustrações de Gustave Doré para a Bíblia e lá estava o tremendo monstro, contra o qual, assegurava o texto, o bronze das espadas era palha, ou seja, não adiantava nada. E devo ter misturado isso com alguma outra ilustração, provavelmente do clássico de Thomas Hobbes intitulado Leviatã, com que também topei nessa época, tentei ler para ver se vencia o medo, não entendi nada, desisti e o trauma deve ter persistido, ou piorado.

Hobbes é comumente tido, numa simplificação bastante grosseira e mesmo injusta, como uma espécie de teórico do absolutismo. E foi assim que me falaram dele nas escolas. Para mim o Estado hobbesiano, onde o poder se concentra no que ele chama de “soberano” e o súdito não tem ingerência no governo, passou a ser definitivamente aquele monstro das ilustrações. Depois, com a leitura de 1984 e a chegada de um tempo onde, fotografados, filmados e gravados, estamos cada vez mais submetidos a alguma espécie de controle, ou pelo menos vigilância controladora, o bicho vem me assombrando bastante e devia assombrar vocês também, porque vamos facilitando, vamos facilitando e daí a pouco ele nos engole a todos.

E essa engolição não vai ter nem a colher de chá do Estado hobbesiano. Nele, de fato o soberano detinha todo o poder, mas também tinha o dever básico de dar segurança ao súdito, pois, afinal só ela conteria o lobo do homem e era para isso que o pacto social existia. Aqui no Brasil, o nosso Leviatã já engole mais de um terço do que ganham os pobres e remediados (e nada dos verdadeiramente ricos) e não dá segurança nenhuma. Se esta for entendida como algo além de garantias contra a violência e abranger, por exemplo, a saúde, sabemos que o monstro, além de comer todo o dinheiro que pode, obriga os súditos a contratar planos médicos privados e nem mesmo estes resolvem, pois o bicho permite que façam o que bem entendam, inclusive tungar safadamente os que há décadas pagam por eles os olhos da cara.

O Leviatã de Gustave Doré, se bem revejo na mente as gravuras da infância, tinha tentáculos semelhantes aos de um polvo. É uma boa imagem para o que nos acontece hoje em dia, a toda hora um novo tentáculo se estendendo sobre nós, uma chuva de normas, cartilhas, orientações, admoestações, avisos, cobranças, proibições, restrições, instruções e assemelhados, vinda aparentemente de mil direções, que ninguém conhece direito e a que todo mundo obedece sem questionar. Sabe-se, mais ou menos vagamente, da existência de agências reguladoras hoje muito ativas, tripuladas por sabe-se lá quem, todas empenhadas em emitir regras para a nossa conduta. Ninguém elegeu esse pessoal, ninguém foi nem ouvido nem cheirado quanto a sua nomeação (vai ver que alguns, ou todos, foram ouvidos preliminarmente no Congresso, mas isso e nada todo mundo sabe que quer dizer a mesma coisa, até porque muitos dos nomeados para as agências devem ter sido indicados por deputados ou senadores), mas eles fazem o que querem e, mesmo quando quebram a cara, quem paga o prejuízo somos nós.

Cabe recordar pela milésima vez, como uma espécie de dever cívico, aquela regulada que deram nos motoristas, obrigando todos a trafegar com um tal kit de primeiros socorros. Todos os donos de carro compraram o kit, que só tinha um fabricante, o qual, naturalmente, encheu o rabo de dinheiro, assim como, certamente, outros envolvidos na operação. Concluiu-se que o kit não valia nada e era até prejudicial, mas ninguém foi investigado e muito menos punido, os súditos morreram na grana que os espertalhões faturaram e ficou tudo por isso mesmo. Mais recentemente, veio o tal assento para crianças, que de novo beneficia fabricantes, ou fabricante, e é uma medida de meia pataca, porque não pode ser aplicada a táxis, ônibus e vans, além de causar problemas de vários tipos. Mas todo mundo se esquece disso, compra o raio da cadeirinha e segue obedecendo.

