out 08

Minha primeira profissão, iniciada aos 17 anos, foi o jornalismo, motivo de grande orgulho. No meu tempo, não havia escola de comunicação, a gente se formava no tapa mesmo. Não sou diplomado, mas tenho a carteira do Ministério do Trabalho, velhusca porém digna, onde meu registro profissional é consignado. E uma das coisas que a gente logo aprende é que a convivência da imprensa com o poder é problemática. O poder, principalmente em países de tradição autoritária como o nosso (é isto mesmo o que estou dizendo), é muito melindroso quanto a qualquer crítica feita pela imprensa e, por ser amiúde corrupto ou delinqüente, costuma não ter grande apreço por uma imprensa livre.

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out 04

É com acentuado nervosismo que pego da pena para relatar as primeiras impressões do esforço de reportagem novamente empreendido por esta coluna, no afã de manter a nação a par dos mais recentes eventos aqui em Itaparica. Não falei antes por motivos de segurança, mas no momento me encontro no aceso do front em Itaparica, aonde cheguei faz alguns dias, pronto para desempenhar uma das mais nobres missões do jornalismo, qual seja a de ir diretamente à fonte das notícias, não importando os riscos envolvidos. Já estou tendo de enfrentar a penosa readaptação à radioatividade peculiar à ilha, cujos efeitos logo se fazem notar. A pobre vítima é avassalada pela compulsão incontrolável de cair em qualquer rede pela frente, para nela conservar-se o resto da vida, com intervalos para moquecas, vatapás, carurus, acarajés, abarás e outros sacrifícios gastronômicos impostos pelas circunstâncias locais. Felizmente a tecnologia colabora e é possível levar o lepitope para a rede e, durante cinco dias de trabalho intenso, completar a extenuante faina de enviar o material para o jornal, tomando fôlego para um clique de mouse a cada trinta mi-nutos. A vida do correspondente é dura. Basta que lhes conte que até agora não achei ninguém para me auxiliar a mover o queixo e assim mastigar umas cocadinhas que me deram de presente. Sei que é difícil acreditar, mas estou tendo de mastigar sem a menor ajuda, é muito estressante.

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out 04

— Eu não esperava te encontrar aqui. Tu não sai da cidade no carnaval?

— Saía, saía, tu tá ficando desmemoriado. Já tem três anos que eu não saio, não dá mais. Aqui é tranqüilo, é quase a mesma coisa que o interior. Aliás, é a mesma coisa, besteira sair, muita produção. Não, não, eu tou feliz aqui, tou muito bem.

— Tu não me engana, cara, tu diz que está satisfeito, mas não está, tu bem que queria estar na tua casa lá da praia, fazendo churrasco e encharcando a idéia com os outros viagreiros da tua turma. Que foi que houve, morreu gente? Quando se chega nesta idade, todo dia morre um, eu sei como é que é.

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out 04

Como alguns de vocês sabem, cheguei a iniciar a carreira de sexólogo, por causa de um livro que escrevi. Muito mais comumente do que se pensa, há leitores que não conseguem acreditar que se escreva sobre algo que nunca se experimentou. Volta e meia fica difícil conversar com eles. Uma vez, questionado sobre uma cena de parto contida em outro livro, encontrei dificuldade em provar que nunca tive um filho, digamos, pessoalmente — e até agora não estou seguro de que me dei bem. O interlocutor não pareceu muito convencido de que o famoso lado feminino de que hoje todos os homens têm de se orgulhar e manter com afinco, não era tão radicalmente desenvolvido em mim. O bigode, a careca e a voz grossa não se revelaram suficientes para tornar incontestáveis meus argumentos, pois, ao que tudo indicava, ele conhecia algumas boas mães de família com tudo isso e talvez mais alguma coisa. Suspeito que devo ter uma reputação meio estranha em certos círculos.

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out 04

Reza a venerável sabedoria popular que, quando o destino nos traz um limão, devemos, em vez de reclamar, fazer uma doce limonada. Venho pensando nisso há tempos e creio que já estamos produzindo diversas limonadas, mas sem planejamento e coordenação adequados. É natural: certas coisas ficam tão patentemente à vista que não as notamos. Apegamo-nos, como está mais ou menos na moda dizer, a velhos paradigmas. Mas é necessário mudar, é preciso que removamos os véus antigos que nos toldam a vista, ou não chegaremos nem perto da prosperidade sempre almejada e perenemente adiada. Abandonemos pudores descabidos, que só fazem atrapalhar. O mundo de hoje, regido pelo mercado, impõe a revisão de valores anacrônicos, irrelevantes e aliados do atraso a que parecemos condenados.

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out 04

— Tu soube da ceguinha hoje, antes de você chegar? Foi espetacular.

— Que ceguinha, aquela que faz ronda aqui toda semana? Mas eu já manjo ela há muito tempo, não é novidade nenhuma. Que foi que ela fez desta vez? Chutou a canela do Quixadá novamente? Pra mim esse nem foi o maior feito dela. Acho que todo mundo concorda que o maior feito foi quando negaram esmola e ela derrubou a mesa dos caras.

