Category: João Ubaldo Ribeiro

Nenúfares e fraldões – João Ubaldo Ribeiro

Por Editor, 14 de março de 2010 5:46

Aposto que, se eu não lhes dissesse, vocês não saberiam que hoje é o Dia Nacional da Poesia. Pois é, acho que ninguém lembra, é uma ingratidão com os nossos poetas. Pode ser que a pérfida memória me iluda, mas quero crer que antigamente os poetas eram mais estimados e poucos havia que não soubessem recitar uns dois poemas de cor. Até nos bregas da velha Salvador, lá conhecidos como castelos, alguns deles casas de cultura, era de esperar-se, antes de a noite acabar, pelo menos um Augusto dos Anjos caprichado ou um Olavo Bilac com o famoso plangente violão ao fundo. Aí pelo meio da madrugada, emoldurado por garrafas de cerveja e cercado pela admiração geral, um boêmio veterano recordava, com a voz soluçante e semiembargada, que a mão que afaga é a mesma que apedreja, embora o poeta fosse redimido pelo privilégio de ouvir estrelas.

Desde cedo a gente aprendia a admirar os poetas, que tinham até um perfil mais ou menos uniforme. Em primeiro lugar, usavam cabeleira de poeta e creio mesmo que algumas carreiras poéticas promissoras malograram porque o poeta ficou careca ainda moço e onde já se viu poeta careca. Em segundo lugar, traçavam todas as mulheres que decidiam seduzir com suas belas palavras, independentemente de idade, classe social, religião, cor ou estado civil, não havia essa que escapasse. Vários conhecidos meus tinham uma avozinha de cem anos que foi namorada de Castro Alves, era chique. Em terceiro lugar, o poeta passava meses sem ver o sol, era pálido e de saúde frágil, geralmente morrendo tuberculoso, com pouco mais de vinte anos.

A parte do morrer tuberculoso era meio chata, mas a gente se convencia de que o destino abriria uma exceção em nosso caso, conquanto morrer de sífilis ou envenenado por absinto fossem as outras opções. De qualquer forma, tentei muito ser poeta e devo admitir que comecei de forma desairosa, embora em conformidade com uma das mais venerandas práticas dos saltimbancos das letras de minha laia, ou seja, meter o mãozão no trabalho alheio. Bem verdade que eu não sabia direito o que era plágio, quando encontrei, num livro esquecido, um soneto escrito pelo general Osório. Copiei o soneto e o apresentei como meu, o que resultou em vistosa, se bem que efêmera, glória literária. Meu pai descobriu a falcatrua e me fez decorar e recitar o soneto perante a família, não sem antes anunciar que confessava se tratar de obra do general Manuel Luís Osório, marquês de Herval e patrono da Cavalaria. Passei grande vergonha, além de ter sido obrigado a estudar a vida do general.

Pouco depois disso, influenciado por um amigo intelectual, fui muito exortado a perseguir as tais belas palavras. Entre elas, não sei por quê, ele tinha preferência por “nenúfares” e tanto me impressionou que escrevi até uma coleção de besteiras rimadas intitulada “Nenúfares”, que, Deus seja louvado, nunca mostrei a ninguém, a não ser a meu pai, que aplicou nova ducha fria em minha trajetória poética, afirmando que nenúfar era coisa de baitola. Trauma de infância e deve ser por isso que até hoje não sei o que quer dizer “nenúfar”. Vou ao dicionário, olho e esqueço dez minutos depois, como agora (cartas sobre o que quer dizer nenúfar para o editor, por caridade).

Não cheguei a desistir e, já entrado na adolescência, comecei a ler o que então se chamava “poesia moderna”, execrada pelos mais velhos por dispensar rima e metro, mas, para nós, poetastros renitentes, uma benção. Não teríamos mais que procurar rimas nem ficar contando pés de versos, agora era só escrever em linhas de comprimentos desiguais. Foi isso mesmo que pensei, ao perpetrar o primeiro canto de um poema épico que trataria de nossas origens como povo, as famosas três raças tristes de que os livros antigos falavam. Escrevi quase um caderno todo e fui mostrá-lo a meu grande professor de português Antônio Barros, então começando carreira no também grande Colégio Central da Bahia. Acho que pressenti alguma coisa, porque não disse a ele que o autor do poema era eu.

- Ah, eu logo vi que não era você – disse ele, segurando o caderno à distância e fazendo uma careta, como quem pega em algo fedorento. – O autor deste negócio devia ser preso imediatamente, não pode ficar solto por aí. Evite a convivência, isso pega.

- Obrigado, mestre – disse eu e, de lá para cá, tenho contido meus ímpetos poéticos, não sem acentuada mágoa. A cabeleira desde os verdes anos já se foi, as mulheres nunca choveram, o estro continua a escapar-me. Mas isso não me impede de prestar minha homenagem aos poetas. Se nunca pude ser um deles, pelo menos posso exaltar seu papel. Se hoje é o dia deles, lembremos o quanto puseram em palavras o que para nós sempre foi indizível, o quanto nos abriram a sensibilidade, o quanto enobrecem a nossa língua, o quanto nos dão para recordar em comum.