Torcer no futebol já está regulamentado, mas não é descabido prever que cada clube venha a ser obrigado a pagar danos morais ao juiz chamado de ladrão por seus torcedores. Curtir com a cara do perdedor, nem pensar. O técnico que ficar na beira do campo soltando palavrões também será multado e mal posso esperar o dia em que emanarão do banco instruções como “meu anjo, vê se te deslocas mais expeditamente!”. E o atacante vai pedir um cruzamento exclamando “alça-me o balão de couro, companheiro!”. Quanto a piadas, não só de futebol mas quaisquer outras, atualmente já proibidas em relação aos candidatos, certamente também serão objeto de restrições impostas pela necessidade de que vivamos numa sociedade absolutamente livre de discriminações ou preconceitos de toda espécie. Não pode piada que, de alguma forma, mostre qualquer categoria social ou humana sob uma luz considerada pejorativa. Ou seja, não pode piada nenhuma, mesmo porque as que se refiram a animais, como as de papagaio, estarão sujeitas ao crivo rigoroso do Ibama, pois nunca se sabe quando uma piada poderá induzir a um crime contra um animal protegido. Talvez se crie – e fica a sugestão, é mais uma porção de cargos para preencher – uma base nacional de piadas, cadastrando todas as permitidas, é só checar antes de contar. Agora que dá para comparar, o monstro de Gustave Doré não era tão feio assim, bons tempos.

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Desta vez é despedida mesmo – João Ubaldo Ribeiro

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Por Editor, 8 de agosto de 2010 18:46

Não sou político, mas devo estar aprendendo com o exemplo, porque prometi um par de vezes aposentar definitivamente meu caderninho de implicâncias com a linguagem, até porque não quero ocupar este espaço com mais uma coluna sobre o bom uso de nossa língua, para o que, diga-se a tempo, não sou muito qualificado. Tem bastante gente fazendo isso nos jornais, com competência. Mas não cumpri — aliás, não estou cumprindo agora — as promessas. Peço a indulgência geral e prometo, agora solenemente, que tão cedo não torno a outra. Bem verdade que os políticos também fazem promessas solenes, mas espero não imitá-los no hábito de esquecê-las.

Tento usar a língua direito, estudo um pouco, mas no geral toco de ouvido e creio que minhas notas encontram eco em qualquer um que tenha aprendido algum português na escola, não são “especializadas”, ou coisa assim. Devo prestar mais atenção na língua que a maior parte das pessoas porque sou escritor, vivo mexendo com as palavras e o que acontece com elas me afeta, às vezes de forma meio doida. E escrever para jornal ajuda a preservar o ritmo de jogo, a gente fica mais alerta para as bobagens, ou até absurdos, ditos ou escritos sem sentir e frequentemente sem querer. (Um amigo meu, vítima da mania de fazer o sujeito seguir-se de um pronome, como em “a realidade, ela é”, me telefonou, depois que eu escrevi sobre o assunto. “Eu não consigo falar de outro jeito acho, que vou ter que me internar”, disse ele. “Essa mania, ela vai me matar.”) Mas não pretendo encarnar o chato que vive catando o “erro de português”, até porque esse negócio de erro de português é muito relativo e minha preocupação é com a preservação da eficácia e da precisão da língua, atitude que está longe de ser elitista, como muita gente qualifica qualquer coisa expressa por um ou mais polissílabos. Uma língua que perde ou avilta seus recursos não pode aspirar a permanecer uma língua culta e servir para adequada expressão científica, filosófica e literária, temos que cuidar da nossa.

Nem pensar em patrulhar erro de português e, aliás, é por causa de certas patrulhas que tomei algumas de minhas notas. Penso particularmente na patrulha da colocação de pronomes, que, para os patrulheiros, é uma coleção supersticiosa de regras de aplicação às vezes ridícula. “O senhor disse que me queria ver”, expresso desta forma porque o “que” atrai o pronome, força um pouco o falar do brasileiro, mas vá lá, não chega a ser ridículo. Contudo “o caderninho é tão chato que eu me resolvi livrar dele” é dose, tanto por escrito quanto, e mais ainda, na conversa. Ou seja, decora-se que o “que” atrai o pronome e se ignora uma exceção que mesmo os mais rezinguentos gramaticões de outrora sempre fizeram, quando, nessas locuções verbais, o segundo verbo está no infinitivo. Na fala, talvez nem tanto, mas na escrita fica até elegante construir “que eu resolvi livrar-me dele”.

