Category: João Ubaldo Ribeiro

No tempo do livro – João Ubaldo Ribeiro

Por Editor, 9 de maio de 2010 21:30

Ah, nem conto a vocês como era, fico com medo de acharem que estou mentindo. Mas sei que não estou, quando lembro o dia começando a se esgueirar por entre as frestas dos grandes janelões do casarão térreo em que morávamos, e eu, menino de oito ou nove anos, pulando afobado da cama, para mais uma vez me embarafustar pelo meio dos livros. Quase febril, ansioso como se o mundo fosse acabar daí a pouco, eu nem sabia com quem ia me encontrar e aonde viajaria, em nova manhã encantada. Não havia problemas para eu me embolar com os livros, porque eles não só estavam junto à minha cama, mas espalhados da cozinha ao banheiro, em estantes para mim altas como torres, algumas das quais tão pejadas que volta e meia estouravam, viravam cachoeiras de papel e vinham abaixo, dando a impressão de que as paredes e o chão se dissolviam em livros.

Problema havia na escolha, porque nenhum deles era proibido por meu pai, a não ser, como muito depois ele me contou, os que ele queria que eu lesse, me escondendo sem saber que tinha caído num ardil. Podia ser mais um volume da coleção de Tarzan que eu já tinha lido praticamente toda e não acabava nunca, porque repetia os favoritos. Não, talvez o Dom Quixote, em dois tomos imponentes que eu mal conseguia sopesar e cheio de palavras portentosas que eu não compreendia e não ousava me esclarecer com o velho, porque já conhecia a resposta.

- Dicionário, jumento bípede – respondia ele. – E copie o verbete para me mostrar depois.

- O que é verbete?

- Dicionário, miolo ralo. E copie esse também.

As gravuras de Gustave Doré que ilustravam as desditas do engenhoso fidalgo, em imagens cheias de sombras e figuras desconhecidas, me metiam medo mas eram irresistíveis e, mesmo sem entender direito o que aquele livro tremendo me contava, eu sempre voltava a ele e muitas vezes me pilhei devaneando em meio a um descampado e diante de cata-ventos, na companhia de um magrelo em seu cavalo ainda mais magro e de um gordo em seu burrico. Mas eu podia preferir ingressar na Legião Estrangeira, relendo Beau Geste ou Beau Sabreur, que me deixavam com sonhos de me alistar assim que completasse vinte anos, para ir viver entre os lendários tuaregues e conquistar o amor da mais linda princesa do deserto.

Ou podia ir para o Sítio do Picapau Amarelo. Quando Monteiro Lobato, ainda hoje, para mim, um dos maiores escritores de todos os tempos, em qualquer lugar, morreu e seu enterro foi mostrado pela revista O Cruzeiro, demorei muito para acreditar. O sítio continuou a existir, do mesmo jeito que o pó de pirlimpimpim, a viagem ao céu, o saci-pererê e toda a mágica que o grande Lobato criou. Tanto assim que peguei um caderno e comecei a escrever novas aventuras de Narizinho, Emília e Pedrinho, até que meu pai olhou minha produção, disse que estava mal escrita, me chamou de plagiário e me mandou ver no dicionário o que isso queria dizer.

Desisti da empreitada, mas persisti em escrever, para desgosto do velho, que até morrer lamentou que eu não fosse tabelião, como ele com toda a razão queria.

Os outros meninos do bairro podiam não morar num mar de livros como eu ou, ainda menos, ter um pai igual ao meu, mas não eram muito diferentes. Jogávamos bola (eu, hoje craque do passado, era fominha), brincávamos de médico com as meninas, fazíamos tudo o que as crianças daquela época podiam fazer, mas todo mundo gostava de ler, porque ler representava a liberdade e a fantasia. Comentávamos nossos heróis, organizávamos empréstimos de livros e gibis e mentíamos esplendidamente, em tertúlias em que acreditávamos nas histórias dos outros, contanto que acreditassem nas nossas – era tudo a verdade de nossas imaginações. A vã memória não distingue mais entre o que eu contava e os outros contavam, mas isso não tem importância. Todos nós, afinal, voávamos com Peter Pan e Sininho e alguns de nós namoraram com a Wendy. Não houve um que não tivesse enfrentado piratas, descido ao fundo do mar, ficado invulnerável a qualquer arma ou invisível à vontade, decifrado códigos secretos, falado todas as línguas e vencido todas as guerras e batalhas. Para isso, não tínhamos mais que os livros, não precisávamos de mais que eles.

Mas isso era naquele tempo. Hoje, como nos informam a toda hora, os livros estão mudando, aperfeiçoam-se cada vez mais. Para ler modernamente, dever-se-á usar um dos muitos leitores eletrônicos que já existem no mercado e que ainda vão surgir. Segundo uma notícia, um desses aparelhos possibilita que seu usuário (não é mais leitor, é usuário) interaja com as chamadas redes sociais na Internet. Suponho que se lê um pedacinho e se manda um comentário via Twitter. Também estarão disponíveis, em breve, livros com trilha sonora e com trechos narrados por voz. Os romances e peças virão com clipes dos cenários descritos pela narrativa, entrevistas com o autor, facilidade em substituir palavras difíceis por sinônimos acessíveis, interatividade com o usuário (“faça seu final, case Romeu com Julieta”) – o céu é o limite.

Acredito que, em relação a isso, vale uma comparação com o celular, o qual começou como telefone, mas hoje é máquina fotográfica, batedeira de bolos e ferro de passar e desconfio que está substituindo o(a) parceiro(a) sexual. Admirável livro novo, que faz uma maravilha atrás da outra e nem puxa pela imaginação, tudo já vem imaginado para você. Espero que, tão famosamente equipado, o usuário ainda encontre um tempinho para ler.

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A injustiçada galinha – João Ubaldo Ribeiro

Por Paulo Afonso, 2 de maio de 2010 13:11

Deu no jornal que o presidente Evo Morales responsabilizou o frango pelo efeminamento de homens que, do contrário, seriam machos exemplares. Os bolivianos estariam cada vez mais soltando a franga, depois de comer frango. Não sei se o fenômeno já atinge proporções inquietantes por lá, mas não posso deixar de defender a galinha em mais este transe. Nós, defensores da galinha, ficamos irremediavelmente desfalcados de nosso grande representante Tom Jobim, que nos deixou pouco depois de fundarmos juntos a Liga Antidifamação da Galinha, concebida depois que ele pronunciou uma conferência inesquecível sobre o tema, à mesa de churrascaria em que nos reuníamos quase diariamente. Com a falta que ele faz, a responsabilidade dos correligionários aumenta e cabe reconhecer que, de fato, os frangos de granja são tratados com hormônios, o que certamente causa maus efeitos em quem consome sua carne. Mas esquecem que primeiro causam maus efeitos nos próprios frangos, os quais, além de serem afrescalhados à força, sem direito a reclamar, não podem nem ter o gostinho de descontar em quem os come.

A galinha, para começar, tem em comum com outros animais úteis o fato de que seu nome constitui xingamento ou depreciação. É assim com vaca, peru, pato, burro e vários outros, ao contrário de tigre, leão, lobo ou o genérico “fera”. O peru, por exemplo, deve sofrer muito psiquicamente, porque enfrenta um grave problema de identidade, mesmo se excluídas as associações a esta altura já feitas pelos maliciosos. Em português, ele é conhecido como peru, porque se achava que se originava do Peru. Já no Peru, ele é chamado de “pavo”, reservando-se para o pavão a designação de “pavo real”. Ou seja, duvida-se até mesmo de que ele seja real e certamente o afligem indagações sobre se sua vida não será apenas uma alucinação. Na Alemanha, ele era antigamente chamado de “kalikutischer Hahn” ou seja “galinha de Calicute”, afronta dupla, porque ele nem é galinha nem é de Calicute, que, por seu turno, ninguém sabe direito onde fica. Hoje os alemães o chamam de “Puten”, o que não melhora muito as coisas. Na Inglaterra e nos Estados Unidos, ele é denominado “turkey”, porque, apesar de nativo da América do Norte, foi por ela rejeitado, pois se acreditava que vinha da Turquia. Na França, ele é “dindon”, de “coq d”Inde”, ou seja “galo da Índia”. E por aí vai, entendendo-se perfeitamente por que o peru tem aquele ar desnorteado. Por muito menos, qualquer um de nós também teria.

