Category: João Ubaldo – 2008

Admirável ano novo – João Ubaldo Ribeiro

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Por Editor, 28 de dezembro de 2008 6:02

Era comum, talvez ainda seja, que o infeliz plantado numa redação na véspera de Natal, com uma página somente esperando uma matéria dele para rodar, não resista ao título que, em temível concerto telepático, também vem à cabeça dos outros na mesma situação, e taque lá “Admirável Mundo Novo”, tirado, como sabemos, do livro do mesmo título de Aldous Huxley. Aqui, fiz uma inovação, na esperança de que ela não ocorra também a mais de dez por cento dos aflitos. Boto “ano”, em vez de “mundo” porque é cada vez mais assim. O que era para acontecer somente daqui a décadas acontece amanhã e, descontada a crise, creio que certos setores, notadamente do mercado de eletrônicos às vezes pisam no pé das novidades, para que elas não terminem embotando a capacidade de absorção ou compra do consumidor.

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Somos todos ladrões? – João Ubaldo Ribeiro

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Por Editor, 21 de dezembro de 2008 6:23

Não, sério mesmo, somos todos ladrões? Gostamos muito de criticar “o brasileiro”, como se não fôssemos brasileiros também. Mas somos e, portanto, o certo não é perguntar se o brasileiro é ladrão, mas se podemos ser descritos como um povo constituído basicamente de larápios, aí compreendidos os corruptos de toda sorte, até mesmo os que recebem um “por fora” com a expressão honrada de que não estão fazendo nada de errado, estão fazendo o que há séculos vem sendo feito. Foi a primeira coisa, por exemplo, que o presidente Lula disse, quando começou a revelação de irregularidades no financiamento de sua campanha política – é assim que sempre se fez neste país.

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Realidade, que realidade? – João Ubaldo Ribeiro

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Por Editor, 14 de dezembro de 2008 2:57

A frase “os números não mentem” nunca deixou de ser verdadeira. Contudo, os números só existem na cabeça do homem, e o homem mente. Ou seja, é fato que os números não mentem, mas há grande fartura de gente que os emprega para mentir. E os números costumam intimidar quem os escuta, principalmente aqueles, que imagino maioria, em que a matemática ressuscita o terror experimentado nos bancos escolares. A precisão do número é mortal e dá sempre a impressão de que quem os utiliza, numa argumentação qualquer, tem razão. Isso cria situações curiosas, porque, em certos casos, quanto mais “preciso” o número, mais suspeito ele é. Estatísticas como “37,23 por cento das crianças de tal cidade consideram a freqüência à escola uma perda de tempo” se originam de dados que não podem ser apresentados dessa forma, principalmente porque há neles uma margem de erro que varia de caso a caso. Desconfiar, pois, de números tão certinhos assim.

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A popularidade do homem – João Ubaldo Ribeiro

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Por Editor, 7 de dezembro de 2008 4:31

Tenho andado em contato assíduo com Itaparica. Como já lhes contei aqui, arrombaram minha casa e fui obrigado a tomar providências. Creio que não contei que os ladrões não acharam nada para levar, porque, felizmente, nossas pratarias Rochedo e nossos cristais Cica estavam a salvo, na casa de minhas primas Saldanhas. Sim, para não saírem desmoralizados, eles levaram toda a fiação elétrica da casa, imagino que tencionando vender o cobre por peso, sem saber que poderiam obter melhor preço em qualquer museu, já que aquela fiação, ao que sei, deve ser anterior a meu nascimento, ocorrido em meados do século passado, na mencionada casa.

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Velhotes municipais – João Ubaldo Ribeiro

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Por Editor, 30 de novembro de 2008 18:41

Como se sabe, ter uma bela qualidade de vida na velhice depende fundamentalmente de se ter uma péssima qualidade de vida na juventude e na maturidade. Nenhum relacionamento com comida, por exemplo, pode ser prazeroso e livre, mas fiscalizado com desconfiança. Claro, com o tempo o sujeito é até sincero, quando descreve como delicioso um milk-shake de leite de soja, castanha-do-pará e capins de diversas espécies, sem gelo ou adoçantes e nada “químico” (palavra cujo emprego nunca entendi direito, pois tudo o que existe é, de certa forma, químico). A gente se acostuma a qualquer coisa e não se deve dizer “esse milk-shake eu jamais tomarei”. O mesmo com exercícios físicos e mentais. Aqueles são antinaturais e estes requerem que se goste de fazer palavras cruzadas ou resolver problemas matemáticos, atividades que, se eu dependesse delas para viver, já estaria na cova faz muito. E por aí vamos, a vida da pessoa com qualidade de vida não é moleza, depende de muito esforço, não é assim para qualquer um, como eu.