Lembre-se ainda que, como já dizia o grande mestre filólogo M. Said Ali, as palavras não são eletromagnetos, para ficarem se atraindo lá e cá. Na verdade, qualquer leitura de clássicos da língua como Antônio Vieira e Manuel Bernardes ou mesmo do fundador Camões vai render um balaio cheio de pronomes colocados “erradamente”. A colocação, tanto na fala quanto na escrita, tem a ver com um sem número de fatores, um dos mais importantes dos quais o espaço me obriga a citar taquigraficamente, é ser esse pronome, no enunciado, tônico ou átono. Certos pronomes que até os portugueses pouco letrados colocam “corretamente” são átonos em Portugal, mas aqui viraram tônicos e os colocamos como os percebemos, geralmente sem nada de errado. E menção especial deve ser feita ao pronome solto entre dois verbos, como em “resolvi me livrar”. Isso está “errado” e, como “resolvi-me livrar” é também ridículo, além de não querer dizer a mesma coisa, fica-se obrigado a “resolvi livrar-me” como única opção. No entanto, os brasileiros dizem, com o “me” tônico, “resolvi me livrar” e não há razão para demonizar isso, pois é assim no falar cotidiano até dos que observam costumeiramente a norma culta. E vamos admitir que ainda haja resistência quanto ao uso dos pronomes oblíquos no começo de oração. Certas coisas persistem mais que outras e deve haver alguma razão para que ainda usemos a ênclise (pronome depois do verbo) em discursos e ocasiões formais. Mas dizer “dê-me” ou “dá-me” na conversa dá a impressão de que o falante é aluno de um colégio de freiras de antigamente ou usa brilhantina no cabelo, ou coisa assim.

E, imagino que por causa do “companheiros e companheiras”, que por sua vez remonta a “brasileiros e brasileiras”, tudo depois que o general de Gaulle disse “français, françaises”, agora a velha e sedimentada norma, segundo a qual o plural das partes de um conjunto compreendendo os dois gêneros fica no gênero masculino, parece que não vai valer mais. “Brasileiros” engloba tanto homens quanto mulheres e não há nada para uma feminista dos velhos tempos reclamar. Na nossa língua, por exemplo, “pessoa” é feminino e nenhum homem se queixa de ser chamado de “uma pessoa”. Mas daqui a pouco, pelo visto, alguém é capaz de inventar o masculino “pessoo”, para não ofender os brios dos machões, que também são filhos de Deus. Ou muito me equivoco ou ouvi o presidente do Tribunal Superior Eleitoral dirigir-se aos eleitoras e eleitores. Está sendo realmente criada uma nova língua e o final do período anterior devia ser, de acordo com ela, “às/aos eleitoras e eleitores”. Imagino haver quem ache isso chique. Talvez dizeres tradicionais venham a ser reformulados, em versões como “quem for brasileira ou brasileiro me siga”. E já de novo se finda o espaço, sem que as notas tenham acabado. Mas mantenho a promessa. Se não cumpri-la, pelo menos não pedi voto.

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O caderninho pela última vez – João Ubaldo Ribeiro

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Por Editor, 1 de agosto de 2010 11:21

Sei que não tenho o direito de abusar da paciência de vocês com as caturrices que anoto no meu caderninho, tanto assim que resolvi livrar-me dele, convertendo-o num caderno de receitas culinárias, muito mais útil. Mas não resisto a comentar algumas anotações que me são particularmente caras, sempre na esperança de encontrar quem se solidarize, não é possível que eu seja o único chato a se incomodar com essas coisas.