Quanto à galinha sempre foi das mais atingidas, até em comentários como o de que determinada senhora ou senhorinha não pode tomar banho quente, senão vira canja. Ou seja, um animal sem o qual a sobrevivência da Humanidade estaria ameaçada é tratado dessa forma desairosa. Até mesmo sua condição animal vem sendo negada e, pelo menos em alguns círculos importantes, ela já não é tratada dessa forma, como, aliás, anunciou o Tom, num dos debates da churrascaria.

- A galinha não é mais bicho – disse ele, brandindo uma revista. – Os americanos redefiniram a galinha, está aqui num documento do Departamento de Agricultura deles. A galinha agora se define como um sistema destinado à conversão de proteína vegetal em proteína animal. Pronto, nem direito a cobertura da Sociedade Protetora dos Animais ela tem mais, acho que foi o golpe mais terrível que ela já recebeu. Cassaram tudo, não vão chamar mais o veterinário, para quando elas ficarem doentes, vão chamar o mecânico, conserte essa galinha aqui, deve ser o condensador, já imaginaram a humilhação? Acho que devemos pensar em instituir e apoiar a Resistência Galinácea, o mundo sem a galinha vai perder muito e, sem o canto do galo, é possível que não amanheça mais em lugar nenhum, isso é um perigo. Pode ser uma boa a gente ir criando umas galinhas no quintal, para depois soltar na floresta da Tijuca, para elas viverem na clandestinidade, a salvo da CIA. Dentro de algumas gerações, teremos a galinha silvestre carioca, a galinha é nossa e ninguém tasca, ninguém chamará nossas galinhas de sistemas conversores de proteínas.

A novidade não devia surpreender, acrescentou ele, pois as galinhas já são verdadeiros zombies, nas granjas. Nas gaiolinhas em que elas são confinadas, juntinhas umas das outras e separadas apenas por uma tela, não há espaço para muito movimento, de maneira que elas ficam neuróticas e começam a bicar-se, tentando comer-se vivas. Para evitar que façam isso, cortam-se as pontas de seus bicos com um aramezinho incandescente. Também se cortam unhas e esporões pelo mesmo motivo, de maneira que de fato elas cada vez se assemelham mais a máquinas.

E ainda houve o caso triste das galinhas do Arizona, se bem recordo qual o Estado americano envolvido. Mais ou menos um terço do que as galinhas jovens ingerem se transforma em penas, o que configura grave prejuízo para os criadores. Aí pesquisaram bastante e desenvolveram no Arizona uma galinha sem penas, somente com umazinha aqui ou acolá, para lembrar que se tratava de uma galinha. Mas, coitada, ela acabava morrendo de frio no inverno e, como os custos de aquecimento eram superiores aos da ração transformada em penas, desistiram dela, ainda mais que os consumidores ficaram com nojo daquela pele de galinha lisa e afirmaram que tinham a sensação de estarem comendo um lagarto.

- Diante de tudo isso – concluiu um dos participantes da mesa -, acho que devemos erguer um monumento à galinha desconhecida.

- Meu voto é a favor, bela ideia – disse Tom. – Vai fazer muita gente se sentir homenageada.

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Planejamento familiar – João Ubaldo Ribeiro

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Por Paulo Afonso, 25 de abril de 2010 0:02

Basta ler as seções de ciência ou medicina dos jornais ou assistir a certos documentários, para compreender que já começou a passar o tempo em que o máximo que um casal esperando um filho discutia era o nome do pimpolho. Hoje é o mínimo, até porque me contaram que já se pode recorrer a profissionais especializados. O freguês fornece os dados necessários e o especialista consulta fontes que vão da etimologia à numerologia, a fim de determinar cientificamente o nome a ser dado à criança. Nada desse negócio de santo do dia, homenagem a artista de TV ou chamar o júnior de Djalmotércio, para lembrar os avôs Djalma e Natércio.

Agora e no futuro próximo, com os avanços da genética e das técnicas de manipulação de gametas, ovos e embriões, as discussões serão bem outras. A mais fácil de prever é em relação ao sexo da criança, o que pode ser quase trivial numa cultura como a nossa, mas deve dar grandes arranca-rabos em outros contextos. Por exemplo, há regiões em que descendentes do sexo feminino representam prejuízo certo, por causa do dote em que o velho tem que morrer, na hora do noivado da filha. Na China, segundo me dizem, o comum é também a preferência pelo sexo masculino, com a consequência de que, se for pela vontade dos seus cidadãos, em breve a humanidade se defrontará com hordas de donzelões chineses cheios de amor para dar – e felizmente não deverei estar aqui, quando essa volta de Gêngis Kan se realizar. Acho que entre nós haverá outras prioridades e não demora para aparecer um Photoshop intrauterino, talvez denominado Babyshop.

- Que é que você está achando do cabelo, assim encaracoladinho? – pergunta o orgulhoso papai, diante do monitor.

- Horrível – diz um tio. – Isso não se usa mais.

- Como, não se usa mais? O que não se usa mais é esse negócio estufado aí de que você gosta, você parece um outdoor de Itamar Franco. Minha filha vai ter cabelo cacheado!

- Cacheado não é encaracolado, deixe de ser burro, você não sabe inglês. Olhe aí na janela do programa: kinky é bem encaracolado, curly é que é cacheado. Clique no curly, dois cliques.

- Não clico em nada. Pensando bem, esse programa é pirata, é melhor não mexer nisso, outro dia ele travou e deixou a menina com um olho de cada cor e a cara tortinha, foi um custo para eu deletar. Não, o melhor é só ir no certo. Cor dos olhos dá tilt, cabelo pode dar também, acho que busto não. Olhe aqui, o programa já vem com dezoito bustos pré-formatados para escolher.

- Que horror, está se vendo que é programa americano, o menorzinho deve ter uns quatro metros cúbicos, isso aí não é peito, é um carro-pipa. Você não vai querer sua filha com uma marquise dessas em cima da barriga, vai?

- É, tem razão, mas dá para moldar aqui, é só levar o mouse com delicadeza por aqui, depois aqui…

- Cuidado! Ah, meu Deus, o útero está em linha? A placenta está conectada? Que cabo é esse na barriga dela?

- Não, não, esse cabo aí é o da webcam, para eu mostrar imagens do neném dentro da barriga para minha família, lá em Porto Alegre. Eu não faço esses retoques em linha. Primeiro eu trabalho aqui, salvo tudo e depois aplico.

- Ah, graças a Deus, ia ser um desastre. Como pai, você pode ser fantástico, mas, como usuário de computador, tenha a santa paciência.

- Isso é preconceito seu comigo, me dê uma boa razão para você afirmar isso.

- Dou duas. Os dois peitos de minha sobrinha. Ficaram nas costas, olhe aí. Se fosse em linha e você tivesse dado enter, essa menina ia ter de arranjar um marido muito especial, quando crescesse.

- Ih, cara, é verdade. Desfazer, desfazer, onde é que clica para desfazer? Se eu der Ctrl+Alt+Del, a menina some?