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out 04

Estava demorando um pouco, mas acabou aparecendo neste governo também. Como se sabe, a imprensa é culpada de tudo o que acontece de ruim. Tem sempre sido assim e não vai mudar. Volta e meia alguém se lembra de que o jornalismo é uma profissão perigosa, mas pouca gente de fato se preocupa com isso, até porque o perigo só é visível para a maioria quando os jornalistas estão cumprindo missões como a cobertura de guerras. Mas o perigo é bem mais amplo e, nesta minha já não tão curta vida, tenho sabido de jornalistas assassinados, agredidos, presos e até obrigados a um tipo de gastronomia peculiar à profissão: comer o jornal em que se escreveu alguma coisa que causou o problema denunciado. Comer jornais pode até não ser tão usual hoje em dia, a não ser que o Fome Zero tenha feito mais progressos do que os divulgados, mas, quando comecei a carreira, na Bahia, era corriqueiro, principalmente no interior. Acredito que, com a crescente desvalorização da vida, esse costume vem sendo substituído pelo assassinato mesmo. Sai mais prático e sem tantos problemas, eis que matar ou mandar matar alguém está muito fácil hoje em dia e, segundo me contam, a concorrência é tal que o serviço pode sair por algumas poucas centenas de reais, talvez pagos com cheques pré-datados ou vales-transporte.

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out 04

Às vezes a gente tem a impressão de que o Brasil é o país mais explicado do mundo. Talvez seja mesmo, até porque se trata de um hábito nacional buscar entender como uma terra tão extensa e rica parece hoje sem esperanças a tantos de nós. A colonização portuguesa, no momento um pouco esquecida, já serviu de explicação principal durante muito tempo. E não relacionada a fatores históricos pouco levados em consideração, ou mesmo ignorados, mas a noções que, de tão primárias, somente denunciam o preconceito ou a desinformação de quem as perfilha. Portugal, um país minúsculo e de população pequena, chegou, durante muito tempo, a ser uma das potências mundiais mais importantes e, no entanto, seu povo seria congenitamente incapaz. Desde pequeno, ouço como teria sido tão melhor se houvéssemos sido colonizados pelos holandeses, pelos ingleses, pelos franceses e assim por diante. Aí, sim, seria sangue bom, herança genética superior, que nos teria assegurado o desenvolvimento que jamais tivemos e talvez jamais venhamos a ter.

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out 04

Claro, já estava por acontecer há muito tempo, só não via quem não queria. E olhem que as novidades mal começaram. Como sempre, asseguram-nos que o alcance delas é cientificamente limitado e, mesmo que não fosse, haverá leis severas para coibir abusos. Tudo conversa fiada, claro, assim como era conversa fiada (embora os americanos não soubessem disso, porque acreditam nos filmes que eles mesmos fazem sobre como são sempre os mocinhos) a noção de que a invasão do Iraque seria uma espécie de passeio, um piquenique animado a fogos de salão. Já tínhamos visto um outro tipo de filme, como observei modestamente na ocasião, continuamos a vê-lo e conviveremos com ele, ai de todos, ainda por muito tempo.

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out 04

Hoje vou transcrever textos alheios. Não por preguiça ou falta de assunto, mas porque creio serem uma interessante amostra do que vai em muitas cabeças, sobre o escandaloso terror que acossa a cidade do Rio de Janeiro. Escrevi parte do que penso no domingo retrasado. Mas o debate é bem mais variegado. Vejam duas opiniões em cujos textos não meti nem uma vírgula, nem corrigi o que imagino serem descuidos de revisão. A primeira talvez vários de vocês já conheçam, pois circula na internet faz um tempinho, mas não lhe consegui confirmar a autoria, daí não a mencionar, para não correr o risco de endossar uma atribuição falsa. E a segunda me foi enviada por um leitor que prefere não ter a identidade divulgada, porque só quer dizer o que pensa, mas não quer polemizar. Veio encimada por uma citação da governadora, que teria observado que “O usuário financia o tráfico e o estado é que paga o pato.” Seguem elas grifadas, aí embaixo.

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out 04

— General McBlaster, muito obrigado por sair de seu descanso na reserva para dar uma opinião sobre a participação do Exército brasileiro na repressão do crime na cidade do Rio de Janeiro. Um homem com sua experiência certamente terá muito a dizer.

— Não, não creio que tenha muito a dizer. O que eu vou dizer qualquer militar sabe e não deve ser nenhuma novidade para meus colegas argentinos.

— Brasileiros.

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out 04

Não adianta falar mais, o assunto já é velho e interessa a relativamente poucos leitores. Como tudo em nosso tempo, durou pouco e foi esgotado pelos consumidores de informação que nos tornamos. Transferimos para a informação e mesmo para a denúncia os hábitos de consumo contemporâneos. Tudo é objeto de consumo ávido, cansa e fica obsoleto às vezes em minutos, o que se exemplifica pela lembrança, apenas um pouco exagerada, de que, ao tirarmos um computador novíssimo da embalagem, ele já está superado por novo lançamento. Da mesma forma — e o comentário está virando lugar-comum — a maioria dos que hoje são chamados de “celebridades” permanece nessa condição durante alguns dias ou meses, para depois sumir.

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