Ninguém, falando, diz “no outro dia eu vi você na praia”; diz “outro dia eu vi você na praia”. No entanto, quando se escreve, ou se fala com a relativa formalidade dos noticiários de TV, essa e outras locuções adverbiais, como “este ano”, “este mês” ou “outra hora”, hoje ganham a preposição “em”, no caso redundante e mal usada, de uma forma que, se persistir, gerará muitas ambiguidades indesejáveis. Nas outras línguas (e todas as línguas ocidentais, com exceção do basco, são parentas e ligadas de mil formas) isso não acontece. Em inglês, por exemplo, não se diz “in this year”, diz-se “this year”, assim como, no mesmo caso, não se usa “dans” em francês. Mas o sujeito diz, com propriedade, que este ano vai passar as férias em Búzios e, no entanto, quando escreve ou fala formalmente, resolve que o certo é “neste ano”. Daqui a pouco se escreve “numa vez eu vi um cometa”, em lugar de “uma vez”. Ou “num dia eu visitei Paris”, não se sabendo aí se a visita foi numa certa data ou durou apenas um dia. Se a frase fosse “um dia eu visitei Paris”, não haveria ambiguidade. De forma análoga, há quem escreva “toda vez que” e “do mesmo jeito que” com uma preposição antes do “que”, por uma questão “lógica”. Mas são locuções consagradas e a lógica da língua amiúde é mais embaixo.

E por que tanto “você”, meu Deus do céu? Tem também gente, inclusive comentaristas, cuja fala é um enxame sufocante de “vocês”, praga que vem piorando muito. “Você adiantar os volantes a esta altura é temerário”, diz o falante. “Para você segurar o placar, você precisa tentar manter o mesmo nível de marcação que você tinha no primeiro tempo”. Os primeiros dois “vocês” aí podiam ser simplesmente suprimidos e os restantes substituídos por uma maneira de falar menos neandertalesca, que, além de ser feia e revelar pobreza de expressão, faz a língua lembrar a que Tarzan usava para se comunicar precariamente com a Jane, no tempo do “me Tarzan”. Construção típica: “Você ingerir frutas que você não lavou bem traz riscos para a saúde. A fruta, ela pode estar sendo uma via de contaminação e você lavar faz a diferença.”

Botei (modernamente, coloquei) essa “diferença” aí de propósito. Antigamente, as coisas faziam diferença. Podiam até fazer certa diferença, alguma diferença ou muita diferença. Mas a diferença não era determinada pelo artigo definido, como hoje, suspeito eu que por influência do inglês, já que muitos jornalistas e resenhistas literários leem bem mais em inglês que em português. “Ser cumprimentado por um bom trabalho faz diferença”, dizia-se antigamente. Agora é “faz a diferença”. A ausência do artigo definido, da mesma forma que em inglês, persiste na negativa “não faz diferença” (“makes no difference”), mas daqui a pouco é bem possível que se comece a dizer “isso para mim não faz a diferença”. Ou, para ficar mais de acordo com o inglês, “não faz uma diferença” (“does not make a difference”). Não duvido nada e assim, vamos prosseguir incorporando (o que, no ver de alguns, pode ser uma boa e não discuto) o gênio de outra língua à nossa, na forma mais radical de colonização que pode existir, a do idioma. Ubimcumque lingua romana, ibi Roma — onde quer que esteja a língua romana, aí estará Roma, é isso mesmo.

No departamento do adeus-adeus, ao qual já se degredou o quase finado “cujo”, devemos também apontar “jovial”. Antigamente — e ainda nos dicionários — jovial era alegre, comunicativo, afável. Hoje não é mais. Ou, por outra, não precisa ser, porque virou juvenil e parece que não tem volta. Outro dia li numa revista que não sei quem se traja jovialmente e fiquei imaginando que essa pessoa se veste em meio a grande efusão e se cumprimentando ao espelho o tempo todo. E uma saudação jovial, é de supor-se, passa a ser algo como “valeu”, ou qualquer das palavras-ônibus hoje em uso pela juventude. Num caminho parecido, o venerando adjetivo “difícil”, conosco desde os albores da língua, está sendo demitido, porque agora nada mais é difícil, é complicado.