E, pior ainda, apesar de poderem desgastar e estressar, discussões como essa não deverão ser as mais acaloradas, porque a ciência não para e a última novidade é a participação de duas mães na constituição do ovo, ou seja do óvulo fertilizado. Os cientistas envolvidos dizem que não, mas tem quem jure que isso prenuncia o bebê coletivo, ou seja, de várias mães e pais. Imagino que vai se pegando um traço aqui, outro traço ali e se faz tudo como num jogo de armar. Deve dar muita margem à inventividade e até fico pensando nessas mães disputando no palitinho qual delas vai parir, pois, afinal, o filho pode ser de várias, mas quem vai dar a padecida no paraíso inicial terá que ser uma só.

Inútil discutir sobre se isso tudo é bom ou ruim. O ser humano sempre viveu querendo controlar aquilo com que se relaciona, inclusive o organismo de sua espécie e sua reprodução. Portanto, deve ser o progresso. Portanto, devemos preparar a sociedade para enfrentar adequadamente as novidades. No Brasil, considerando-se que somos o povo mais tudo do mundo, isso não constituirá dificuldade. O filho coletivo provavelmente será educado por um comitê de representantes de seus pais e mães. E, como as aptidões também vão ser programáveis, esse comitê escolherá, antes do nascimento e a partir de pesquisas de mercado, a profissão do menino, distribuindo quotas de participação entre os pais, que assim terão oportunidade de recuperar com lucros os investimentos feitos. Já posso antecipar a ficha de identidade de um bem-sucedido produto desses: mãe Orkut, pai Twitter, nome Chipson, profissão jogador de futebol. E o único problema dele será uma certa feiura, porque o Babyshop do SUS só dá dois megapixels.

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Zapeando – João Ubaldo Ribeiro

Por Paulo Afonso, 18 de abril de 2010 0:34

Não dá para continuar a ver e ouvir, no close dado pelo noticiário de TV, o único sobrevivente de uma família dizimada pelos deslizamentos de terra e lixo no Rio de Janeiro. As estatísticas que já transformam em números essas famílias e pessoas não apagam – para mim e para, tenho certeza, a maioria de vocês – suas histórias individuais e é muito doloroso pôr-se, mesmo que tão vicariamente, na pele deles. Gente confrontada por vicissitudes terríveis, mas espantosamente forte e capaz ainda, em meio a perdas irrecuperáveis e desnorteantes, de pensar racionalmente, de fazer planos, de ainda acreditar em alguma coisa. Gente de muito mais fibra do que eu, com toda a certeza, que esfrio de pavor só em imaginar achar-me em situação semelhante.

Mas o telejornal muda de foco e passa a ouvir as autoridades. Os adjetivos comumente atados à palavra “autoridades”, ou seja, “responsáveis” ou “competentes”, parecem agora empregados em lugar de seus antônimos, soam como ironia de quem fala. Diz uma dessas autoridades que as chuvas que causaram os desmoronamentos resultaram em catástrofes tão inevitáveis quanto os tsunamis, como se as vítimas destes construíssem residências em palafitas de compensado no meio do oceano, ou qualquer coisa assim. Diz mais ainda que não mandou chover, e suponho que os munícipes devem agradecer por ele se abster de fazer isso, ainda que abdicando de um privilégio singular.

Sim, claro que a responsabilidade não é de ninguém e quem pagou foi quem morreu e seus sobreviventes. Tudo dentro da normalidade, da mesma forma que a outra reportagem que apareceu depois que mudei de canal, desta vez sobre o ex-governador Arruda. Ouço que está muito abatido, talvez em depressão. Lembro das minhas velhas aulas de Medicina Legal, quando me ensinavam que muitos criminosos não ficavam abatidos devido a remorsos pelos seus atos, mas, sim, ao fato de terem sido descobertos ou desmascarados. Não será esse o caso em questão, talvez. Deve atentar-se à circunstância de que o ex-governador não é criminoso ainda, mas apenas suspeito, não só porque não foi condenado nem se sabe se será, como porque aquela gravação em que aparecia metendo a mão na granolina deixa muita margem para dúvida, conforme observado pelo presidente da República. Apresso-me a informar que, acima, usei “criminosos” apenas como força de expressão e também tenho sérias dúvidas sobre aquela gravação. Teriam sido notas de cem, cinquenta ou sortidas? Eram todas verdadeiras, nenhuma falsa? Eram novas ou usadas? Por aí vai, é dúvida demais para continuar a sustentar acusações levianas.

O abatimento do ex-governador deve persistir, talvez com altos e baixos, pelo menos enquanto o julgamento não se realizar, se se vier a realizar. Funciona bastante, aqui no Brasil. O comentário é “coitado, é muito difícil para ele, um homem com poder e status como ele tinha, agora nessa situação, é o castigo mais duro que ele pode receber”. É possível. Pelo menos no nosso direito consuetudinário, ficar abatido e deprimido funciona bastante, podendo redundar até mesmo em exclusão de punibilidade. Já vi um delegado explicar a um jornalista que o atropelador bêbedo, por ele preso depois de atropelar cinco ou seis pessoas, aleijar todas e matar uma, tinha acordado morto de remorsos, coitado, um verdadeiro farrapo de sentimento de culpa, vergonha e arrependimento, tanto assim que, mal acabara de ser solto mediante uma pequena fiança, procurara atendimento psicológico e estava sob tranquilizantes.

Mudo de canal, mas que vejo? Brasília é também objeto das notícias deste aqui, só que agora a respeito das novas eleições para governador do Distrito Federal. Eleição disputada, muitos candidatos. Ainda bem que, como nos bons tempos, é indireta, não vai dar muita despesa. Entre os seletos eleitores, um deputado recém-egresso de uma temporada na cadeia de Papuda. Bonito colégio eleitoral, essa nossa capital é um exemplo. Vislumbro nisso mais um tento para nós, na legislação paradisíaca que imaginamos existir no cobiçado Primeiro Mundo. Podemos ser os pioneiros em dar aos presidiários direito a eleger, dentre os outros presidiários, seus representantes no Congresso, sem prejuízo dos que já estão lá, é claro. Os eleitos serão soltos e empossados e, se voltarem a assaltar, sequestrar ou estuprar, estarão novamente sujeitos às rigorosas penas da lei, caso o foro especial a que terão direito os condenar.

Quem sabe, talvez um dos canais anteriores traga notícias que inspirem pensamentos menos inquietantes. Mas não, aqui está o caso do psicopata que matou vários jovens, depois de violentá-los. Como se sabe, havia sido preso e condenado, mas teve a prisão relaxada por bom comportamento. Certamente esse bom comportamento se deveu em grande parte ao fato de não haver meninos na penitenciária. Todo mundo sabe que psicopata não se cura nem se recupera e esse ilustrou isso claramente, quando voltou a matar apenas dias depois de ter saído da prisão. Mas quase ninguém, inclusive, ao que parece, o juiz responsável pela soltura, ligou para isso. E não importa tantos meninos terem sido assassinados, o que importa é que nossas leis são as mais adiantadas do mundo (sempre me pareceu que lei adiantada para país atrasado é que significa atraso, mas deve ser burrice minha) e nossa Justiça funciona.

Tanto funciona que também se noticia que um cidadão que reagiu a um assalto domingo e matou um dos assaltantes ficou preso até a quarta-feira passada. Foi em legítima defesa e a arma era do próprio assaltante, mas somente a Justiça poderá determinar isso, sabe-se lá quando. É o que dá o sujeito reagir a assalto e não morrer. Vai preso, para aprender a não desobedecer à orientação da autoridade. E, libertado, ainda viverá com medo de uma possível vingança do assaltante sobrevivente. É, parece que não adianta muito mudar de canal.