E, se não posso fazer um poema comemorativo, posso pensar em outras celebrações. Ou posso juntar-me a quem esteja também comemorando. Procuro, pois, informar-me sobre o dia de hoje. Mas, com enorme decepção, constato que o Dia da Poesia não é observado no país de onde veio a nossa língua. Mais um golpe contra a poesia. Isto porque, em Portugal, vivendo e aprendendo, hoje não é o dia dela, mas o Dia da Incontinência Urinária.

Acho que estão tentando me dizer alguma coisa, ninguém liga mais para a poesia. Mas não é o caso de abandoná-la. Só aparentemente o Dia da Incontinência Urinária não pode ser conciliado com o Dia da Poesia. De minha parte, me sentirei recompensado se, depois de ler isto, alguém der um fraldão a seu velho mijão favorito, acompanhado de um cartão com versinhos.

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A companhia do finado Tancinho – João Ubaldo Ribeiro

Por Paulo Afonso, 7 de março de 2010 13:18

Um homem desses tendo de pedir desculpas!

A declaração indignada, proferida por um inflamado Jacob Branco, ressoou no Bar de Espanha, cujos frequentadores acabavam de assistir incrédulos ao noticiário sobre a vida sexual do campeão de golfe Tiger Woods. Particularmente chocante foi o pedido de desculpas que se seguiu e houve necessidade de elucidar o acontecido a alguns que permaneceram céticos e perplexos. Até mesmo o próprio Jacob, orador renomado e bem informado, me pediu que lhe explicasse aquela atitude surpreendente.

- Suspeitas confirmadas – proclamou ele, assim que acabei de tentar alinhavar a dificultosa explanação. – Esses americanos são todos uns anormais.

Achei a conclusão um pouco radical, mas ele insistiu. Quanto mais pensava nos americanos, mais colhia evidências da anormalidade. Não fora eu mesmo quem explicara que eles inventaram um tal ponto G e vivem procurando fazer fórmulas e até GPS para achar o ponto G? O resultado só pode ser que as mulheres ficam cansadinhas de tanta ciência e vão cuidar do ponto G delas com o primeiro leigo apresentável e num instante acham até o ponto picilone – cala-te, boca, são todos uns loucos celerados, não dava mesmo para acreditar, tanto atraso num povo tão adiantado. Eu ainda quis contrapor alguns argumentos, mas Jacob foi fulminante.

- Eu vejo o caso triste desse desaventurado – disse ele – e me lembro do finado Tancinho. Pronto, é o que eu lhe digo e quero ver você responder. Finado Constâncio da Pureza Brito, Tancinho Cobra Cega, você ainda pegou ele vivo e lendo sem óculos.

Sim, finado Tancinho Cobra Cega, claro, Deus o tenha, embora haja quem duvide. Jacob tinha razão, o velho Tancinho nunca pediria desculpas a ninguém, assim como ninguém entenderia tal pedido. Verdade que ele também não era tão normal assim, mesmo para os padrões exuberantes da ilha. Ele era, digamos, um destaque em matéria de mulher, mas Tiger Woods também é. E o exemplo dele – tirem suas próprias conclusões – pode ser usado para provar que esses americanos são mesmo uns anormais.

Viúvo das legítimas pela terceira vez, já bem entrado nos anos e meio curvadinho, Tancinho chegou a afirmar em várias oportunidades que não se casaria novamente. Não tinha mais a disposição da juventude, deixara a administração das quitandas com os filhos e netos e agora vivia só, na fazendola de Vera Cruz. Mas, sabe-se como são essas coisas, o sujeito se acostuma a certo tipo de passadio e de repente um acontecimentozinho corriqueiro traz de volta antigos costumes. No caso de Tancinho, dizem que ele ficou com umas ideias assistindo a um pato que ele criava dar assistência a suas patas. O pato, quando termina a função, estremece todo e cai duro para trás, é muito sugestivo.

Bem, pato ou não pato, o que interessa é que Tancinho virou, mexeu e acabou casando de novo. E, burro velho sendo, fez questão de capim novo. Escolheu logo Abigail, bela moça por todos estimada e ainda no frescor de seus quarent´anos, mas havida como talvez um tanto impetuosa, embora o apelido de Biguinha Venta Acesa pudesse não ser inteiramente justo. Depois da festa do casamento, foram viver na fazenda e pouco apareciam na cidade. Numa dessas aparições, Tancinho se queixou de que ela vivia meio triste, naquele isolamento da fazenda.

- Ela é muito jovem, precisa de alguém da mesma faixa de idade para fazer companhia, conversar com ela, sair com ela, essas coisas – disse ele aos amigos, num dos dias em que deu as caras na cidade. – Acho que vou arranjar uma pessoa para fazer companhia a ela. Vou chamar alguém para morar lá também, tem gente que gosta muito de vida em fazenda.