O pessoal que pretende falar como se escreve também continua ativo e sua mais conspícua manifestação é ainda o “umaum” com que vários narradores esportivos anunciam um marcador igualado em um gol. Já ouvi também “umotel”, entendi “um motel” e, no decorrer da reportagem, vi que era um hotel. Um olho será um molho e um achado será um machado. Esse pessoal é perigoso e, se a moda prosperar, ficará impossível falar português no futuro sem um bom preparo físico, para fazer todos os gestos tornados indispensáveis ao bom entendimento.

Acaba-se o espaço, sobram notas, nada a fazer. Bem, só mais estas duas, que tirei de uma revista e vejo muito por aí: “broxura” sexual é com x e “benfeito” é particípio passado do verbo “benfazer”, não quer dizer “bem-feito”. Pronto, acho que o caderninho, ele acabou.

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Comunicado à praça: Segundo me contaram, eu integro diversas redes sociais na Internet, como o Twitter e o Facebook. Para mim foi surpresa, porque nunca ingressei em nenhuma dessas redes e nem sei como elas funcionam. Mas já me garantiram que tem gente se fazendo passar por mim. Devo, portanto, enfatizar que não sou eu e lembrar que não posso responsabilizar-me pelo que me atribuam falsamente.

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O problema da agonia teórica – João Ubaldo Ribeiro

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Por Editor, 25 de julho de 2010 5:59

Normalmente, a banca de Salvatore não está muito movimentada, na hora em que chego para pegar os jornais e, logo depois, o pão na padaria. São mais ou menos cinco e meia e o dia parece amanhecer de mau humor, um friozinho penetrante emperrando juntas e fazendo Salvatore imprecar em calabrês. Na calçada da padaria, um grupo de moças e rapazes, provavelmente saído de uma festa, toma o café da manhã em algazarra, sob os olhares invejosos dos coroas. Claro que também invejoso, percebo que um casal me acena, aceno de volta, sorrio para o grupo. Que beleza, só se tem 20 anos uma vez, penso, antecipando uma volta à casa imerso em filosofias de velho. Mas sacudo a cabeça para espantar bobagens e entro na banca, onde uma sacola já me espera, com os jornais de sempre.

- Frio, hein? – digo eu, esfregando os braços.

Só então percebo um senhor à minha frente, me encarando com ar sério, embora afável.

- Está na época – disse ele, antes de eu lhe dar o bom-dia que tencionara.

- Como?

- Eu disse “está na época”. O senhor disse que está frio, eu estou dizendo que está na época, não podemos nos queixar. Quando é inverno, faz frio. Às vezes mais, às vezes menos, mas sempre faz.

Concordei com ele, eu falava só por falar. Mas ele não deu a conversa por encerrada. Ou muito se enganava ou eu era o escritor, não era, o que escreve em jornal? Muito prazer, muito prazer, mas não vá escrever nenhum artigo contra o inverno!

- É que os jornais reclamam de tudo e, na minha opinião, isso não é correto – acrescentou. – O senhor vê esse caso da Receita Federal? A imprensa toda está reclamando.

- Mas tem de reclamar mesmo, isso é uma coisa muito grave.

- Não sei qual é a gravidade, é perfeitamente normal. Se dá para saber se o indivíduo tem rabo preso na Receita, por que não saber? Se interessa, se pode ajudar a ganhar eleição? É para essas coisas que o sujeito luta para chegar ao governo. Ia estar no governo pra que, pra ficar na mesma situação que quem não está? Onde é que isso entra na cabeça de alguém?

- Mas aí há uma confusão, uma coisa é o Estado, outra coisa é o governo. O Estado é distinto dos homens que o conduzem, Estado é uma coisa, governo é outra. O Estado não é de quem ocupa o governo.

- Na teoria. Na prática, o senhor sabe que é. Fica aí essa teoria muito bonita e cheia de termos complicados, mas a nossa realidade não é essa. Na minha opinião, muitos dos problemas que vivem preocupando as pessoas não existem, é tudo criação dessas teorias que a imprensa e os intelectuais adotam.

- Mas que o Estado é diferente do governo não é uma teoria, está na Constituição.

- Então? Teoria. A Constituição também é muito teórica, é por isso que em grande parte não é respeitada.

- Eu não concordo, mas, em todo caso, a Constituição prevê que os ocupantes do poder sejam renovados.