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Até que a morte os junte – João Ubaldo Ribeiro

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Por Editor, 11 de abril de 2010 7:44

Os temas das palestras e debates, entre os coroas que se reúnem nos fins de semana para conversar, obedecem a um padrão sazonal facilmente observável. Por exemplo, o primeiro quadrimestre é a estação da saúde, ou, segundo os mais modernos, do recall. Destacam-se tertúlias sobre vacinações, colesterol e glicemia, bem como discussões a respeito do desafortunado conhecido de um amigo, que dizem que ficou cego depois de, por desvarios do amor, ingerir uma overdose de Viagra e, last, not least, a Quinzena da Próstata. Esta última, por sinal, tem sido bastante movimentada, depois que a Organização Mundial de Saúde desaconselhou o famoso exame da dedada. As opiniões se dividiram, até porque os urologistas discordam e continuam sustentando que o controvertido dedo amigo é indispensável pelo menos uma vez por ano.

– A quatrocentos contos a dedada, eles tinham de falar isso mesmo – disse um participante rancorosamente. – Eu faço porque minha mulher enche o saco para eu fazer, mas sempre lavro o meu protesto.

Na semana passada, contudo, um incidente alterou abruptamente a pauta dos trabalhos. Foi o problema do Afonsinho com o Camarão. Não, nem o Afonsinho é alérgico a camarão, nem a palavra “camarão” foi escrita acima com maiúscula por engano. Camarão é o nome do novo genro do Afonsinho. Bem, não propriamente nome e, sim, apelido, mas, segundo o Afonsinho, nem a mãe do Camarão sabe o nome de batismo dele. Um dos presentes quis saber por que o Afonsinho não perguntava a ele.

– Não tenho certeza de que ele é capaz de manter uma conversa – disse Afonsinho. – Ele vive com um aparelho desses de música embutido no ouvido, a gente fala com ele e ele sorri e diz “valeu”, acho que “valeu” quer dizer qualquer coisa que ele queira dizer.

– É, isso deve ser meio chato mesmo.

– É, mas eu até não ligaria para isso. Para quem já encarou o Guérnica, isso aí seria moleza.

O Guérnica, recordou o Afonsinho, era o namorado anterior da filha dele, que só não tinha tatuagem na cara, mas o resto do corpo lembrava o mural de Picasso. O Afonsinho costumava desviar o olhar dele tanto quanto podia, mas, mesmo assim, tinha pesadelos em que o Guérnica aparecia todo retorcido como as figuras do mural e ameaçava tatuar na testa do Afonsinho o escudo do Vasco – e o Afonsinho é Flamengo. Não, o problema não era esse.

– Eu nunca pensei que isso fosse me acontecer – disse Afonsinho. – Tomei um susto horrível, quando saí do quarto, vejo a porta do banheiro se abrir e sai lá de dentro o Camarão.

– Ele dormiu lá?

– Com minha filha! O sujeito cria uma menina com todo o carinho, põe nos melhores colégios, dá a melhor educação possível e a recompensa é bater de cara com o Camarão, todo rastafári, saindo do banheiro de toalha no pescoço e entrando no quarto de minha filhinha.

– Bem, da primeira vez pode ser chato, porque no tempo da gente não era assim, mas depois você se acostuma. É melhor que sair por aí, procurando um lugar qualquer para ficarem juntos. Eu não acho nada demais, a Marlene, minha filha, fez isso durante anos. Só vai parar agora, porque vai casar.

– Bem, pelo menos isso, ela vai sair de casa e você não vai mais topar nenhum camarão no corredor, como eu.

– Não, ela não vai sair de casa, isso era antigamente.

– Mas você não disse que ela ia casar?

– Não é casamento como você conhece, é um casamento com o perfil contemporâneo. Começa que eles não vão morar juntos. Ela continua lá em casa e ele na casa dele.

– É, eu já ouvi falar nesse tipo de coisa. Eu entendo, mas para mim isso não é casamento.

– O casamento que você conhece vai acabar, já acabou. O casamento de hoje em dia é na base de um contrato, como qualquer outro contrato. Cada um bota lá as cláusulas que quer. Pode botar tudo, não há limite: gerenciamento da grana, férias conjugais, atribuição de tarefas, tudo mesmo.

– Você me desculpe, mas, então, pelo andar da carruagem, eles vão botar no contrato até como e o que… Como é que vão transar, digamos.

– Por que não? Se houvesse contratos antes, com certeza que os problemas, nessa e em outras áreas, podiam nem acontecer.

– Você parece que está entusiasmado com isso.

– E estou. Você sabe, eu sempre fui homem de negócios. Modéstia à parte, tenho queda, sempre me dei bem. Me aposentei e saí da ativa, mas agora estou pensando em voltar, tenho refletido muito nas oportunidades que isso oferece, é só pensar um pouco.

– Você vai ganhar dinheiro com isso?

– Pode apostar. Com minha experiência de vida e meu tirocínio para negócios, tenho certeza de que vou me dar bem. Ninguém está acostumado com esse tipo de contrato, parece simples, mas é muito complexo, tem muitas sutilezas. O mercado não é fácil, mas quem sair na frente e com know-how pode faturar uma baba.

– Que coisa, nunca pensei que ia ver isso. Desse jeito os casados só vão ficar juntos mesmo é no cemitério. Assinam o contrato e dizem “até que a morte nos junte”.

– Gozação sua, mas é isso mesmo. Está vendendo o slogan?

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Política de alto nível – João Ubaldo Ribeiro

Por Paulo Afonso, 4 de abril de 2010 5:52

Itaparica sempre foi subestimada, para infortúnio daqueles que caíram nessa armadilha, levados pela natural afabilidade e aparente indolência dos nativos. Foi assim com o temível invasor holandês em 1649, posto para fora debaixo de cacete, tendo se pirulitado tão às pressas que deixou vários representantes seus para trás, sem dúvida ancestrais do nosso vasto suprimento de mulato(a)s de olhos verdes ou azuis (zoio grin ou zoio bru, no inglês inconfundível de Picolêichon, nosso famoso vendedor de picolés). Foi igualmente assim que se passou com os portugueses em 1823 e com inúmeros outros que se atreveram a facilitar com a ilha. E não se trata apenas de feitos perdidos na poeira da História, mas de proezas recentes, como no tempo do finado Chupeta, que, convidado a compor um time contra o qual o então grande Bahia treinaria, fez três gols em quatro minutos de jogo e desmoralizou uns oito marcadores – era um canhotinha que só se vendo para acreditar, melhor que vários Maradonas juntos.

Não facilitem, pois, aqueles que julgam que, na sua placidez que engana apenas os que se guiam por exterioridades ilusórias, a Denodada Vila de Itaparica está alheia à febre eleitoral que já começa a esquentar em todo o país. Na realidade, estamos na vanguarda, como acaba de demonstrar Zecamunista, que, numa decisão surpreendente até para os que acompanham de perto sua movimentada biografia, anunciou que vai concorrer a uma vaga de deputado estadual nas eleições deste ano e todo mundo sabe que já está em campanha.

- Assim que o presidente começou a de d. Dilma, eu comecei a minha – me disse ele. – Nesse ponto, eu tenho de reconhecer que ele deu uma boa puxada. Mas, se ele é esperto, eu também sou. No mundo da política, não há lugar para os otários. Está em Lenine, se você for ler bem.

- Mas o presidente nega que está em campanha.

- É isso mesmo, eu também nego. O negócio é esse, vai fazendo e vai negando, vai fazendo e vai negando. Como diz o poeta popular, enquanto vocês filosofa, nós atocha. Pergunte a ele se não é isso. Ele não vai concordar falando, mas vai confirmar com uma risadinha, ele não vai resistir. Quer apostar?