Trocando olhares significativos entre si, os presentes ponderaram que dificilmente alguém aceitaria o convite. As mulheres da idade dela eram todas casadas e as mais novas certamente não quereriam morar numa fazenda. Não, o único jeito de ter alguém jovem na fazenda era contratar um empregado de serviços gerais, um colhedor de dendê, um capataz, qualquer coisa assim. Mas isso estava fora de cogitação, pois, afinal, Tancinho não ia querer outro homem convivendo com Abigail naqueles ermos.

- Não sei por quê – respondeu ele. – Esses medos são para quem não bota fé no taco. Se tiver que ser homem, vai homem mesmo, comigo não tem essas besteiras.

Mais olhares significativos, pigarros, mexidas nas cadeiras. Depois que ele saiu, comentários falsamente comiserados, observações sobre como ele podia já estar começando a caducar, piadinhas maldosas. Mas o tempo passou e o assunto foi esquecido. Até que Tancinho surgiu novamente no bar, para rever os mesmos amigos. Estava muito contente, feliz de verdade. A decisão que tomara quanto a Abigail tinha sido a mais sábia de sua vida, agora ela estava feliz, tinha companhia para conversar e se distrair.

- Aliás – informou ele – a notícia é melhor ainda. Ela está grávida!

Olhares francamente significativos, bocas abertas, mãos juntas. Ah, sim, claro. Ele contratara mesmo alguém e agora esse alguém… Claro! Biguinha… Abigail ficara grávida logo depois da chegada dessa pessoa?

- Uns cinco dias depois, acho eu – disse Tancinho.

- Essa pessoa é rápida, hein?

- É, sim, já está grávida também – disse Tancinho – Mulher é um pobrema.

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Tempos modernos – João Ubaldo Ribeiro

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Por Paulo Afonso, 28 de fevereiro de 2010 17:41

Creio que seria otimista demais e falsearia um pouco a verdade, se dissesse que sou um idoso calouro. Faz um par de anos, a depender da jurisdição em que me encontrasse, eu era idoso ou não. Hoje sou, digamos, idoso universal, habilitado a sacar da algibeira o Estatuto do Idoso e dar carteiradas triunfais em filas de banco, bilheterias de cinema e embarques de avião. E, gradualmente, descobri que minha vida social é cada vez mais ocupada por médicos e clínicas, porque a manutenção do idoso requer atenção diuturna. Depois de algum tempo, a gente passa a funcionar na base do “se hoje é sexta, então aqui deve ser o cardiologista” e faz belas amizades entre os companheiros de destino.

Antigamente não havia tantas especialidades e muita gente se entendia com apenas um médico quase a vida inteira. Agora não, agora o sujeito vai a qualquer clínico e é imediatamente mandado a uma espécie de laboratório da Nasa, para fazer exames até em partes do corpo que nem sabia que tinha. O papo fica muito animado, em meio a relatos emocionantes de tomografias dramáticas, colonoscopias épicas, ultrassonografias arrebatadoras, ressonâncias magnéticas feéricas e dedadas diabólicas. Vínculos afetivos duradouros são com certeza formados pelas vítimas e é uma forma tão legítima de fazer amizades quanto qualquer outra.

É o que penso, chegando adiantado a uma sala de espera médica e me preparando para a demora. Dou um bom-dia meio entredentes ao único outro presente na sala, escolho uma cadeira perto das revistas, pego uma destas e começo a tentar me entreter com a narração do novo amor de uma personalidade de televisão. Lembro que, há poucas semanas, em outra sala de espera, o novo amor dela não tinha nada a ver com o atual. Coração espaçoso, o dela, ainda mais que cada novo amor é descrito como mais intenso que o anterior, coisa para toda a existência, até o próximo príncipe encantado aparecer.

Mas não chego a me inteirar dos detalhes desse amor febril, porque, ao ajeitar os óculos, ergui os olhos e o senhor à minha frente sorriu. Na dúvida sobre quem era, retribuí o sorriso e dei um “ôi, como vai?”

- Vou bem, obrigado – disse ele. – Mas o senhor não me conhece, eu é que o conheço. O senhor é escritor, escreve no jornal.

- É, eu sei, ninguém é perfeito, ha-ha.

- Eu leio sempre os seus escritos no jornal, gosto muito.

- Muito obrigado.

- Os livros eu não leio. Já tentei, mas não consegui.

- Nem eu. Só escrevi, nunca li.

- É interessante a pessoa conhecer um escritor pessoalmente. Ainda mais assim, na sala de espera de um psiquiatra. Nunca pensei em encontrar um escritor assim, na sala de um psiquiatra.

- Bem, eu não sou propriamente maluco.

- Eu sei, eu sei. São as neuras. Hoje em dia, ninguém escapa, a vida moderna é muito estressante. Mas eu pensava que o escritor dava vazão a isso em seus escritos, nunca imaginei… Eu achava que escritor, além de não trabalhar, também dava vazão as suas neuras escrevendo e botando tudo para fora. Para mim é uma surpresa.