- Isso é outra coisa, isso é da democracia, de que ninguém pode reclamar de sã consciência, porque todos acabam tendo sua oportunidade e quem não se faz na política democrática é porque não quer ou então é burro e não tem competência. A não ser casos extremos, como os comunistas, que só querem pra eles e mais pra ninguém.

- Eu não estou entendendo, o senhor acha que a pessoa deve entrar na política para roubar?

- Para roubar eu considero uma expressão muito forte. Não vou dizer roubar, mas se fazer. Se fazer é perfeitamente normal. Anormal seria o sujeito entrar para uma carreira sem querer se fazer, um cara desses ou é santo ou tem que ser internado. Quando o sujeito resolve entrar, ele sabe e todo mundo sabe que é pra se fazer. Tanto assim que todos se fazem. E todo mundo já sabe que é para isso, está todo mundo acostumado, não há nada de mal, qualquer um pode chegar lá. Não é somente se elegendo, não, é conseguindo uma boa colocação, aproveitando bem o voto, sabendo mexer os pauzinhos, tem pra todo mundo e quem se queixa é porque não soube pegar o seu.

- Eu não posso concordar com o senhor. Nem todo mundo que entra em política entra para se fazer.

- Me aponte um. O senhor é capaz até de citar uma porção, mas isso é o que eles têm no papel, não de verdade. Até mais gordos todos ficam, é natural.

-Eu acho que essa visão que o senhor tem é muito negativa, não se pode pensar desse jeito.

- Claro que se pode, é só deixar dessa agonia teórica. Tudo bem que exista a teoria, eu compreendo, faz parte, o intelectual e o jornalista têm que procurar em que se ocupar. Eu só não compreendo é essa agonia teórica interferindo na normalidade das coisas. Agora mesmo eu li aí um crítico dizendo que nós não faturamos a Copa de 2010, mas vamos superfaturar a de 2014. Pra mim, isso não é razão de crítica é a realidade da oportunidade de quem se preparou para prosperar. Está certíssimo, só está errado na teoria. Eu acho que vocês da imprensa deviam se mirar no presidente, que não tem nenhuma dessas agonias teóricas. E quem é que está por cima da carne-seca, ele ou vocês?


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A volta do caderno rabugento – João Ubaldo Ribeiro

Por Editor, 18 de julho de 2010 5:15

Não sei se vocês se lembram de quando lhes falei, acho que no ano passado, num caderninho rabugento que eu mantenho. Aliás, é um caderninho para anotações diversas, mas as únicas que consigo entender algum tempo depois são as rabugentas, pois as outras se convertem em hieróglifos indecifráveis (eu sei que o recomendado é “hieróglifo”, mas sempre achei que quem diz “hieróglifo” está tentando descolar alguma coisa dos dentes), assim que fecho o caderno. Claro, é o reacionarismo próprio da idade, pois, afinal, as línguas são vivas e, se não mudassem, ainda estaríamos falando latim. Mas, por outro lado, se alguém não resistir, a confusão acaba por instalar-se e, tenho certeza, a língua se empobrece, perde recursos expressivos, torna-se cada vez menos precisa.

Quer dizer, isso acho eu, que não sou filólogo nem nada e vivo estudando nas gramáticas, para não passar vexame. Não se trata de impor a norma culta a qualquer custo, até porque, na minha opinião, está correto o enunciado que, observadas as circunstâncias do discurso, comunica com eficácia. Não é necessário seguir receituários abstrusos sobre colocação de pronomes e fazer ginásticas verbais para empregar regras semicabalísticas, que só têm como efeito emperrar o discurso. Mas há regras que nem precisam ser formuladas ou lembradas, porque são parte das exigências de clareza e precisão – e essas deviam ser observadas. Não anoto, nem tenho qualificações para isto, com a finalidade de apontar o “erro de português”, mas a má ou inadequada linguagem.