- Eu não, todo mundo sabe que você nunca perdeu uma aposta e, além do mais, não tenho como fazer essa pergunta. E isso é outra conversa, vamos ficar na sua candidatura mesmo. Você está em campanha, mas nega, tudo bem. Só que podem fazer uma denúncia e aí o TRE multa você, você vai ter que pagar multa.

- Multa não, isso aí não é multa.

- Como não é multa? Claro que é multa, todos os jornais deram.

- Vocês da imprensa também são uns otários. Otários metidos, mas otários, se acostumam a escrever as mesmas besteiras e nem pensam mais nelas. Qual é multa, rapaz? Está certo que você seja oposição, mas deixar de reconhecer no homem as qualidades dele é burrice, tem de ver que o bicho é esperto. Não tem nada de multa, veja a genialidade dele, com um toque já desmanchou tudo. Pense aí, vá. Não lhe ocorreu nada, não viu a lição?

- É, desculpe a cegueira, não vi nada.

- Ele já mostrou claramente, de fato é cegueira sua. Mas tem que ver, o que ele não pode é dizer isso com todas as letras, tem que ficar somente na demonstração.

- Zeca, eu não estou entendendo nada dessa sua explicação.

- Então eu explico a explicação. Lula deu o corte epistemológico nessa multa, entendeu?

- Não.

- É o seguinte, não é multa nada, é despesa de campanha. Entendeu agora? Você vai lá, faz campanha, a justiça multa, você vai ao caixa e diz “pague essa multa aí”. Pronto, quites com a justiça, tudo zerado. O que foi isso, foi multa? Só na cabeça empedrada de quem não quer desafiar conceitos preestabelecidos e superados, para ver a realidade objetiva. Oposição não é deixar de reconhecer o talento do oponente, é o contrário, esse corte epistemológico é um toque de gênio, vai para o trono.

- É verdade, eu não tinha pensado nisso. Mas, multa ou taxa, você vai ter de pagar de qualquer jeito.

- Eu mesmo não vou pagar nada. Você parece que não me ouviu, isso é despesa de campanha, é tudo coberto pela minha verba de campanha.

- Tudo bem, mas então você vai levantar dinheiro.

- Já estou levantando, já tenho até uma provisão para compra de votos.

- Compra de votos? Você, comprando votos?

- Com preleção. Eu compro o voto, mas, na hora do pagamento, faço uma preleção ao eleitor, mostrando a ele como aquilo está errado e exijo que ele prometa que nunca mais venderá voto. Não se pode esquecer o pragmatismo, o pessoal está acostumado a vender o voto, não se pode mudar tudo assim de repente, tem que ser uma coisa gradual, dentro de uma estratégia.

- Zeca, você está me saindo um político veterano, já estou até acreditando que você vai ser eleito. E de onde é que está saindo esse dinheiro?

- Ah, isso é com o tesoureiro da campanha. Acho que esse dinheiro vem do caixa dois, não se sabe de onde entra, não se sabe para onde sai.

- Você acha, não sabe direito?

- Aliás, nem sequer acho, pensando bem. Não sei de nada, não vi nada, ninguém me falou nada. Eu já lhe disse que aprendo com os mestres.

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Um certo cansaço – João Ubaldo Ribeiro

Por Editor, 28 de março de 2010 7:06

Sei que talvez me repita um pouco hoje, mas, no momento, é difícil desviar a atenção para outro assunto. Refiro-me a Hugo Chávez, a quem assisto num clipe que me mandaram por e-mail, declamando seu bestialógico padrão e terminando em “¡muerte!” outra vez, com a habitual vaniloquência fanfarrona que, apesar de “de esquerda”, parece mais com o figurino de Mussolini. Não tenho nada com isso, havendo por graça divina nascido do lado de cá do Oiapoque, mas, como já observei antes, fico passado de vergonha com essas coisas. Chega desse negócio de “muerte”, que parece coisa de dramalhão mexicano da década de 50 do século passado, não sei como se consegue aturar essa palhaçada, ainda mais estrelada por um caudilho de meia-tigela. Até aqui mesmo, em meio a nosso atraso, já deram o último grito desses há bastante tempo e, segundo muito se comenta, não resultou nem em independência nem em morte.

Além disso, é difícil aguentar a mesma cantilena antiamericana com os quais os mais velhos já torravam o saco das novas gerações há décadas, a ponto de se atribuir aos gringos até surtos de catapora. Primeiro, tem a conversa de que, com cinquenta caças russos e mais uns tantos foguetes de São João, ele está preparado para enfrentar o poderio bélico americano, confronto que, como sabe todo mundo, só poderá ser deflagrado depois que for explicado aos americanos o que é um chávez e de que se trata a Venezuela. Em seguida, vem a convicção de que os mencionados americanos perdem horas de sono com o que uma aguerrida Venezuela pode fazer a eles. Não deixa de ser interessante, porque é do conhecimento geral que o sulfuroso petróleo venezuelano tem mercado restrito e os Estados Unidos são de muito longe seu freguês mais importante. Ou seja, bastava, para acabar logo com a farofada, que os americanos não comprassem mais o petróleo venezuelano. Mas imagino que isso ia gerar protestos, inclusive do Brasil, por resultar em odiosa pressão econômica, interferência nos negócios internos de um país soberano e semelhantes papos, além da ajuda humanitária que acabaria tendo de ser mandada para lá e demais chateações.

Agora, outra vergonha e outra manifestação de atraso, entre as que quase todo dia chegam da Venezuela: mais sufocamento da liberdade de expressão. Desta feita um político anti-Chavez foi preso por dar uma entrevista considerada ilegal, ou seja, que continha algo do desagrado do governo, que, lá como aqui, se confunde propositadamente com o Estado. E, com certeza, a autoridade que fez a prisão garantiu e garante que ela não tem nada a ver com o fato de que o preso concorreu à presidência da Venezuela na oposição e talvez ainda venha a concorrer, se Chavez daqui para lá não se promover a marechalíssimo e protetor perpétuo do povo.

Pelo menos dois dos delitos definidos pela lei chavista são exemplares. O primeiro é o “incitamento ao ódio”. Isto, é claro, significa qualquer coisa que se queira. Por exemplo, o governador Cabral podia ser enquadrado nessa lei, ao chorar por causa da emenda de Ibsen Pinheiro. Quantas velhinhas fluminenses não passaram a odiar o deputado Ibsen, por ter feito o paladino delas chorar tão sentidamente? E o segundo delito é a “difusão de informação falsa”, o que, novamente, tem amplitude suficiente para abranger qualquer coisa, bastando para isso que o governo diga que essa coisa é falsa. Por exemplo, imagino que, se algum técnico venezuelano opinar que os apagões de lá são consequência de incompetência do governo, o governo aparece, brande as estatísticas que estão sempre à disposição de qualquer governo e prende o técnico, não por delito de opinião, decerto, mas por divulgar informação falsa – a cadeia é a mesma, mas ninguém pode alegar que motivo da prisão também é.