- É, pode ser, mas eu estou aqui como o senhor está.

- O meu caso é a minha mulher. Você não imagina… Posso chamar o senhor de “você”? Obrigado. Pois é, você não imagina… Posso lhe fazer uma confidência?

- Bem, não sei, eu…

- Muito obrigado. Você já ouviu falar dessa mania que as mulheres estão agora, de posar peladas?

- Acho que li qualquer coisa.

- A minha agora entendeu de posar pelada, ela e umas amigas. Já vão contratar estúdio e fotógrafo, acho até que já contrataram.

- É para alguma revista?

- Não, não, é só porque elas acham que assim estão expressando sua liberdade, sem preconceitos, nem limitações, nem hipocrisia, nem falsos pudores e falsas vaidades. É o que ela diz.

- Mas ela está falando sério mesmo?

- Está, está!

- Ela não vai publicar essas fotos, vai?

- Acho que vai. Em revista, não sei. Mas ela já veio com uma conversa de calendário, junto com as amigas. E também um livro, se não conseguirem revista. Já têm até título para o livro. Vai se chamar “Mulheres de Verdade”, todas elas peladonas, no máximo de lingerie incrementada. Bem produzidinhas, maquiladas, penteadas, mas sem retoques nas fotos e sem nada de fotoxópi, isso ela diz que é fundamental.

- Acho que entendi o projeto, não deixa de ser interessante.

- Interessante? Isso não é normal, claro que não é normal. É por isso que eu vim procurar um psiquiatra.

- Mas ele não pode tratar sua mulher através de você. Por que ela não veio com você?

- Claro que não veio, a consulta não é para ela, é para mim. Ele tem que me dar uma superbola para quando esse calendário ficar pronto e eu tiver que passar na frente da barbearia. De cara limpa eu não enfrento, essa vida moderna é muito estressante.

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Ecos de Momo – João Ubaldo Ribeiro

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Por Paulo Afonso, 21 de fevereiro de 2010 12:35

Tudo bem, é verdade, confesso. Manda a honestidade reconhecer que já perdi a conta das vezes em que escrevi algo intitulado “Ecos de Momo”. Mas tenho argumentos em minha defesa, entre os quais ser do tempo em que os jornais, no sábado de carnaval, publicavam um editorial intitulado “Evoé, Momo!” e, na Quarta-feira de Cinzas, atacavam com os ecos. O primeiro exortava a que se brincasse o carnaval sem excessos e o segundo espinafrava ou elogiava as autoridades, conforme fosse o jornal da oposição ou da situação. Admito também que, encarregado, mais frequentemente do que mereciam meus pecados, de escrever esses editoriais, mandava buscar no arquivo os anteriores, misturava os períodos e parágrafos e compunha a nova peça jornalística – que de qualquer forma ninguém lia, era apenas o cumprimento de um ritual venerável.

Em meu favor, diga-se que qualquer um fica com problemas de concentração, com um trio elétrico na rua, soltando um megawatt de pauleira por segundo e ameaçando estilhaçar as vidraças e fazer voar portas de armários. Além disso, o ambiente na redação ficava meio esquisito. Claro, para quem se acostuma a ver um comentarista político redigir sua nota principal enquanto ajeita a saia de retalhos e passa a mão pela sua peruca de nega maluca, não há problema. Ao contrário do que muita gente pensa, a vida de jornalista é muito estressante.

Isso, contudo, não é suficiente para fazer desistir aqueles, como eu, que se diria terem tinta de impressão correndo nas veias. Nada de pegar colunas anteriores e fazer uma omelete. Em toda parte há uma notícia, como diziam meus mestres de jornalismo na minha primeira redação, e cabe ao faro do bom jornalista encontrá-la onde outros nada veem. E assim foi que, na manhãzinha da quarta-feira, saí à rua logo que clareou e me arrependi quase imediatamente de haver pensado nessa metáfora do faro do jornalista, porque meu faro de todos os dias me mandou uma mensagem fulminante: alguém devia ter aberto um tonel de amoníaco na rua. Mas não tive tempo de procurar onde estaria a fonte daquele odor quase letal, porque ela apareceu, como sempre inesperadamente e me pegando pela manga. Não a via há algum tempo, embora deva admitir que não estava com muita saudade e até agradecia não ter topado com ela por estes dias. Era a simpática senhora minha vizinha de bairro, cujo nome até hoje não sei, mas cujas críticas a meu trabalho conheço muito bem.

- Ah, você está aí! – disse ela. – Trouxe o caderninho?

- Caderninho? Que caderninho?

- Quer dizer que você não carrega um caderninho no bolso? Eu achava que todo mundo que escreve em jornal levava um bloquinho no bolso, para anotar as queixas que fazem a ele.