E devo confessar que fico com medo de que certas práticas deixem de ser modismo e virem novas regras, bem ao gosto dos decorebas. É o que acontece com o, com perdão da má palavra, anacolutismo que grassa entre os falantes brasileiros do português. Vejam bem, nada contra o anacoluto, que tem nome de origem grega e tudo, e pode ser uma figura de sintaxe de uso legítimo. O anacoluto ocorre, se não me trai mais uma vez a vil memória, quando um elemento da oração fica meio pendurado, sem função sintática. Há um anacoluto, por exemplo, na frase “A democracia, ela é a nossa opção”. Para que é esse “ela” aí? Está certo que, para dar ênfase ou ritmo à fala, isso seja feito uma vez ou outra, mas como prática universal é meio enervante. De alguns anos para cá, só se fala assim, basta assistir aos noticiários e programas de entrevistas. Quase nenhum entrevistado consegue enunciar uma frase direta, na terceira pessoa – sujeito, predicado, objeto – sem dobrar esse sujeito anacoluticamente (perdão outra vez). Só se diz “o policiamento, ele tem como objetivo”, “a prevenção da dengue, ela deve começar”, “a criança, ela não pode” e assim por diante. O escritor, ele teme seriamente que daqui a pouco isso, ele vire regra.

E os verbos em “izar”? Não sei se vocês já notaram que há muito tempo, principalmente por escrito, ninguém vê, enxerga, discerne, descortina, ou qualquer outro sinônimo decente. Agora só se visualiza, mais nada e, em Itaparica, ouvi de um menino turista a comunicação, feita ao pai dele, de que estava visualizando de binóculo. “Vender” tem sofrido uma sabotagem inclemente por parte de “comercializar” e não duvido nada que venha a ser banido, assim como foram “pôr” e “botar”. Hoje em dia, o verbo “colocar” perdeu o sentido mais preciso que tinha e substitui os dois outros, inclusive em usos tradicionais. A galinha coloca ovo, dando a impressão, para quem aprendeu o uso mais específico desse verbo, de que a galinha faz a postura (aliás, talvez devesse dizer “colocação”) ajustando cuidadosamente o fiofó num canto do ninho escrupulosamente escolhido. O mesmo tipo de impressão se tem, quando se ouve no noticiário que alguém colocou fogo num barraco. Atear fogo, nem pensar. Virá o dia em que alguém vai colocar pra quebrar. E já ouvi também (ou vi escrito; com esse negócio de internet, não sei mais o que li onde) “ajustabilizar” e “ausentabilizar”, este último, a julgar pelo som, um verbo que haverá de ter lá sua serventia, usado em relação ao Congresso Nacional.

“Prejudicar”, com longa e honrada folha de serviços prestados ao povo brasileiro, também está no caminho célere do ostracismo. Ninguém mais é prejudicado, agora todo mundo é penalizado. Quem estiver pensando em usar a palavra no sentido antigo melhor fará se a substituir por “comiserar”, enquanto esta ainda se encontra disponível, pois, no futuro, “comiserado” poderá ser a designação aplicada por alguma ONG a companheiros de miséria no Terceiro Mundo. “Personalizar”, palavra com mais de cem anos de batente, agora está de aviso prévio e marchará para o esquecimento a que lhe votam os cada vez mais numerosos aficionados de “customizar”. Os verbos em “ionar” também desfrutam de grande voga e um deles, “posicionar”, já mandou “dispor” para o espaço. Nenhum general dispõe mais suas tropas assim ou assado, não mais se dispõem as peças de um jogo de tabuleiro. E se arruma bem menos que no passado. Acho que qualquer técnico de futebol contemporâneo ficaria ofendido, se alguém comentasse que ele arrumou seu time assim ou assado, porque ele posiciona, tudo é posicionado. Da mesma forma que “colocar”, fica, por alguma razão, mais chique.

Finalmente, para não perder o costume, faço mais um réquiem para o finado “cujo”. Tenho a certeza de que, entre os muito jovens, a palavra é desconhecida e não deverá ter mais uso, dentro de talvez uma década. A gente até se acostuma a ouvir falar em espécies em extinção, mas, não sei por que, palavras em extinção me comovem mais, vai ver que é porque vivo delas. E não é consolo imaginar que o cujo e eu vamos nos defuntabilizar juntos.


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