Como, no Brasil de hoje, o governo e seus prepostos na máquina pública (que devia ser do Estado, mas é do governo) parecem estar empenhados em regulamentar todos os aspectos de nossa vida, venho até estranhando que não tenham ressuscitado a regulamentação da profissão de escritor, um projeto que já ocupou o Congresso e que também era “de esquerda”. Regulamentada essa profissão, que, na definição concebida pelos seus defensores, incluiria até mesmo os redatores de bulas de remédio e, com um pouquinho mais de esforço, os autores das comunicações internas dos condomínios residenciais, a primeira providência seria, naturalmente, sindicalizar os escritores. Depois viria a obrigatoriedade, para quem quisesse escrever, de filiar-se ao sindicato, pagar o imposto sindical e as mensalidades e seguir as orientações da categoria. Entre estas, com certeza, terminariam por constar diretrizes baixadas em assembleias gerais com a participação de cinco escritores profissionais, dez mil escritores eventuais e quatrocentos mil inéditos. Como, no sofisticado Brasil de hoje, se acredita que democracia quer dizer tirania da maioria, o escritor que se recusasse a aderir às posições do sindicato poderia ser expulso dele, passando assim a não ter mais direito de exercer a profissão. Quanto às editoras, é bem possível que o projeto venha a ser reformulado para obrigar qualquer editora que atue no Brasil a obedecer a uma pauta de publicação. Poderá ser criada uma lista de temas obrigatórios definidos pelo Conselho Nacional de Literatura e, com certeza, será aprovado um dispositivo que imporá às editoras dedicar um significativo percentual de sua produção a títulos de autores inéditos, outro a autores de cada Estado mediante indicação dos conselhos estaduais, outro a mulheres, outro a idosos e, finalmente, conquista das conquistas, a quotas para escritores negros. É, isso tudo realmente dá um certo cansaço. Mas não se pode descansar, porque o preço do descanso é a vitória do atraso e da burrice.

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Aperfeiçoando a Receita – João Ubaldo Ribeiro

Por Paulo Afonso, 21 de março de 2010 12:13

Domingo, espero que de sol, sem calor em demasia, talvez até uma brisa outonal, prenunciando tempos mais amenos. A encantadora leitora estreará seus novos trajes de atleta e continuará a realçar as belas formas, indo à academia de ginástica até no fim de semana? O nobre amigo fará uma saudável caminhada, antes de se dirigir à roda de chope? O distinto casal envergará suas domingueiras e comparecerá à missa na igreja do bairro? Haverá uma macarronada em seu destino? Quiçá uma feijoada ou um churrasco? A juventude da casa exige um passeio diferente? É aniversário da sogra, o cunhado apareceu, o horóscopo exorta a buscar o amor de um certo alguém?

Decisões, decisões. Coisa chata, há sempre pontos a favor ou contra qualquer escolha. E decidir, como aprendemos em documentários de televisão, causa estresse. Bem verdade que, segundo os documentários de televisão, tudo causa estresse, câncer ou frieira do dedão terminal, mas decidir realmente é chato e, quando não causa estresse, cansa um pouco. Para não falar na responsabilidade pelas consequências de qualquer decisão, como, por exemplo, ser barrado na churrascaria preferida por causa da companhia do cunhado, que dá grande prejuízo à casa, ao atacar o rodízio das três da tarde às oito da noite.

Contudo, julgo que há razões para crer que tudo isso será em breve coisa do passado. O governo (quando digo governo, muitas vezes quero referir-me ao que mais propriamente seria chamado de “Estado”; mas, no Brasil, ninguém distingue Estado de governo, a começar pelo próprio governo, de maneira que vai assim mesmo) tende a cada vez mais cuidar de nós e resolver o que é bom para nós. Se é que chegamos a realmente a notar esse processo, não parece, porque ele se desenrola sem muitos protestos. Ou talvez não haja protestos por ser essa nossa preferência, nunca se sabe.

Não ouvi nem li mais nada sobre o assunto, mas, no início da semana passada, anunciou-se que, com o intuito de aperfeiçoar sua máquina arrecadadora, o governo encaminhou ao Congresso projeto de lei que dá aos agentes da Receita Federal poder de polícia e a faculdade de prescindir de autorização judicial até para realizar operações de busca e apreensão. Se não foi exatamente assim, foi mais ou menos assim — e não tenho pejo de confessar que não li direito a notícia, pois, se o presidente pode assinar sem ler um documento que encaminha à nação, mais ainda posso eu admitir que não li direito uma notícia que comento aligeiradamente.

É possível que não se tenha falado mais no assunto porque ninguém estaria levando esse desatino a sério. Mas eu levo, porque não houve desmentido e, do mesmo jeito que toda hora estamos descobrindo decretos secretos, portarias secretas, verbas secretas, cargos secretos, emendas solertes enfiadas em leis que não têm nada a ver com elas e outras variegadas manifestações de nosso engenho trampolineiro, poderemos um dia descobrir que agora estamos submetidos aos superfiscais ou superauditores, ou que outro nome recebam esses funcionários. Imagino que serão todos absolutamente incorruptíveis e acima de qualquer fraqueza humana, mas o diabinho que costuma atanazar os escritores não quer calar a boca e então, Deus me perdoe, acho possível que ocorra um diálogo como o que se segue.
— Boa tarde, Jota M. Pinto, Receita Federal, auditor plenipotenciário.

— Boa tarde. Receita Federal? Eu estou com algum problema com a Receita Federal?

— Por enquanto, não. Bem, eu não vim tratar de assuntos fiscais no momento. A política da Receita Federal é facilitar as coisas para o contribuinte, de maneira que não vou tomar seu tempo desnecessariamente. Vou direto ao ponto: eu quero comer sua mulher. Aliás, melhor dizendo, eu vou comer sua mulher.

— O quê? O senhor está maluco? Eu ouvi bem? O senhor vai comer o quê?

— O quê, não. Quem. Sua mulher.

— O senhor vai comer a vovozinha, minha mulher não!

— Ah é? Que é que você tem nessa gaveta? Ah, está vendo? Que dinheiro é esse?

— Tire a mão de minha gaveta! Tire a mão de meu dinheiro!

— Resistindo à autoridade, está preso. Suspeita de sonegação, flagrante de desacato, ocultação de provas, o negócio está feio. Cadê sua mulher?

— O senhor está completamente maluco! Mesmo que eu fosse concordar com uma loucura dessas, o senhor pensa que minha mulher é um joguete, que não tem vontade própria, que é só falar pra ela e ela concorda?

— Quando eu perguntar onde foi que ela declarou a pulseira, o colar e o broche de brilhantes que eu apreendi no seu cofre do banco, talvez. Ou talvez quando eu disser a ela que, além de botar você em cana, vou fechar sua empresa.

— Escute, meu amigo, não dá para aliviar isso aí?

— De dar, dá, cadê sua mulher?

— Vivi! Ô Vivi! Vem cá, o moço da Receita quer te falar!

Sim, claro, nada disso vai acontecer. É tudo delírio de uma imaginação profissionalmente distorcida. Afinal de contas, não somente existem os limites impostos pela nossa Constituição, como também certos direitos, como a privacidade e a inviolabilidade dos nossos sigilos bancário e fiscal. Claro, claro, eu sei. Não esqueçam de contar isso àquele caseiro do probleminha com o dr. Palloci.

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Nenúfares e fraldões – João Ubaldo Ribeiro

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Por Editor, 14 de março de 2010 5:46

Aposto que, se eu não lhes dissesse, vocês não saberiam que hoje é o Dia Nacional da Poesia. Pois é, acho que ninguém lembra, é uma ingratidão com os nossos poetas. Pode ser que a pérfida memória me iluda, mas quero crer que antigamente os poetas eram mais estimados e poucos havia que não soubessem recitar uns dois poemas de cor. Até nos bregas da velha Salvador, lá conhecidos como castelos, alguns deles casas de cultura, era de esperar-se, antes de a noite acabar, pelo menos um Augusto dos Anjos caprichado ou um Olavo Bilac com o famoso plangente violão ao fundo. Aí pelo meio da madrugada, emoldurado por garrafas de cerveja e cercado pela admiração geral, um boêmio veterano recordava, com a voz soluçante e semiembargada, que a mão que afaga é a mesma que apedreja, embora o poeta fosse redimido pelo privilégio de ouvir estrelas.