- Bem, até pode ser, mas eu não uso um bloquinho porque…

- … porque quer ter a desculpa de não falar num assunto que lhe encomendaram, dizendo que esqueceu! Mas, francamente, é uma decepção, mais uma decepção! Ninguém mais mete o malho nessa corja, é uma vergonha! Então você não está sentindo esse cheiro de xixi velho, parecendo que trancaram a gente no banheiro de uma rodoviária no Surinam?

- Estou, estou, é verdade.

- Então vai lá e desce o porrete! Aqui ainda dá para respirar, mas dois quarteirões acima é a esquina da morte, é câmara de gás ao ar livre! Mais um avanço tecnológico brasileiro, não é? Você não tem cachorro, tem? Se tivesse, nem queria saber de mais nada. Todo dia eu saio com meu cachorro na mesma hora, no mesmo itinerário, que ele já sabe percorrer sozinho. Mas hoje não, coitado, hoje ele endoidou na primeira cheirada aqui no canteiro. O pobre do animal surtou! Você sabe que o cachorro se informa de tudo pelo cheiro, não sabe? Pois é, depois de umas duas fungadas, ele já tinha se inteirado da vida íntima de umas quatrocentas pessoas, não tem cachorro que aguente, é um choque de informação! Tem que baixar o porrete nesse governo!

- Mas a senhora acha que, nesse caso, a culpa é do governo?

- Tudo é culpa do governo! Remexa bem remexido e você descobre que por trás de tudo está o governo. Desde d. Pedro I que eles nos enrolam! A Independência foi pras negas deles! A República foi pras negas deles! E que é que o povo fica fazendo? Fica mijando na rua e jogando no bicho e na megassena, é isso que ele fica fazendo, porque quem tem obrigação não cumpre sua obrigação! Aqui é carnaval mijado e jogatina, é isso o que nós somos, por culpa do governo!

Um pouco atordoado, aproveitei que mais donos de cachorros que ficaram doidões se juntaram para ouvir e aplaudir as denúncias dela e fui saindo disfarçadamente, com o cuidado de evitar a esquina fatal. No caminho da padaria, fui pensando no que ela me pedira, ou melhor, exigira. É, talvez tocando no problema da educação e no número pequeno de banheiros químicos, quem sabe se não seria adequado malhar o governo, como ela queria? E a jogatina patrocinada hipocritamente pelo governo? Mas não tive tempo para ponderações, pois, já na padaria, fui abordado por alguns companheiros de boteco. Que achava eu do caso Arruda? Comecei a falar, mas prontamente me interromperam. Não era nada disso que eu estava pensando, eles queriam era saber se eu entraria no bolão do Arruda, ia dar uma bela grana.

- Ah, sim, claro – disse eu. E aí fiz uma fezinha de vinte reais como quem vai parar na cadeia é o boy que levou o saco onde o Arruda botou o dinheiro. Acho que esse bolo está no papo.

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O sabiá político – João Ubaldo Ribeiro

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Por Paulo Afonso, 14 de fevereiro de 2010 6:23

Do ano passado para cá, o setor canoro das árvores, aqui na ilha, sofreu importantes alterações. Aguinaldo, o sabiá titular e decano da mangueira, terminou por falecer, como se vinha temendo. Embora nunca tenha se aposentado, já mostrava sinais de cansaço e era cada vez mais substituído, tanto nos saraus matutinos quanto nos vespertinos, pelo sabiá-tenor Armando Carlos, então grande promessa jovem do bel canto no Recôncavo. Morreu de velho, cercado pela admiração da coletividade, pois pouco se ouviram, em toda a nossa longa história, timbre e afinação tão maviosos, além de um repertório de árias incriticável, bem como diversas canções românticas. A esta altura, certamente já faz companhia a Francisco Alves, Orlando Silva e Nélson Gonçalves, musicando as tardes dos anjos lá no céu.

Armando Carlos também morava na mangueira e, apesar de já adivinhar que o velho Aguinaldo não estaria mais entre nós neste verão, eu não esperava grandes novidades na pauta das apresentações artísticas na mangueira. Sofri, pois, rude surpresa, quando, na sessão-alvorada, pontualmente iniciada às quinze para as cinco da manhã, o canto de Armando Carlos, em pleno vigor de sua pujante mocidade, soou meio distante. Apurei os ouvidos, esfreguei as orelhas como se estivessem empoeiradas. Mas não havia engano. Passei pelo portão apreensivo quanto ao que meus sentidos me mostravam, voltei o olhar para cima, vasculhei as frondes das árvores e não precisei procurar muito. Na ponta de um galho alto, levantando a cabeça para soltar pelos ares um dó arrebatador e estufando o peito belamente ornado de tons de cobre vibrantes, Armando Carlos principiava a função. Dessa vez foram meus olhos incrédulos que tive de esfregar e, quando os abri novamente, a verdade era inescapável.