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O fim da dedada num boteco do Leblon – João Ubaldo Ribeiro

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Por Editor, 23 de novembro de 2008 5:38

– Você já tomou a dedada este ano?

– Dedada, que dedada?

– A dedada, cara! Todo mundo aqui sabe o que é a dedada, todo mundo aqui toma a dedada, com exceção do Menezes, que diz que nunca tomou.

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Obama e o pré-sal – João Ubaldo Ribeiro

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Por Editor, 16 de novembro de 2008 2:14

Apresso-me em tranqüilizar os que temem que, nas linhas abaixo, eu venha a expor uma intrincada trama, segundo a qual o presidente-eleito Obama trabalhou sob identidade falsa na Petrobras e agora seu primeiro plano de ação, em conluio secreto com os interesses petrolíferos do antecessor, é invadir o Brasil e levar com ele nosso precioso pré-sal. (Falar nisso, o jornal bem que podia pautar alguém para descobrir o que é pré-sal, porque só se fala nele, mas, ao que parece, ninguém sabe bem do que se trata – existirá alguma água no mar anterior ao sal, ou qualquer coisa assim, triste ignorância?)

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Itaparica se moderniza – João Ubaldo Ribeiro

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Por Editor, 9 de novembro de 2008 17:13

Sei que, depois de todo o rebuliço em torno das eleições americanas, agora vocês mal podem esperar as novidades lá da ilha. Por favor não briguem para ver quem lê primeiro. Reconheço que trago notícias extraordinárias, mas não vamos brigar no domingo, já basta o resto da semana. E já basta o que tem rolado ultimamente lá em Itaparica. No cemitério onde jaz o coronel Ubaldo, meu avô, ele já deve ter ganho o apelido de Carrapeta, de tanto que há de estar rolando na tumba.

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A ilha na vanguarda – João Ubaldo Ribeiro

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Por Editor, 2 de novembro de 2008 14:06

Neste belo domingo de sol, etc. etc., ia começando outra vez, mas me bateu algo que tenho de dizer antes, praticamente por uma questão de educação. Muita gente, notadamente alguns estrangeiros que vivem no Brasil e lêem português bem, ficou baratinada com os dois primeiros parágrafos da coluna passada. Desculpem, por favor, sobretudo os que tomaram tranqüilizantes achando que a imprensa brasileira estava sendo inopinadamente ocupada por loucos e os que se encontram com a musculatura dolorida por levarem aquilo excessivamente a sério e terem levantado dicionários em demasia, mesmo em dia de exercício. O marido holandês de uma amiga nossa teve um princípio de crise nervosa e minha irmã me telefonou da Bahia querendo o número de meu psiquiatra e perguntando se eu já considerara a hipótese de ter recebido um caboclo ou coisa assim – o que, aliás, me levou a indagar se ela estava me estranhando, pois que eu não recebo nem nunca recebi nada, nem no concreto nem no figurado, é bom deixar isto bem claro. Desculpem, não torno a outra, embora, baiano sendo, não possa garantir, já que a baianada vive tomando intimidades descabidas com a língua.

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O que dizem as mãos – João Ubaldo Ribeiro

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Por Editor, 26 de outubro de 2008 11:18

Na fímbria longínqua do horizonte, emoldurada por nuvens etéreas, a rododáctila deusa Aurora, entre cores de matizes indizíveis, já afasta os véus arautos da ascensão gloriosa do Astro-Rei, que logo cruzará mais uma vez o nosso céu abençoado, alardeando ao mundo a grandeza da Criação e a sublime dádiva da Existência. Entre as cobertas macias que lhes envolviam os corpos tão felizes quanto suas almas afortunadas, os brasileiros principiam seu garrido despertar, tornado ainda mais venturoso que de hábito, pela lembrança que logo lhes vem às mentes jubilosas: hoje é novamente dia de eleição!

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O dinheiro do prêmio – João Ubaldo Ribeiro

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Por Editor, 23 de outubro de 2008 18:00

Não é para me promover, não só porque não faço isso, como porque a notícia já é velha e saiu em tudo quanto é canto. É porque preciso lembrar que ganhei o prêmio Camões para o que vou contar possa ser bem compreendido. Tudo bem, ganhei o prêmio, soube atrasado e me entrevistaram logo em seguida. Eu ainda não tinha nem processado a informação direito, embora isto não seja desculpa, até porque não agi de forma a ter de pedir desculpas por nada. Me perguntaram de chofre por que eu achava que tinha sido contemplado e respondi que era porque merecia.

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