Desde cedo a gente aprendia a admirar os poetas, que tinham até um perfil mais ou menos uniforme. Em primeiro lugar, usavam cabeleira de poeta e creio mesmo que algumas carreiras poéticas promissoras malograram porque o poeta ficou careca ainda moço e onde já se viu poeta careca. Em segundo lugar, traçavam todas as mulheres que decidiam seduzir com suas belas palavras, independentemente de idade, classe social, religião, cor ou estado civil, não havia essa que escapasse. Vários conhecidos meus tinham uma avozinha de cem anos que foi namorada de Castro Alves, era chique. Em terceiro lugar, o poeta passava meses sem ver o sol, era pálido e de saúde frágil, geralmente morrendo tuberculoso, com pouco mais de vinte anos.

A parte do morrer tuberculoso era meio chata, mas a gente se convencia de que o destino abriria uma exceção em nosso caso, conquanto morrer de sífilis ou envenenado por absinto fossem as outras opções. De qualquer forma, tentei muito ser poeta e devo admitir que comecei de forma desairosa, embora em conformidade com uma das mais venerandas práticas dos saltimbancos das letras de minha laia, ou seja, meter o mãozão no trabalho alheio. Bem verdade que eu não sabia direito o que era plágio, quando encontrei, num livro esquecido, um soneto escrito pelo general Osório. Copiei o soneto e o apresentei como meu, o que resultou em vistosa, se bem que efêmera, glória literária. Meu pai descobriu a falcatrua e me fez decorar e recitar o soneto perante a família, não sem antes anunciar que confessava se tratar de obra do general Manuel Luís Osório, marquês de Herval e patrono da Cavalaria. Passei grande vergonha, além de ter sido obrigado a estudar a vida do general.

Pouco depois disso, influenciado por um amigo intelectual, fui muito exortado a perseguir as tais belas palavras. Entre elas, não sei por quê, ele tinha preferência por “nenúfares” e tanto me impressionou que escrevi até uma coleção de besteiras rimadas intitulada “Nenúfares”, que, Deus seja louvado, nunca mostrei a ninguém, a não ser a meu pai, que aplicou nova ducha fria em minha trajetória poética, afirmando que nenúfar era coisa de baitola. Trauma de infância e deve ser por isso que até hoje não sei o que quer dizer “nenúfar”. Vou ao dicionário, olho e esqueço dez minutos depois, como agora (cartas sobre o que quer dizer nenúfar para o editor, por caridade).

Não cheguei a desistir e, já entrado na adolescência, comecei a ler o que então se chamava “poesia moderna”, execrada pelos mais velhos por dispensar rima e metro, mas, para nós, poetastros renitentes, uma benção. Não teríamos mais que procurar rimas nem ficar contando pés de versos, agora era só escrever em linhas de comprimentos desiguais. Foi isso mesmo que pensei, ao perpetrar o primeiro canto de um poema épico que trataria de nossas origens como povo, as famosas três raças tristes de que os livros antigos falavam. Escrevi quase um caderno todo e fui mostrá-lo a meu grande professor de português Antônio Barros, então começando carreira no também grande Colégio Central da Bahia. Acho que pressenti alguma coisa, porque não disse a ele que o autor do poema era eu.

- Ah, eu logo vi que não era você – disse ele, segurando o caderno à distância e fazendo uma careta, como quem pega em algo fedorento. – O autor deste negócio devia ser preso imediatamente, não pode ficar solto por aí. Evite a convivência, isso pega.

- Obrigado, mestre – disse eu e, de lá para cá, tenho contido meus ímpetos poéticos, não sem acentuada mágoa. A cabeleira desde os verdes anos já se foi, as mulheres nunca choveram, o estro continua a escapar-me. Mas isso não me impede de prestar minha homenagem aos poetas. Se nunca pude ser um deles, pelo menos posso exaltar seu papel. Se hoje é o dia deles, lembremos o quanto puseram em palavras o que para nós sempre foi indizível, o quanto nos abriram a sensibilidade, o quanto enobrecem a nossa língua, o quanto nos dão para recordar em comum.

E, se não posso fazer um poema comemorativo, posso pensar em outras celebrações. Ou posso juntar-me a quem esteja também comemorando. Procuro, pois, informar-me sobre o dia de hoje. Mas, com enorme decepção, constato que o Dia da Poesia não é observado no país de onde veio a nossa língua. Mais um golpe contra a poesia. Isto porque, em Portugal, vivendo e aprendendo, hoje não é o dia dela, mas o Dia da Incontinência Urinária.

Acho que estão tentando me dizer alguma coisa, ninguém liga mais para a poesia. Mas não é o caso de abandoná-la. Só aparentemente o Dia da Incontinência Urinária não pode ser conciliado com o Dia da Poesia. De minha parte, me sentirei recompensado se, depois de ler isto, alguém der um fraldão a seu velho mijão favorito, acompanhado de um cartão com versinhos.

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A companhia do finado Tancinho – João Ubaldo Ribeiro

Por Paulo Afonso, 7 de março de 2010 13:18

Um homem desses tendo de pedir desculpas!

A declaração indignada, proferida por um inflamado Jacob Branco, ressoou no Bar de Espanha, cujos frequentadores acabavam de assistir incrédulos ao noticiário sobre a vida sexual do campeão de golfe Tiger Woods. Particularmente chocante foi o pedido de desculpas que se seguiu e houve necessidade de elucidar o acontecido a alguns que permaneceram céticos e perplexos. Até mesmo o próprio Jacob, orador renomado e bem informado, me pediu que lhe explicasse aquela atitude surpreendente.

- Suspeitas confirmadas – proclamou ele, assim que acabei de tentar alinhavar a dificultosa explanação. – Esses americanos são todos uns anormais.

Achei a conclusão um pouco radical, mas ele insistiu. Quanto mais pensava nos americanos, mais colhia evidências da anormalidade. Não fora eu mesmo quem explicara que eles inventaram um tal ponto G e vivem procurando fazer fórmulas e até GPS para achar o ponto G? O resultado só pode ser que as mulheres ficam cansadinhas de tanta ciência e vão cuidar do ponto G delas com o primeiro leigo apresentável e num instante acham até o ponto picilone – cala-te, boca, são todos uns loucos celerados, não dava mesmo para acreditar, tanto atraso num povo tão adiantado. Eu ainda quis contrapor alguns argumentos, mas Jacob foi fulminante.

- Eu vejo o caso triste desse desaventurado – disse ele – e me lembro do finado Tancinho. Pronto, é o que eu lhe digo e quero ver você responder. Finado Constâncio da Pureza Brito, Tancinho Cobra Cega, você ainda pegou ele vivo e lendo sem óculos.

Sim, finado Tancinho Cobra Cega, claro, Deus o tenha, embora haja quem duvide. Jacob tinha razão, o velho Tancinho nunca pediria desculpas a ninguém, assim como ninguém entenderia tal pedido. Verdade que ele também não era tão normal assim, mesmo para os padrões exuberantes da ilha. Ele era, digamos, um destaque em matéria de mulher, mas Tiger Woods também é. E o exemplo dele – tirem suas próprias conclusões – pode ser usado para provar que esses americanos são mesmo uns anormais.

Viúvo das legítimas pela terceira vez, já bem entrado nos anos e meio curvadinho, Tancinho chegou a afirmar em várias oportunidades que não se casaria novamente. Não tinha mais a disposição da juventude, deixara a administração das quitandas com os filhos e netos e agora vivia só, na fazendola de Vera Cruz. Mas, sabe-se como são essas coisas, o sujeito se acostuma a certo tipo de passadio e de repente um acontecimentozinho corriqueiro traz de volta antigos costumes. No caso de Tancinho, dizem que ele ficou com umas ideias assistindo a um pato que ele criava dar assistência a suas patas. O pato, quando termina a função, estremece todo e cai duro para trás, é muito sugestivo.