E a verdade era – e ainda é – que ele tinha inequivocamente se mudado para o oitizeiro de meu vizinho Ary de Maninha, festejado e premiado orador da ilha, que com sua eloquência bota qualquer deputado no chinelo. Estou acostumado à perfidez e à ingratidão humanas, mas sempre se falou bem do caráter das aves em geral e dos sabiás em particular. O sabiá costuma ser fiel a sua árvore, como Aguinaldo foi até o fim. Estaríamos então diante de mais um exemplo do comportamento herético das novas gerações, os sabiás de hoje em dia serão degenerados? Eu teria dado algum motivo para agravo ou melindre? Ou, pior, haveria uma possível esposa de Armando Carlos sido mais uma vítima de Pedro Rodolfo, o mico canalha que também mora na mangueira e, se dão sopa nos ninhos, come os ovos de qualquer passarinho?

Bem, talvez se tratasse de algo passageiro, podia ser que, na minha ausência, para não ficar sem plateia, Armando Carlos tivesse temporariamente transferido sua ribalta para o oitizeiro. Mas nada disso. À medida que o tempo passava, o concerto das dez também soando distante e o mesmo para o recital do meio-dia, a ficha acabou de cair. A mangueira agora está reduzida aos sanhaços, pessoal zoadeiro, inconstante e agitado; aos cardeais, cujo coral tenta, heroica mas inutilmente, preencher a lacuna dos sabiás; e a Itamar, um pica-pau que, com seu topete escarlate, enfeita sem cantar, no máximo dando aquela risadinha de pica-pau de vez em quando. Sim, e ainda há os bem-te-vis, os caga-sebos, as fogo-pagous, as lavandeiras e outros, mas todos estes fazem parte da população flutuante, que não se interessa em obter visto de residência.

E estou assim posto em reflexão, quando me aparece Zecamunista, egresso de uma reunião do Comintern da Pesca de Tainha, cuja sede provisória é no Bar de Espanha. Sabido e inteligente que só o Cão, talvez ele soubesse o motivo para a atitude de Armando Carlos e podia até ser que conhecesse um jeito de trazer o temperamental solista de volta à mangueira aqui de casa.

– Não foi Pedro Rodolfo – me garantiu ele, depois que ventilei minha suspeita em relação ao mico. – Ele continua não valendo nada, mas não rouba mais os ovos de ninguém, depois que foi coberto de porrada por Wilson.

– Que Wilson?

– Wilson, Wilsão, é um bem-te-vi mariscador enorme, que todo dia passa por aqui a caminho da praia. É boa gente, mas não admite muita folga no território dele. Pedro Rodolfo tomou uma bicada dele no quengo que quase teve de ser internado e agora não quer nem saber de meter o mãozão nos ninhos de ninguém aqui, ele pode ser cafajeste, mas não é burro. Não, essa saída de Armando Carlos é política, é uma questão ideológica.

– Não venha me dizer que ele também é comunista.

– Há dois meses, antes de Ary se mudar de volta para cá, eu ia lhe dizer que sim, senhor, ele era comunista e ultimamente vivia no meu araçazeiro. Eu tenho certeza de que ele já estava solfejando a Internacional, ô saudade, aquela parte que diz: “Crime de rico a lei encobre/O Estado esmaga o oprimido/Não há direitos para o pobre/Ao rico tudo é permitido!”

Zeca, eu nunca soube de sabiá cantando hino, você está curtindo com minha cara.

– Eu jamais curto com a cara de ninguém, isso é um passatempo pequeno-burguês decadente. Meu coração proletário se enche de emoção, quando eu canto esse hino, você não entende. Mas, pois é, assim que Ary chegou, esse sabiá safado se mudou para o oitizeiro dele. Ary é alto funcionário da prefeitura de Vera-Cruz e vai conseguir para ele ração e frutas tipo boca-livre total o resto da vida, sem ele nunca mais precisar trabalhar.

– Mas aqui não é Vera-Cruz e o oitizeiro é aqui.

– O patife trocou de domicílio só no bico – informou Zeca, abanando desgostosamente a cabeça. – São os exemplos.

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Alertas para o golpe – João Ubaldo Ribeiro

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Por Paulo Afonso, 10 de janeiro de 2010 5:23

A vocação cívica aqui de Itaparica é sobejamente conhecida de todos, mas está sempre surpreendendo por sua intensidade. À primeira vista, o viajante nada perceberá, na névoa da madrugada que encobre delicadamente a Rua Direita ainda deserta, as pedras umedecidas do chuvisco que regou as plantas antes do amanhecer, o silêncio só quebrado pela algazarra da passarada. Talvez um jeguinho em seu passeio matinal antes de pegar no batente, talvez alguém indo assistir ao nascer do sol em cima do cais, tudo quieto e sossegado, como deve ser a venerável vila onde a história do Brasil começou.

Mas, da mesma forma que no passado, a aparência tranquila disfarça a ebulição estuante que nos pôs à frente de todos os grandes movimentos nacionais. Pois que murmúrio é esse, de vozes abafadas porém exaltadas, que o viajante ouve cada vez mais forte, à medida que se aproxima dos umbrais do Bar de Espanha? Alguma festa, que só terminou nesse instante? A numerosa família de Espanha arrumando o estabelecimento para mais um dia de intenso funcionamento? Talvez o rádio ligado nas notícias matinais?

Não, não, nada disso. Também da mesma forma que nas boticas e lojas de maçonaria dos tempos heroicos da Independência, a verdade é que essas vozes, agora muito altas, ao deter-se o viajante à porta do bar, são discursos e brados de conspiradores, gente versada em sedições e levantes, gente afeita ao combate e às lides revolucionárias, gente disposta a qualquer proeza ou sacrifício pelo bem da nação. E, em tom elevado e veemente, é inequívoco que a voz que mais se destaca é a de Zecamunista, inconfundível em sua eloquência vibrante e seu vigor nas denúncias que profere.

– Esse ministro Genro – diz ele, sublinhando as palavras com gestos de Castro Alves – está preparando um golpe, não podemos esmorecer na vigilância democrática! Deu nos jornais, qualquer um pode ler.

– Está escrito que vão dar um golpe?

– Não, claro que não, é tudo muito maquiavélico, a coisa é quase subliminar. Mas aí eu apelo para meus conhecimentos de enxadrista. Eles pensam que me pegam, mas eu já estou vários lances na frente.

– Mas o que foi que ele disse, afinal?

– Disse que d. Dilma é vítima de preconceito.

– Não entendi o que isso tem a ver com golpe.

– Primeiro passo! É o primeiro passo! Em seguida?

– Só você cantando esse jogo, Zeca, eu nem sei jogar xadrez direito.

– Eu canto, eu canto, embora estejamos num país de surdos e não adiante nada. O segundo passo está na cara: quem não gostar dela é preconceituoso.

– Bem, pode até ser.

– Lá vai você caindo na pegada do ministro, às vezes eu acho que aqui só tem otário. Terceiro passo: quem não gostar dela não só é politicamente incorreto como vai para a ilegalidade. Não pode ter preconceito no Brasil, discriminar ninguém por raça, aparência, sexo, nada. Então, quarto passo: quem disser que não gosta dela vai processado pelo Ministério Público.

– Zeca, você não está vendo que isso não pode acontecer?

– É, não pode mesmo. Vai ser pior, depois vem o quinto passo. Quinto passo: quem não votar nela vai em cana.

– Me desculpe, mas isso é delírio completo, isso não vai acontecer aqui, nem pode acontecer em nenhum lugar do mundo.

– Demonstrada mais uma vez a sua ignorância. A primeira condição para compreender o Brasil é levar sempre em conta que aqui acontecem coisas que não podem acontecer em lugar nenhum do mundo. Você viu os caras, lá em Brasília, passando bolos de dinheiro para lá e para cá? Viu o governador pegando dinheiro? Viu a deputada enfiando dinheiro na bolsa? Viu um cara metendo dinheiro na cueca e outro na meia?

– Vi, todo mundo viu.

– Negativo. Nem todo mundo viu, pelo menos do jeito que a gente viu. Tanto assim que até o presidente disse que aquelas cenas não davam para concluir nada. O que é que dava, então? Os caras parando no meio da enfiada de dinheiro no rabo para falar para a câmera? Atenção, Brasil, close na minha cueca, estou levando grana de propina e afanando o dinheiro dos trouxas! Que é que precisava mais, para mostrar que os caras estavam levando jabaculê, que eles saíssem no carnaval fantasiados de irmãos Metralha e carregando sacos de dinheiro?

– Você não deixa de ter alguma razão. Mas isso não vai ficar assim, vai dar processo.

– Vai, vai, sim. Quem de agora em diante mencionar essas propinas vai ser processado. Antes, já tomou porrada e pisada de cavalo, lá em Brasília mesmo e aí entrar em cana completa o tratamento.

– Você está muito pessimista, Zeca.

– Não, não estou, não, longe disso, minhas esperanças continuam mais vivas do que nunca. Tanto assim que vou fundar um jornal aqui na ilha, para lutar pelo povo e pelo proletariado e contra a exploração do homem pelo homem. Que é que você acha de “A Verdade”? “Pravda” quer dizer “verdade” em russo. Eu pensei até em convidar você para dirigir a redação, mas não só não confio muito nas suas posições políticas, como preciso limitar os custos. Felizmente, para ser fiel à verdade, basta assistir aos comerciais do governo e depois escrever o contrário.

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Recordando e vivendo num boteco do Leblon – João Ubaldo Ribeiro

Por Paulo Afonso, 3 de janeiro de 2010 6:56

– Esse clima de festa de fim de ano não te deixa meio deprê, não? Acho que mais triste que eu só o peru do Natal.

– Ah, nem me fale, cara, cada ano fica pior. Eu hoje quase nem venho aqui, só vim mesmo porque a Leninha faz questão que eu passe a tarde de sábado no boteco.

– É, você já me contou. Pelo menos isso, companheiro, poucos podem se orgulhar de que a mulher é que insiste que ele vá para o boteco. E depois tu diz que a Leninha não te compreende.