Bem, pato ou não pato, o que interessa é que Tancinho virou, mexeu e acabou casando de novo. E, burro velho sendo, fez questão de capim novo. Escolheu logo Abigail, bela moça por todos estimada e ainda no frescor de seus quarent´anos, mas havida como talvez um tanto impetuosa, embora o apelido de Biguinha Venta Acesa pudesse não ser inteiramente justo. Depois da festa do casamento, foram viver na fazenda e pouco apareciam na cidade. Numa dessas aparições, Tancinho se queixou de que ela vivia meio triste, naquele isolamento da fazenda.

- Ela é muito jovem, precisa de alguém da mesma faixa de idade para fazer companhia, conversar com ela, sair com ela, essas coisas – disse ele aos amigos, num dos dias em que deu as caras na cidade. – Acho que vou arranjar uma pessoa para fazer companhia a ela. Vou chamar alguém para morar lá também, tem gente que gosta muito de vida em fazenda.

Trocando olhares significativos entre si, os presentes ponderaram que dificilmente alguém aceitaria o convite. As mulheres da idade dela eram todas casadas e as mais novas certamente não quereriam morar numa fazenda. Não, o único jeito de ter alguém jovem na fazenda era contratar um empregado de serviços gerais, um colhedor de dendê, um capataz, qualquer coisa assim. Mas isso estava fora de cogitação, pois, afinal, Tancinho não ia querer outro homem convivendo com Abigail naqueles ermos.

- Não sei por quê – respondeu ele. – Esses medos são para quem não bota fé no taco. Se tiver que ser homem, vai homem mesmo, comigo não tem essas besteiras.

Mais olhares significativos, pigarros, mexidas nas cadeiras. Depois que ele saiu, comentários falsamente comiserados, observações sobre como ele podia já estar começando a caducar, piadinhas maldosas. Mas o tempo passou e o assunto foi esquecido. Até que Tancinho surgiu novamente no bar, para rever os mesmos amigos. Estava muito contente, feliz de verdade. A decisão que tomara quanto a Abigail tinha sido a mais sábia de sua vida, agora ela estava feliz, tinha companhia para conversar e se distrair.

- Aliás – informou ele – a notícia é melhor ainda. Ela está grávida!

Olhares francamente significativos, bocas abertas, mãos juntas. Ah, sim, claro. Ele contratara mesmo alguém e agora esse alguém… Claro! Biguinha… Abigail ficara grávida logo depois da chegada dessa pessoa?

- Uns cinco dias depois, acho eu – disse Tancinho.

- Essa pessoa é rápida, hein?

- É, sim, já está grávida também – disse Tancinho – Mulher é um pobrema.

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Tempos modernos – João Ubaldo Ribeiro

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Por Paulo Afonso, 28 de fevereiro de 2010 17:41

Creio que seria otimista demais e falsearia um pouco a verdade, se dissesse que sou um idoso calouro. Faz um par de anos, a depender da jurisdição em que me encontrasse, eu era idoso ou não. Hoje sou, digamos, idoso universal, habilitado a sacar da algibeira o Estatuto do Idoso e dar carteiradas triunfais em filas de banco, bilheterias de cinema e embarques de avião. E, gradualmente, descobri que minha vida social é cada vez mais ocupada por médicos e clínicas, porque a manutenção do idoso requer atenção diuturna. Depois de algum tempo, a gente passa a funcionar na base do “se hoje é sexta, então aqui deve ser o cardiologista” e faz belas amizades entre os companheiros de destino.

Antigamente não havia tantas especialidades e muita gente se entendia com apenas um médico quase a vida inteira. Agora não, agora o sujeito vai a qualquer clínico e é imediatamente mandado a uma espécie de laboratório da Nasa, para fazer exames até em partes do corpo que nem sabia que tinha. O papo fica muito animado, em meio a relatos emocionantes de tomografias dramáticas, colonoscopias épicas, ultrassonografias arrebatadoras, ressonâncias magnéticas feéricas e dedadas diabólicas. Vínculos afetivos duradouros são com certeza formados pelas vítimas e é uma forma tão legítima de fazer amizades quanto qualquer outra.

É o que penso, chegando adiantado a uma sala de espera médica e me preparando para a demora. Dou um bom-dia meio entredentes ao único outro presente na sala, escolho uma cadeira perto das revistas, pego uma destas e começo a tentar me entreter com a narração do novo amor de uma personalidade de televisão. Lembro que, há poucas semanas, em outra sala de espera, o novo amor dela não tinha nada a ver com o atual. Coração espaçoso, o dela, ainda mais que cada novo amor é descrito como mais intenso que o anterior, coisa para toda a existência, até o próximo príncipe encantado aparecer.

Mas não chego a me inteirar dos detalhes desse amor febril, porque, ao ajeitar os óculos, ergui os olhos e o senhor à minha frente sorriu. Na dúvida sobre quem era, retribuí o sorriso e dei um “ôi, como vai?”

- Vou bem, obrigado – disse ele. – Mas o senhor não me conhece, eu é que o conheço. O senhor é escritor, escreve no jornal.

- É, eu sei, ninguém é perfeito, ha-ha.

- Eu leio sempre os seus escritos no jornal, gosto muito.

- Muito obrigado.

- Os livros eu não leio. Já tentei, mas não consegui.

- Nem eu. Só escrevi, nunca li.

- É interessante a pessoa conhecer um escritor pessoalmente. Ainda mais assim, na sala de espera de um psiquiatra. Nunca pensei em encontrar um escritor assim, na sala de um psiquiatra.

- Bem, eu não sou propriamente maluco.

- Eu sei, eu sei. São as neuras. Hoje em dia, ninguém escapa, a vida moderna é muito estressante. Mas eu pensava que o escritor dava vazão a isso em seus escritos, nunca imaginei… Eu achava que escritor, além de não trabalhar, também dava vazão as suas neuras escrevendo e botando tudo para fora. Para mim é uma surpresa.

- É, pode ser, mas eu estou aqui como o senhor está.

- O meu caso é a minha mulher. Você não imagina… Posso chamar o senhor de “você”? Obrigado. Pois é, você não imagina… Posso lhe fazer uma confidência?

- Bem, não sei, eu…

- Muito obrigado. Você já ouviu falar dessa mania que as mulheres estão agora, de posar peladas?

- Acho que li qualquer coisa.

- A minha agora entendeu de posar pelada, ela e umas amigas. Já vão contratar estúdio e fotógrafo, acho até que já contrataram.

- É para alguma revista?

- Não, não, é só porque elas acham que assim estão expressando sua liberdade, sem preconceitos, nem limitações, nem hipocrisia, nem falsos pudores e falsas vaidades. É o que ela diz.

- Mas ela está falando sério mesmo?

- Está, está!

- Ela não vai publicar essas fotos, vai?

- Acho que vai. Em revista, não sei. Mas ela já veio com uma conversa de calendário, junto com as amigas. E também um livro, se não conseguirem revista. Já têm até título para o livro. Vai se chamar “Mulheres de Verdade”, todas elas peladonas, no máximo de lingerie incrementada. Bem produzidinhas, maquiladas, penteadas, mas sem retoques nas fotos e sem nada de fotoxópi, isso ela diz que é fundamental.

- Acho que entendi o projeto, não deixa de ser interessante.

- Interessante? Isso não é normal, claro que não é normal. É por isso que eu vim procurar um psiquiatra.

- Mas ele não pode tratar sua mulher através de você. Por que ela não veio com você?

- Claro que não veio, a consulta não é para ela, é para mim. Ele tem que me dar uma superbola para quando esse calendário ficar pronto e eu tiver que passar na frente da barbearia. De cara limpa eu não enfrento, essa vida moderna é muito estressante.

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