– Continuo dizendo. Ela me bota pra fora para eu não atrapalhar o carteado dela, pergunte a ela. Mas hoje quase que eu fico em casa mesmo assim. Eu me trancava no quarto, botava uma ampola de uísque e um balde de gelo perto da cabeceira da cama, ligava a televisão num canal com filme de bicho e ia esquecer tudo, inclusive o carteado, por mim ela podia perder até a casa de Búzios, não estou ligando pra mais nada, essa é que é a verdade.

– Pera aí, também não é assim. Está certo que no fim do ano se cria essa atmosfera meio melancólica, mas tem o outro lado. Mais um Natal na companhia da família, mais um ano se iniciando…

– Menos um ano, você quer dizer.

– Como assim? Não entendi.

– Tu ainda conta um ano a mais no réveillon? Mas é claro que não é um ano a mais, é um a menos, pode ir tirando no calendário da tua vida: menos um, cada dia está mais perto a passagem pela catraca. Você só tem menos dois anos que eu, também pegou latim no ginásio. Eu fui aluno do velho Messias, que era um terror, mas sabia ensinar e até hoje eu sei uns troços em latim. Tu sabe aqueles relojões antigos, de corda e pêndulo? Eles costumavam ter no mostrador uma frase em latim que o velho Messias repetia e a gente não ligava, mas hoje eu ligo muito, todo dia eu me lembro dessa frase.

– Tempus fugit, eu me lembro.

– Não, essa aí é mole, isso qualquer um diz. A que o velho Messias ensinou não se refere ao tempo, se refere às horas, a cada hora. Diz assim: Omnes feriunt, ultima necat. Sacou? Claro que não sacou, tu não foi aluno do velho Messias. Quer dizer: “Todas ferem, a última mata.” Tu conhece coisa mais terrível? Todas as horas ferem e a última mata, é isso mesmo. Cada horinha que passa é menos uma hora. Menos uma hora, menos uma hora…

– Isola, cara, e tu ainda fica olhando o relógio enquanto fala?

– É, a gente pode se enganar como quiser, mas da verdade ninguém escapa. E nem que eu quisesse escapar, não podia, tudo conspira em contrário, inclusive esse final de ano.

– É, mas por causa da tua interpretação, com essa ideia do menos um.

– Não tem nada de interpretação, é a realidade sem filtro. Esse ano eu fui pela primeira vez à reunião que minha turma de faculdade faz de cinco em cinco anos. Era de dez em dez, mas me disse o Gominhos, que é quem organiza tudo, que de dez em dez dava tempo demais para morrer uma porção, menos griloso é de cinco em cinco. Bem, eu nunca fui a nenhuma, mas este ano, 45 anos de formado, a Leninha também quis ir e aí eu fui. Triste decisão, devia ter continuado sem ir.

– Eu sei como são essas coisas, a gente chega lá e não se lembra nem do nome da maioria.

– Não, comigo não teve esse problema, eu não esqueço o nome de ninguém, lembrei todos, falei com todos. E o problema não era o nome, isso não seria problema, mesmo se eu esquecesse. Mas tu te lembra da Marcinha?

– Eu me lembro, o pessoal dizia que ela não tinha calcinha, tinha porta-joias. Ipanema inteira vivia aos pés dela, claro que eu me lembro. Deve estar meio velhusca, ainda é bonita?

– Um pouco menos que a Brigitte Bardot depois de velha, tu já viu a Brigitte depois de velha? Pois a Marcinha conseguiu embuxar mais que a Brigitte, a cara dela parece um pergaminho de banheiro do Tutancamon. Uma coisa tristíssima, tudo despencado, eu quase não conseguia olhar.

– É, tem gente que cai muito com a idade.

– Tem gente, não, todo mundo. Daquelas gatas de nosso tempo, não tem uma que não perca para uma ameixa seca em matéria de aparência, parece praga.

– É, mas elas devem estar dizendo o mesmo de você. Eu também conheci você na juventude com o apelido de Meio Quilo e hoje você tem meio quilo por centímetro cúbico de barriga.

– Olha quem fala! Quem tem mais pelanca no pescoço de toda a turma de nossa faixa aqui é você, parece até aquelas golas roulées de antigamente. E tua barriga já está dando a segunda volta por cima do umbigo, não vem botar banca em cima de mim, não.

– Tudo bem, mas isso só confirma que a gente nota a decadência dos outros e não vê a nossa, a gente tem de se enxergar.

– E por que é que você pensa que eu quase não desci hoje? Eu fiquei me olhando nos espelhos. Na suíte lá de casa, os armários embutidos têm espelho nas portas, a porta do banheiro tem espelho, só não tem espelho no teto. Aí eu estava de cueca, me olhando assim e a Leninha sentada na cama e aí eu me avaliei, aquelas pernas finas e sem cabelo, aquela careca, aquela bunda chocha… aí eu falei: “Leninha, vocês mulheres comem qualquer coisa.”

– Graças a Deus, bebamos a isso. Como é mesmo a frase latina?

03/01/2010

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